Chauí (2002) traz importante contribuição, no sentido de iluminar o entendimento acerca do significado do indivíduo e da relação entre os homens na perspectiva do cristianismo, no sentido de fundamentar a análise da concepção do indivíduo e da individualização presente no Serviço Social desde as suas origens como profissão.
Vale ressaltar o peso da Igreja Católica Romana na expansão do Serviço Social, que, sob o mote de evangelizar a humanidade, ampliou seu domínio de influência na sociedade.
Na origem, o cristianismo era uma dentre muitas religiões orientais.
Suas raízes encontravam-se na religião judaica que, como todas as religiões antigas, era nacional ou de um povo em particular. No entanto, havia nele algo inexistente no judaísmo e nas outras religiões antigas: a ideia de evangelização, isto é de espalhar a “boa nova” para o mundo inteiro, a fim de converter os não-cristãos e tornar-se uma religião universal (CHAUÍ, 2002, p. 222).
O problema que então se colocava era o de como converter pessoas de outras religiões ao cristianismo. Os evangelizadores usaram certamente muitas estratégias para conseguir esse intento partindo das condições e o que pensavam os que deveriam ser convertidos. No texto que me serve de referência, a autora pretende unicamente explicitar a evangelização que se dirige à conversão dos intelectuais gregos e romanos, isto é,
daqueles que haviam sido formados não só em religiões diferentes da judaica, como também haviam sido educados na tradição racionalista da Filosofia. Para convertê- los demonstrando a superioridade da verdade cristã os primeiros Padres da Igreja ou intelectuais cristãos (São Paulo, São João, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, entre outros) adaptaram as ideias filosóficas à religião cristã e fizeram surgir a Filosofia cristã (CHAUÍ, 2002, p. 222).
A autora considera que, por se tratar de uma religião de salvação, o cristianismo não precisava de uma filosofia, uma vez que o seu interesse fundamental encontrava-se na moral, na prática dos preceitos virtuosos deixados por Jesus e não em uma teoria sobre a realidade. Assim como, em se tratando de uma religião nascida do judaísmo, tinha clareza acerca do Ser. Deus disse a Moisés: “Eu sou aquele que é, foi e será. Eu sou aquele que sou.” E, mesmo porque, em se tratando de uma religião, o seu foco encontrava-se na fé e não na razão teórica. “Foi, portanto, a intenção de converter os intelectuais gregos e os chefes e imperadores romanos (isto é, aqueles que estavam acostumados à Filosofia) que ‘empurrou’ os cristãos para a metafísica” (CHAUÍ, 2002, p. 223).59
Importante destacar, por conseguinte:
Diferentemente de outras religiões da Antiguidade, que eram nacionais e políticas, o cristianismo nasce como religião de indivíduos que não se definem por seu pertencimento a uma nação ou a um Estado, mas por sua fé num mesmo e único Deus. Em outras palavras, enquanto nas demais religiões antigas a divindade se relacionava com a comunidade social e politicamente organizada, o Deus cristão relaciona-se diretamente com os indivíduos que nele creem. Isto significa, antes de mais nada, que a vida ética do cristão não será definida por sua relação com a sociedade, mas por sua relação espiritual e interior com Deus (CHAUÍ, 2002, p. 342-343).
Assim, segundo Marilena Chauí, o cristianismo introduz duas diferenças fundamentais na antiga concepção ética. A primeira refere-se “à ideia de que a virtude se define por nossa relação com Deus e não com a cidade (a polis) e nem com os outros”. É por isso que as duas virtudes e das quais decorrem todas as outras são a fé (atributo de nossa relação com Deus) e a caridade (o amor e a responsabilidade pela salvação dos outros). Essas duas virtudes são privadas, uma vez que se trata de relações dos indivíduos com Deus e com os demais, “a partir da intimidade e interioridade de cada um” (CHAUÍ, 2002, p. 343).
A segunda refere-se à postulação de que somos dotados de livre-arbítrio.
O primeiro impulso e nossa liberdade dirigem-se para o mal e para o pecado, isto é, para a transgressão das leis divinas. Somos seres fracos, pecadores, divididos entre o bem (obediência a Deus) e o mal (submissão à tentação demoníaca). Em outras palavras, enquanto para os filósofos antigos a vontade era a faculdade racional capaz de dominar e controlar a desmesura passional de nossos apetites e desejos, havendo,
59 Vale a pena ler Chauí (2002, p. 223-227) quando demonstra, na sequência dos seus escritos, como a metafísica
cristã se apossou, ou seja, reelaborou a metafísica grega em muitas ideias, não na totalidade. O cristianismo incorpora o platonismo e o aristotelismo. Porém, como as obras de Platão e Aristóteles tinham ficado por vários séculos perdidas, o cristianismo toma contato com três tradições metafísicas que formaram as primeiras elaborações metafísicas cristãs, que foram: o neoplatonismo, o estoicismo e o gnosticismo. E dessa forma a autora explica como se formou o ideário cristão nas suas bases.
portanto, uma força interior (a vontade consciente) que nos tornava morais, para o cristianismo, a própria vontade está pervertida pelo pecado e precisamos do auxílio divino para nos tornarmos morais (CHAUÍ, 2002, p. 343).
Sem o auxílio divino, a vida ética seria impossível, porque devemos obedecer obrigatoriamente e sem exceção a lei divina revelada.
O cristianismo, portanto, passa a considerar que o ser humano é, em si mesmo e por si mesmo, incapaz de realizar o bem e as virtudes. Tal concepção leva a introduzir a ideia moral de dever. Por meio da revelação dos profetas (Antigo Testamento) e de Jesus Cristo (Novo Testamento), Deus tornou sua vontade e sua lei manifestas aos seres humanos, definindo eternamente o bem e o mal, a virtude e o vício, a felicidade e a infelicidade, a salvação e o castigo. Aos humanos cabe reconhecer a vontade e a lei de Deus, cumprindo- as obrigatoriamente, isto é, por atos de dever. Este é o único que torna morais um sentimento, uma intenção, uma conduta ou uma ação (CHAUÍ, 2002, p. 343).
A ideia do dever permanecerá como uma das marcas fundamentais da concepção ética ocidental, mesmo que, a partir do Renascimento, a filosofia moral tenha se distanciado dos princípios teológicos e dos fundamentos da ética religiosa.
Anexa à ideia de dever, a moral cristã introduziu a ideia de intenção.
Até o cristianismo a filosofia moral localizava a conduta ética nas ações e nas atitudes visíveis do agente moral, ainda que tivessem como pressuposto algo que se realizava no interior do agente, em sua vontade racional ou consciente. Eram as condutas visíveis que eram julgadas virtuosas ou viciosas. O cristianismo, porém, é uma religião da interioridade, afirmando que a vontade e a lei divinas não estão escritas nas pedras nem nos pergaminhos, mas inscritas no coração dos seres humanos. A primeira relação ética, portanto, se estabelece entre o coração do indivíduo e Deus, entre alma invisível e a divindade. Como consequência, passou-se a considerar como submetido ao julgamento ético tudo quanto, invisível aos olhos humanos, é visível ao espírito de Deus, portanto, tudo o que acontece em nosso interior. [...] Eis porque um cristão, quando se confessa, obriga-se a confessar pecados cometidos por atos, palavras, intenções. Sua alma, invisível, tem o testemunho do olhar de Deus, que a julga (CHAUÍ, 2002, p. 344).60
60 Diante da pergunta se o dever não comprometeria a nossa autonomia ao ser imposto por um poder estranho a
nós, Rousseau, no século XVII, vai defender a ideia de que homem nasce bom e puro, porque somos “a voz da
natureza” e “o dedo de Deus” está em nosso coração. “Se o dever parece ser uma imposição e uma obrigação externa, imposta por Deus aos humanos, é porque nossa bondade natural foi pervertida pela sociedade, quando esta criou a propriedade privada e os interesses privados, tornando-nos egoístas, mentirosos, destrutivos” (CHAUÍ,
2002, p. 315). E Kant, também no final do século XVIII, vai se manifestar, opondo-se a Rousseau e afirmando o
papel da razão na ética em oposição à ideia da “moral do coração”. “Não existe bondade natural. Por consequência, diz Kant, somos egoístas, ambiciosos, destrutivos, agressivos, cruéis, ávidos de prazeres que nunca nos saciam e pelos quais matamos, mentimos, roubamos. É justamente por isso que precisamos do dever para nos tornarmos morais” (CHAUÍ, 2002, p. 315).
Diante das explicações apresentadas por Chauí, podemos claramente perceber que, a partir do cristianismo — ou, melhor, da visão fundada no cristianismo —, a relação básica do homem cristão não é com a sociedade, mas a de cada homem com Deus que tudo vê.
Acrescentem-se a essas ideias as do bem e do mal, e a de que as nossas ações serão julgadas após a morte por Deus, que tudo vê e registra, e então seremos julgados. Como resultado deste julgamento, poderemos ser premiados ou castigados com o céu ou o inferno, dependendo de nossas ações boas.
Nessa direção, a preocupação central da religião cristã, enquanto projeto para a humanidade, não se dirigiu para melhorar a vida terrena dos homens, visando à felicidade de cada um e de todos, tendo em vista que o projeto de felicidade encontra-se para além da vida, ou seja, após a morte. Depois da morte, poderemos, se assim merecermos e segundo o julgamento de Deus, ir para o céu e sermos felizes para toda a eternidade, ou sermos colocados no inferno para todo o sempre. Aqui na terra, portanto, o homem deve enfrentar o sofrimento com resignação, uma vez que toda humilhação e sofrimento serão recompensados no dia do Juízo Final.
Se o objetivo da evangelização era tornar a religião cristã universal, sua doutrina, “a boa nova”, deverá servir a todos; então, é condição que os valores não tenham nuances de particularidades, mas que se constituam em valores a-históricos diante dos quais os homens não podem modificá-los, assim como são predeterminados metafisicamente, associados à ideia de pecado e culpa.
A relação entre Deus e os homens, então, passa a se dar através dos intermediadores de Deus, que são os santos da Igreja. Na terra, os intermediadores entre Deus e os homens serão os padres, que, por sua vez, terão que agir de acordo com os preceitos da Santa Madre Igreja. As relações entre os homens, por sua vez, passarão a ser mediadas pela hierarquia da Igreja.
A religião, todavia, se materializa através da Igreja, que, enquanto instituição humana, é histórica — portanto, produto da ação dos homens historicamente situados. Podemos então perceber que, na intenção de evangelizar, a Igreja Católica lutou com as forças sociais presentes que se lhe opunham, tendo como horizonte a ocupação de espaços de poder e o domínio do mundo — e fez isso, quase sempre, ao preço de muito sangue derramado, para que pudesse se impor enquanto força e assim mostrar o seu poderio diante dos que não comungavam de suas orientações, assim como se colocou com muita crueldade diante
daqueles que tentavam pensar sob outros pressupostos. Veja-se a Inquisição na Idade Média e a venda de indulgências,61 entre outros exemplos.
A ideia que perpassa a Igreja Católica é a de que a sociedade é composta por indivíduos, não por estamentos ou classes sociais, talvez porque também a hierarquia da Igreja tenha se colocado ao lado dos que detinham a riqueza e o poder político, sendo que também se colocou na sociedade feudal e capitalista como um poder político em nome de Deus.
No pensamento católico, há sempre referências acerca do indivíduo, porém a relação entre os homens aparece no discurso católico enquanto compaixão e caridade. Parece que a compaixão e a caridade se colocam mais em relação a uma obrigação do cristão “para ganhar o céu” e menos como compromissos com a solidariedade, a cumplicidade, a justiça e a busca de igualdade entre os homens. No princípio da perfectibilidade humana, por exemplo, não se fala da necessária relação entre os homens para que possam desenvolver as suas possibilidades humanas.
A pessoa que sou eu não é o resultado de um processo interno solitário; só pode construir-se encontrando-se no foco dos olhares dos outros. Não só essa pessoa é alimentada com todas as contribuições dos que me rodeiam, mas na sua realidade essencial é constituída pelas trocas com eles; eu sou os vínculos que vou
estabelecendo com os outros. Com essa definição, deixa de haver qualquer corte entre mim e os outros (JACQUARD, 1998, p. 2; grifos do autor).
O discurso da evangelização se pauta por ideias que se assentam para além da história, visando ao todo sempre da eternidade. Mas a prática histórica é terrena e deve ser procurada, analisando-se o papel e as ações da Igreja na sociedade da qual é parte e na qual se expressa, para desvendar a verdadeira intenção política da prática de seus agentes. As encíclicas, portanto, são referências para se entender o significado real da prática da Igreja situada no âmbito das relações sociais na história dos homens.62
61 Com a Reforma Protestante, “[...] não havia mais como assegurar o plano divino com a compra de
indulgências (pedaços do Céu) pelos ricos em doações à Igreja, como acontecia antes. O Reino dos céus já cabia aos pobres pelo seu sofrimento. [...] Não havia mais salvação assegurada. Como já não se sabia quem estaria entre os escolhidos, o que se podia fazer era seguir a ética religiosa, na tentativa de estar entre os que seriam salvos. E a ética dizia que o homem devia trabalhar, e não trabalhar por trabalhar, mas fazê-lo produtivamente [...] Eis a ética que influenciou todo o comportamento do burguês e empresário no início do capitalismo: leva a uma ideologia que é a própria mola da acumulação do capital. Assim, o empresário deve trabalhar, viver asceticamente e acumular” (COVRE, 2002, p. 22).
62 Nossa análise não abarca a Teologia da Libertação, que, na década de 1970, foi um movimento cristão que
assumiu historicamente a luta para a libertação de pobres e oprimidos. O termo foi criado em 1971 pelo padre peruano Gustavo Gutiérrez, que escreveu um dos livros mais famosos do movimento, A Teologia da Libertação. Leonardo Boff é um nome expoente dessa perspectiva no Brasil.