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Kommunal pleie- og omsorgtjeneste tilpasset New Public Management?

Interessa-nos agora tratar sobre como o Serviço Social se expandiu no mundo, sob a influência da Igreja Católica, tendo por base que esta pretende recuperar seu lugar de “grande importância” na Idade Média, perdido com o advento da Modernidade. Isto porque pretendemos analisar os pilares da fundação do Serviço Social europeu e brasileiro para poder entender o Serviço Social nos dias atuais.

No sentido de adensar os pilares que dão sustentação ao nascimento da profissão no Brasil e em vários outros países de credo católico, torna-se então necessária a explicitação do significado e do conteúdo das duas encíclicas papais já referidas.

Para Wehrle (2007, p. 4), a encíclica Rerum novarum56 representa uma resposta da Igreja ao mundo, tardia em mais de cem anos que necessitou para digerir o alvorecer da modernidade:

Efetivamente, “o último quartel do século XVIII e o século XIX foram um tempo traumático para a Igreja Católica”. Em 1789 inicia a Revolução Francesa e coloca fim ao “Ancien Régime”, isto é, ao modelo absolutista-feudal. Concomitantemente, a Inglaterra acelera seu processo de industrialização abrindo caminho para “os progressos incessantes da indústria […] e à alteração das relações entre os operários e os patrões”. Em 1847 na Alemanha, Karl Marx e Friedrich Engels fundam a Liga Comunista e publicam, em 1848, o Manifesto Comunista, como clara expressão da “opinião mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta” (WEHRLE, 2007, p. 4-5).

56 O texto utilizado pelo autor foi consultado, em 2 de setembro de 2007, em

A nova ordem burguesa abala profundamente a Igreja Católica, porque indubitavelmente se constituía no principal instrumento ideológico da aristocracia feudal tendo em vista que:

Seu “Deus criador e conservador do mundo” se espelhava na organização absolutista-feudal, tornando o exercício do poder “uma espécie de mandato realizado por delegação divina”. “A autoridade vem de Deus e é uma participação da Sua autoridade suprema”. Evidentemente, “essa concepção cristã do mundo entrou em colapso quando as novas condições econômicas e sociais, suscitadas pelo desenvolvimento comercial e industrial, asseguraram espaços institucionais para a articulação e propagação do pensamento moderno” (WEHRLE, 2007, p. 5).

As reflexões contidas nessa encíclica podem ser consideradas expressões dos profundos sinais deixados pelo choque ocorrido entre a tradição católica e a ideia de liberdade contida nos princípios da Revolução Francesa pelo seu conteúdo humanista e ateu. Entretanto, a mira prioritária de suas críticas não se dirige aos Estados liberais e ao capitalismo, mas à resposta socialista dada à condição dos operários.

Apesar de a Igreja Católica não se conformar com os novos tempos e, por conseguinte, com a sua perda de poder, essa encíclica deve ser entendida como uma estratégia dessa instituição social para se recolocar na sociedade moderna na luta para a obtenção de poder. Há nela o reconhecimento de que não pode rejeitar inteiramente as práticas do liberalismo e da modernidade, sob pena de comprometer sua sobrevivência enquanto instituição. No entanto, “a Rerum novarum faz repetidas referências às ideias de ‘regresso’ e ‘restauração’ e manifesta de forma explícita seu saudosismo dos tempos destruídos pela sede ‘das coisas novas’” (WEHRLE, 2007, p. 6).

Passados, porém, mais de cem anos desde a Revolução Francesa, “a burguesia revolucionária já não era nem progressista e nem revolucionária”, mas é exatamente o contrário o que se verifica; agora a burguesia quer continuar no poder e, portanto, os seus esforços se dirigem para conservar os espaços conquistados (WEHRLE, 2007, p. 6).

A burguesia, que na origem se constitui como classe revolucionária, porta- voz do progresso social, representando objetivamente os interesses da totalidade do povo no combate à reação absolutista-feudal, começa a ser conservadora quando passa a defender somente os seus próprios interesses, aliando-se a segmentos sociais que anteriormente combatia (COUTINHO, 1972, p. 8).

a maioria das regiões da Europa central e ocidental — França, Alemanha, Itália, Áustria, Hungria, Polônia, Balcãs — foi tomada por insurreições de conteúdo nacionalista, antimonárquico, democrático ou operário (às vezes tudo isso junto). Todas foram vitoriosas a princípio e, logo a seguir, todas foram esmagadas com muito sangue. A grande novidade da Primavera dos Povos, destacadamente na França, foi a emergência dos operários reivindicando “uma república democrática e social” — muito além do que estavam dispostos a ir os liberais das revoluções anteriores (TRINDADE, 2002, p. 128).

Daí em diante, o medo da revolução social passa a unir os liberais às forças mais retrógradas da Europa, num vasto “partido da ordem”, e essas revoltas populares são isoladas e reprimidas com truculência exemplar (TRINDADE, 2002, p. 128).

O ano de 1848, quando o povo vai para as ruas, exigindo o direito ao trabalho, a partir de sua auto-organização, representa um divisor de águas na história da cultura ocidental. É quando o proletariado aparecerá na história como classe autônoma, em-si e para-si, apto para dar respostas na direção progressista às novas contradições e aos desafios gerados pelo capitalismo. A partir desse momento, só o socialismo irá defender a teoria do valor trabalho.

Quando a burguesia já havia realizado a revolução, torna-se classe conservadora, passando a se unir aos “feudais” na defesa da conservação das estruturas sociais vigentes, não abrindo mão dos meios de produção e do excedente econômico. A partir de agora, as mudanças deverão ser graduais e pacíficas. Progresso só na ordem, uma vez que qualquer mudança que possa colocar em risco a ordem burguesa deverá ser abolida. É quando a burguesia se associa à nobreza e começa a combater a democracia. Agora, não se fala mais em valores revolucionários, mas em valores de classe e de seus interesses. À burguesia não interessa mais o pensamento crítico. A partir daí, a burguesia deixa de ser uma força revolucionária, passando a ser conservadora.

A esse respeito, Netto (1991a, p. 14) explica:

A inflexão histórica de 1848, circunscrevendo o espaço sociopolítico da burguesia e explicitando a natureza de classe da sua dominação, selou a sorte do bloco cultural progressista: suas conquistas foram apropriadas pelos revolucionários e isso bastou para que os representantes da ordem rechaçassem a sua influência. A partir daí, os ideólogos burgueses, para responder ao movimento operário e combater a respectiva revolução, recorrem cada vez mais ao arsenal de ideias contidas nas propostas restauradoras57 e românticas. Como se vê, a evolução do pensamento sobre a

sociedade burguesa tem em 1848 um divisor de águas: desde então, ele se fratura em dois campos opostos- o que se vincula à revolução e o que contrasta com ela. [...]

57 Netto (1991a, p. 13) refere-se ao pensamento restaurador como aquele “de claras conotações católicas e ranços

místicos, que lamentava a ‘anarquia’ trazida pela revolução burguesa e a liquidação, pelo capitalismo, das ‘sagradas instituições’ da feudalidade — e recusava firmemente as novas formas sociais embasadas na dessacralização do mundo e no intercâmbio mercantil. O protesto romântico, criticando a prosaica realidade burguesa, escapava dos dilemas sociais do presente mediante a idealização da Idade Média e, em face das misérias contemporâneas, refugiava-se num passado idílico”.

dois campos delimitam o terreno das grandes matrizes da razão moderna: a teoria social de Marx e o pensamento conservador [...].

Importante então destacar que o desenvolvimento do pensamento conservador é contemporâneo e caminha paralelo à obra de Marx. Quiroga (1991, p. 44) aqui comparece para explicar essa relação. Diz a autora:

O desenvolvimento do positivismo é contemporâneo à obra marxiana, ou seja, ambos são produtos de toda uma trajetória da história e aparecem como respostas às exigências de forças sociais que emergem e se desenvolvem no decorrer do século

XIX. [...] são linhas de pensamento que se opõem e informam maneiras opostas de se

conhecer a realidade; no entanto, conformam dois polos de uma mesma relação contraditória entre proletariado e burguesia.

Essas duas vertentes do pensamento moderno apoiam-se em projetos societários distintos:

A teoria social de Marx tem como objeto a sociedade burguesa e como objetivo a sua ultrapassagem revolucionária: é a sociedade burguesa sob a ótica do proletariado, buscando dar conta da dinâmica constitutiva do ser social que assenta na dominância do modo de produção capitalista. [...] A outra matriz importante procede da transformação subsequente do pensamento restaurador e romântico que se adéqua às necessidades de conservação, gestão e reforma da sociedade burguesa (NETTO, 1991a, p. 19).

Essas duas grandes matrizes fundantes do pensamento moderno podem ser caracterizadas como segue.

1. Um bloco identificado pelo pensamento crítico-progressista que se expressa,