Inicialmente, é importante relembrar o conceito de tecnologia social, o qual compreende um conjunto de conhecimentos inovadores, reaplicáveis e apropriados pela sociedade, visando identificar problemas que afligem a população e efetivar soluções, propiciando o desenvolvimento sustentável, a inclusão e a autonomia social (ALVES; SEGATTO, 2012).
Considerando este conceito e a história da Associação Comunitária de Mocotó, apresentada na subseção anterior, pode-se perceber previamente que as experiências desta entidade parecem convergir para a metodologia da tecnologia social.
Assim, para atender ao primeiro objetivo específico da presente pesquisa (Descrever a tecnologia social de maior relevância para os artesãos) analisaram-se detalhadamente os fatos históricos, opiniões, ideias e sentimentos relatados pelas artesãs entrevistadas. Buscou-se identificar informações que condizem com os parâmetros característicos da tecnologia social, que abrangem: solução de demandas sociais; decisões democráticas; participação, apropriação e aprendizagem; disseminação sistemática do conhecimento; conhecimento tácito; sustentabilidade; reaplicação (ITS, 2004a).
Ao efetivar a análise de conteúdo acerca do primeiro parâmetro, “solução de demandas sociais”, buscou-se constatar se a própria população está engajada em ações orientadas para a identificação dos problemas sociais que lhes afetam e a concretização de soluções (ITS, 2004a), bem como retrata o Quadro 7.
Quadro 7 – Análise do parâmetro “solução de demandas sociais”
A associação iniciou na década de 80 por causa do êxodo rural né, por causa do êxodo rural e o índice de pobreza que existia na própria comunidade, nas próprias famílias, né. (entrevistada 8)
Êxodo rural Pobreza
(...) nos uniu, na época, eh, grupos de jovens, né, adolescência, na época, pra lutar pelos objetivos da comunidade, melhoria de vida, e aí quando nós nos unimos nós começamos a constatar os problemas que existiam, analfabetismo, mortalidade infantil, pobreza, né, em todos os sentidos. (entrevistada 8)
Atender aos objetivos da comunidade Melhoria de vida Analfabetismo Mortalidade infantil Pobreza Erradicar o analfabetismo Erradicar a mortalidade Infantil Erradicar a pobreza Novas condições de vida (...) nós conseguimos máquina agrícola pra que arasse as terras deles, pra que
aumentasse mais a produção de grãos milho, arroz, feijão (...). (entrevistada 8)
Máquina agrícola Milho
Arroz Feijão E daí a comunidade foi, foi gerando renda, e todo mundo foi crescendo,
melhorando de vida né. (entrevistada 8)
Renda
Desenvolvimento da comunidade Melhoria de vida
O analfabetismo nós erradicamos, porque nós conseguimos, eh, construir escola, nós conseguimos é que professores dessem aula lá na comunidade pra erradicar o analfabetismo, e a gente ajudava né, e daí, foi, foi crescendo. (entrevistada 8) Erradicar o analfabetismo Escola Professores Aula Analfabetismo Desenvolvimento da comunidade Nós temos o médico da saúde da família, ele atende com a enfermeira, com a
técnica, com a equipe todinha lá na comunidade né, e, doenças, nós erradicamos, nossa comunidade não tem menino doente, não tem gripe, não tem diarreia. (entrevistada 8)
Médico da saúde da família Enfermeira
Erradicar problemas Não tem criança doente Não tem gripe
Não tem diarreia
(...) (melhorias) tem de água, tem, eh, teve o açude, teve a casa digital, eh, a fábrica de rede, (...) e o trator né para arar a terra dos agricultores, que nossos maridos são agricultores. Aí eles precisam né, fazer frete pra carregar a lenha. E alguma coisas que eles quiserem terra, areia, né. (entrevistada 8)
Água potável Açude público Casa digital Fábrica de rede Trator
3. Unidades de Registro Agrupadas 4. Subcategorias 5. Categorias
Pobreza
Problemas que afligem a comunidade
Demandas sociais concretas Êxodo rural
Analfabetismo Mortalidade infantil
Atender aso objetivos da comunidade
Metas da associação Melhoria de vida
Novas condições de vida
Desenvolvimento da comunidade Fábrica de rede
Oportunidade de emprego e renda
Soluções efetivadas Máquina agrícola
Renda Trator
Escola Professores Aula Milho Alimentação adequada Arroz Feijão Médico da saúde Acesso à saúde Enfermeira
Não tem criança doente Não tem gripe
Não tem diarreia
Fonte: Elaborado pela autora.
Com base nos dados do Quadro 7, constatou-se que a associação, com o apoio da comunidade, vem efetivando um trabalho amplo voltado para atender às diversas demandas sociais. Implantou uma fábrica de rede para as mulheres da comunidade desenvolverem suas habilidades artesanais. Viabilizou a aquisição de uma máquina agrícola para otimizar o trabalho do homem na agricultura, produzindo alimentos para consumo e comercialização. Através do artesanato e da agricultura gerou oportunidades de emprego e renda, reduzindo o índice de pobreza. Fomentou educação de qualidade para crianças e jovens da comunidade. Possibilitou o acesso aos cuidados com a saúde e ao tratamento de doenças comuns, como diarreia e gripe, minimizando a mortalidade infantil.
Essas conquistas foram possíveis devido à iniciativa dos próprios membros da comunidade, que, preocupados com a situação precária em que viviam, se uniram para detectar os problemas reais que enfrentavam. Juntos, se organizaram para buscar conhecimento e lutar por melhores condições de vidas. Os recursos financeiros necessários foram obtidos por meio da aprovação de projetos sociais e do apoio de órgãos competentes.
Esta realidade remete à construção coletiva de soluções para problemas sociais por meio do conhecimento, das experiências e das competências humanas, revelando a aplicação do método referente à tecnologia social, como afirmam Bloom, Associates e Fang (2001).
Desde a sua fundação, a associação visa à qualidade de vida da comunidade, um processo de desenvolvimento que teve início com a produção artesanal, atividade central que permitiu a consolidação desta entidade e a expansão do seu papel na sociedade, contemplando demais questões sociais e ambientais, como exemplifica uma das artesãs.
(...) a associação é organizada pra gente trabalhar na melhoria de vida das famílias, saúde, educação. (entrevistada 8)
Desta maneira, verifica-se que a produção artesanal, desenvolvida em conjunto com outras ações sociais, constituem a construção e implantação de um método com potencial para atender às necessidades da sociedade, revelando alternativas eficazes para sanar os vários problemas sociais, bem como a violação dos direitos humanos. Segundo Maciel e Fernandes (2010), esta metodologia configura uma tecnologia social.
Com relação ao segundo parâmetro, “decisões democráticas”, procurou-se averiguar se as decisões são tomadas de forma democrática, ou seja, se os artesãos e os demais membros da comunidade participam efetivamente das atividades desenvolvidas, expondo suas opiniões, ideias e críticas (ITS, 2004a). Para verificar esta possibilidade, elaborou-se o Quadro 8.
Quadro 8 – Análise do parâmetro “decisões democráticas”
1. Unidades de Contexto 2. Unidades de Registro
As decisões são tomadas em reuniões, em reuniões e a maioria das pessoas, é a metade mais um, são aprovadas assim, reuniões. (entrevistada 8)
Reuniões
Votação pela maioria simples
É, negociado (...) aí dá o parecer dele, aí a gente junta o parecer, e depois faz uma ata e cada um assina, é assim, nós assinamos a metade mais um (...).(entrevistada 8) Negociação Acordo Consenso Abertura às opiniões Assinatura em ata Votação pela maioria simples
Às vezes assim, a gente tá meio em discussão, mas a gente chega a um consenso né, um acordo, mas sempre tem, a gente discute na associação, a gente briga, tudo (...). (entrevistada 5)
Discussão Acordo Consenso
3. Unidades de Registro Agrupadas 4. Subcategorias 5. Categoria
Votação pela maioria simples
Método da tomada de decisões
Efetiva participação na tomada de decisões Negociação Acordo Consenso Reuniões Incentivo à mobilização e à participação Abertura a opiniões Discussão Assinatura em ata
Fonte: Elaborado pela autora.
A partir das subcategorias e categoria presentes no Quadro 8, confirmou-se que as decisões referentes à produção artesanal e às demais ações praticadas pela associação são definidas de forma democrática. Incentiva os associados e a comunidade a compartilharem suas opiniões. Incita a população a participar das assembleias, contribuindo com a construção de melhores soluções, buscando benefícios comuns, como expressa o seguinte relato.
(...) aí nós vamos por votação, e se for uma coisa que vai "prejudicar" todo mundo, a gente questiona, os outros questiona, a gente bota: - E se fosse você, que fosse fazer assim, como é que você faria? (entrevistada 8)
Cada participante é motivado a refletir sobre suas opiniões, sendo responsáveis pelas possíveis implicações dos resultados das decisões sobre o coletivo. Os artesãos são incentivados a contribuir com a tomada de decisões de forma consciente. Preocupam-se uns com os outros, com o bem comum e não somente consigo mesmo. A empatia é uma conduta que guia o planejamento e a concretização de todas as ações que envolvem os associados e a comunidade como um todo.
As funções e as tarefas, sempre a gente vem, se planeja, se senta, e divide as tarefas. Você vai fazer isso, fulano vai fazer "assado", e assim por diante. (entrevistada 6)
Por meio da divisão das tarefas, a associação mobiliza a comunidade a se engajar em diversas atividades, desde o artesanato à agricultura, como forma de torná-los cidadãos ativos na luta por seus direitos, visando à qualidade de vida das famílias presentes na comunidade.
Assim, confirma-se que os membros da população são incluídos no processo de tomada de decisões, favorecendo à democracia (PENA, 2010). A comunidade participa não somente como beneficiários, mas como cidadãos ativos que influenciam nas atitudes referentes aos métodos de transformação social, desde o planejamento até a avaliação final, ratificando a tecnologia social (MACIEL; FERNANDES, 2010).
O terceiro parâmetro, “participação, apropriação e aprendizagem”, foi analisado com o intuito de investigar se a produção artesanal é desenvolvida com base na participação, apropriação e aprendizagem dos artesãos e de outros membros envolvidos (ITS, 2004a). Esta análise foi efetivada a partir do Quadro 9.
Quadro 9 – Análise do parâmetro “participação, apropriação e aprendizagem”
1. Unidades de Contexto 2. Unidades de Registro
(...) nos uniu, na época, eh, grupos de jovens, né, adolescência, na época, para lutar pelos objetivos da comunidade (...). (entrevistada 8).
União Adolescentes Jovens Lutar E aí a gente começou a trabalhar em grupo (...) um grupo de mulher fomos trabalhar com o artesanato. (entrevistada 8)
A gente Grupo (...) nós nos unimos para fazer isso (artesanato) em conjunto.
(entrevistada 8)
Nós União Em conjunto (...) nós tentando montar a nossa fábrica de artesanato, porque nós
queríamos trabalhar num local né, num local, não totalmente nas nossas
Nossa fábrica Trabalhar
casas né, que tivesse um local onde nós pudesse nos reunir, que nós pudesse construir nossa história como artesãos. (entrevistada 8)
Reunião Nossa história (...) meu pai doou um pedacinho de chão lá vizinho na nossa casa no
sítio, e nós construímos o prédio em mutirão, os irmãos, o pai, a família. (entrevistada 8)
Doação
Nós construímos Em mutirão
(...) nós fabrica, nós vamos pra feira, nós compra junto, nós vive junto (...), nós cooperamos em grupo. (entrevistada 8)
Nós fabricamos Nós vamos pra feira Nós vivemos juntos Nós cooperamos Grupo
Os serviços voluntários, limpeza, é organização do patrimônio, é olhar tudo, somos nós quem fazemos isso, a gente não cobra por isso, a gente se doa. (entrevistada 8)
Voluntário Doação E a limpeza, quem mantém essa casa (casa digital) todinha é nós, nós da
comunidade, nós da associação. (entrevistada 8)
Nós
Comunidade Associação (...) o povo aprende, por exemplo, olhe, tem uma senhora que fez o curso
do CEART com a gente, de uma comunidade vizinha (...). (entrevistada 8)
Aprender Cursos CEART A gente leva o curso gratuitamente pra as associações. O ano passado,
nós demos dois cursos. O SENAC deu um e o CEART deu outro (...). (entrevistada 8)
Cursos SENAC CEART (...) aí nós fomos buscar o SEBRAE pra dar curso de gerenciamento, pra
nós puder saber vender, saber comprar né. (entrevistada 8)
SEBRAE Cursos Saber Aprender (...) cada um tem sua função, lá né, dentro da diretoria, os outros
membros, é, participam com a sua contribuição do seu trabalho. (entrevistada 8)
Divisão de funções Participação Contribuição Um trabalho tão gostoso, a gente, se tem uma sintonia, quando a gente
trabalha em equipe, a gente sempre se sente importante. A gente passa a dar mais importância as pessoas. A gente ver melhor aquela pessoa, porque você tá trabalhando com ela no dia-a-dia, você tá percebendo as ideias que elas apresentam e mostrando suas ideias. Então é assim, é um trabalho muito gratificante, quando se trabalha em equipe, vicia, se torna um vício mesmo, não tenha dúvida disso, que a gente vicia mesmo trabalhar em grupo. (entrevistada 1)
Trabalho em grupo agradável Sintonia
Equipe
Trocar ideias e experiências
- Cabe agora, nós, comunidade também zelar pelo patrimônio que nós temos. (entrevistada 8)
Valorização das conquistas alcançadas
(...) os meus filhos eles também estão, eh, participando dos trabalhos artesanais, meu esposo também já é um produtor, né, já nos ajuda. (entrevistada 1)
Filhos Esposo Participação (...) eu nunca gosto de trabalhar sozinha, aí as meninas convida pra gente
trabalhar em equipe, aí nós ajuda elas, ajuda a trabalhar mais elas, né. (entrevistada 4)
Satisfação em trabalhar em equipe Ajudar o próximo
3. Unidades de Registro Agrupadas 4. Subcategorias 5. Categorias
União Coletividade Participação Em conjunto Em mutirão Grupo Equipe A gente
Nós Sintonia
Trabalho em grupo agradável Sentimentos ao trabalhar em equipe
Satisfação em trabalhar em equipe Ajudar o próximo
Exemplos de ações que revelam a participação da comunidade
Nós construímos Nós fabricamos Nós vamos pra feira Nós vivemos junto Nós cooperamos
Trocar ideias e experiências Lutar Condutas de iniciativa e engajamento Trabalhar Doação Voluntário Participação Contribuição Adolescentes
Diversidade de atores sociais participantes Jovens Comunidade Associação Filho Esposo Nossa fábrica Sentimento de pertencimento Apropriação Nossa história
Valorização das conquistas alcançadas Sentimento de valorização Cursos Aquisição e aplicação de conhecimento Aprendizagem Aprender Saber SEBRAE
Órgãos que fomentam a aprendizagem dos artesãos CEART
SENAC
Fonte: Elaborado pela autora.
Avaliando as subcategorias e categorias mencionadas no Quadro 9, percebeu-se que a participação é uma característica bastante comum da comunidade, a qual busca trabalhar em conjunto, identificando as demandas das famílias do sítio Mocotó e implantando melhorais apropriadas.
Atributos como participação, coletividade, dedicação e compromisso com o bem comum estão presentes na associação desde a sua fundação, permitindo a união dos membros da comunidade para fortalecer suas capacidades, alcançando assim grandes conquistas, como a construção do prédio da fábrica de redes.
(...) nós conseguimos é, ampliar, conseguimos. Meu pai doou, e em mutirão, nossos irmãos, nossos pais, eh, o povo da comunidade, os esposos das mulheres que eram
engajadas, aí eles construíram um prediozinho pequenininho. Eles faziam os tijolos, nós fazia a comida, nós fazia o lanche. E assim nós erguemos o prédio. (entrevistada 8)
Até o mutirão também de limpeza (...). No final do ano a gente faz limpeza na fábrica, limpeza no almoxarifado, telha, derruba tudo, bota tudo no mei da casa, lava tudo, arruma tudo, lava a parede, lava tudo né, organiza tudim (...).(entrevistada 6) (...) sempre a gente fazia crochê em grupo, né assim, aqui na árvore, assim, meio- dia, ou então daqui lá pra casa, sempre a gente dividia pra gente trabalhar (...). Que sempre nós trabalhava no coletivo, pra onde a gente fosse, era o grupo assim, sabe. Se fosse pedir esmola pra capela, era o grupo (...). Aí nos passamos ainda, parece que foi três anos trabalhando só sem ser registrado né. Que a gente não tinha condição, que era muito caro pra registrar né. Aí depois a gente começou a fazer bolo, bolo de coco, docinho, né, pra ir arrecadando o dinheiro, pra gente investir pra registrar a associação, a gente foi e conseguimos. (entrevistada 5)
Através deste relato, constata-se que a divisão de tarefas e trabalho em grupo é uma característica essencial para o progresso da população local. Cada membro contribui conforme suas capacidades e habilidades. As pessoas envolvidas nesta jornada transmitem a satisfação em fazer parte da construção e desenvolvimento da associação, bem como da fábrica de rede, pois acreditam que grandes melhorias podem ser conquistadas quando se trabalha em grupo e por intermédio de uma organização associativa. À medida que resultados positivos se tornam reais, a ação associativa desperta a atitude das pessoas para a união, a esperança de lutar pelo novo e pela qualidade de vida, somando forças a cada nova vitória.
Foi através do trabalho coletivo que os artesãos puderam progredir enquanto seres humanos e profissionais. Fortaleceram sua capacidade de desenvolvimento, reconhecendo a importância de atuar em grupo. Renovaram os laços de amizade. Passaram a perceber um mundo com maiores oportunidades, podendo expressar os seus conhecimentos através do artesanato e alcançar mudanças significativas para si e para sua família.
A gente se transforma, se modifica o nosso ser, a nossa maneira de ver o mundo. Não tem um mundo tão pequeno, a gente ver maior na outra pessoa. (entrevistada 1) (...) hoje em dia, a gente só consegue as coisas hoje se for no coletivo, se a gente for ficar só no meio individual a gente num consegue nada, né. E o governo tá dando melhoria pra gente por causa disso, né, que a gente trabalho no coletivo, ajudando um ao outro. (entrevistada 5)
A construção da aprendizagem também é um aspecto marcante do dia-a-dia dos artesãos, os quais compartilham conhecimentos e experiências entre si e com membros de outras comunidades e associações. Além de investirem continuamente em cursos de capacitação, realizados por instituições de referência no mercado artesanal, tais como, SENAC, SEBRAE e CEART.
A gente leva o curso gratuitamente pra as associações. O ano passado, nós demos dois cursos. O SENAC deu um e o CEART deu outro, e nós convoca, bota aviso, sai nas casas avisando, avisa em outras comunidades, que nós não, não fecha só pra nós sabe, avisa a outras comunidades, aqueles que vem perguntar, comunidade vizinha, porque aí também é pra ajudar também né, porque a gente precisa da mão-de-obra de todo mundo. (entrevistada 8)
À medida que os artesãos de comunidades circunvizinhas ampliam suas aprendizagens e aprimoram suas habilidades, juntamente com o apoio da Associação Comunitária de Mocotó, desenvolvem simultaneamente autonomia para criar e inovar, implantando seu próprio negócio, com competência para efetivar a autogestão.
(...) o povo aprende, por exemplo, olhe, tem uma senhora que fez o curso do CEART com a gente, de uma comunidade vizinha, oxi! Hoje ela já comprou duas máquinas, com o dinheiro dela, ela bordando, com recurso dela. (entrevistada 8)
A participação dos atores sociais envolvidos com a comunidade de Mocotó, e, consequentemente, as aprendizagens obtidas contribuíram significativamente com o desenvolvimento de um patrimônio comunitário e sua apropriação pela própria população inserida neste processo de transformação social. Os artesãos e outros moradores da comunidade reconhecem o seu potencial em conquistar melhores condições de vida. São conscientes de que seu papel foi relevante para gerar os resultados alcançados. As conquistas representam o patrimônio da comunidade que deve ser preservado e valorizado, como demonstra o seguinte depoimento.
(...) nós da associação lutamos, reivindicamos, brigamos, passamos dias e dias para construir um açude. Aqui nós temos água, não faltamos água por conta desse açude. E quem foi que trouxe? Foi a associação, que deixamos dois dias, três dias, deixamos o que fazer das nossas casas, para nós reivindicar esse açude. Então, sempre eu disse: - Cabe agora, nós, comunidade também zelar pelo patrimônio que nós temos. (entrevistada 8)
Sendo assim, o trabalho artesanal da Associação Comunitária de Mocotó representa uma iniciativa da própria polução, atividade esta que se consolidou e encorajou a concretização de soluções para demais situações críticas presentes na comunidade. Todo este processo de desenvolvimento é marcado pela participação, aprendizagem e apropriação.
A participação evidenciada indica a concretização de processos democráticos, cujas tecnologias sociais são desenvolvidas por meio das experiências e ações comunitárias locais (MACIEL; FERNANDES 2010). O potencial do trabalho realizado por esta associação é fruto do incentivo ao engajamento e dedicação da própria população durante os momentos de diagnóstico, planejamento, implantação, utilização e avaliação da tecnologia. Nestas
circunstâncias, a produção artesanal está imbuída de identidade, valores e interesses sociais, confirmando sua apropriação pela comunidade e fomentando um ambiente propício à aquisição e compartilhamento de aprendizagens (NOVAES; DIAS, 2009b).
Apesar da participação ser um atributo marcante no história da associação, algumas artesãs entrevistadas comentaram que atualmente há uma necessidade de ampliar a quantidade de membros ativos da associação, somando forças para conquistar novos objetivos sociais e promover o bem estar da sociedade.
(...) seria melhor se cada família se engajasse, a esposa, o esposo, o jovem a partir de dezesseis anos, para ajudar a cuidar, trabalhar pelo bem comum de todos da comunidade. (entrevistada 8)
(...) que a comunidade se engajasse e vinhesse pra trabalhar, porque assim, nós já somos muito conhecidas a nível nacional e a nível mundial, só que eu acho que ainda tá pouco (...). Aí é assim, é, é, o povo, eu tô achando é o povo tá pouco, com uma associação a nível nacional e mundial, que já tem uma divulgação lá fora muito grande. (entrevistada 6)
Estes relatos evidenciam a necessidade de despertar o interesse dos demais membros da população e envolvê-los nas atividades comunitárias realizadas pela associação. Fato este que tornaria possível a multiplicação dos benefícios e beneficiados. Fonseca e Serafim (2009) relatam que o desenvolvimento tecnológico deve ser construído coletivamente, com a participação ativa de seus usuários, permitindo que a tecnologia esteja realmente alinhada as suas necessidades.
Para conferir se o parâmetro “disseminação sistemática do conhecimento” é um atributo da associação, buscou-se analisar se as atividades rotineiras dos artesãos são concretizadas a partir do planejamento e do compartilhamento de conhecimento de forma