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O processo de coleta de dados da presente pesquisa foi bastante desafiador, visto que a população de associações de artesãos na região do Cariri é bastante ampla, dificultando assim a escolha da associação que realmente atende aos parâmetros da tecnologia social, para assim compor o caso a ser analisado neste estudo. Assim, para realizar a coleta de dados fez-se necessário concretizar as seguintes etapas durante os meses de Janeiro, Fevereiro e Março de 2014, conforme apresenta a Figura 10.

Figura 10 – Processo de coleta de dados

A 1ª Etapa (FIGURA 10) do processo de coleta de dados consistiu em identificar o universo da presente pesquisa. Para tal, efetivou-se um mapeamento das Associações de Artesãos, localizadas na Região do Cariri, junto à Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Populares e Solidários (ITEPS) da Universidade Federal do Ceará / Campus Cariri (UFC/Cariri) e como o apoio da Central de Artesanato do Juazeiro do Norte, (CEART/Juazeiro do Norte). Logo, detectou-se um universo de 36 associações de artesãos distribuídas em 12 municípios do Cariri, como apresenta o Quadro 4.

Quadro 4 – Mapeamento das Associações de Artesãos do Cariri

Associação de Artesãos Município Tipologia de

Artesanato 01 Associação dos Pequenos Agricultores do Sítio Coité,

Marcena, e Monte Castelo Barbalha Fibras Vegetais 02 Associação das Mulheres Rurais do Sítio Macaúba Barbalha Sementes 03 Associação dos Produtores Artesanais e Alternativos de

Barbalha Barbalha -

04 Associação dos Artesãos do Barro Barro Fios e Tecidos

05 Associação Comunitária São Vicente de Paulo Barro Fios e Tecidos 06 Associação das Bonequeiras no Pé de Manga Crato Fios e Tecidos 07 Associação Artesãos Renascer do Bairro Seminário

Crato - RENASCER Crato Bordado

08 Associação dos Artesãos do Couro – ASSOCICOURO Crato Couro 09 Associação Artesãos do Crato – AAC Crato Fios e Tecidos/Couro 10 Associação Comunitária de Artesãos – ACA Crato Fios e Tecidos 11 Associação dos Artesãos de Campos Sales Campos Sales Fibras Vegetais 12 Associação dos Artesãos de Farias Brito Farias Brito Fios e Tecidos 13 Associação dos Artesãos da Vila Santo Antônio - ARTE

NOSSA Caririaçu Fibras Vegetais

14 Associação dos Artesãos de Caririaçu –ARTÇU Caririaçu Fibras Vegetais 15 Associação Artesanal Cariri Arte de

Caririaçu Caririaçu Fibras Vegetais

16 Associação Nossa Senhora de Guadalupe das

Trabalhadoras da Serra Brejinho do Município de Jardim Jardim Fios e Tecidos

17 Associação dos Artesãos de Jardim Jardim Fios e Tecidos

18 Associação dos Artesãos de Juazeiro do Norte - Mestre

Noza Juazeiro do Norte Madeira

19 Associação dos Artesãos da Mãe das Dores do Padre

Cícero Juazeiro do Norte Fibras Vegetais

20 Associação dos Artesãos em Palha – GENIPOART Juazeiro do Norte Fibras Vegetais 21 Associação dos Lapidários Artesãos Minerais e

Ouriveres da Região do Cariri – ALAMOCA Juazeiro do Norte

Lapidação Pedras 22 Associação dos Artesãos da FEART Juazeiro do Norte Fios e Tecidos 23 Associação Artesãos do Novo Juazeiro Juazeiro do Norte Xilogravura e

Madeira 24 Associação dos Xilógrafos do Cariri Juazeiro do Norte Xilogravura 25 Associação Bom Jesus do Horto Juazeiro do Norte Madeira

(Esculturas) 26 Associação dos Artesãos do Bairro Leandro Bezerra Juazeiro do Norte Fibras Vegetais 27 Associação dos Artesãos de Lavras da Mangabeira -

Boqueirão das Artes

Lavras da

28 Associação Cultura e Arte em Palhas Trançadas – CAPT Lavras da

Mangabeira Fibras Vegetais 29 Associação Comunitária Senhora Santa Luzia Lavras da

Mangabeira Fios e Tecidos

30 FIBRART Missão Velha Fibras Vegetais

31 Associação de Renda de Bilro de Santana do Cariri-

ARBISC Santana do Cariri Fios e Tecidos

32 Associação dos Artesãos da Serrinha-ARTFIBRA Serrinha –

Granjeiro Fibras Vegetais 33 Associação Comunitária de Mocotó de

Várzea Alegre Várzea Alegre Fios e Tecidos

34 Associação Comunitária dos Fabricantes de Redes de

Dormir e Bordados - Redes da Várzea Várzea Alegre Fios e Tecidos 35 Associação Comunitária de Mulheres do Sítio São

Vicente e Adjacência Várzea Alegre Fibras Vegetais

36 ASIDESS Várzea Alegre Fibras Vegetais

Fonte: Elaborado pela autora.

Posteriormente, na 2ª etapa (FIGURA 10) realizou-se uma coleta de informações junto a sete instituições que atuam na região do Cariri e que possuem conhecimentos sobre as práticas das Associações de Artesãos do Cariri. As sete instituições questionadas foram denominadas como fontes de pesquisa, variando de Fonte A (FA) à Fonte G (FG), como segue: Central de Artesanato de Juazeiro do Norte-CEART (FA); Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas-SEBRAE/Cariri (FB); Federação das Associações de Artesanato do Cariri (FC); Secretaria de Ação Social de Juazeiro do Norte (FD); Secretaria de Cultura do Crato (FE); Secretaria de Cultura de Barbalha (FF) e a Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Populares e Solidários-ITEPS (FG).

Para um representante de cada instituição, foi apresentada a lista de Associação de Artesãos do Cariri, conforme consta no Quadro 4, e os parâmetros de análise da tecnologia social, presentes na Figura 2. Em seguida, fez-se o seguinte questionamento: Qual(is) destas associações você considera que possuem práticas de artesanato que atendem aos parâmetros da tecnologia social?

A partir das diversas respostas obtidas tornou-se possível efetivar o cruzamento das opiniões (3ª etapa), reduzindo a população alvo da pesquisa, como apresenta o Quadro 5.

Quadro 5 – Cruzamento de opiniões acerca das associações de artesãos que atendem aos parâmetros da tecnologia social

Associações de Artesãos Fontes de Pesquisa Total de

votos FA FB FC FD FE FF FG

Associação dos Artesãos da Mãe das Dores do Padre Cícero 06

Associação dos Artesãos em Palha GENIPOART 04

Associação dos Lapidários Artesãos Minerais e Ouriveres da

Região do Cariri –ALAMOCA 02

Associação dos Pequenos Agricultores do Sítio Coité,

Marcena, e Monte Castelo 04

Associação das Mulheres Rurais do Sítio Macaúba 02

Associação dos Produtores Artesanais e Alternativos de

Barbalha 01

Associação dos Artesãos do Couro – ASSOCICOURO 03

Associação Comunitária de Artesãos – ACA 01

Associação das Bonequeiras no Pé de Manga 03

Associação dos Artesãos de Caririaçu –ARTÇU 02

Associação Comunitária de Mocotó de Várzea Alegre 04

Associação dos Artesãos de Jardim 01

Associação de Renda de Bilro de Santana do Cariri- ARBISC 01

Fonte: Elaborado pela autora

Avaliando o número de votos que cada associação recebeu, optou-se por concretizar a etapa seguinte (4ª etapa) como aquelas que obtiveram de 3 a 6 votos, reduzindo o público- alvo da pesquisa para 07 associações, as quais foram codificadas com letras alfabéticas, por questões metodológicas, como seguem: Associação dos Artesãos de Juazeiro do Norte - Mestre Noza (A); Associação dos Artesãos da Mãe das Dores do Padre Cícero (B); Associação dos Pequenos Agricultores do Sítio Coité, Marcena, e Monte Castelo (C); Associação dos Artesãos do Couro – ASSOCICOURO (D); Associação das Bonequeiras no Pé de Manga (E) Associação Comunitária de Mocotó de Várzea Alegre (F); e Associação dos Artesãos em Palha – GENIPOART (G). Vale informar que a Associação dos Artesãos em Palha – GENIPOART, apesar de ter sido bem avaliada pelas instituições, estava desativada devido a problemas administrativos e estruturais, logo não participou dos procedimentos que seguem, restando 06 associações.

Com o presidente de cada uma destas associações foi aplicado um questionário (APÊNDICE A), com o auxílio da pesquisadora, para verificar se efetivamente cada

associação utilizava a tecnologia social para desenvolver atividades artesanais. Foram realizadas perguntas que descreviam os parâmetros de análise da tecnologia social (FIGURA 2). Cada respondente foi orientado a apresentar suas respostas em conformidade com a escala Likert de cinco pontos: nunca (peso 1), quase nunca (peso 2), às vezes (peso 3), quase sempre (peso 4), sempre (5) Além disso, eram instigados a mencionar fatos e exemplos que validassem suas respostas, ficando a critério da pesquisadora avaliar o conjunto de informações obtidas e conceder o peso (de 1 a 5) mais apropriado para cada questionamento, bem como informa o Quadro 6.

Quadro 6 - Identificação do uso de tecnologia social por associações de artesanato

Parâmetros de Análise da Tecnologia Social QUESTIONAMENTOS ASSOCIAÇÕES A B C D E F Demandas Sociais

1. O artesanato é desenvolvido com o intuito de solucionar problemas sociais concretos vivenciados pela população?

03 04 03 03 03 05 Decisões

Democráticas

2. Os artesãos participam das decisões tomadas pela

associação? 02 02 02 02 02 04

Participação, Apropriação e Aprendizagem

3. A produção artesanal permite a aprendizagem por

parte dos artesãos? 04 04 03 03 03 04

4. Os artesãos reconhecem que a tecnologia utilizada para a produção artesanal é sua? Reconhecem que esta tecnologia está de acordo com as suas necessidades, sendo fruto de suas capacidades, seu trabalho, e seus conhecimentos?

03 03 02 02 03 05

Disseminação Sistemática

5. As atividades são realizadas a partir de um

planejamento? 03 04 03 03 03 05

6. O conhecimento necessário para a produção artesanal é compartilhado e aplicado de maneira organizada?

03 04 04 03 03 05 Conhecimento

Tácito

7. Os artesãos produzem novos conhecimentos

(produtos, técnicas) a partir da sua prática no dia-a-dia? 04 04 03 03 03 05 Sustentabilidade

8. Ao produzirem o artesanato os artesãos desenvolvem atividades voltadas para o desenvolvimento sustentável?

03 04 03 03 03 04

Reaplicação

9. A convivência entre os artesãos durante a produção artesanal permite gerar aprendizagens que possam ser utilizadas em novas experiências?

04 04 03 03 03 04 10. O ambiente da produção artesanal incentiva o

desenvolvimento de soluções a serem aperfeiçoadas e multiplicadas?

04 04 03 03 03 05

Total de Pontos 29 33 26 25 26 41 Fonte: Elaborado pela autora.

Ao analisar as pontuações concedidas às associações, verificou-se que a Associação Comunitária de Mocotó de Várzea Alegre, codificada anteriormente com a letra “F”, apresentou o maior número de pontos, fato este que a caracteriza como a associação que no

contexto da produção artesanal melhor aplica os fundamentos da tecnologia social. Assim, definiu-se como unidade de análise para este estudo de caso a Associação Comunitária de Mocotó de Várzea Alegre. Além disso, esta associação já vem desenvolvendo um trabalho bastante consolidado, há mais de trinta anos, e se mostrou disponível para a execução da pesquisa.

Com a unidade de análise definida, iniciaram-se os trabalhos de coleta de dados junto a Associação Comunitária de Mocotó de Várzea Alegre. Primeiramente, realizou-se uma entrevista com uma das artesãs fundadora da associação (denominada como Entrevistada 8), que desempenha um forte papel de liderança e ocupa o cargo de vice-presidente, com o intuito de conhecer a história da associação. Paralelamente aplicaram-se novamente as perguntas do questionário referente à descrição da tecnologia social (APÊNDICE A) de maneira mais aprofundada, buscando fatos justificáveis para cada resposta.

Em seguida realizaram-se dois encontros de grupo focal (6ª etapa) com oito artesãos, os quais estavam presentes nas duas reuniões. Para realizar o grupo focal, a pesquisadora utilizou um roteiro de perguntas flexíveis (APÊNDICE B). Estas oito artesãs ocupam os seguintes cargos na associação: presidente (denominada como Entrevistada 1); 2ª conselheira (denominada como Entrevistada 4); secretária (denominada como Entrevistada 5); tesoureira (denominada como Entrevistada 6); vice-presidente (denominada como Entrevistada 8); além de três artesãs associadas que não fazem parte da diretoria (de denominada como Entrevistada 2, Entrevistada 3 e Entrevistada 7).

Este grupo de artesãos é homogêneo frente à habilidade em produzir artesanato, com objetivos comuns. Porém apresentam um perfil heterogêneo no que se refere à faixa etária, ao cargo que ocupa, ao tempo de atuação na associação, às atividades profissionais que exercem fora da associação. Fato este que permite avaliar diferentes contextos e confrontar informações (FLICK, 2009).

De acordo com Flick (2009) o grupo focal busca reunir informações relativas aos sentimentos e opiniões de um grupo de pessoas que está envolvido em uma situação em comum. Martins e Theóphilo (2007) acrescentam que esta técnica compreende uma forma de entrevista, realizada em grupo, visando debater em profundidade um assunto específico. Além de fomentar um ambiente propício a uma relação espontânea entre os participantes, que por estar em grupo se sentem à vontade para expressar suas ideias, confrontando as opiniões dos demais membros, favorecendo a flexibilidade na coleta de informações, o que talvez não fosse possível com a aplicação de instrumentos individuais.

Esse método de coleta foi escolhido por apresentar-se apropriado para o contexto deste estudo, permitindo intermediar uma melhor percepção acerca da existência de uma ação coletiva e cooperativa dos artesãos, aspectos relevantes para a concretização da tecnologia social e do desenvolvimento sustentável.

Durante as discussões em grupo houve a orientação de um moderador para estimulou os artesãos a discutirem suas opiniões, percebendo reações e sentimentos dos mesmos sobre a atividade artesanal que desenvolvem e que se configura como uma tecnologia social, conforme orienta Flick (2009).

Finalizada esta fase, efetivaram-se entrevistas semiestruturadas (7ª etapa) com cada um dos membros que participou do grupo focal, com o intuito de se tentar compreender o sentido que os entrevistados, na sua particularidade, atribuem às questões em análise. Foi utilizado o mesmo roteiro de questionamentos do grupo focal, mas com flexibilidade para agregar novos questionamentos no decorrer da entrevista. Este momento foi relevante para permitir identificar se o entrevistado, individualmente, apresentaria um posicionamento diferente do exposto quando abordado em grupo (MARTINS; THEÓPHILO, 2007).

Por fim, realizou-se a observação não-participante, com o intuito de examinar de forma minuciosa determinados comportamentos, sem influenciar a opinião dos artesãos. “A observação é uma técnica de coleta de informações, dados e evidências que utiliza os sentidos para obtenção de determinados aspectos da realidade” (MARTINS; THEÓPHILO, 2007, p. 84).