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A Associação Comunitária de Mocotó está localizada no sítio Mocotó, um distrito distante 12km do município de Várzea Alegre. Esta cidade, com uma área de 835.709 km², está situado na região do Cariri, no sul do Estado do Ceará, abrangendo uma população de 38.434 habitantes (IBGE, 2010). Iniciou sua história no começo da década de 1980, quando sua comunidade rural enfrentava graves problemas de escassez do algodão herbáceo, um produto de suma importância para a subsistência dos moradores locais. Além disso, nessa época, era comum a estiagem, o analfabetismo, a mortalidade infantil, a falta de energia elétrica e de água potável, e o elevado índice de pobreza das famílias, ocasionando assim o êxodo rural.

Inseridas nesta difícil realidade, três irmãs adolescentes, todas com necessidades especiais, com atrofiamento nos membros superiores e inferiores, tiveram a inciativa de se unirem às demais mulheres jovens da localidade para lutar por melhores condições de vida para a comunidade. Assim, as mulheres iniciaram um trabalho em grupo produzindo o artesanato em crochê e bordado e a tecelagem do algodão cru, haja vista que esta era uma vocação local, uma atividade herdada pela família. As artesãs identificaram uma oportunidade para desenvolver um trabalho de qualidade e referência, capaz de gerar renda.

Com o agravamento dos problemas e a elevada pobreza na zona rural, alguns órgãos, como o Governo do Estado do Ceará, o Centro de Apoio Gerencial (CEAG/CE), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Ceará (EMATER/CE), e o Serviço de Apoio às Pequenas e Médias Empresas do Ceará (SEBRAE/CE) realizaram um trabalho de revitalização das comunidades rurais, buscando identificar e fomentar o desenvolvimento das potencialidades destas regiões no Ceará, bem como de Várzea Alegre.

Assim, a Associação Comunitária de Mocotó teve o seu primeiro projeto de fomento à fábrica comunitária de redes de dormir, financiado pelo Fundo de Apoio ao Desenvolvimento

Agrícola (Projeto Fada), numa parceira do Governo do Estado do Ceará com o Banco Mundial, que concederam um recurso financeiro para aquisição de matéria-prima e maquinário simples (duas máquinas de costura manual, e duas máquinas de madeira desenvolvidas pelo grupo, como o fiador de trança e torcedor de cordão) necessários para a produção artesanal, fornecendo auxílio tecnológico e orientação para a otimização da comercialização dos produtos. Desde então, confeccionam peças de crochê e bordado para utensílios de casa e redes de dormir bordadas com varanda de crochê.

Nos seus primeiros anos de funcionamento, a Associação Comunitária de Mocotó não constituía uma empresa formalizada. Somente em 30 de maio de 1989 que a associação foi oficialmente registrada, contando com 15 sócios. Atualmente conta com uma estrutura organizacional formada por uma diretoria e um conselho fiscal, com 26 sócios diretos, sendo 17 mulheres artesãs e 09 homens agricultores. Possui 10 máquinas industriais, com capacidade de produção de até 170 redes por mês.

Como este grupo de artesãs não tinha um local específico para realizar seu trabalho, iniciaram a produção artesanal ao ar livre, sob o pé de uma árvore. Também se reuniam na sala da casa das três irmãs. A princípio, se dedicaram arduamente ao trabalho, sem gerar nenhum lucro para as artesãs, pois os primeiros recursos financeiros obtidos com a venda das redes foram destinados para a ampliação e consolidação do empreendimento.

Através do Programa de Apoio ao Pequeno Produtor (PAPP), a associação, em parceria com SEBRAE/CE e com a EMATER/CE, obteve financiamento para a construção de um galpão industrial, onde funciona a fábrica comunitária de redes de dormir. O prédio foi construído em mutirão, com a ajuda dos membros da comunidade, em um “pedacinho de chão” doado pelo pai das três irmãs (ACM, 2014b).

Posteriormente, a Associação Comunitária de Mocotó buscou o apoio do SEBRAE/CE para a realização de cursos de capacitação sobre gerenciamento do negócio, associativismo, empreendedorismo rural, realização de compras e vendas, atendimento ao cliente e aperfeiçoamento em crochê, bordado e design. Em seguida as artesãs passaram a dividir parte dos recursos financeiros obtidos com a venda das peças de bordado e crochê e das redes de dormir.

Após desenvolver esta capacidade de gerar emprego e renda para a comunidade, por meio do artesanato, a Associação Comunitária de Mocotó passou a debater em grupo possíveis soluções para os demais problemas que afligiam a comunidade, como o

analfabetismo, a mortalidade infantil, o desemprego dos homens, e a falta de energia elétrica, água potável, assistência médica, escolas, transportes e estradas asfaltadas.

Os homens foram incentivados a continuarem trabalhando na agricultura familiar. Para facilitar e aprimorar o trabalho do agricultor, a Associação Comunitária de Mocotó adquiriu por meio do projeto São José, em parceria com o Governo do Estado do Ceará, uma máquina agrícola (trator) para arar as terras, aumentando a produção de grãos de milho, arroz, feijão e frutas, consumidos pela própria comunidade e comercializados, complementando a renda familiar. Logo, através do artesanato e da agricultura, as famílias puderam gerar a renda que precisavam, todos foram progredindo. E hoje possuem casas de alvenaria, carro e/ou moto.

O analfabetismo foi erradicado aos poucos e a Associação Comunitária de Mocotó conseguiu apoio para a construção de uma escola na comunidade, bem como os professores necessários para o ensino básico fundamental. Além disso, as artesãs auxiliavam na manutenção e no funcionamento da escola. Várias crianças obtiveram educação de qualidade, o suficiente para desenvolverem a capacidade de cursar uma faculdade na capital do Ceará, formando-se em profissionais de sucesso. Inclusive, uma artesã financia a faculdade da filha com sua produção do artesanato.

A mortalidade infantil foi eliminada através de um processo educacional, a associação realizava cursos para pais e filhos na tentativa de conscientizá-los sobre como prevenir as doenças mais comuns e os cuidados necessários com a higiene e a saúde. Além disso, a associação intermediou as visitas de médicos do projeto saúde da família para a comunidade, atendendo os moradores juntamente com uma equipe de enfermeiros. Na comunidade também foi instalado um posto de saúde, recebendo o acompanhamento dos agentes de saúde. Logo, o índice de crianças com gripe e diarreia foi reduzido.

A melhoria da saúde dos habitantes do sítio Mocotó, também se deveu à aquisição da água potável, pois antes, devido à falta de água, era necessário cavar uma cacimba bem pequena e utilizar a água não tratada. A associação reivindicou e, por meio de instituições parceiras, obteve um açude público, permitindo que cada morador passasse a ter uma caixa d’água na sua casa e um filtro para tratar a água.

A comunidade também enfrentava problemas de saúde devido à falta de infraestrutura sanitária, pois, como nas casas não tinha banheiro, as pessoas faziam suas necessidades fisiológicas no terraço de suas casas. Logo, a associação também auxiliou as famílias na aquisição de banheiros e uma infraestrutura sanitária adequada, transformando os quintais em

espaços produtivos. Além disso, as estradas foram asfaltadas, facilitando a locomoção entre o distrito Mocotó e os demais municípios que lhe circundam.

Outra dificuldade identificada pela associação foi a falta de energia elétrica no sítio Mocotó, problema que dificultava até mesmo o desenvolvimento da fábrica de rede, pois as artesãs fabricavam as peças à luz de lamparina e não podiam utilizar máquinas elétricas para otimizar a produção. Assim, a associação, depois de muito reivindicar aos órgãos competentes, conseguiu que a rede energia elétrica trifásica fosse instalada na comunidade, permitindo o acesso à informação por meio do rádio e da televisão.

No que se refere ao âmbito espiritual, a associação, com o apoio da própria comunidade construiu uma pequena igreja em mutirão, onde celebram atividades litúrgicas para as famílias, além de realizar um trabalho de catequese com as crianças, contribuindo com sua formação religiosa.

Com o seu notório desenvolvimento, a cada ano, e com o aumento da demanda pelos produtos artesanais, principalmente as redes de dormir, a associação passou a ensinar o ofício do artesanato para outros moradores de Várzea Alegre e de comunidades circunvizinhas, ampliando assim sua produção.

Hoje, a associação trabalha em parceria com 1150 artesãos terceirizados, produzindo 18 tipos de redes de dormir com varanda de crochê, guardanapos, panos de prato, fronha para travesseiros, ponto-cruz, almofadas, toalhas e demais utensílios de casa. Porém, o principal produto são as redes artesanais de dormir, confeccionadas com tecido brim, varandas de crochê e apliques de bordados que refletem a fauna e flora da região do Cariri. Estas redes se destacam no mercado pela sua originalidade e criatividade. Além da qualidade que é garantida devido ao controle exercido pelas artesãs, que verificam se as redes artesanais estão em conformidade com os parâmetros aceitáveis referentes ao bordado, textura, tamanho, encaixe, tonalidade e uniformidade (ANEXO B) (ACM, 2014a).

A venda das redes de dormir é realizada em todo o Brasil e na Europa, através do site da associação (http://www.iniredes.com.br), pelo contato do telefone e email ([email protected]), e por meio da participação em feiras de artesanato e rodadas de negócios realizadas principalmente nos diversos estados brasileiros durante todo o ano. Com a loja virtual as vendas da associação ampliaram significativamente, triplicando número de pessoas que passaram a conhecer as redes artesanais (ACM, 2014c).

Seus principais clientes são consumidores finais, pois, devido ao elevado custo de mão-de-obra, por ser uma peça artesanal que leva tempo para ser confeccionada, acaba se

tornando inviável para a associação definir um preço para revenda. Além daqueles que compram as redes de dormir para usar em casa ou presentear alguém, se destacam os clientes de outras localidades que adquirem os produtos como uma forma de ter uma lembrança do artesanato brasileiro cearense. Algumas empresas também compram, em certa quantidade, as redes de dormir personalizadas para presentear seus funcionários.

A produção das redes de dormir caracteriza-se como um trabalho coletivo, em que as etapas do processo de produção (empunhamento, embainhamento, varandas e macumba) e a quantidade de peças a serem produzidas são dividas entre as artesãs de acordo com as suas capacidade e habilidades, para assim aumentar a produtividade e garantir a qualidade. Ora elas fabricam na sede da fábrica no sítio Mocotó, ora produzem o artesanato nas suas próprias casas com a ajuda dos filhos, ora trabalham em uma casa de apoio localizada no centro de Várzea Alegre. Esta localização no centro de Várzea Alegre facilita a realização dos trabalhos burocráticos e os contatos com os clientes e fornecedores, haja vista que no sítio Mocotó o sinal do telefone e da internet nem sempre funciona.

Apesar de em alguns momentos haver a necessidade de distribuir funções, levando a concretização de trabalhos individuais, a coletividade cultivada durante toda a história da associação é percebida através da sintonia, do compromisso, da harmonia, da responsabilidade e do respeito presentes no ambiente de trabalho. A cada novo desafio as artesãs da Associação Comunitária de Mocotó se organizam de maneira coletiva, para otimizar a produção e a comercialização do artesanato, buscando continuamente o acesso à tecnologia e qualificação.

Recentemente, a Associação Comunitária de Mocotó foi beneficiada com uma Casa Digital para o sítio Mocotó, com computadores e acesso à internet via satélite. Disponibilizando cursos de informática para a comunidade e servindo também como uma ferramenta de pesquisa crucial para a educação de crianças e jovens. Este projeto é fruto de uma parceira da Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Estado do Ceará (DAS) com o programa Telecentro BR, do Ministério das Comunicações e o Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Devido ao seu trabalho exemplar, fundamentado na missão de cuidar do próximo, lutar pela qualidade de vida da comunidade e construir uma sociedade democrática, a Associação Comunitária de Mocotó vem conquistando no decorrer dos anos vários prêmios com reconhecimento a nível municipal, regional, estadual, nacional e mundial.

Prêmio Mulher Empreendedora, concedido pelo SEBRAE. Em 2007, esta mesma fundadora foi a única artesã a representar o artesanato brasileiro no Encontro da Rede Nacional de Mulheres, no México. E neste mesmo ano, a associação ganhou o Prêmio Banco Mundial de Cidadania.

Em 2012, a Associação Comunitária de Mocotó foi premiada com o Projeto Comércio Justo devido ao compromisso de seus membros perante o cuidado com o solo, com o meio ambiente, preservando a natureza e sem poluir a terra. Através deste projeto, realizado pelo SEBRAE Nacional, participou inicialmente de uma missão técnica em vários Estados do Brasil, perfazendo um percurso de três mil quilômetros, visitando shoppings, lojas de artesanato, casas de artesanato, com o intuito de divulgar os produtos e conquistar novos clientes, expandindo sua comercialização.

Simultaneamente, obteve um recurso de 183 mil reais para investir em melhorias na fábrica de artesanato. As artesãs obtiveram consultorias, participaram de vários cursos de aperfeiçoamento (designer, atendimento ao cliente, comercialização, relações humanas, empreendedorismo), aprenderam novas técnicas de produção, aprimoraram as formas de atendimento ao cliente, renovaram suas ações de marketing e documentaram sua história. A partir deste projeto a associação ultrapassou a capacidade de venda obtida nos três últimos anos, progrediu consideravelmente no que se refere às atividades administrativas, financeiras, comerciais, operacionais e de marketing.

Após o progresso obtido com a concretização do Projeto Comércio Justo, a Associação Comunitária de Mocotó foi reconhecida com o Prêmio SEBRAE de Artesanato Top 100, no Rio de Janeiro, classificando-se entre as 100 melhores micro empresas do Brasil na categoria artesanato. Esta conquista é fruto do planejamento e organização do empreendimento, da participação em capacitações e do compromisso das artesãs para com o seu ofício. Além do apoio e reconhecimento de várias instituições e universidades que fomentam trabalhos de desenvolvimento em parceria com a associação.

Em 2013, uma das fundadoras da associação participou da I Exposição Mulher Artesã Brasileira na sede da ONU, em Nova Iorque, representando as mulheres artesãs do Estado do Ceará e promovendo a imagem do artesanato brasileiro no exterior. Este foi um projeto realizado pela Associação Brasileira de Exposição de Artesanato (ABEXA), em parceira com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex–Brasil), com o Instituto Centro Cape e com a Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da República.

Para participar deste evento, a artesã da Associação Comunitária de Mocotó teve apoio do SEBRAE/CE, do Governo do Estado do Ceará, do Centro de Artesanato do Estado do Ceará (CEART) e do Município de Várzea Alegre.

Mediante as conquistas e o progresso alcançado pela Associação Comunitária de Mocotó, conforme exposto acima, percebe-se que esta organização desenvolve um trabalho associativo capaz de transformar a vida das pessoas, tendo como base a produção artesanal orientada para a melhoria de vida das famílias da comunidade, lutando pelos seus direitos básicos, como emprego, saúde, educação, moradia, segurança e alimentação. Fato este que parece convergir para atributos potenciais que condizem com a tecnologia social, temática que será analisado com maior profundidade na próxima subseção.