Em 1993 foi assinado entre Brasil e Bolívia um acordo que previa a construção de um gasoduto de 2.233 Km entre os dois países. Assim, em 1996 a Petrobras iniciou suas operações na Bolívia, através da exploração e beneficiamento do gás natural. No mesmo ano foi dado início à construção do gasoduto Brasil-Bolívia, segundo CPDOC/FGV (2010), com um custo aproximado de 2 bilhões de dólares.
No ano de 1998 foi criada a Petrobras Transporte S.A (TRANSPETRO), com o objetivo de construir e operar dutos, terminais, embarcações e instalações para o transporte e armazenagem de petróleo e derivados, gás e granéis.
No ano seguinte foi inaugurada a primeira etapa do maior gasoduto da América Latina, o Bolívia-Brasil, localizado entre Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) e Campinas/SP. Assim, foi aumentada consideravelmente a participação do gás natural na matriz energética brasileira.
4.1.6 Investimentos
Os investimentos no setor petrolífero impulsionaram a expansão da economia em duas frentes, primeiro com a oferta necessária de derivados de petróleo, possibilitando o processo contínuo de acumulação de capital e o segundo, com a demanda para os setores nacionais que, além de viabilizar a expansão da capacidade de oferta do setor privado, ativam também a criação de demandas deste setor.
No inicio dos anos 1980, devido à crise mundial, ocorreu um aumento da taxa de juros e os bancos internacionais limitaram as novas contratações de empréstimo, o que abalou as estruturas mundiais de tal maneira que foi preciso rever as políticas de crédito externo. O resultado disso, como relata Oliveira (1997), foram problemas de caixa para as empresas estatais, devido à necessidade de pagamento de juros dos empréstimos e redução das receitas. Isto persistiu até a primeira metade da década de 90.
A Petrobras também sofreu o impacto desse quadro, registrando como conseqüência a redução de sua capacidade de investir. Podemos observar essa redução na Tabela 22. Em comparação com o ano de 1987, no qual ocorreu um investimento de R$ 5.838,40 milhões, houve grande decréscimo no que diz respeito ao investimento nos anos seguintes. Já no ano
de 1988 houve uma redução de 87%, seguida por outra de 57% em 1989 e mais da metade em 1990.
Tabela 22 - Evolução dos Investimentos da Petrobras – Brasil - 1984 a 1995 (em R$ milhões)
Ano Investimento Variação Anual (%) Evolução (%)
1984 4.758,64 - 100 1985 5.421,71 13,93 114 1986 6.163,00 13,67 130 1987 5.838,40 -5,27 123 1988 4.140,70 -29,08 87 1989 2.699,14 -34,81 57 1990 2.232,21 -17,30 47 1991 3.095,10 38,66 65 1992 3.190,11 3,07 67 1993 3.983,83 24,88 84 1994 3.042,00 -23,64 64 1995 2.994,00 -1,58 63
Fonte: Elaboração da autora a partir de dados de Oliveira (1997, p.37 apud FUNDAP, 1989).
Entretanto, ainda que apresentando instabilidade nos investimentos, a companhia continuou a investir uma maior parte de recursos nas atividades de exploração e produção. Como se observa na Tabela 23, que evidencia que os investimentos no início dos anos 1990 mantiveram uma média de 56% destinados a E&P.
Tabela 23 - Série Histórica de Investimentos por Atividades da Petrobras – Brasil - 1984 a 1999 (em milhões US$)
ANO E&P % Abastecimento % Outros % Total
1984 1.540,30 92,54 110,90 6,66 13,20 0,79 1.664,40 1985 1.538,40 90,03 157,30 9,21 13,10 0,77 1.708,80 1986 1.786,20 87,76 233,30 11,46 15,80 0,78 2.035,30 1987 2.009,10 79,95 486,10 19,34 17,60 0,70 2.512,80 1988 1.429,60 68,25 631,10 30,13 33,80 1,61 2.094,50 1989 1.145,00 64,10 618,20 34,61 23,30 1,30 1.786,40 1990 1.306,00 64,81 407,00 20,20 302,00 14,99 2.015,00 1991 1.399,00 64,83 495,00 22,94 264,00 12,23 2.158,00 1992 1.573,00 58,54 636,00 23,67 478,00 17,79 2.687,00 1993 1.530,00 65,36 481,00 20,55 330,00 14,10 2.341,00 1994 1.511,00 62,65 573,00 23,76 328,00 13,60 2.412,00 1995 1.628,00 48,02 1.147,0 33,83 615,00 18,14 3.390,00 1996 1.664,00 45,94 1.079,0 29,79 879,00 24,27 3.622,00 1997 1.849,00 46,12 955,00 23,82 1.205,00 30,06 4.009,00 1998 2.564,00 51,49 830,00 16,67 1.586,00 31,85 4.980,00 1999 2.316,00 58,23 532,00 13,38 1.129,00 28,39 3.977,00
Tal estratégia da Petrobras foi de grande valia, pois o final dos anos 90, como destaca seu Relatório Anual de 1998, foi um marco na evolução das atividades de E&P, devido à aquisição de 397 concessões em território brasileiro, distribuídas em blocos exploratórios, de desenvolvimento da produção e campos em produção.
Tal resultado foi obtido quando a empresa apresentou ao ministro de Minas e Energia a relação das 206 áreas contendo 240 campos em efetiva produção e solicitou autorização para dar continuidade aos trabalhos em 133 áreas (blocos) de exploração e 52 áreas, englobando 60 campos com atividades de desenvolvimento da produção. No ano seguinte, como resultado de sua solicitação, a ANP definiu as áreas que ficariam sob a responsabilidade da Petrobras, tendo sido assinados os contratos de concessão em 6 de agosto de 1998.
Com as mudanças ocorridas nessa década, como a abertura comercial e o fim do monopólio, formou-se um ambiente mais competitivo que, por sua vez, exigiu mudanças na forma de atuação. Sendo assim, a Petrobras trabalhou com uma atuação integrada em suas atividades, dadas as variadas situações enfrentadas pela companhia na produção de petróleo.
Para ilustrar sua maneira de integrar todas as suas atividades, a estatal faz uso do termo “Integração Vertical”, que significa agrupar as diversas atividades em dois grupos complementares. Segundo Petrobras (1993), exploração e produção estão no Grupo
Upstream, que refere-se às atividades básicas da empresa. E o refino, transporte, petroquímico
e distribuição estão no Grupo Downstream.
Tal estratégia traz várias vantagens, tais como: segurança no abastecimento, redução de custo de comercialização, economia de escala, além da diminuição dos riscos globais das atividades.
Segundo CPDOC/FGV (2010), os segmentos de P&D e engenharia básica somaram o equivalente a US$ 216 milhões em 1998, dos quais US$ 197 milhões foram investidos diretamente no CENPES. Ainda no mesmo ano, em busca de aumento na oferta de gás natural, foi concluída a negociação de empréstimo-ponte no valor de US$ 30 milhões, destinados ao Projeto Cabiúna, no estado do Rio de Janeiro, o que possibilitou maior aproveitamento do gás natural da Bacia de Campos. Tal projeto compreende instalações de processamento e dutos terrestres, inclusive para o transporte do gás para Vitória/ES.
A Tabela 24 mostra muito bem a evolução dos investimentos da estatal em gás e energia no final dos anos 90. A partir de 1996 houve um tímido início dos investimentos, no montante de US$ 12 milhões, o que cresceu vertiginosamente já em 1998, quando passaram para US$ 519 milhões.
Tabela 24 - Investimentos em Gás & Energia da Petrobras – Brasil – 1995 a 1999 (em milhões US$)
ANO Gás & Energia
1995 -
1996 12,0
1997 78,0
1998 519,0
1999 501,0
Fonte: Elaboração da autora a partir de dados de Petrobras (2010)