A abertura do mercado acarretou no crescimento do mercado brasileiro de petróleo e produtos derivados, devido ao aumento da concorrência entre empresas nacionais e estrangeiras. Seguindo esse caminho, os fornecedores de bens e serviços nacionais e estrangeiros também passaram a dividir espaço e disputar mercado com as companhias petroleiras nacionais e estrangeiras.
Segundo Silva e Furtado (2006), a indústria brasileira de petróleo e gás natural (P&GN) passou por muitas mudanças no plano macroeconômico, que repercutiram sobre a política de compras da Petrobras, tais como: abertura da economia, reformas no plano institucional, quebra do monopólio da Petrobras, criação da ANP e do CNPE em 1997, além da formação de um novo regime tributário para a indústria de P&GN.
Essas modificações não afetaram somente o governo, mas também a Petrobras, que implementou mudanças organizacionais ao longo de década, principalmente, como destaca Silva e Furtado (2006, p. 78), na relação da empresa com seus fornecedores nacionais. “A análise da política de compras da Petrobras contempla [...] em especial aquelas levadas a cabo em bacias marítimas, em virtude da importância deste segmento dentro das atividades da Petrobras nos últimos tempos”.
Dentre as ações do governo, merece destaque o lançamento do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo (PROMINP), cujo objetivo era fazer com que a produção de P&GN trouxesse oportunidades de crescimento para a indústria petroleira nacional. Segundo Silva e Furtado (2006, p.104), o PROMINP representa a agenda do governo para a indústria de P&GN, na qual instiga a Petrobrás a “adotar uma estratégia de compras que fomente a capacitação e o aprendizado tecnológico dos fornecedores locais”, isto é, o programa proporciona “um ambiente propício à inovatividade da indústria para-petroleira local”.
No que diz respeito à relação entre companhias operadoras e fornecedores especializados, a maior eficácia pode ser atribuída às operadoras, devido ao volume do esforço tecnológico, sobretudo no campo de tecnologias offshore (exploração e produção de petróleo e gás natural em bacias marítimas, fora do continente). Silva e Furtado (2006 p.104 apud ANP, 2002) destacam que “segmento offshore é aquele que mais têm crescido na Petrobras nos últimos anos. Em 2002, a produção de petróleo em campos marítimos respondeu por 83,4% da produção nacional”.
A Petrobras foi criada visando diminuir as restrições da industrialização, pois na época o país possuía uma base carente de recursos petrolíferos que, atualmente é considerada o principal ator desta indústria no Brasil. Prova disso é que o segmento petroleiro foi um dos pilares do modelo de industrialização por substituição de importações, adotada pelo Brasil novamente a partir da segunda metade dos anos 90.
Nas primeiras décadas de existência da empresa, as diretrizes políticas do Estado estavam centradas no desenvolvimento da indústria doméstica, adotando políticas de substituição de importações. Assim, a Petrobras serviu de instrumento para a consolidação da indústria brasileira de bens de capital sob encomenda.
Em seus primeiros anos de vida (sobretudo entre as décadas de 1950 e 1980), a operadora nacional adotou uma política de estímulo ao desenvolvimento da indústria de bens de capital no Brasil, com vistas a tornar tal indústria apta a participar dos seus projetos de construção de refinarias e infra-estrutura de produção, transporte e distribuição de petróleo e derivados. Essa política implementada pela Petrobras apresentou três frentes de atuação: 1) estímulo à transferência de tecnologia, inclusive mediante a participação de firmas brasileiras em projetos conjuntos com firmas estrangeiras; 2) estimulo à criação de uma associação dos fabricantes de equipamentos (ABDIB), cuja principal tarefa seria difundir normas e procedimentos de controle de qualidade e; 3) criação de um sistema de pré-qualificação de fornecedores em seu Serviço de Materiais (Semart) que, além de verificar a capacidade financeira e gerencial, fornecia a orientação e a assistência técnica necessária ao desenvolvimento da capacitação tecnológica dos fornecedores, cuja mola mestra era o controle de qualidade (SILVA; FURTADO, 2006 apud ALONSO, 2004, p.22 e 23).
Durante a década de 1970, os Planos Nacionais de Desenvolvimento (PNDs) proporcionaram grandes investimentos na indústria nacional, que trouxeram resultados positivos para a indústria de P&GN. Os PNDs tinham como objetivo a substituição de importação, determinandoa proibição de inportar qualquer mercadoria ou serviço que pudesse ser fabricado ou fornecido nacionalmente. “Criaram-se barreiras de toda ordem para barrar o processo de importação, evidenciando a intenção do governo brasileiro em promover a substituição de importações na indústria local” (Silva e Furtado, 2006 apud Souza, 1997, p. 89).
Entretanto, a nacionalização das compras da Petrobras não decorreu apenas do nacional-desenvolvimentismo do país, mas também da questão cambial e da restrição de divisas, que fortaleceram seu relacionamento com a indústria nacional, tornando-a preocupada com o desenvolvimento produtivo e tecnológico dessa.
Dessa maneira, no período entre 1970-90, ocorre a fase da política de compras da Petrobras para seu segmento offshore, fortemente marcado pelo modelo de desenvolvimento
seguido pelo governo brasileiro, de substituição de importações. A compra de similares nacionais superou os investimentos em E&P da estatal brasileira nesse período.
A partir da década de 1990 começa uma busca por um novo consenso mundial, resultando na revisão das políticas para o setor de energia, especialmente na indústria de petróleo e gás natural, como destaca:
A emergência de um novo consenso mundial nos anos 1990 resultou na revisão das políticas para o setor de energia no Brasil. Especificamente no caso da indústria de P&GN, o governo brasileiro promoveu mudanças no plano institucional cujo objetivo foi criar um novo ciclo de investimentos nessa indústria, através da entrada de novos players internacionais. Além disso, no plano macroeconômico, a sobrevalorização do real também teve importantes reflexos sobre a dinâmica da indústria em questão (SILVA; FURTADO, 2006 apud ALMEIDA, 2003, p. 67).
Durante os anos 1990, devido a acontecimentos como a abertura comercial e a quebra do monopólio, ocorreu uma mudança no comportamento da Petrobras junto aos seus fornecedores nacionais, diminuindo o índice de nacionalização de suas compras. Para Silva e Furtado (2006), outro fator que contribuiu para essa inversão foi a gama de problemas que a empresa passou a enfrentar, no que diz respeito à qualidade dos produtos e tempo de entrega dos fornecedores.