5. REGNSKAPSANALYSE
5.4 O MGRUPPERING FOR ANALYSE
5.4.1 Omgruppering av resultatregnskapet
Como já relatado, no período pós-Segunda Guerra Mundial, o sistema capitalista adentra uma nova fase, caracterizada pela retomada de sua expansão, sob a hegemonia norte-americana. Apesar da bipolaridade estabelecida entre países capitalistas e socialistas, durante o período da chamada Guerra Fria, reconhece-se uma tendência à internacionalização do capital. Conforme Ianni (1997, p. 46),
Sob certos aspectos, a Guerra Fria, nos anos 1946-89, foi uma época de desenvolvimento intensivo e extensivo do capitalismo pelo mundo. Com a nova divisão internacional do trabalho, a flexibilização dos processos produtivos e outras manifestações do capitalismo em escala mundial, as empresas, corporações e conglomerados transnacionais adquirem preeminência sobre as economias nacionais. Elas se constituem nos agentes e produtos da internacionalização do capital.
As mudanças políticas e econômicas ocorridas entre fins dos anos 1980 e início dos 1990 (já relatadas no tópico anterior) inauguram o período da chamada “nova ordem econômica mundial”, caracterizada pela intensificação do processo de internacionalização capitalista, e da ação hegemônica das empresas multinacionais e transnacionais.50 Neste sentido, de acordo com Ianni (1997, p. 47),
Na base da internacionalização do capital estão a formação, o desenvolvimento e a diversificação do que se pode denominar ‘fábrica global’ [...]Intensificou-se e generalizou-se o processo de dispersão geográfica da produção, ou das forças produtivas, compreendendo o capital, a tecnologia, a força de trabalho, a divisão do trabalho social, o planejamento e o mercado. A nova divisão internacional do trabalho e da produção, envolvendo o fordismo, o neofordismo, o toyotismo, a flexibilização e a terceirização, tudo isso amplamente agilizado e generalizado com base nas técnicas eletrônicas, essa nova divisão internacional do trabalho concretiza a globalização do
capitalismo, em termos geográficos e históricos. (destaque nosso).
Embora a globalização do capitalismo tenha se propagado já no período pós-guerra, foi a partir do início dos anos 1980 e 1990 que tal processo se acentuou. Nos dizeres de Santos (2000, p. 23), “A globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista.”, ou seja, quando a internacionalização do capital financeiro e produtivo atinge uma escala global.
Castells (1999, p. 118) se refere ao “último quartel do século XX” como o período de surgimento de uma “nova economia”, denominada por ele de “informacional, global e em rede.” Trata-se de um tríplice aspecto que caracterizaria a economia contemporânea, justificado pelo autor da seguinte forma,
É informacional porque a produtividade e a competitividade de unidades ou agentes nessa economia (sejam empresas, regiões ou nações) dependem basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente a informação baseada em conhecimentos. É global porque as principais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus componentes (capital, trabalho, matéria-prima, administração, informação, tecnologia e mercados) estão organizados em escala global [...] É rede porque, nas novas condições históricas, a produtividade é gerada, e a concorrência é
50 Apesar do capitalismo ainda possuir bases nacionais, estas já não são determinantes, pois a “dinâmica do capital, sob todas as formas, ultrapassa as fronteiras geográficas, regimes políticos, culturas e civilizações.” O próprio conceito de Estado-Nação muda seu significado, já que muitas das decisões são determinadas por “[...] instituições, organizações e corporações multilaterais, transnacionais ou propriamente mundiais, que pairam acima das nações.” (IANNI, 1997, p. 48-49).
feita em uma rede global de interação entre redes empresariais. (CASTELLS, 1999, p. 118).
Para abordar a nova economia, que se insere no contexto da globalização contemporânea, Castells (1999, p 142) apresenta uma diferenciação entre economia mundial e
economia global, expressões estas que muitas vezes são confundidas ou tratadas como
sinônimos. Com base em Braudel (1967) e Wallerstein (1974), segundo o referido autor, a economia mundial consiste naquela em que “a acumulação de capital avança por todo o mundo”, fato que ocorre, no Ocidente, desde o século XVI. Já a economia global seria aquela “com capacidade de funcionar como uma unidade em tempo real, em escala planetária.”
Embora o modo capitalista de produção seja caracterizado por sua expansão contínua [...] foi apenas no final do século XX que a economia mundial conseguiu tornar-se verdadeiramente global com base na nova infra-estrutura [sic], propiciada pelas tecnologias da informação e da comunicação, e com a ajuda decisiva das políticas de desregulamentação e da liberalização postas em prática pelos governos e pelas instituições internacionais. (CASTELLS, 1999, p. 142).
Ainda conforme o autor (p. 142), as economias mundiais dependem de seu “núcleo globalizado”, o qual “[...] contém os mercados financeiros, o comércio internacional, a produção transnacional e, até certo ponto, ciência e tecnologia, e mão-de-obra [sic] especializada.”
Assim, um dos aspectos que caracterizariam a economia global seriam os mercados
financeiros globais ou a globalização financeira.
Dentre os fatores que teriam contribuído para o processo de globalização financeira, desencadeado a partir dos anos 1980, Sposito e Santos (2012, p. 31-32) resumem os seguintes:
- o “fim do padrão ouro-dólar”, no início da década de 1970, o qual levou o câmbio a ser regulado pelo mercado financeiro, e não mais pelos bancos centrais de cada país;
- as políticas de liberalização econômica adotadas pelos países centrais (Inglaterra e Estados Unidos), nos anos 1980;
- a saída de divisas por conta da Guerra do Vietnã, que obrigou as multinacionais estadunidenses a financiarem seus investimentos no exterior, contribuindo para o fortalecimento “[...] dos bancos londrinos, então depositários de dólares oriundos de diversas fontes [...]” fora dos Estados Unidos;
- os grandes depósitos de dólares realizados fora dos Estados Unidos, os eurodólares, além dos petrodólares depositados em bancos deste país e europeus, ocasionaram uma “[...]
excessiva liquidez no sistema financeiro e uma demanda bem abaixo por capitais pelos países desenvolvidos em recessão [...]”, resultando em queda de juros, e em disponibilidade de capitais para os países periféricos, em vias de industrialização;
- o discurso neoliberal propagado pelos governos dos Estados Unidos e Inglaterra, nos anos 1980, de mínima intervenção do Estado na economia, regulada pelo mercado.
Neste contexto, ainda segundo os autores (p. 33-34), a ação de organismos internacionais como o Banco Mundial (BIRD) e Fundo Monetário Internacional (FMI) foi essencial, no propósito de estimular a adoção, por parte dos países subdesenvolvidos, de políticas liberais, pautadas em privatizações e em desregulamentação econômica, a fim de atraírem investimentos estrangeiros diretos (IED), de grandes empresas multinacionais.
Para Castells (1999, p. 143), a globalização financeira trata-se de uma interdependência global dos mercados de capitais, nos quais “O capital é gerenciado vinte e quatro horas por dia [...] funcionando em tempo real pela primeira vez na história: transações no valor de bilhões de dólares são feitas em questão de segundos, através de circuitos eletrônicos por todo o planeta.”.51
Santos (2006, p. 207-208) aborda a importância da informação para as atividades financeiras e bancárias, afirmando que os mercados tendem a se globalizar e a se confundir. A finança global constitui-se na “principal alavanca das atividades econômicas internacionais”, devido aos processos de “multinacionalização”, que “[...] se dá com a penetração nos sistemas financeiros de todos os países através das redes comerciais”; e a “transnacionalização”, em virtude da “[...] emergência e crescimento de novas praças e centros financeiros em todos os continentes, incluindo mercados off-shore e paraísos fiscais [...].”52
Ainda sobre a importância da movimentação financeira no contexto econômico contemporâneo, Castells (1999, p. 147) enfatiza que “A globalização dos mercados financeiros é a espinha dorsal da nova economia global.” Para Santos (2006, p. 210), “O setor financeiro se torna o verdadeiro regulador da economia internacional [...] mais uma ameaça ao papel de controle que cabia aos Estados [...].”
Todavia, se por um lado o processo de globalização representa o alcance e o fortalecimento do capital financeiro, em nível global, por outro, significa a disseminação do capital produtivo, em escala planetária. Os investimentos de capital produtivo ocorrem através
51 A integração ao circuito financeiro global ocorre não somente pelos países desenvolvidos, mas também pelos ‘mercados emergentes’. (CASTELLS, 1999, p. 144).
52Conforme Santos (2006, p. 208), “Um bilhão de dólares é o movimento diário de um mercado financeiro que tem agora uma localização multicontinental.”
da distribuição de filiais de empresas (industriais, agrícolas, comerciais, de bens e de serviços), em espaços cujas localizações ultrapassam os limites territoriais de seus países de origem.
Neste contexto, tais empresas recebem diferentes denominações, conforme a situação que desfrutam ou papel que exercem na produção e comércio mundiais, podendo ser chamadas de empresas globais, empresas mundiais, empresas redes, multinacionais, transnacionais e/ou empresas hegemônicas. Desta forma, para Santos (2006, p. 205), as maiores delas consistem em empresas globais, e não simplesmente multinacionais ou transnacionais53, já que estas últimas “funcionam num âmbito geográfico mais restrito”.
Uma das diferenças entre a firma multinacional e a firma global vem exatamente da mudança no conceito de autonomia operacional, esta devendo ser subordinada a uma estratégia de conjunto, adaptada às novas condições da concorrência. [...] as decisões, responsabilidades e recursos estratégicos descentralizados se submetem a um estreito controle que inclui a integração no nível mundial da concepção dos produtos, de sua fabricação e de sua distribuição. [...] É desse modo que a criação de firmas-rede se torna uma tendência e uma necessidade, resultantes da combinação entre o imperativo da integração e o imperativo da globalização [...] As empresas globais funcionam em redes, desenvolvendo toda sorte de ramificações e interdependências globais [...].
Contudo, o autor também utiliza em vários momentos a expressão empresas
mundializadas, em referência às empresas que atuam em escala planetária, especificamente, as
multinacionais. Neste presente estudo, as empresas a serem analisadas tratam-se tanto de empresas nacionais (porém, algumas com atuação de alcance em nível mundial) como de
53De acordo com Carvalho Filho (2011, p. 91) “O termo ‘Empresas Multinacionais’ foi inicialmente proposto pelo empresário David E. Lilienthal (BRESSER-PEREIRA, 1978, p. 12), em uma conferência do Carnegie Institute of Technology, tendo pesquisas, no decorrer dos anos, redefinido sua concepção como forma de amenizar os impactos causados à conotação negativa que o termo adquiriu. O objetivo inicial das Multinacionais era o de explorar mercados externos maquiando a sua origem e, assim, utilizar-se de artifícios para burlar leis dos países onde instalam suas subsidiárias e/ou filiais. (UNCTDA, 2002 apud CRETELLA NETO, 2006, p. 20). A evolução dos ensaios, sobre essa temática, levou à redefinição destas grandes firmas para Empresas Transnacionais, estas que adquirem um contorno de empresa global, presente em diversos setores econômicos e resultam de um processo histórico de concentração e centralização de capital intrínseco na expansão capitalista (GONÇALVES, 1992, p. 19). [...] Uma das definições mais aceitas, para se compreender o conceito de Companhias Transnacionais, no contexto moderno, é dado [sic] pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD, 2010): a Empresa Transnacional (ETN) é geralmente considerada como uma empresa que compreende as entidades em mais de um país que operam sob um sistema de tomada de decisão que permite políticas coerentes e de uma estratégia comum. As entidades são tão ligadas, por posse ou não, que uma ou mais delas podem ser capazes de exercer uma influência significativa sobre os outros e, em particular, partilhar conhecimentos, recursos e responsabilidades com os outros.” (CARVALHO FILHO, 2011, p. 91).
empresas estrangeiras, com unidades em vários países, além do Brasil, portanto consideradas multinacionais.
Paralelamente à globalização das empresas e da produção, as relações comerciais internacionais se intensificam, envolvendo diversos países e continentes, atingindo, pois, uma escala globalizada Benko (1999, p. 46), ao analisar os principais aspectos característicos da economia mundial contemporânea, destaca, além da acirrada “[...] concorrência entre espaços nacionais, blocos (inter-) regionais e empresas transnacionais [...]”, a globalização dos mercados e do comércio internacional, ao afirmar que,
Os movimentos constitutivos das trocas mundiais atravessam os diferentes mercados nacionais e os ultrapassam ao mesmo tempo, operando em redes de escala transnacional. A globalização dos mercados difere das estratégias clássicas de exportação [...] uma vez que implica transnacionalização da produção, do financiamento e das áreas de escoamento. Nesse contexto, a parte das trocas exteriores em relação ao volume global das trocas no seio das economias nacionais aumenta consideravelmente: elas representam doravante parte crescente do PIB das formações capitalistas centrais. (BENKO, 1999, p. 46, destaque do autor).
Assim, é neste contexto que países, a exemplo do Brasil, têm intensificado suas atividades de exportação, articulando-se ao mercado globalizado.54
No tocante à dimensão espacial do processo da globalização, Santos (1997, p. 50-51) elenca algumas características dos espaços globais ou mundializados, cujas principais seriam:
- a transformação dos territórios nacionais em espaços nacionais da economia internacional;
- a exacerbação das especializações produtivas no nível do espaço;
- a aceleração de todas as formas de circulação e seu papel crescente na regulação das atividades localizadas, com o fortalecimento da divisão territorial e da divisão social do trabalho;
- a produtividade espacial como dado na escolha das localizações;
- a tensão crescente entre localidade e globalidade à proporção que avança o processo de globalização.
Além destes, há tendência à formação de um meio-técnico-científico-informacional, que abrangeria tanto o campo quanto a cidade, pois conforme Santos (1997, p. 51-52),
A ciência, a tecnologia e a informação estão na base [...] de todas as formas de utilização e funcionamento do espaço [...] É a cientificização e a tecnicização da paisagem. É também, a informatização, ou antes, a informacionalização do espaço. [...] Os espaços assim requalificados atendem sobretudo a interesses dos atores hegemônicos da economia e da sociedade, e assim são incorporados plenamente às correntes de globalização.
O processo de globalização envolve, evidentemente, diversas atividades econômicas que se materializam no espaço geográfico. Diversos países têm participado da divisão internacional do trabalho contemporânea, por meio da atuação de empresas vinculadas às atividades agrícolas e agroindustriais, seja através da instalação de subsidiárias em outros países, seja pela compra de empresas estrangeiras, ou ainda, pela exportação de produtos, muitos dos quais considerados commodities no mercado internacional.