• No results found

3.   Teori

3.5   Omdømme

O envolvimento português num conflito tão distante de suas fronteiras era conseqüência da política de reaproximação implementada pelas Coroas ibéricas ao final da

Guerra dos Sete Anos. A assinatura do Tratado de Santo Ildefonso, em 1º de outubro de 1777, e o tratado de aliança defensiva assinado no ano seguinte entre Portugal e Espanha fizeram parte daquele processo, coroado pelos casamentos reais que, em 1785, atualizaram os laços de família historicamente existentes entre as monarquias ibéricas.

A aliança entre as Coroas ibéricas oferecia a Portugal alguma tranqüilidade em relação ao perigo de invasão de suas fronteiras, tanto na Europa quanto na América. De acordo com os planos, a situação lhe daria maior autonomia em relação à poderosa Inglaterra. A Espanha, por sua vez, contaria com a ajuda ou, pelo menos, com a neutralidade lusa no caso de possíveis disputas com os ingleses.

Os esforços diplomáticos portugueses estavam direcionados para a ratificação de sua política de neutralidade continental, o que resultou na assinatura de convenções também com a Rússia, líder da liga de neutralidade formada na época da guerra de independência dos Estados Unidos. Essa política, no entanto, seria obstada pela Revolução Francesa e por seus desdobramentos.

A primeira fase das mudanças ocorridas na França foi acompanhada com curiosidade por uma parte da população lusa e, de modo especial, por alguns funcionários régios simpáticos às propostas reformistas da monarquia. A Gazeta de Lisboa publicou textos de apoio ao movimento francês, enviados por seu correspondente em Paris. Ele noticiava, com grande entusiasmo, algumas das iniciativas da Assembléia dos Estados Gerais, tal como a determinação da extinção dos direitos tradicionais sobre a terra.2 O próprio embaixador português em Paris, d. Vicente de Sousa Coutinho, manteve a rainha informada sobre os acontecimentos, dada a curiosidade por ela manifestada. D. Vicente comentou em correspondência ao ministro da Guerra e de Negócios Estrangeiros que muita coisa boa encontrava-se nos cadernos da Assembléia dos Estados Gerais que ele enviava a Lisboa, e chegou mesmo a criticar Luís XVI por ignorar as “vozes reformadoras dos franceses.”3

Tal condescendência começou a diminuir na medida em que os embates se radicalizaram, e chegou a termo quando a proposta de reforma da monarquia deu lugar à implantação da república. A sucessão dos acontecimentos silenciou a Gazeta e intensificou o

2 PEDREIRA, Jorge & COSTA, Fernando Dores. D. João VI, o Clemente. Círculo de Leitores: Lisboa, 2006, p.48 e ss.

3BORGES, João Vieira. Intervenções militares portuguesas na Europa do século XVIII. Instituto de Altos Estudos Militares. Ed. Atena: Estoril, 2000, p. 172.

esforço da Intendência Geral de Polícia para conhecer e punir aqueles que quisessem divulgar idéias sediciosas.

Os reinos europeus agitaram-se, mas a mobilização das potências contra os revolucionários só ocorreria depois das execuções de Luís XVI e Maria Antonieta. O regicídio cristalizou o consenso sobre o que fazer com a França: era preciso punir exemplarmente os culpados e restaurar a ordem monárquica.

O envolvimento da Espanha na questão francesa decorreu dos laços familiares que ligavam os dois tronos. O rei Carlos IV solicitou o apoio português em nome dos mesmos laços de família e dos tratados assinados naqueles anos. Ainda assim, a política de neutralidade portuguesa foi veementemente defendida pelos embaixadores lusos desde os primeiros momentos da mobilização espanhola contra a França, quadro que somente seria alterado com a decisiva entrada em cena da Grã-Bretanha. Vendo seus dois principais aliados envolvidos na guerra e pressionando d. João, Portugal não teve como se manter ausente. Novas convenções foram estabelecidas e constituiu-se uma tríplice aliança para atender à condição imposta por Portugal4.

A convenção assinada pelos portugueses e espanhóis caracterizou como defensiva a campanha do Roussillon e da Catalunha, o que permitiu a Portugal participar dos embates na condição de potência auxiliar e aliada, mas sem ser obrigado a declarar guerra à república francesa. Esses esforços para manter oficialmente a política de neutralidade, mesmo que por sutilezas contratuais, sugerem, segundo Valentim Alexandre, que a participação portuguesa na Guerra do Roussillon deveu-se a uma completa impossibilidade de resistir às pressões das aliadas Espanha e Inglaterra, e não por questões ideológicas5.

Acertada a participação portuguesa no conflito, passou-se à organização da Divisão Auxiliar. O tenente-general graduado João Forbes Skelater foi designado comandante-em- chefe, sendo auxiliado por um numeroso Estado-Maior. A Divisão Auxiliar contou com o efetivo de aproximadamente 5.400 homens6 distribuídos em três brigadas de infantaria e uma de artilharia, da qual Raimundo José da Cunha Mattos faria parte.

4 Com a Espanha, foi assinada a Convenção provisional em 15 de julho de 1793, e a convenção com a Inglaterra foi firmada em setembro. CASTRO, José Ferreira Borges de (org.) Collecção dos Tratados, convenções, contratos e actos públicos celebrados entre Coroa de Portugal e as mais potências desde 1640 até ao presente. Tomo IV. Imprensa Nacional: Lisboa, 1857, p. 10 – 17; 20.

5 ALEXANDRE, Valentim. Os sentidos do Império. Edições Afrontamento: Porto, 1993, p. 97 e ss.

6SORIANO, Simão José da Luz. História da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal. Compêndio de história diplomática, militar e política deste reino desde 1777 até 1834. Tomo I.

A Divisão Auxiliar agregava militares da geração de Lippe e jovens oficiais que atuariam de modo significativo nos sucessos portugueses naquela conturbada passagem de século. Alguns nobres estrangeiros também participaram como voluntários na primeira fase da campanha.

As tropas portuguesas embarcaram para o Roussillon entre os dias 18 e 20 de setembro de 1793. Partindo das cidades de Lisboa e Lagos, chegaram ao porto de Rosas, na Catalunha, no início de novembro.

O Exército aliado era comandado por d. Antônio Ricardos Carrillo, general espanhol experiente e bem conceituado. A campanha teve início com a ofensiva francesa em finais de março de 1793, mas a reação espanhola rapidamente inverteu a situação e dominou o vale do rio Tech e algumas fortalezas no litoral, marcando posições em boa parte do Roussillon. No entanto, a perda de soldados espanhóis ao longo dos primeiros meses de conflito e os reforços mandados da França logo demonstraram a precariedade das posições conquistadas pelos hispânicos.

A campanha estava nesse ponto quando a Divisão Auxiliar chegou à Catalunha em finais de 1793. Nas instruções reais ao tenente-general7 Forbes, foi reafirmada a subordinação da Divisão ao comando espanhol. As tropas portuguesas receberiam o mesmo tratamento que as espanholas. Contudo, no caso de delitos, os soldados seriam julgados de acordo com as leis e regulamentos do Exército português, exceção feita aos crimes de lesa-majestade, de moeda falsa ou de resistência às justiças, casos em que os militares seriam punidos pelas próprias leis do país.

Conforme previsto no acordo, a Divisão Auxiliar portuguesa foi diluída no contingente espanhol de aproximadamente 33.500 homens. O efetivo, contudo, seria rapidamente reduzido pelas mortes, prisões e deserções.

A chegada dos portugueses dera novo ânimo ao general espanhol, que traçou um plano de avanço da linha de ataque. A Divisão Auxiliar destacou-se em importantes e difíceis batalhas, merecendo calorosos elogios dos oficiais espanhóis. Apesar disso, o tratamento dado aos portugueses no cotidiano da campanha seria matéria de muitas reclamações à Corte em Lisboa.

Imprensa Nacional: Lisboa, 1866, p. 512 e ss. Ver também: BORGES, João Vieira. Intervenções militares portuguesas..., op. cit, p. 185.

7SORIANO, Simão José da Luz. História da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal. Compêndio de história diplomática, militar e política deste reino desde 1777 até 1834. Tomo I. Imprensa Nacional: Lisboa, 1866, pp. 163-182.

Em dezembro, os exércitos se recolheram aos acampamentos de inverno. Os portugueses tiveram que enfrentar o clima rigoroso dos Pirineus em condições muito adversas devido às falhas da logística espanhola, que os havia deixado sem agasalhos e alimentos suficientes. Além disso, a extensão da linha de defesa exigia grandes esforços físicos das tropas de vigilância, situação agravada pelos ataques de camponeses. Parte do oficialato voltou para Lisboa e Madri, e muitos não regressaram àquele teatro de guerra.

O ano de 1794 seria desastroso para os aliados. O novo general francês, Dugomier, rapidamente conseguiu reconquistar parte do território, primeiramente os do litoral, dificultando o reabastecimento e os reforços do Exército aliado concentrado nas montanhas.

A morte do general Ricardos em Madri colocara d. Luis Fermin de Carvajal y Vargas, conde de la Unión, no comando do Exército aliado. Nascido em Lima, o general contava com a simpatia dos soldados, mas seus críticos o consideravam inexperiente. Retornando ao campo de batalha em abril, encontrou as tropas numa situação que se demonstraria insustentável. As investidas francesas de 29 de abril, cinco dias após seu retorno, resultaram na caótica retirada dos ibéricos da região de Ceret. A linha defensiva reorganizada por Unión provou-se insuficiente e, em meados de maio, o Exército aliado foi expulso do Roussillon. O conflito havia chegado às portas da Catalunha.

As perdas humanas e materiais foram enormes. A Divisão Auxiliadora foi particularmente atingida, pois, encarregada de dar cobertura à retirada, perdeu quase toda a artilharia em campo. A situação obrigou Forbes a solicitar a Lisboa que negociasse a retirada dos portugueses, visto não haver mais condições de se manterem em combate, mas a Espanha negou-se veementemente a qualquer acordo com Portugal.

Os aliados estabeleceram uma linha de defesa na entrada das montanhas da Catalunha e conseguiram mantê-la até novembro, quando ocorreram violentos embates entre os exércitos. Deles resultaram uma nova retirada aliada e as mortes do general Dugomier e do conde de la Unión, substituídos, respectivamente, por Perignon e por d. José de Urrutia.

Urrutia reorganizou seu Exército e restabeleceu o ânimo e a disciplina dos soldados. A Divisão Auxiliadora, então com pouco mais de 2.000 homens, formou o corpo de reserva juntamente com tropas espanholas e foi posicionada perto da povoação de Olivas, onde havia sido instalado o quartel-general aliado.

O novo comandante manteve-se cauteloso. Os ataques que organizava eram pequenos e bem calculados. Conseguiu retomar várias posições espanholas dos franceses e deslocar os

embates para o território inimigo. Os reforços enviados por Barcelona, principalmente os somatenes8, foram de grande auxílio na nova fase do conflito.

O movimento espanhol, contudo, era muito limitado pela falta de conhecimento do terreno e pela resistência dos populares. Em Puig-cerdá, por exemplo, os cidadãos revoltosos enfrentaram os soldados aliados com armas, água quente e azeite. Em represália, muitos deles foram degolados, e parte da população feminina foi violada, como forma de punição. Em outra ocasião, a retirada da cavalaria espanhola deixou exposta a infantaria, que acabou passada a fio de espada.

A continuidade da guerra tornava-se insustentável para a Espanha. A Coroa enfrentava crescentes revoltas contra o recrutamento, que atingia um entre cada cinqüenta vencinos. Diante do esvaziamento dos cofres reais, as despesas do Estado estavam sendo pagas com títulos que chegaram a 150 milhões de cruzados. Não havia homens, recursos nem crédito que possibilitassem a manutenção da guerra.

A Espanha retomou então negociações de paz com a França, à revelia de Portugal e da Inglaterra. A proposta de paz espanhola foi rapidamente aceita pela França, empenhada em diminuir suas frentes de batalha. O Tratado da Basiléia foi assinado pelos dois países determinando a retirada da França do território espanhol (Rosas, Figueras e S. Fernando), o que seria compensado com a entrega aos franceses da parte espanhola da ilha de S. Domingos. O acordo previa a liberação de todos os prisioneiros de guerra, inclusive dos mais de mil portugueses.

A desmobilização e os preparativos da partida das tropas portuguesas deram-se logo depois de encerradas as hostilidades. A Divisão Auxiliadora chegou a Lisboa no início de dezembro de 1795. O desembarque ocorreu em meio a festejos aos quais estiveram presentes o príncipe d. João, d. Carlota Joaquina e fidalgos. Pelo decreto régio do dia 17 daquele mês, o príncipe regente concedeu vários prêmios e distinções aos membros da divisão: os participantes no conflito teriam preferência nas promoções e receberiam o bônus de dois soldos, e os que haviam sido prisioneiros de guerra tiveram mais meio soldo por cada mês passado em poder do inimigo.

8 Eram paisanos armados, equivalente às ordenanças. Foram descritos por Cunha Mattos como muito velozes e ágeis, o que fazia deles grandes combatentes nos terrenos irregulares das montanhas. Essas forças estavam ligadas a Barcelona.