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The offensive use of force

5. The Utility of Coercion Theory in the Afghan Conflict

5.1. The use of force and coercion theory

5.1.3. The offensive use of force

Passamos aqui a outras acepções possíveis de ideologia.

Segundo os autores Nicholas Abercombrie, Stephen Hill e Bryan Turner (1996, p.153), o problema do conceito de ideologia é que ele reúne tanto noções e experiências cotidianas quanto teorias elaboradas por intelectuais. Para eles, a ideologia é um discurso que “interpela os seres humanos como sujeitos”.

A principal tarefa da ideologia é construir a subjetividade humana; logo, buscar a estrutura do universo ideológico é buscar as dimensões da subjetividade humana. [...] As ideologias situam os indivíduos no tempo e no espaço em referência a características pessoais, situacionais e sociais (Idem, Ibidem).

O problema da ideologia é que ela não estabelece de antemão uma resistência entre os indivíduos, ao se depararem com rivalidade entre o Eu/ Outro (Ibidem, p. 155). Essa dualidade está presente nas críticas Estruturalistas, em que elementos opostos constroem uma linguagem. “A linguagem subsiste no jogo das diferenças” (Idem, Ibidem).

Os engodos presentes na oposição real x ficção não são contemplados pela ideologia, que se apresenta de maneira generalista e busca abarcar toda forma de conhecimento reduzido a uma doxa, cujo entendimento é feito de modo variado e em graus variáveis entre os interlocutores. Com isso, “a ideologia apresenta-se

como o meio mediante o qual essa consciência e esse sentido operam” (Idem, Ibidem).

Ainda que não seja construída em bases econômicas, para Marx a ideologia provoca e determina o conteúdo do que vai ser transmitido a uma sociedade. Por isso o caráter elitista, segundo Althusser, uma vez que ela é utilizada para atender aos interesses de determinadas classes sociais. Ela é determinada por formadores de opinião que fazem parte de uma elite: econômica, estatal (os governos) ou de instituições que influenciam ideologicamente seus membros.

Além disso, a ideologia sempre é feita com o objetivo de se alcançar o poder político ou econômico de forma imediata, no entanto, em uma sociedade em que o público e o privado se confundem, ela esconde seu aspecto mítico e sobrevive nas aparências de um discurso bem formulado.

A ideologia é um discurso que determina em que condições – seja com relação às divisões de classes, seja quanto ao papel que estas exercem na sociedade – a consciência do indivíduo varia e em que termo poderá manifestar-se junto à esfera pública. A subjetividade está na forma como essa ideologia contempla vários significados, sem apresentar de maneira clara e inteligível nenhuma de suas posições.

Na política, a ideologia ocupa o mesmo espaço que possui em outras esferas da sociedade. O processo ideológico é composto por elementos que não ligam necessariamente sua existência à sua eficácia, mas interferem no saber comum e na construção de uma verdade mítica, que mantém o status quo em uma sociedade desigual. O mito se apóia na ideologia e vice-versa, ou melhor, os dois se confundem nesse processo. Por isso, é necessário compreender os ardis dos discursos ideológicos, que pregam uma doutrina partidária sem fundamentação na prática, existindo apenas na retórica.

A ideologia permite que o indivíduo sobreviva dentro dos processos políticos, visto que oferece ao mesmo tempo, o discurso que justifica as relações de dominação e os poderes sociais que são legitimados. Desse modo, torna-se um discurso com ênfase na ação que, todavia, serve para suprir desejos e interesses de determinados segmentos.

A ideologia também se apresenta como um discurso retórico e persuasivo utilizado no meio político com vistas a alcançar efeitos “eficazes”, do que para mostrar a situação como ela é (EAGLETON, 1997, p. 39).

A política é uma questão mais de gerenciamento técnico e manipulação que de pregação ou doutrinação, de forma mais que de conteúdo; uma vez mais, é como se a máquina funcionasse sozinha, sem precisar fazer desvio pela mente consciente. (Ibidem, p. 45).

Ocorrem na ideologia contradições entre a teoria e a prática cotidiana. No âmbito da sociedade, a ideologia é racionalizada e empregada de forma a produzir uma “falsa consciência”, de que o sujeito não age conforme os interesses ideológicos do “outro”. Entende-se por outro, os detentores do discurso oficial – seja estatal, seja econômico etc.

Esses detentores possuem uma ideologia ratificada pelo status quo, de modo a produzir uma crença “natural” de que o modelo empregado na sociedade sempre existiu. Os processos e as realizações sociais, políticas e ideológicas são produzidas por autores, que agem como se não soubessem os efeitos provocados por eles mesmos (Ibidem, p. 46).

A ideologia passa a ser considerada ilusória quando atinge a ação de cada sujeito e extrapola o espaço delimitado pelo discurso (ZIZEK, 1989, p. 28). A distância tênue entre o discurso e o agir de cada sujeito faz com que a falsa consciência se instale, de forma a interferir nos processos de produção da realidade. Com isso, as práticas sociais, que são bem reais, passam a ser justificadas com um falso argumento. Por isso a crítica sobre a ideologia.

A ideologia dominante incorpora as outras classes sociais, principalmente as de menor poder aquisitivo, de tal modo que até os acontecimentos vividos por elas são condicionados dentro de limite acional, que tolhe grandes transformações dentro de uma sociedade.

O predomínio da ideologia dominante é mostrado pelo fato de que as classes dominadas vivenciam suas condições de existência política através das verdades ou do discurso político dominante. Deste modo, muitas vezes, elas vivenciam até mesmo sua revolta contra a dominação dos sistemas dentro do quadro de referência da legitimidade dominante (POULANTZAS 1975, p. 223).

A forma como é compreendida determina o modo como certa ideologia agirá sobre o indivíduo. Sendo assim, é preciso reconhecer sua influência, bem como os desdobramentos que surgem a partir de sua legitimidade, por vezes desconhecidos com relação às suas intenções.

Assim como no mito, a ideologia não é um discurso que se opõe totalmente à realidade que se apresenta. Ela possui em parte aspectos do real, porém apóia-se nele para construir – a partir do que Baudrillard chama de simulacro – uma falsa realidade que se confunde com a própria realidade. Nesse momento, faz-se necessário relembrar o conceito de realidade, que é visto aqui como o que existe no mundo externo ou na experiência subjetiva (BUNGE, 2006, p. 328).

Por outro lado, a hiper-realidade ocorre quando a consciência do indivíduo passa a não reconhecer mais o que é real e o que não é, gerando assim, uma nova realidade. Porém, ela é exagerada e está além do real, imbuída de um simulacro.

Na política, a ideologia é influenciada pela hiper-realidade. Nos programas de governo existe a presença de elementos que vão além da informação em si, como nas soluções que se mostram aparentemente capazes de resolver todos os problemas do país em apenas um pleito. As sentenças baseiam-se em informações reais ou, ao menos que são tidas como reais pelo senso comum. No entanto, escondem simulações de verdades que, por sua vez, escondem simulacros que ajudam a formar novos discursos.

A despeito de todas as outras críticas abordadas até aqui, os conceitos de mito, simulacro e hiper-realidade apresentam-se como elementos-chave na compreensão do mito, nos programas de governo. Esses conceitos ajudam a desvendar a teia retórica que oferece discursos que serão vendidos aos eleitores. Desse modo, uma vez postos em prática, tornam-se produtores de uma nova realidade que será aceita incondicionalmente pelas vias concretas e legítimas da eleição.

No primeiro capítulo foi possível observar o modo como as propostas são elaboradas, a fim de que não ofereçam grandes riscos aos seus produtores, que não serão responsabilizados pelo que não disseram durante a eleição. Uma vez que não descrevem detalhadamente como colocarão em prática suas intenções, preservam sua imagem que o marketing político ajuda a construir, com técnicas de publicidade e sem nenhum compromisso com a veracidade dos fatos.

A inteligibilidade utilizada de maneira inversa também faz parte da estratégia de captação de votos. Com a desculpa de produzir um programa de linguagem simples e objetiva, deixa escapar argumentos fundamentais para a compreensão do engodo que passa a fazer parte da estratégia publicitária no pleito eleitoral. Apoiando-se em discursos de efeito – em que o importante é emocionar, ao invés de apelar para a razão do eleitor – simulacros são construídos em grande escala, de tal forma que as

origens do argumento são esquecidas. O real passa a concorrer com tantos outros discursos ou possibilidades de realidade, que confundem a escolha do que é verdadeiramente importante para o eleitor.

A ideologia nasce em meio a esse processo fetichizante, que oculta não só os processos econômicos e sociais – como propunha Marx – mas oferece ao eleitor uma gama de alternativas que não precisam estar necessariamente ligadas ao real.

Com base em uma promessa de gozo, o indivíduo passa a ser um consumidor de ideologias, assim como propõe o marketing político. Ela nasce como uma doxa que hoje não mais impõe seus argumentos ao indivíduo, com base na realidade. O real se tornou “qualquer coisa” que lhe vem à mente, sem compromisso com o que está por trás de cada discurso.

Além das críticas que vimos – como a ideologia sendo uma promessa de realidade, mera ilusão ou ação transformadora – é possível constatar a ligação de todas as definições, embora haja entre elas diferenças legítimas quanto às suas significações. Todavia, em todas elas a realidade se abstrai em meio a tantos conceitos a ela atribuídos, o que torna fácil a confecção de mitos em sua base. Torna-se, pois, uma necessidade de exemplificar tal contexto, para que ocorra a inteligibilidade plena de seus efeitos. São eles que conduzirão o observador para a base da rede fetichizante e só assim conseguirá desmascará-la.

CAPÍTULO 3 - O MARKETING NA POLÍTICA