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The Norwegian led PRT in Faryab, a short narrative

4.1. Introduction to the Norwegian and German missions

4.2.2. The Norwegian led PRT in Faryab, a short narrative

Ao longo de sua vida, Barthes percebeu a ligação entre os discursos míticos e as formas de dominação e de imposição do poder. Uma vez que é extraído de um discurso dado por verdadeiro, o mito é recolocado em outro lugar com outro peso e medida. Ou seja, com uma nova roupagem, cujo sentido não é mais o mesmo de antes. A partir dessa nova construção, o mito cria o que Barthes (2006, p.221) chamou de naturalização do discurso, que seria a forma natural como essa nova idéia ou conceito passa a reinar em absoluto, sem nenhum tipo de questionamento.

Por estar ligada à produção de novas ideologias, forma apaziguadora de se manter o status quo, o mito apresenta em sua base elementos tidos como

verdadeiros (fiéis ao acontecimento, ou fato). O jogo entre o real e o fictício faz com que o mito predomine entre outros discursos possíveis. Apesar de ele mesmo ser um discurso, o que torna seu papel diferenciado é a sua capacidade de formar um consenso entre os interlocutores.

No capítulo “Gramática Africana”, do livro Mitologias, Barthes (Ibidem, p.139) chama a atenção para o modo como as palavras podem ter duplo sentido, de acordo com o papel que se deseja que elas façam. Nesse capítulo, ele faz uma análise sobre os mitos que havia nas comunicações de guerra, na época da guerra da Argélia (1954-1952), episódio ligado à política expansionista francesa quando em seu auge.

Chama-nos a atenção para o fato de que, inicialmente, a palavra “bando” retrata um grupo de foras-da-lei ou rebeldes. Trata-se de uma palavra apenas usada para o outro. Na época, o Marrocos era colônia francesa e existiam grupos locais que desejavam ter um país livre. Desse modo, as notícias veiculadas sobre eles era a de que eram bandos, ou foras-da-lei. Entretanto, Barthes ironiza: “Se o bando for francês, é sublimado sob o nome de comunidade” (Ibidem, p. 139).

As palavras “desonrar” e “destino” também aparecem de modo invertido em relação ao significado real, uma vez que no texto em questão, elas se referem aos colonos. A primeira é vista como um “maná”, palavra criada por Lévi-Strauss para explicar algo que tenha um valor “indeterminado de significação, vazio de sentido e portanto suscetível de receber um significado qualquer, cuja única função é preencher uma distância entre o significante e o significado” (Ibidem, p.140). “Seria desonrar as populações muçulmanas deixá-las crer que estes homens poderiam ser considerados na França seus representantes. Seria também desonrar a França” (Idem, Ibidem).

A palavra “desonra” é um termo que não explica a razão pela qual os marroquinos não pudessem ter um representante na França. Atrás de si, ela esconde um juízo de valor, que denota superioridade em relação aos colonos árabes e também não apresenta qualquer outra justificativa para sua aplicação, que não seja a inferência de uma palavra de destaque para ludibriar o interlocutor por meio da retórica. Por isso a palavra desonra é considerada um mito.

Já a palavra “destino” está ligada a uma operação de “naturalização”. Ela é utilizada para explicar o modo como a burguesia da época valia-se de termos

deterministas – no sentido de inevitável – para justificar um fato social ou para manter o status quo: o de assegurar sua posição privilegiada na sociedade.

Quanto a nós, tencionamos dar aos povos cujo destino está ligado ao nosso uma independência verdadeira na associação voluntária (Comunicado de representante da França na ONU, Sr Pinay, sobre a Argélia, na época colônia francesa (Idem, Ibidem).

Nessa seção das Mitologias, o mito é apresentado em forma de palavras-chave que substituem o significado normativo ou gramatical da palavra, produzindo assim uma significação mais amena. O tom retórico absorve toda sentença sígnica, que passa a apresentar um segundo significado, agora com uma conotação de acordo com os interesses do produtor de mitos. A facilidade com que a retórica e o mito se articulam provoca a subversão da ordem, não só normativa, mas neste caso também política e social.

O modo como o mito é empregado nas comunicações políticas faz com que o modelo social seja mantido, culminando no exemplo de naturalização de que Barthes relata. Até a palavra “Deus” é utilizada para dar um tom fatalista no que se refere a uma possível mudança nas condições de existência da população em questão: os colonos árabes. A representação de onipotência que a palavra “Deus” traz consigo, atua como um discurso que não pode ser questionado, uma vez que ele atribui aos seres mortais seu destino, sorte ou futuro. Um exemplo disso pode ser encontrado no seguinte trecho: “[...] quando o Todo-Poderoso nos designou para exercer o cargo supremo” (ARAFÁ, 2006, p. 141).

Em um conflito, como o que era enfrentado pela França frente à resistência de seus colonos árabes, todo cuidado é pouco ao utilizar as palavras. Até termos óbvios como “guerra” são mitificados de maneira a negar uma realidade constituída, com o objetivo de dividir a opinião pública entre o que é certo ou errado. Apesar de esses dois conceitos serem vultosos é preciso considerá-los de acordo com as práticas locais, que historicamente foram definidas por cada sociedade como correto ou incorreto. A partir daí é possível identificar os mitos nos discursos proferidos pelos representantes locais, no contexto daquela época.

Em outro comunicado é a palavra “guerra” que é negada. Barthes nota que ela precisa ser escamoteada ou assumir “um significado do seu próprio contrário,

processo mais perversamente astucioso, que está na base de quase todas as mistificações da linguagem burguesa” (Idem, Ibidem).

Por fim, o termo “missão” é inserido no texto como forma de justificar a invasão francesa em território argelino. “Todos vós as sabeis, no entanto, que a França tem na África uma missão que só ela pode desempenhar” (PINAY, 2006, p. 141).

No capítulo intitulado “Fotogenia Eleitoral”, também em Mitologias, Barthes procura desmistificar o processo político vendo ardis nas poses típicas dos candidatos a cargos públicos. Ele nos diz que o que é exposto por intermédio da fotografia do candidato não são seus projetos, “mas suas motivações, todas as circunstâncias familiares, mentais e até mesmo eróticas, todo um estilo de vida de o que ele é, simultaneamente, o produto o exemplo e a isca” (BARTHES, 2006, p. 163).

Por conseguinte, Barthes completa sua análise com relação à fotogenia dos candidatos. Ela pode ser compreendida como as formas como os políticos se colocam perante seus eleitores, seja como um objeto de recorte fotográfico, ou aspecto de sua própria imagem nos mais variados âmbitos.

É, aliás, essa ampliação em termos de valores que define exatamente a fotogenia: ela exprime o eleitor e, simultaneamente, transforma-o (o candidato) num herói. Ele é convidado a eleger-se a si próprio, incumbindo o mandato que vai dar de uma verdadeira transferência física: delega de algum modo sua raça (Idem, Ibidem).

Aqui são sublinhadas as manipulações do discurso por diversas esferas da sociedade, sendo apontada em especial, a que o autor classificou como “o mito da direita” (BARTHES, 2006, p. 241-248). Ainda segundo Barthes (Idem, Ibidem), isso acontece porque a opinião pública é afetada por discursos burgueses, nos quais não são percebidas suas reais intenções. Ao final, eles são considerados “naturais”, uma vez que já estão incorporadas nas mentes das massas.

Como principal intelectual da chamada esquerda clássica, Karl Marx é também reverenciado na obra de Barthes. Quando este critica a burguesia como geradora de tendências que não devem ser questionadas, ele relembra o filósofo e pensador alemão ao resgatar o conceito de alienação, mas agora sobre o vértice do materialismo. Ou seja, Barthes fala sobre o capital (Ibidem, p. 229).

Em uma sociedade de consumo, a alienação pode representar uma forma de escravização ou uma tentativa de conduzir a opinião pública ao consumo. No

entanto, no nosso caso em específico seria conduzir às idéias de um político. Aqui aparece também a idéia de fetichismo, um conceito marxista retomado pela dupla Adorno e Horkheimer (1994, p.113-156), para explicar o conceito de Indústria Cultural, outra forma ligada ao mitificar do discurso.

De acordo com essa teoria, em crítica aos meios de comunicação Adorno e Horkheimer afirmavam que a cultura estaria sendo utilizada exclusivamente a serviço do capital, a serviço do gozo, no âmbito das manifestações populares. Dessa forma, os mitos tornariam falsas tais manifestações, que deixariam de ser espontâneas, apresentando-se agora como mitos ou simulacros.

O conceito também é analisado por Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl que, em

Videologias (2005, p.15-23), acrescentam à essa reflexão, a forma como as

emissoras de televisão têm se utilizado dos mitos para sobreviverem frente ao sistema capitalista vigente e adquirir o tão almejado “poder”. Ao citar o conceito do livro de Barthes, Bucci e Kehl chamam a atenção para como esse meio de comunicação tem se destacado na sociedade, como ferramenta que afeta a possibilidade de inserção de uma esfera pública, gerando conseqüentemente a alienação (BUCCI; KEHL, 2005, p. 19).

Para Barthes o mito é um discurso vazio, ou seja, apenas baseado na retórica. O mito desconsidera em sua narrativa aspectos como a geografia, o tempo e a posição de quem fala, tudo isso para predominar sua ideologia. Desse modo, poderíamos chamar esse conteúdo de retórico. Durante a leitura de Mitologias, é possível constatar como o discurso é utilizado como instrumento de propagação de “verdades”, que seriam apresentadas sob o ponto de vista de quem as conta.

Em outras palavras, além de tratar de temas específicos, é possível constatar o quanto o mito é comum, seja ele produzido de forma consciente ou não. Dessa maneira, quando Barthes acusa a burguesia direitista, ainda em Mitologias, de ser a maior beneficiada na época de sua geração, questiona alguns aspectos sociais para os quais chamava a atenção no final do século XIX. Para compreender quem ganharia com o sucesso dessa rede de informações, bastaria associar a estrutura da mensagem ao interesse particular de cada grupo, ou seja, descobrir como o discurso estaria a ele vinculado. Por isso, Barthes baseou-se no pensador alemão, que apontava o capital como o principal gerador de mitos.

Captar a operação do mito não é tarefa das mais fáceis. Ele está em todos os lugares, porém já se encontra incorporado de forma natural à ideologia da sociedade

contemporânea; desde antes de 1957, passando pelo ano em que o livro Mitologias foi publicado, até os dias atuais. Por isso, nota-se a naturalidade com que os mitos são aceitos.

Por ser um discurso, o mito é um fato social e nesse sentido sua propagação é possível graças à mediação da comunicação humana. Ele se utiliza da linguagem para existir, sendo esta última compreendida como um “modo de ação social” (BRANDÃO, 2007, p. 108). É na linguagem que ocorrem os “confrontos ideológicos, em que a significação se apresenta em toda sua complexidade” (Idem, Ibidem).

Decorrente da relação entre o lingüístico e o social surge um sistema de significação da realidade baseado no fator ideológico, por isso a importância de se analisar o termo “ideologia”. Assim como o mito, ele é fator essencial para se compreender a produção de falácias na linguagem política, pois “é nessa distância, no interstício entre a coisa e sua representação sígnica, que reside o ideológico” (Ibidem, p. 9).