• No results found

A primeira investigação da opinião dos alunos se deu de forma qualitativa. O objetivo era obter uma visão geral da percepção da mobilidade pela comunidade escolar e obter um elenco de crenças salientes sobre o comportamento da escolha modal. Conforme indicado na literatura de operacionalização da Teoria do Comportamento Planejado – TCP (Ajzen, 1991 e 2000), as crenças salientes são os antecedentes dos construtos psicológicos que influenciam a escolha modal. As crenças salientes são opiniões relevantes para cada indivíduo, alunos e/ou seus pais, sobre determinado comportamento, por exemplo, usar ou não o ônibus em determinadas circunstâncias para chegar à escola. Elas são os antecedentes das atitudes, norma social e controle percebido, de acordo com a Teoria do Comportamento Planejado – TCP. Tais crenças integrarão o instrumento de avaliação da opinião de alunos e seus pais sobre a mobilidade local.

No planejamento da abordagem qualitativa exploratória, foram seguidas as recomendações de Ajzen (1991) apresentadas na seção 4.1, para a obtenção das crenças sobre o comportamento estudado, na formulação de questões abertas sobre: i) a avaliação de resultados – vantagens e desvantagens, simpatias ou aversões para com o comportamento pesquisado; ii) as pessoas de referência social – pessoas ou grupos que aprovam ou desaprovam a realização ou não de determinado comportamento; iii) as dimensões de controle – elementos que tornam a realização do comportamento mais fácil, ou mais difícil, que permitem ou impedem a realização do comportamento.

5.4.1 APLICAÇÃO DA TÉCNICA DE GRUPOS FOCAIS

Foram organizadas reuniões de grupos focais nas três IEMs participantes, nos horários de intervalo dos turnos, com duração máxima de 20 minutos. A seleção dos participantes do

79

grupo focal buscou: i) ser representativa de todas as turmas da população envolvida; ii) priorizar alunos líderes de agremiações estudantis e representantes de turma; iii) contar com participantes da administração da escola. Apesar de convidadas, apenas em uma IEM participante a direção/coordenação da escola participou dos grupos focais.

Pretendia-se, incialmente, que os pais participassem presencialmente dos grupos focais (como em Lang et al., 2011). Entretanto tal pretensão foi desestimulada pelas coordenações de todas as três IEMs participantes. A participação dos pais foi mediada, então, por um questionário com questões abertas e uma carta de apresentação, enviados para casa e devolvidos respondidos na reunião, através dos alunos (modelo apresentado no Apêndice E). Para que os alunos convidados participassem do grupo focal, termos TCLE (Apêndice B) foram enviados aos pais, e entregues assinados na reunião. Para que a reunião tivesse duração controlada, foi prevista no planejamento dos grupos focais a elaboração de roteiro ou protocolo de moderação (Apêndice F). O roteiro deveria apresentar a proposta das questões para discussão, mas com flexibilidade para absorver as demandas de discussões dos participantes (Dias, 2000).

Além do roteiro, foi elaborado um questionário impresso para os alunos participantes (Apêndice G), semelhante ao questionário enviado aos pais, com o objetivo de racionalizar o tempo disponível, concentrando-se nos itens de interesse. O roteiro da reunião, bem como os questionários enviados aos pais e disponibilizados aos alunos presentes, foram elaborados para facilitar a coleta das informações vinculadas ao uso da teoria TCP, às crenças salientes por construto (atitude, norma social e controle percebido), bem como aos aspectos gerais da mobilidade. O tamanho do grupo focal foi estimado entre o mínimo de 6 e máximo de 25 pessoas (Dias, 2000). As reuniões foram registradas por escrito, por, pelo menos, um observador pesquisador, além do moderador, e depois comparados os registros obtidos para a composição de um relatório síntese.

5.4.2 ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES OBTIDAS

As reuniões de grupo focal foram ricas no entendimento da mobilidade local. Para sistematização das informações dos grupos focais, uma análise de conteúdo (Bardin, 2009; Babbie, 2013) foi realizada a partir dos relatórios sínteses, representativo da manifestação livre dos participantes. Nas escolas com dois turnos, apenas um relatório

80

síntese foi gerado para a escola. Na análise de conteúdo foram identificadas a frequência dos temas citados, sua magnitude ou importância (por exemplo, o relato de assaltos no caminho até a parada de ônibus foi falado por apenas um dos presentes, mas considerado crítico por todos), e as consequências para a rotina escolar (por exemplo, diminuição dos tempos de aula nos turnos pela ocorrência de greve dos rodoviários).

A sistematização das informações seguiu os seguintes critérios: i) agrupamento de respostas para pais ou alunos; ii) agrupamento de respostas por questão do roteiro da reunião; iii) indicação dos modos de transporte mais citados e avaliados; iv) agrupamento de respostas mais citadas para cada modo de transporte; v) agrupamento por temas amplos e/ou críticos. Os registros foram, em seguida, redigidos na forma de crenças (afirmativas sobre a mobilidade local segundo os modos de transporte indicados). O objetivo da redação na forma de crenças é permitir que as afirmativas possam ser incluídas no instrumento de avaliação quantitativa das abordagens descritas nas próximas seções, de forma compatível com o uso da teoria TCP (Ajzen, 1991 e 2000).

Seguindo as orientações de Günther (2003), foram tomados cuidados na redação das afirmativas de crenças, tais como: i) utilizar linguagem objetiva e acessível, sem o uso de gírias ou verbetes (mesmo que esses sejam mais acessíveis aos adolescentes, como por exemplo, ‘dar um rolé’, ao invés de ‘perambular pela cidade’); ii) não abordar dois comportamentos numa mesma afirmativa (por exemplo, ‘é mais seguro caminhar da escola ao ponto de ônibus, do que do ponto de ônibus até minha casa’). Em situações comparativas, foram criadas duas afirmações, uma para cada comportamento; iii) utilizar tanto itens autorreferentes (como “moro muito longe da escola para usar bicicleta”), como heterorreferentes (como “é vantajoso caminhar até a escola”); iv) utilizar parte dos itens com redação invertida (como por exemplo, afirmativa positiva “é seguro usar metrô para ir ou voltar da escola”, ou negativa “não é seguro esperar pelo metrô nas estações nos horários de ida e volta da escola”). Os resultados da abordagem qualitativa exploratória aplicada às IEMs participantes do estudo são apresentados no Capítulo 6.