2.3 H OLDNINGER
2.3.2 Nysgjerrighet
Para Ferdinand de Saussure, o signo é definido como a relação entre significado e significante, quer dizer, entre conceito e imagem acústica. O valor do signo deve ser buscado no interior da língua, o que faz com que um signo seja constituído a partir da diferença em relação aos outros signos. Lacan privilegiou o significante, ao propor o sujeito como efeito do significante. Guarda da noção de Saussure, entretanto, o caráter de marca, traço e inscrição com uma temporalidade. No Seminário XX, Lacan defende que existe não o, mas um significante. O sujeito, Je, separado do eu (moi), é representado por uma cadeia de significantes.
No Seminário 20, Lacan (1985, p. 29) pergunta:
o que é o significante? O significante – tal como o promovem os ritos de uma tradição lingüística que não é especificamente saussureana, mas remonta até os estóicos de onde ela se reflete em Santo Agostinho – deve ser estruturado em termos topológicos. Com efeito, o significante é primeiro aquilo que tem efeito de significado, e importa não elidir que, entre os dois, há algo de barrado a atravessar.
O travessão que separa significado de significante, na fórmula de Saussure, “S/s”, explicita o caráter subjetivo que o significado pode assumir, bem como a impossibilidade de
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conhecê-lo totalmente, “barrado” que está da consciência, e que Lacan enfatiza em seu estilo gongórico. “Barrado” aqui reveste-se de várias conotações, podendo ser inacessível, impedido de obter satisfação, dividido, enfim, o léxico dos sonhos e das palavras, no fundo, é proposto pelo indivíduo falante, que não terá sua mensagem compreendida em toda sua extensão pelo ouvinte, influenciado que este está pelas suas próprias experiências e sua busca por sentido.
A tese do Curso Geral de Lingüística de Saussure é que o significante lingüístico tomado isoladamente não possui qualquer ligação interna com o significado. Por estar integrado em um sistema significante caracterizado por oposições diferenciais é que o significante lingüístico remete a uma significação. Para Lacan (2005, p. 19), no entanto, “o que se traduz é o que chamamos tecnicamente de significante”5 . Tal referência é feita em
relação ao sintoma histérico, representado no Inconsciente e que assume a função de traduzir o conflito. Ora, o sintoma é uma linguagem que não é o português, por exemplo. É o sujeito dizendo algo, convertendo um conflito psíquico em uma marca no corpo.
Tais concepções tomam de empréstimo idéias desenvolvidas por Jakobson que, na obra Fundamentals of Language, destacou a estrutura bipolar da linguagem: a seleção (paradigma) e a combinação (sintagma), com a seleção aproximando-se da metáfora, enquanto a combinação se aproxima da metonímia. Propôs também que tais processos aparecem nos sonhos analisados por Freud, o que fez Lacan associar a condensação à metáfora, e o deslocamento à metonímia. O sintoma se liga à metáfora, enquanto o desejo se refere à metonímia, desejo insatisfeito, sempre de outra coisa.
Continuando, Lacan (2005, p. 19) declara que o significante:
é um elemento que apresenta duas dimensões: estar ligado sincronicamente a uma bateria de outros elementos que podem substituí-lo e, por outro lado, estar disponível para um uso diacrônico, isto é, para a constituição de uma cadeia significante.
E ainda:
o exemplo mais puro do significante é a letra, uma letra tipográfica. (...) um sentido só nasce de um jogo de letras ou de palavras na medida em que se propõe como modificação de seu uso já consagrado. Isso implica, em primeiro lugar, que toda significação adquirida por esse jogo participa das significações às quais ele já estava ligado, por mais estranhas que sejam entre si as realidades presentes nessa reiteração. Dimensão que chamo de metonímia, que faz a poesia de todo realismo. Por outro lado, isso implica que toda significação nova só é engendrada pela
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O livreto “O Triunfo da Religião” é resultado do resgate de uma entrevista coletiva realizada em Roma, em 29 de outubro de 1974, no Centro Cultural Francês, e de duas conferências proferidas em 09 e 10 de março de 1960, em Bruxelas, Bélgica. Lacan faz referência a essas “aulas públicas” de Bruxelas, nos capítulos XIII e XV do Seminário VII – A ética da psicanálise.
substituição de um significante por outro, dimensão da metáfora pela qual a realidade se carrega de poesia (LACAN, 2005, p. 20).
Lévi-Strauss propôs que toda cultura pode ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos, dentre os quais os principais são a linguagem, as regras matrimoniais, as relações econômicas, a arte, a ciência e a religião. Para Lévi-Strauss (1950, p.32), ser é estar na linguagem: “os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”. Foi a partir do estudo de Estruturas elementares do parentesco que Lacan concebeu a tríade Simbólico/ Imaginário /Real, em relação ao conceito e às manifestações do Inconsciente descoberto por Freud. O Complexo de Édipo e a proibição do incesto como uma função simbólica, isto é, como uma lei inconsciente que organiza a cultura humana. O pertencimento à ordem simbólica é que determina a existência do sujeito. “Sujeito” aqui pode ser entendido como alguém submetido, “sujeitado” a determinações externas, heterônomas.
De Alexandre Kojève, seu mestre da filosofia de Hegel, Lacan aproveitou uma concepção subsidiária de sua “ontologia negativa”, no desenvolvimento da afirmação de que “desejo é falta”. Segundo Almeida (2006, p.101), “a idéia de falta, de perda, de corte, de limite constitui a existência como tensão permanente, como luta infinita pela recuperação de um gozo definitivamente perdido”. Este corte será entendido como operado pela linguagem, por Lacan, a partir do momento em que incorpora o estruturalismo, em 1953. Almeida (2006, p.101) também escreve que a concepção de linguagem de Lacan é idealista, pois tem somente a si mesma como referência, “nada diz sobre o mundo, pois o exclui, nem sobre o sujeito, por subordiná-lo aos seus liames e deslocamentos”, característica também presente no estruturalismo. Para comportar na estrutura uma idéia de subjetividade, a concepção de linguagem de Lacan segue os parâmetros da filosofia kojeviana, marcada pela negatividade.
Por exemplo, no mundo humano recusamo-nos a ser o que somos, coisa que não ocorre no mundo animal, em que o ser é sempre idêntico a si mesmo. A atividade humana nega a realidade que lhe é dada e transforma naquilo que ela não é, processo desconhecido para os animais e, obviamente, para os elementos do mundo mineral. Como a realidade humana é dialética, ao transformar a natureza fora de si, o ser humano também se transforma. Para que ocorra transformação, entretanto, é necessária a negação do que está diante de si, que é o que leva a Consciência “em Si” a ser depois Consciência “de Si”, por meio da incorporação de seu objeto – do seu Outro. Essa negação é o que é conhecido como desejo.
Como o ser humano nega continuamente o que está diante de si, o desejo nunca pode ser, por isso, satisfeito. Almeida (2006, p. 101) afirma que:
Na antropologização da fenomenologia do espírito, feita por Kojève, o próprio da ação humana é entrar em relação com aquilo que ainda não é: ao agir, o ser humano não manifesta a sua vontade de ser, de conservar o ser, e sim a sua vontade de não- ser. Demonstra o cansaço e o tédio de ser tal como é, demonstra o seu desejo de ser outro.
A insatisfação consigo mesmo é patente no ser humano, em geral, o que quer dizer que essa insatisfação é um dos principais motores para a superação individual, que o será também coletivamente. Um problema se configura, entretanto, quando se pergunta: qual é esse “outro” que o ser humano deseja ser? A linguagem dá conta dele ou responde àquela pergunta?
A oposição que Lacan estabelece entre fala (parole) e linguagem (langage) difere da proposta por Saussure entre fala e língua (langue). Para Saussure, a linguagem é constituída pela tensão entre um objeto social e um ato individual, isto é, pelo corte que há entre língua e fala. Por língua, em Saussure, entenda-se o conjunto de convenções envolvidas na comunicação, quer sejam regras, elementos fonéticos ou valores. Já a fala é o ato de seleção, combinação e atualização desses componentes. Por outro lado, para Lacan a tensão existe entre a fala e a linguagem. Como o que está em jogo para ele é a redescrição da psicanálise, não o estudo de uma língua particular como o faz a lingüística, o que importa é considerar a abstração de que há signos, símbolos ou significantes. Isto é, o importante é pensar a ordem simbólica, não uma língua. Portanto, a linguagem é o veículo da comunicação e o campo em que se define o inconsciente e toda a psicanálise. Recorde-se, contudo, que é ela também que constitui o muro que resiste à liberação da fala plena, verdadeira, e que faz o sujeito “falar” por meio do sintoma. Daí a afirmação algumas linhas acima de que a tensão existe de fato entre fala e linguagem.
O valor da fala não está na informação objetiva que transmite, mas no eco do discurso do outro, constituinte da fala plena. O que importa, na fala, é o endereçamento ao outro, o que faz a linguagem funcionar para evocar, não necessariamente informar. Pede-se a resposta do outro, quando se fala, ou ainda, a fala serve para pedir algo ao outro. As funções de locutor e ouvinte presentes na psicanálise são constituídas na intersubjetividade e na interlocução, estabelecendo a continuidade do discurso no qual se desenrola a história do sujeito. O efeito da função simbolizadora da fala é a intersubjetividade, ao transformar o ouvinte pelo acréscimo ao seu mundo da realidade gerada pela relação com o locutor.
Como linguagem que é, a escrita se mostra como uma das formas do sujeito exercitar sua subjetividade por meio da alteridade. Como no espelho, o escritor pensa e vê sua imagem fraturada, como se fosse um outro que se coloca entre ele e o mundo. Por escrita entenda-se aquilo que indica uma diferença, que não são só as letras e outros sinais colocados sobre o papel, ou na tela do computador. Por ser linguagem, Bento (2004, pp. 195-214) declara que a escrita
rompe o continuum do mundo e estabelece uma marca que singulariza o que antes era indissociado. O arado que corta a plantação, os traços nas gamelas [vasos elaborados pelos indígenas Nhambiquaras] exemplificariam essas marcas. Reduzir a escrita às marcas fonéticas é operar uma violência, e desclassificar a história do homem.
Por outro lado, a escrita promove uma certa concordância entre os seus usuários, enlaçando-os a um mínimo que devem ter em comum. O inconsciente, no entanto, é o laço que desfaz a intenção de um discurso linear do sujeito, posto que o falante está sobredeterminado, isto é, o que fala é causado por elementos que vão além do poder de sua consciência. A linguagem tece laços sociais que são, por sua vez, causados pela libido, representada pelo objeto a, que é o objeto onde a possibilidade de gozo está condensada, causa de desejo e horror. Conforme explica Quinet (1993, p. 182): “as relações ditas sociais entre os seres humanos são feitas de libido e intermediadas pela linguagem”. Em todo tipo de laço social ou discurso, o objeto a está presente, significando que quem fala quer algo do qual não tem a mínima do que seja. Em conseqüência disso, Quinet (1993, p. 182) argumenta que:
o discurso no sentido lacaniano não é aquilo que se diz, ou seja, o discurso concreto que se depreende da fala de alguém, nem o discurso tal como o formulam os lingüistas, mas um laço social instaurado pelo instrumento da linguagem que determina certas relações estáveis no interior das quais inscrevem-se enunciados primordiais.
Tais noções são utilizadas, no capítulo 4 desta tese, quando é feita a análise qualitativa das respostas registradas nas justificativas solicitadas aos participantes do questionário sobre altruísmo. Saliente-se, novamente, a distinção entre o conceito de discurso para a psicanálise e para a lingüística, pois para a psicanálise há a inclusão de um elemento que está fora da cadeia de significantes própria de uma língua, que não é simbólico, mas real, que é o objeto de gozo, causa do desejo. O conceito de laço social aparece na psicanálise para recordar que o discurso é como um nó passível de ser desatado e que apresenta uma ou mais pontas, mas que também promove aliança e vínculo entre os participantes de um grupo social.
As quatro formas de discurso elaboradas por Lacan, que aparecem no Seminário “O avesso da Psicanálise”, entre 1969 e 1970, representam quatro formas da civilização tratar o
gozo pela linguagem e localizar o sujeito. São elas: a) o discurso do universitário; b) o discurso do mestre; c) o discurso da histérica e d) o discurso do analista. É significativo recordar que aquele Seminário ocorre logo após as manifestações dos estudantes, na França, em 1968, e, de algum modo, funciona como uma tentativa de compreender o movimento e elaborar uma resposta à acusação de que “as estruturas não descem às ruas”, frase deixada escrita em uma lousa da Sorbonne, durante os protestos.
Quinet (1993, pp.183-187) explica o que cada uma destas formas quer dizer, declarando primeiramente que a civilização é dominada pelo discurso do mestre, em que a lei ocupa o lugar dominante, isto é, governar, exercer o poder é que importa. O discurso capitalista é uma modalidade moderna do discurso do mestre, alicerçado que está na relação do senhor e do escravo. A sociedade contemporânea exige do trabalhador a produção de bens materiais e culturais, regulados conforme a “lei” da oferta e da procura, mas barra o acesso do sujeito à satisfação, o que gera o “mal-estar” diagnosticado por Freud, pois quando mais o sujeito cede, mais lhe é exigido. Os três outros discursos ou laços sociais são modos de responder ao discurso do mestre.
Assim, no discurso da histérica, o sujeito faz greve: aparece uma paralisia em um de seus membros, consegue uma licença para não trabalhar, o que obriga um outro a trabalhar para dar conta do que é exigido. O sintoma ocupa o lugar dominante no discurso da histérica. No discurso do universitário, a pretensão de tudo saber atua sobre o estudante e faz com que surja dele um contestador, “dividido” pelo diploma que tenciona obter, mas do qual não está seguro quanto à real utilidade. O saber ocupa o lugar dominante no discurso do universitário. O discurso do analista, por fim, é aquele no qual o analista está lá como objeto que faz falar. O analista ocupa o lugar do objeto a que o sujeito não possui , para que o sujeito produza e se descole dos significantes de sua alienação ao Outro. Aí, o lugar dominante é ocupado pelo que é rejeitado do discurso, pois o analista se anula como sujeito. O discurso do analista é o único em que o outro é tratado como sujeito. Os demais discursos tratam o outro como um escravo, como um objeto ou como um mestre castrado. Essa discussão deverá ser aprofundada no capítulo 4, quando se fizer a análise dos questionários utilizados na pesquisa de campo.