2.2 F ORBRUKERTESTER
2.2.2 Affektive tester
O relatório produzido por Lacan, em 1953, com o título de “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, também conhecido como o “Discurso de Roma”, traz a proposta de leitura da psicanálise por meio do “retorno ao sentido de Freud”. Por que foi necessária a proposta do “retorno”? Porque Lacan se posicionava contra as psicoterapias de base analítica e contra aquilo que passou a ser chamado de “ego psychology”, sobretudo nos Estados Unidos da América. Essa linha de orientação considerava como prioridade do trabalho analítico a análise do ego e dos seus mecanismos de defesa, baseando-se principalmente nos trabalhos de Anna Freud. Lacan criticava esse posicionamento, pois ao se privilegiar os aspectos adaptativos do ego, houve um afastamento dos fundamentos da psicanálise, ocasionando em sua prática uma adequação do indivíduo aos valores sociais vigentes, quando esta adequação não deveria se colocar como horizonte da análise. O “retorno a Freud” visa, portanto, resgatar e manter vivo o caráter subversivo da psicanálise, principalmente a partir do conceito de inconsciente, dessa idéia de que há no ser humano uma força de natureza sexual, que atua à revelia de qualquer adaptação moral e social.
Os instrumentos utilizados para promover o “retorno”, entretanto, são buscados na filosofia de Alexandre Kojève e Martin Heidegger, bem como na antropologia de Lévi- Strauss e na lingüística de Saussure. Por isso, os modelos físicos pelos quais Freud expressou suas descobertas, em conformidade com o ideal vigente em sua época para as disciplinas científicas, “foram substituídos por Lacan por modelos lingüísticos, mais em consonância com a compreensão dos mecanismos que regem o Inconsciente”, como assim o entende Morano (2003, p. 19).
O objetivo do “Discurso de Roma” consiste na defesa de que a compreensão da obra de Freud só se concretiza no reconhecimento da centralidade efetiva da linguagem. Isto é, o campo da psicanálise se identifica com o campo da linguagem. Segundo Sales (2004), há quatro pontos interconectados que compõem a base para o retorno a Freud:
1) a linguagem é o elemento da experiência psicanalítica;
2) a linguagem é o material constituinte do homem;
3) o inconsciente é a própria estrutura da linguagem, o texto desconhecido que determina a subjetividade para além da consciência, isto é, o inconsciente é o “discurso do outro”;
4) a psicanálise, ao estabelecer seu parentesco com o paradigma científico inaugurado pela lingüística estrutural, vê assegurado para si um lugar legítimo no rigor da ciência moderna.
A incompreensão do sentido da obra freudiana podia ser atestada nas sociedades psicanalíticas, que substituíram aquele sentido por uma técnica enfadonha, refratária às críticas e que primava por um excesso de formalismo, o que resultou em um bloqueio à criatividade que a psicanálise deveria estimular. Os estudos psicanalíticos existentes na época revelavam sua ineficiência e a distância entre o que era feito e o que deveria ser a psicanálise, ideal este somente possível de ser encontrado se aquela promovesse um retorno ao estudo das funções da fala, conforme propunha Lacan (1953b; 1966, p. 244).
Lacan denuncia que, na psicanálise de então, havia um paradoxo na relação entre fala e linguagem. Trata-se de um traço da cultura científica e que se torna evidente na experiência analítica, que é a radical alienação vivida pelo sujeito na modernidade, pois nas objetivações do discurso há uma perda de sentido, o que faz com que a ciência acabe funcionando como uma boa desculpa para que o sujeito se esqueça de sua própria condição. Ou seja, o conhecimento científico proporciona um afastamento da verdade do sujeito, o que acabou por contaminar a própria psicanálise que, ao fornecer produções teóricas míticas como o são os conceitos de id, ego e superego, promoveu maior alienação do sujeito e tornou mais espessa a separação entre a linguagem e a liberação da fala verdadeira. Segundo Sales (2004), “na linguagem, o homem está tão alienado quanto o louco em seu delírio”.
Seria então a linguagem uma forma de comunicação na qual o emissor recebe do receptor uma inversão de sua própria mensagem? Na verdade, quando o analista responde ao discurso do sujeito é para destacar o movimento da verdade do desejo inconsciente. Há aí o reconhecimento da subjetividade do analisando, o que abre a possibilidade de transformação efetiva. O que Lacan via acontecer nas correntes psicanalíticas daquela época era a negação do analisando como sujeito pelo analista, o que resultava por afastá-lo do conhecimento de sua própria realidade, fomentando sua alienação. O reconhecimento do sujeito é a indicação de que este implica em seu próprio desejo e promove a enunciação da fala plena, em oposição à identificação existente na fala vazia, em que o analisando é apenas objeto. O que é objeto da psicanálise não é uma realidade individual, mas a realidade intersubjetiva concreta e autônoma do discurso. Assim, como “é o discurso do outro”, o inconsciente é uma estrutura singular e social, ao mesmo tempo, determinando a urdidura subjetiva do desejo, enquanto é sinônima da estrutura do discurso humano em geral, já que sua subsistência como sistema de
operações é conseqüência direta da relação humana com a linguagem. Por isso, o humano não é um ser inteiro, completo e indivisível, segundo Sales (2004):
pois o que ele exprime com seu ser é uma condição de divisão devida a esse sujeito que, à sua revelia, revela em seu corpo, em seu comportamento, em sua fala, em sua vida, enfim, a construção de sentido resultante da função humana universal da comunicação.
O retorno ao sentido de Freud, portanto, é voltar ao núcleo da teoria freudiana que aponta para o inconsciente como uma falta de saber, como interrogação sobre si mesmo que persiste no ser humano. Não existe ponto final na psicanálise e o próprio Freud promoveu revisões sobre o que escreveu, sem com isso renegar o que havia escrito, anteriormente. Foi essa atitude de “douta ignorância” do analista que Lacan parece ter absorvido, recusando-se a aceitar generalizações, identificação com dogmas ou com um conhecimento absoluto, pronto e acabado. O saber de Freud era e ainda é fascinante, mas ele deve ser mantido como referência, que pode ser, portanto e ainda assim, questionado. Esta é a expressão do “retorno”, pois sem romper com Freud, Lacan procurou sempre colocar o saber daquele à prova.