Em 1976, Dawkins publicou “The selfish gene” 3, declarando que o propósito deste livro era o de examinar a biologia do egoísmo e do altruísmo. Ele reconhecia o interesse acadêmico no assunto e sua importância, por tocar todos os aspectos da vida social humana, tendo como amostras daqueles aspectos o amor e o ódio, luta e cooperação, doação e roubo, ganância e generosidade. (DAWKINS, 2001, p.22). O resultado foi que popularizou a idéia crescente na biologia de que a seleção natural ocorre não no interesse das espécies ou do grupo, tampouco do indivíduo, mas no interesse dos genes. Isto é, ainda que a seleção natural tome partido amplamente pelo indivíduo, os verdadeiros replicadores são os genes e é a competição entre eles que conduz a evolução do design biológico. Entretanto, ao tentar compreender o que os genes tramam, os seres humanos têm a chance de frustrar os intentos dos genes, o que não dá para ser feito por qualquer outra espécie. Devido à tendência natural ao egoísmo é que as pessoas precisam ensinar generosidade e altruísmo. Quer dizer, é um equívoco achar que características herdadas geneticamente são por definição fixas e inalteráveis. Para Dawkins (2001, p.23), “nossos genes poderão nos instruir a ser egoístas, mas não estamos necessariamente compelidos a obedecê-los por toda nossa vida”.
Dawkins (2001, p.24) segue a concepção tradicional do evolucionismo, quando escreve, por exemplo, que “uma entidade, tal como um babuíno, é dita altruísta se ela se comporta de maneira a aumentar o bem-estar de outra entidade semelhante, às suas próprias custas”. Para ele, “bem-estar” é definido como “possibilidades de sobrevivência”, mesmo se o efeito sobre a expectativa real de vida e de morte for tão pequeno que pareça desprezível. É importante ressaltar também que o que é chamado de altruísmo são os comportamentos efetivamente observáveis, sem que entrem aí as questões comuns na psicologia das motivações. Assim, um ato aparentemente altruísta é aquele que tende a aumentar, mesmo que só um pouco, a probabilidade do altruísta morrer e do favorecido sobreviver.
Ao analisar o significado de “a sobrevivência do mais apto”, para Darwin, Dawkins propõe que ele seja entendido como um caso especial de uma lei mais geral que prioriza a “sobrevivência do estável”. (DAWKINS, 2001, p.33). Assim, uma coleção de átomos que é permanente ou suficiente para merecer um nome é uma coisa estável, dentre as várias que povoam o universo. Em um dado momento da história do universo, uma molécula formada
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acidentalmente, que não precisa ter sido a maior ou a mais complexa, possuía a propriedade de formar cópias de si mesma. A esta molécula Dawkins chama de “replicadora”. O replicador é entendido como um molde ou modelo e os que sobreviveram foram os que construíram “máquinas de sobrevivência” para aí morarem. Dawkins usa o termo “máquinas de sobrevivência” para evitar outros que excluiriam plantas ou animais. Provavelmente, as primeiras máquinas de sobrevivência consistiam em pouco mais do que um revestimento protetor, que foi se tornando mais complexo à medida em que surgiram novas máquinas de sobrevivência melhores e mais complexas, rivalizando umas com as outras. O processo foi acumulativo e progressivo, até chegar aos corpos e mentes vistos atualmente. Os replicadores se juntam em grupos para criar sistemas que os carregam e trabalham em favor de sua replicação continuada. Esses sistemas ou “veículos” são os corpos, em geral. Aqueles replicadores recebem agora o nome de genes, os seres vivos conhecidos são suas máquinas de sobrevivência, o que torna a sua preservação a razão última até mesmo da existência humana. Contar todas as máquinas de sobrevivência na Terra é muito difícil e mesmo o número total de espécies existentes é uma incógnita. Contudo, pode-se dizer que as espécies representam variadas formas de viver no mundo e são máquinas de sobrevivência para o mesmo tipo de replicador, que são as moléculas de DNA. Se considerar-se o gene como a unidade fundamental da seleção natural, conseqüentemente há que se considerá-lo como a unidade fundamental do interesse próprio. Uma de suas características é que, apesar de não ser indivisível, raramente uma divisão acontece. Também não fica senil, porque pula de corpo para corpo ao longo das gerações, manipulando-os ao seu modo e para seus próprios fins. Por fim, abandonam os corpos mortais antes que estes fiquem senis e venham a morrer, o que, se não confere aos genes o título de imortais, faz com que sejam pelo menos definidos como unidades que se aproximam bastante do mérito por aquele título. Como pontua Dawkins (2001, p.56), “nós, as máquinas de sobrevivência individuais no mundo, podemos esperar viver mais algumas décadas. Os genes no mundo, porém, têm uma expectativa de vida que deve ser medida não em décadas mas em milhares e milhões de anos.”
Dentre as várias propriedades que distinguem um gene de vida curta de outro com vida longa e que é relevante para a presente discussão é que, no âmbito do gene, o altruísmo deve ser qualificado como mau, enquanto o egoísmo é bom. Qualquer um deles que se comporte de forma a aumentar sua própria sobrevivência, mesmo que às custas de seus colegas, tenderá a se perpetuar – desconte-se aí a afirmação tautológica. Entretanto, um gene que cooperar bem com a maioria dos outros genes que ele encontrar, nos sucessivos corpos dos quais participou
da construção, tenderá a ter vantagem, ao participar da seleção pela sua compatibilidade mútua. O exemplo que Dawkins utiliza é o da presença de dentes cortantes e afiados, o tipo apropriado de intestino para digerir carne, dentre outras características próprias de um animal carnívoro. Ou seja, uma característica ditada geneticamente para um carnívoro - como o é a presença de dentes cortantes e afiados - não vai conferir mais eficiência a um herbívoro, o que qualifica aquela característica como má para o herbívoro. Isto fará com que seu gene para dentes só se alie para cooperar com outro que determine a presença de intestino com capacidade de digerir plantas, na construção de um corpo herbívoro, obviamente.
Uma distinção saliente entre seres humanos e as demais espécies vivas da Terra está no cérebro humano, que não está encarregado apenas do controle contínuo das ocupações do corpo, mas que adquiriu a habilidade de prever o futuro e mobilizar as diversas funções corporais para agir, fazendo frente às demandas que chegam à medida em que o futuro se torna presente. Os cérebros humanos, pontua Dawkins (2001, p.83), “têm até mesmo o poder de rebelarem-se contra os ditames dos genes, por exemplo, ao recusar ter tantos filhos quanto são capazes”. Com isso, o controle dos genes sobre o comportamento animal, altruísta ou egoísta, se dá apenas de forma indireta, ainda que de modo muito poderoso. Ao determinar a maneira como as máquinas de sobrevivência e seus sistemas nervosos são construídos, os genes exercem o poder final sobre o comportamento. Assim, um gene para comportamento altruísta quer dizer qualquer gene que exerça influência sobre o desenvolvimento de sistemas nervosos que aumentem a probabilidade de que os corpos do qual fazem parte comportem-se de modo altruísta. O auxílio a réplicas do próprio gene, localizadas em outros corpos, quando ocorre, parece ser um comportamento altruísta, quando na verdade é realizado pelo egoísmo dos genes. Um gene “reconhece” cópias de si em outros indivíduos, como ocorre entre parentes próximos, já que na família há uma maior probabilidade de que os genes sejam compartilhados, em relação ao que ocorre na média do restante da população. Dawkins menciona que o cuidado com a prole é um caso especial de altruísmo para com parentes, bem como o são as ações altruístas entre irmãos. Tais comportamentos evoluem porque, nos dois casos, há uma boa chance do gene altruísta estar presente no corpo do beneficiado.(DAWKINS, 2001, pp.118-119). Para ele, o cerne do argumento de Hamilton é que a distinção entre família e não-família é uma questão de probabilidade matemática, isto é, não é absoluta.
Um outro ponto polêmico abordado por Dawkins (2001, p.141) é o do planejamento familiar e seu raciocínio segue uma linha relativamente simples: “na natureza, os pais que têm mais filhotes do que podem sustentar, não têm muitos netos”, o que significa que seus genes
não são transmitidos às gerações futuras. Ele é um tanto quanto sarcástico quando salienta que não há previdência social na natureza, o que elimina a necessidade de limitação altruística da taxa de natalidade. Por outro lado, a previdência social talvez seja o maior sistema altruístico que o reino animal já conheceu, por fazer com que os membros de uma determinada sociedade humana contribuam para prover as necessidades básicas dos filhotes dos membros que têm uma prole maior do que podem efetivamente sustentar por seus esforços próprios. A família deixa de ser a unidade de auto-suficiência econômica, tarefa esta que passa a ser assumida pelo Estado. Claro que Dawkins estava pensando no sistema de bem-estar social vigente no Reino Unido, na década de 1970, situação bem diferente do que se encontra em outros países e, provavelmente, até mesmo nos dias atuais no Reino Unido. A crítica que ele faz à previdência social é que ela, como todo sistema altruístico, é de natureza instável, por estar à mercê do abuso de indivíduos egoístas que o exploram, tanto do lado dos beneficiados como da parte dos que obtêm mais poder a partir da continuidade da relação de dependência estabelecida entre os que estão em situação de vulnerabilidade e o Estado. Sua conclusão, porém, é que os pais, na natureza, praticam planejamento familiar, no sentido de que otimizam suas taxas de natalidade em função da disponibilidade de alimento, no ambiente, dentre outros fatores, tentando maximizar o número de filhotes sobreviventes. A restrição na taxa de natalidade, enfim, não ocorreria em nome do bem comum, mas, sim, na busca egoísta dos genes em se perpetuarem na sucessão das futuras gerações, de acordo com Dawkins.
Surpreendentemente, no último capítulo de “O gene egoísta”, Dawkins argumenta que, para uma compreensão da evolução do ser humano moderno, deve-se desprezar o gene como a única base de idéias acerca da evolução. Assim, mesmo que a seleção por parentesco e a seleção em favor do altruísmo recíproco tenham atuado sobre os genes na produção dos atributos e tendências psicológicas básicas dos humanos, a transmissão cultural humana pode originar um tipo de evolução, posto que, tal como a transmissão genética, ela comporta replicadores. Mesmo que existam outras formas de vida pelo universo, para Dawkins o princípio geral que deve ser aplicado a toda a vida é que ela evolui pela sobrevivência diferencial de entidades replicadoras.
Dawkins (2001, p.214) sugere que o Darwinismo é uma teoria muito grande para ser confinada ao contexto restrito dos genes, e que haveria outros “replicadores” na Terra. Para ele:
o gene, a molécula de DNA, por acaso é a entidade replicadora mais comum em nosso planeta. Poderá haver outras. Se houver, desde que certas condições sejam
satisfeitas, elas quase inevitavelmente tenderão a tornarem-se a base de um processo evolutivo.
O novo caldo em que os novos replicadores estão se formando e desenvolvendo é o caldo da cultura humana. Às unidades de imitação presentes, Dawkins deu o nome de “meme”, a partir de “mimeme”, palavra grega que transmite a idéia de uma unidade de transmissão cultural. Por soar um pouco como “gene”, ele abreviou para “meme”, alegando que a alusão a “memória” também está aí presente, sem esquecer da palavra fancesa “même”, traduzida por “mesmo”, e que conserva a idéia de imitação. São exemplos de meme: canções, idéias, slogans, moda, modos de produzir ferramentas, utensílios domésticos ou mesmo objetos de decoração. Os memes são armazenados nos cérebros humanos e passados adiante por meio da imitação. É o que ocorre, por exemplo, com uma boa idéia que um cientista ouve ou lê e transmite a seus colegas e alunos, mencionando-a em aulas, artigos e conferências. Quando a idéia adquire prestígio, ela se propaga, espalhando-se de cérebro a cérebro, em um processo muito semelhante ao que ocorre com parasitas. (DAWKINS, 2001, p.214). Algumas das qualidades que determinam um alto valor de sobrevivência entre os memes são a longevidade, a fecundidade e a fidelidade de cópia. À primeira vista, os memes não são replicadores de alta fidelidade, já que, ao transmitir uma idéia a outra pessoa, um cientista tende a mudá-la bastante. O cientista não tem que ter gravada em seu cérebro, contudo, uma cópia idêntica das palavras exatas utilizadas pelo primeiro que expressou aquela idéia. O que determina a fidelidade da cópia, no caso da idéia, é a preservação do significado que está contido nela.
Ainda que se negue a especular a respeito de uma possível evolução do altruísmo nos seres humanos por meio dos memes, Dawkins argumenta, entretanto, que a capacidade humana de simular o futuro na imaginação, isto é, de fazer previsões, salva a humanidade dos excessos egoístas que os genes possam determinar. Os seres humanos têm o equipamento mental que possibilita a promoção dos interesses egoístas no longo prazo, sem ater-se exclusivamente àqueles próprios do curto prazo. Consegue-se isso porque a humanidade tem o poder de desafiar os genes egoístas do nascimento e, se necessário, até os memes egoístas de uma provável doutrinação. De acordo com Dawkins (2001, p.222), no último parágrafo de “O gene egoísta”:
Podemos até discutir maneiras de cultivar e estimular o altruísmo puro e desinteressado – o que não ocorre na Natureza e que nunca existiu antes em toda a história do mundo. Somos construídos como máquinas gênicas e cultivados como máquinas mêmicas, mas temos o poder de nos revoltarmos contra nossos criadores (grifo meu). Somente nós, na Terra, podemos nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas.
A armazenagem e transmissão de “memes” de cérebro em cérebro por meio da imitação não significa que o processo seja fácil, já que na enorme variedade de comportamentos humanos nem todas as imitações ou cópias sobrevivem, havendo uma violenta competição também entre os “memes”. Como ou onde entram as discussões sobre o altruísmo na proposta de Dawkins dos “memes”? Blackmore (2000, pp.52-61) propõe o seguinte exercício: imagine um mundo cheio de cérebros, e muito mais ‘memes’ do que existem lares. Que ‘memes’ são mais prováveis de acharem um lar seguro e serem passados adiante? A resposta dada por ela é: os “memes” que encorajam o seu hospedeiro a ser amistoso e gentil, posto que as pessoas que abrigam muitos “memes” generosos irão gastar mais “memes” com os outros e ter mais chances de disseminar seus “memes”. De uma forma mais simples, na média as pessoas altruístas irão disseminar mais “memes”, fazendo com que qualquer “meme” que prospere em pessoas altruístas tenha mais probabilidade de se disseminar, incluindo os “memes” para ser altruísta. Como já foi apresentado anteriormente, extrai-se desta argumentação que, freqüentemente, os “memes” podem agir em oposição ao interesse dos genes, no caso humano.
As abordagens da moralidade baseadas nas teorias da evolução geralmente dão a entender que os afetos ou emoções vêm à frente dos processos cognitivos. Em uma posição mais extrema pode-se até dizer que os blocos construtores da moralidade são emocionais, como acontece quando surge simpatia por alguém que está em sofrimento, ou raiva diante de pessoas que não mostram reciprocidade depois de terem sido auxiliadas ou socorridas. Conforme a argumentação de Haidt (2007, p.998), “some early forms of these building blocks
were already in place before the hominid line split off from that of Pan 5 to 7 million years
ago.”4 A linguagem e a habilidade para promover o raciocínio moral consciente teriam
aparecido muito mais tarde, talvez somente nos últimos 100.000 anos. Por isso, não é plausível que os mecanismos neuronais que controlam os juízos e comportamentos humanos estivessem subitamente conectados ao controle manual do organismo, acima desta nova faculdade de deliberar.
Praticamente todo programa de pesquisa em psicologia moral tem seu foco em um de dois aspectos de tratamento interpessoal: a) dano, cuidado e altruísmo, já que as pessoas são vulneráveis e, com freqüência, precisam de proteção; b) correção, reciprocidade e justiça, pois as pessoas têm direito a certos recursos ou tipos de tratamento. Estes dois aspectos vão ao
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Tradução sob responsabilidade do autor: “algumas formas iniciais daqueles blocos construtores estavam já
trabalhando antes que a linha de hominídeos se desgarrasse da linha de ‘Pan’, entre cinco e sete milhões de anos atrás”.
encontro dos dois mecanismos evolucionistas da seleção por parentesco e altruísmo recíproco. Entretanto, se a seleção pelo grupo remodelou a moralidade humana, então deve haver um tipo de salto tribal, um conjunto de práticas culturais e instituições morais que evoluíram concomitantemente, que não dizem respeito apenas a como tratar as outras pessoas, mas como ser parte de um grupo, especialmente de um grupo que compete com outros. Por isso, a influência do senso moral não pode ser ignorada e, como propõe Wonderly (1996), as análises sociobiológicas teriam mais sucesso em explicar o comportamento altruísta se admitissem que este não ocorre em função de um único gene, mas é dirigido à totalidade do grupo de genes relevantes presentes em um organismo.