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3.6 F ORBRUKERTESTING

3.6.3 Datainnsamling

As dimensões do espaço habitado pelos seres falantes são os assim chamados registros do Imaginário, do Simbólico e do Real. O Imaginário comporta duas conotações: a) a de falso, apontando aí a ilusão da autonomia de consciência; b) campo das representações e das imagens, que são a matéria-prima das identificações. Já o registro do Simbólico tem sua expressão mais concreta na linguagem, regente que é do sujeito do inconsciente. Ela é a causa e o efeito da cultura, em que a lei da palavra impõe a interdição ao incesto e nos faz diferentes dos animais. O registro do Real, por sua vez, é marcado negativamente, pois ao carecer de sentido, não pode ser simbolizado nem integrado imaginariamente. A incompatibilidade entre sujeito e objeto é evidenciada no Real, por ser o primeiro subvertido pelo seu desejo e o segundo, sobredeterminado, ou seja, não há como falar dele por não ser acessível à consciência.

O estádio do espelho foi comunicado por Lacan no XIV Congresso Internacional de Psicanálise, realizado em Marienbad, na então Boêmia, atualmente na República Tcheca, próxima à Áustria, entre 2 e 8 de agosto de 1936, sob a presidência de Ernest Jones. Este estádio é o da constituição do “eu” na criança, idéia desenvolvida a partir dos estudos de psicologia de Henri Wallon, para quem “a experiência dita do espelho é um rito de passagem que ocorre entre seis e oito meses de vida. Ela permite à criança reconhecer-se e unificar seu eu no espaço”, conforme expõe Roudinesco (1994, p.25).Na comunicação que Lacan fez no XVI Congresso Internacional de Psicanálise, em 17 de julho de 1949, em Zurique, o título do seu trabalho foi Le Stade du miroir comme formateur de la fonction du “je”. O estádio do espelho na verdade não é um estádio, estágio ou etapa, no sentido que os psicólogos do desenvolvimento costumam utilizar o termo. É uma operação psíquica, pela qual o ser humano se constitui numa identificação com seu semelhante, quando percebe sua própria imagem no espelho, ainda na infância. Assim pode-se entender o estágio do espelho como uma identificação, significando com isso que uma transformação foi produzida no sujeito quando ele assumiu uma imagem.

Assim compreendido, o estágio do espelho será também a experiência de uma identificação fundamental e a conquista de uma imagem, a do corpo, que estrutura o eu, antes que ocorra o comprometimento da criança na identificação com o outro por meio da linguagem. Parece que a criança percebe seu corpo como dispersão de todos os membros, isto é, ela não se experimenta como uma totalidade unificada, até que o estádio do espelho ponha

termo àquela dispersão atemorizante. Primeiramente, a criança percebe o reflexo do espelho como ser real de quem quer se aproximar ou dele se apoderar. A imagem que é sua, no entanto, é reconhecida como sendo a de outro. Em um segundo momento, a criança será capaz de compreender que o outro do espelho é apenas uma imagem, e não tentará procurar o outro atrás do espelho ou agarrar a imagem. No terceiro momento, há o reconhecimento do outro não somente como imagem, mas como sendo sua própria imagem. A conquista da identidade do sujeito, portanto, é promovida pela mediação da imagem do corpo no espelho. No reconhecimento de si na imagem, que não é ela, realiza-se o Imaginário.

No “Seminário sobre a Carta Roubada”, Lacan (1978, p.18) escreve:

É, como se sabe, na experiência inaugurada pela psicanálise que se pode apreender por quais meandros do imaginário vem a se exercer, até o mais íntimo do organismo humano, essa tomada do simbólico.

Se o imaginário não estiver ligado à cadeia simbólica, nada se poderá dizer dele, isto é, o imaginário pode ser expresso apenas quando se articula com a cadeia significante.

É aí que entra o “Nome-do-pai”, termo que remete à formação religiosa que Lacan recebeu, na infância. A função simbólica se torna lei, pela proibição do incesto, e o pai representa aquele que impõe o corte entre a criança e a mãe, fundidos que estavam anteriormente no imaginário da criança. Simbolicamente, a criança lida com a presença e a ausência da mãe, por meio de jogos, dos quais um exemplo é aquele em que a criança brinca com um cordão amarrado a um carretel, jogando-o e trazendo-o de volta. Este jogo é uma substituição significante, no qual o carretel é uma metáfora da mãe. Também indica que a criança passou da passividade para uma posição ativa, invertendo a situação, pois é ela que agora abandona a mãe simbolicamente, em meio à identificação. Ela não é mais o único e exclusivo objeto do desejo da mãe, o objeto que preenche a falta do Outro – que é o falo. Mobiliza, então, seu desejo como desejo de sujeito e dirige-se para objetos substitutos do objeto perdido. Tem acesso ao simbólico por meio da metáfora paterna, sustentada pelo

recalque originário.

O sujeito lacaniano é um conceito com grande probabilidade de mal-entendido, posto que é também utilizado em outros campos como o jurídico, o gramatical e o filosófico, por exemplo. No campo psicanalítico, ele não designa qualquer substância concreta, nem serve para identificar alguém. Não é sinônimo de pessoa ou indivíduo, tampouco se confunde com a consciência. O sujeito é determinado pelo Outro, que é o nome dado a tudo aquilo pelo qual ninguém chega a dominar completamente os efeitos de suas palavras e atos, posto que os

resultados de suas ações são sempre distintos daquilo que foi previsto ou planejado. O sujeito é a capacidade da linguagem que, ao enunciar mais do que pretendia, torna evidente o desejo do qual nada se sabia, como acontece nos casos de lapsos ou atos falhos. O que provoca, portanto, o surgimento do sujeito é o desejo, nome que pode ser dado aos impulsos que partem da percepção de uma falta psíquica, em direção a um objeto qualquer. Por isso, o

sujeito é evanescente, escorrega, oscila, nunca está completo.

O termo “Imaginário” encontra sua etimologia no latim, imago – que quer dizer “imagem”. Imaginário, portanto, refere-se àquilo que vem da imaginação e que possui a capacidade de representar coisas em pensamento, sejam elas presentes ou não na realidade. A matéria-prima do trabalho de psicanalistas, escritores, artistas em geral, enfim, de todos os que dependem da criação e da criatividade é o imaginário. Em última instância, pode-se afirmar que todo trabalho humano ocorre a partir de uma dimensão imaginária, já que a idéia se transforma em ato e aí encontra algum sentido. Dito isso, no estudo do altruísmo sob o filtro da psicanálise, o assim chamado por Lacan “registro do Imaginário” encontra lugar de importância, por estar na base do relacionamento estabelecido com as outras pessoas. Em seu livro Os complexos familiares, escrito em 1938, Lacan refere-se ao estádio do espelho como sendo o que marca a passagem do especular ao imaginário, e sobre este tema dedicará atenção ao longo de toda sua vida. Da definição de complexo, ele reconhece o seu caráter inconsciente, declarando que:

sua unidade é, com efeito, surpreendente sob essa forma, na qual ela se revela como a causa de efeitos psíquicos não dirigidos pela consciência, atos falhos, sonhos, sintomas. Esses efeitos têm caracteres tão distintos e contingentes que forçam a admitir como elemento fundamental do complexo esta entidade paradoxal: uma representação inconsciente designada pelo nome de imago. (LACAN, 1993, p. 21) O imaginário é o lugar do eu por excelência, com seus efeitos de ilusão e engodo. Por crer ser o que não é, o eu se engana, o que leva à inferência de que o eu é uma construção imaginária. A loucura pode, então, ser considerada como uma imersão radical no imaginário, na qual não há mediação na aderência da pessoa com o imaginário. O mito de Narciso evidencia que a ausência da diferenciação entre o si mesmo e a imagem provoca a morte daquele, isto é, seu fim está na falta de alteridade. Esta alteridade, base psicológica para o altruísmo, salva ao ser humano da loucura e da alienação no outro, ainda que o outro seja reconhecido como semelhante e o pressuposto para a ocorrência da castração simbólica. A alteridade e a triangulação simbólica – mãe/criança/falo - instalam um hiato marcado pelo surgimento da linguagem. Ou seja, a diferença provocada pela alteridade é que exige que se fale. Fala-se porque falta algo e não se é o outro, sendo que a ponte para uma possível

aproximação é estabelecida pelo desejo (JUNQUEIRA,2003). O falo é o terceiro termo que falta entre a criança e a mãe e que tem estatuto imaginário. Segundo Junqueira (2003) “o imaginário associa-se muito ao espelho, a esta especularidade narcísica em que o outro é reduzido a si mesmo, não se suportando a falta que possibilita a diferença”.

De forma sucinta, pode-se dizer que o imaginário se refere ao semelhante, enquanto o simbólico se refere à cadeia de significantes. Significantes são as imagens acústicas ou palavras desligadas de conceitos fixados, o que as faz incompletas e abertas ao Outro (PAIVA, 1999). O imaginário caracteriza-se, assim, pela preponderância do semelhante, reportando-se à fase do espelho, na qual o eu se constitui a partir do semelhante. No estágio do Imaginário, a criança está envolvida numa relação de dois termos: ela e a imagem. É próprio do imaginário reduzir o outro a si mesmo, o diferente ao idêntico, o estranho ao semelhante. Nessa acepção, o imaginário se alimenta de sinônimos, analogias, metonímias e isomorfismos.

Já no estágio Simbólico, a relação se dá a partir de três termos: a criança, o signo e o Outro. O sentido, ao fazer a mediação entre a mente e o mundo, constitui o “Outro”, e por ser essencialmente público, faz com que o Outro seja o mundo pré-existente das regras, no qual os seres humanos nascem. A linguagem é um exemplo de atividade governada por regras e um dos requisitos básicos para a vida em sociedade, proporcionando também condições para que mais regras sejam inventadas e mais convenções sejam estabelecidas entre as pessoas. Assim, o Simbólico diz respeito à concatenação de significantes, conforme afirma Paiva (1999):

Segundo a qual cada significante adquire essa função enquanto se insere, como elemento, numa ordem que lhe é exterior, de tal forma que, embora como elemento possa permanecer o mesmo, torna-se um significante outro quando inserido em outra cadeia. Nessa acepção, o simbólico transita pela alteridade, pela diferença e pela metáfora e produz um sentido novo .

Uma diferença evidente entre as concepções freudiana e lacaniana de simbólico pode ser assim resumida: Freud acentua a relação que une o símbolo com aquilo que ele representa, por mais complexas que sejam aquelas conexões. Para Lacan, porém, é a estrutura do sistema simbólico que é primordial. A ligação com o simbolizado é secundária e está impregnada de imaginário, como ocorre com o fator de semelhança, o isomorfismo.

Duas eram as intenções principais de Lacan ao usar a noção de simbólico:

a) aproximar a estrutura do inconsciente à da linguagem e aplicar-lhe o método da lingüística;

b) mostrar como o sujeito humano se insere numa ordem pré-estabelecida, de natureza simbólica, conforme a concepção de Lévi-Strauss.

Apesar de não admitir que um significante tenha seu significado previamente estabelecido, Lacan designava por simbólico uma estrutura cujos elementos discretos funcionam como significantes, e a lei que funda esta ordem. Pelas expressões “pai simbólico” ou “nome-do-pai”, Lacan vislumbra instâncias que não são redutíveis às contingências do pai real ou imaginário, e que cria a lei.