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Se a experiência do raciocínio clínico pode ser compreendida pelo modelo teórico apresentado, que admite discrepâncias na fluência da mesma, é razoável admitir que os resultados do raciocínio clínico de diferentes enfermeiros sobre uma mesma situação, leve a conclusões diferentes. Uma postura inicial diante dessa afirmação é aceitá-la como natural e desejável. No entanto, como se trata de um exercício profissional, que necessita de base bem organizada de conhecimentos, admitir ser desejável que as conclusões do raciocínio clínico fiquem totalmente à mercê das singularidades de cada interação enfermeiro-paciente, parece uma posição paradoxal.

Como já foi colocado, as preocupações em estudar o raciocínio clínico na enfermagem adensaram-se no interior dos movimentos para desenvolver sistemas padronizados de linguagem. Isso faz sentido quando consideramos que a linguagem tem papel central na estruturação da mente, conforme a teoria vigostkiana e as diferentes vertentes da ciência cognitiva.

Frente a esse pressuposto cabem alguns questionamentos sobre a função de linguagens padronizadas na prática da enfermagem: Qual o papel da linguagem no desenvolvimento do pensamento clínico? O uso de classificações de diagnósticos favorece o desenvolvimento do pensamento clínico? O que determina o conteúdo do desafio do cuidar?

Parece claro para a ciência cognitiva que o ambiente interno do indivíduo está determinado por uma arquitetura neural, geneticamente construída e distribuída em forma de uma rede, que é desenvolvida pela experiência concreta(44). No entanto, como também já apontado, Frawley(45)

apresenta uma abordagem comparativa entre a Ciência Cognitiva e os trabalhos de Vigotsky, fazendo uma integração entre as mentes sociocultural e computacional. Esse autor defende que as duas linhas de pensamento são atualmente paralelas, mas na realidade, andam juntas, interagem. A idéia básica de Frawley(45) é que

a mente social e a computacional que se reúnem na forma como certas partes da linguagem, repousadas na fronteira entre a mente e o mundo, são utilizadas pelas mentes computacionais para mediar o que é interno e o que é externo enquanto se pensa.

Os trabalhos de Vygotski são compreendidos como o estudo do desenvolvimento da linguagem e suas relações com o pensamento (44-45). Ao

encontrarmo-nos com as idéias de Vigotski, percebemos uma possibilidade de aprofundamento na compreensão do raciocínio clínico, e principalmente, do papel da linguagem no desenvolvimento do mesmo. As atuais explicações cindem o mundo interno do externo, determinando a mente como um sistema fechado, apesar de considerar a grande e importante influência que as variáveis sociais e ambientais determinam na interpretação e determinação de significado à realidade. Frawley(45) tem em sua mente

algo como “uma ciência cognitiva vigotskiana, o que requer uma avaliação honesta dos insights e limites do computacionalismo tradicional e do contextualismo sociocultural da moda” o que o leva a defender que “algumas partes da linguagem social são computacionalmente eficazes”. Essas idéias podem ser estimulantes pontos de partida para analisar o papel de sistemas padronizados de linguagem no raciocínio clínico em enfermagem.

Essas considerações abrem um caminho que deve ser explorado, no sentido de se ampliar as perspectivas para o estudo do raciocínio clínico

e melhor compreendê-lo. O presente estudo aponta para a necessidade de aprofundamento dessa compreensão. Uma possibilidade disso seria verificar se o modelo teórico aqui derivado, é capaz de apreender a experiência de raciocínio clínico de enfermeiros que utilizam sistemas padronizados de linguagem em sua prática clínica. Outra possibilidade seria desenvolver estudos que permitissem analisar possíveis associações entre os conteúdos do raciocínio clínico e o uso de sistemas padronizados de linguagem. Outra possibilidade ainda, seria realizar estudos para compreender como se desenvolve o raciocínio clínico na formação do enfermeiro sob a perspectiva da função da linguagem na aquisição de conceitos científicos.

Reconhecemos a complexidade do tema como um desafio para os enfermeiros, mas consideramos que exatamente as limitações apresentadas pelo estudo devam ser o ponto de partida para a melhor compreensão desse processo. As limitações reconhecidas originam-se principalmente de compreensões que só puderam se organizar com o processo de realizar este estudo. Repensando os percursos realizados é possível resgatar que a idéia inicial era compreender como ocorria o processo de identificar os diagnósticos de enfermagem. Essa idéia era ancorada no pressuposto de que, usando ou não classificação de diagnósticos, a determinação da situação clínica sobre a qual se quer intervir (diagnóstico) sempre ocorre. A superação das dificuldades iniciais na proposição da questão norteadora das entrevistas encaminhou a recomposição da idéia preliminar, direcionando-a para o raciocínio clínico que é mais amplo que o raciocínio diagnóstico. Nesta fase do estudo é

possível admitir que a fragilidade do conceito de diagnóstico de enfermagem entre os enfermeiros não nos permitiu acessar o que preliminarmente intencionávamos. Isso mais uma vez nos reporta à importância dos símbolos nos processos de interação. É como se a fragilidade do conceito de diagnóstico de enfermagem entre os enfermeiros, a fragilidade desse símbolo, fizesse do processo de diagnosticar uma experiência indistinta na clínica de enfermagem. E, por ser indistinta entre os enfermeiros do estudo, tornou-se impossível coloca-la sob observação.

É importante observar que as aproximações feitas com os pressupostos da ciência cognitiva pautaram-se nos conhecimentos ainda incipientes que temos sobre o assunto. Essa circunstância aumenta a vulnerabilidade das articulações aqui apresentadas, mas a confiança de que essa perspectiva é promissora para o tema deste estudo predominou na decisão de por ela optar.