4. SOCIETY AND SELF IN THE ANTHROPOCENE
4.1 The network society at the dawn of the Anthropocene
Diversos estudos com seres humanos, para medição dos batimentos cardíacos, foram realizados, para conhecer mais a fundo variações que o corpo humano pode apresentar, de forma a compará-las e aplicá-las à métrica musical, como no movimento Andante, baseado no simples andar de uma pessoa, assim como no Vivace, o andar de uma pessoa no modo mais acelerado.
Nesse particular, grandes figuras, como Da Vinci, muito contribuíram para a junção da matemática, assim como da física à música, justamente por entenderem que, na pratica músical, deveria ser aplicado o sentido da quantificação numérica nos mais variados movimentos musicais. Assim surgiu o metrônomo, que ajuda na regulação numérica dos movimentos e no balizamento métrico durante a preparação de uma obra. Podemos visualizar isso na primeira página de várias partituras, no alto à esquerda, abaixo do título da obra e ao lado do movimento registrado Andante (seminima = 80 bpm), que nos indica que o compositor quer que toquemos a peça no movimento um pouco mais movido, andado, com a pulsação indicando a seminima (nota indicada) na velocidade de 80 bpm.
Acontece que, em muitos casos, nós seres humanos, quase não conseguimos manter a mesma pulsação individualmente, principalmente em conjunto, comprovando que depois de um certo tempo, a pulsação de modo geral se perde como um todo. É simples. Basta colocarmos duas
pessoas batendo palmas na mesma métrica durante um determinado tempo pré-estipulado. Depois de algum tempo, cada um estará batendo palmas em um ritmo diferente. Isso só nos confirma que cada um de nós possui uma pulsação interna diferente do outro.
Com o sentido de contribuir para essa normatização, após vários estudos desenvolvidos para a métrica musical, chegou-se ao metrônomo, aparelho mecânico baseado num pêndulo, cuja oscilação se gradua por meio de um peso que, preso a uma régua de medidas, oscilava tanto para um lado como para outro de forma igual, determinando as frações métricas de um compasso. À medida que o peso é deslocado para cima, o movimento cadenciado fica mais lento e, para baixo, mais rápido. Através dos inventores Sauer e Winkel, várias foram as tentativas para medir as unidades de tempo de um compasso, associadas aos movimentos musicais, mas foi com Maëtzel em 1813 que se chegou à forma definitiva, que permanece até hoje. Essa forma de metrônomo mecânica, hoje pode ser encontrada também na forma digital, com modelos mais leves e portáteis.
Os metrônomos eletrônicos são bem mais práticos, pois além de medirem os tempos, fornecem o Diapazon12 com a nota Lá em várias frequências, embora os metrônomos mecânicos continuem sendo bem confiáveis e seguros.
Com os termos que indicam os andamentos conjugados à métrica reguladora dos metrônomos, tenta-se obter o melhor resultado interpretativo das obras compostas. Nem sempre isso é possivel, visto que, como mencionado, cada intérprete reage de forma diferente, mesmo encontrando as indicações balizadoras nas obras.
Musicalmente falando, tanto voz como instrumentos podem e devem desempenhar papéis tanto de solista como de acompanhante, como dizia Jean-Philippe Rameau: “a verdadeira música é a linguagem do coração” (Le Monde, 17 juillet 2013)13.
Alguns aspectos, como emoção, desenvoltura técnica, musicalidade e cultura, são determinantes na interpretação. Sem que haja seu controle, dificilmente o executante consegue lograr êxito em sua performance, uma vez que para executar determinada obra, alguns elementos não aparecem de forma explícita na parte ou partitura. Aí podemos ouvir comentários do tipo “é, apesar da boa sonoridade e de um bom controle técnico, não me disse nada musicalmente”.
12
Diapazon – instrumento metálico desenvolvido para projetar a frequência de 440 klz. Atualmente os aparelhos eletrônicos medem frequências que podem oscilar entre 438 a 444 klz.
13 “La vraie Musique est le langage du couer”- Jean-Philippe Rameau no Code de musique pratique ou méthode pour
Naturalmente devemos descontar alguns aspectos preponderantes, como a empatia entre um intérprete e o ouvinte, mas temos percebido, com uma certa constância, que muitos são os fatores que fazem a liga e que, quando esta não existe, essa relação nunca se completa. Muitas vezes, quando assistimos a um músico executando uma determinada obra que indica um andamento, Andante Cantabile14 por exemplo, e esse mesmo intérprete a realiza, intencionalmente ou não, de forma mais agitada, isso tem uma razão de ser! Quando não se conhece, começa a se perguntar por que não seguiu as indicações do compositor, quais são os motivos que o levaram a não executar na forma mais cantada ou o que pretende, gerando muitas vezes uma crítica negativa embasada na sua interpretação.
Algumas vezes, sem que se dê conta, o músico executante realiza determinadas obras deixando-se influenciar pelas informações culturais ou estilísticas de seu tempo e não através de um estudo mais acurado do estilo e da época em que essa obra foi composta. A partir do momento em que se passa a conhecê-lo, percebe-se nitidamente que faz parte do seu temperamento certa inquietude, uma certa agitação, e logo se entende que, apesar da indicação do compositor trazer tal orientação, o músico jamais tocaria na forma concebida, uma vez que simplesmente não conseguiria. Mas não se pode invalidar a importância de uma maior pesquisa estético-estilística antes da execução de uma determinada obra, para que se possam estabelecer os parâmetros mais próximos à realidade da obra a ser executada.
Quanto mais remontamos a períodos passados, tanto mais difícil resulta ler e conhecer as partituras antigas, compreender seus sinais e símbolos gráficos e completar suas escassas instruções para entendê-las melhor. Uma vez entendidas, nossas possibilidades de interpretá-las se tornam maiores. Se esse processo não acontece, estaria esse músico a que nos referimos desrespeitando o compositor? O grande Maestro Arturo Toscanini (1867-1957) certa vez, proferiu as seguintes frases sobre intérpretes dizendo: “Benditas são as artes, que não necessitam de intérpretes, não podem ser envenenadas por saltimbancos histriônicos, como sucede a miudo com a divina arte da música…” e “O procedimento mais dificil e honesto é aquele que elimina a personalidade do intérprete e destaca somente os desejos do compositor” (DORIAN, 1950, p. 9). Mas como viver sem os intérpretes? Como ter uma obra executada sem os intérpretes?
14 Andante Cantabile: Andante cantado- Termo italiano que indica andamento não muito lento, fluente e moderado. Os compositores acrescem-no de outras expressões, para melhor caracterizar sua intenção: Cantábile - moderado e cantante.
Os maestros, os solistas, os instrumentistas, têm o direito a uma interpretação da obra a ser executada, desde que respeitados os preceitos básicos indicados pelo compositor, com mais ou menos sinais, mas quanto mais fiel às intenções do compositor, tanto melhor para a obra. No caso de uma interpretação menos fiel ao texto, espera-se que o músico executante saiba justificá- la historica ou estilisticamente.
Sob certo aspecto, alguns intérpretes encaram como uma espécie de camisa de força o fato de terem de interpretar todos os sinais, impedindo-os assim de se manifestarem com mais liberdade. Funcionam mais ou menos como na propaganda em que a mensagem simbólica guia e identifica, mas é na interpretação que ela se solidifica.
Contudo, a variação das leituras não é anárquica, ela depende dos diferentes saberes investidos na imagem (saberes práticos, nacional, cultural, estético) e estes saberes podem classificar-se, constituir uma tipologia; tudo se passa como se a imagem se desse a ler a vários homens e esses homens pudessem muito bem coexistir num único indivíduo: uma mesma léxia mobiliza léxicos diferentes”. (BARTHES, 1982, p. 32).
As palavas indicativas para os movimentos musicais começaram a ser implantadas por volta de 1600, mas elas nem sempre estabeleciam a mesma definição, conforme o exemplo, senão que o compositor as empregava, por vezes, com critérios distintos. Se para os compositores já existia essa diferenciação quanto à utilização de tais expressões, imaginemos como isso repercutia nos músicos intérpretes. Reportando-nos a alguns séculos atrás, com o início do registro das criações musicais na forma de partituras que hoje conhecemos (fins do século XVI), os primeiros intérpretes dessas obras fixadas eram os próprios compositores. Algumas vezes, regiam partituras de outros compositores e se deparavam com o mesmo problema, qual seja, o de interpretá-las com os sinais e indicações lá contidos, escritos por seus colegas. Surge aí uma situação bastante interessante, em que os próprios criadores sentiam falta de mais sinais indicativos no momento em que interpretavam as obras de compositores colegas seus e vice- versa. A partir de então, os compositores passaram a sentir a necessidade de trazer maiores informações estéticas, para que pudessem apresentar as composições de forma mais fiel ao texto original possível. Antes mesmo dos músicos/intérpretes tomarem para si a tarefa da interpretação dos textos musicais, nem sempre havia alguém à frente para tentar organizar o processo da improvisação. A partir de então, esses líderes começaram a não só interpretar, como a cobrar maiores sinalizações e explicações para os compositores, com o sentido de traduzir mais fielmente suas intenções.
Nas orquestras, ou grupos musicais, que nao possuíam maestros ou líderes musicais (que podiam ser o organista/pianista e/ou o primeiro violino), o fracasso era evidente. A desordem musical imperava, uma vez que cada músico enxergava ou interpretava aquilo que bem entendia. Tal fracasso foi registrado pela primeira vez, na antiga Rússia e em seguida em outros países, mas foi na Orquestra russa em Moscou Persimfans, primeiro conjunto sinfônico sem regente de que se tem notícia, que atuou de 1922 a 1933, iniciava-se a prática da responsabilidade na liderança do conjunto, em que os problemas e soluções eram apresentados e divididos entre seus membros efetivos. Tais movimentos existem em pequenos conjuntos e orquestra de câmara, em que as lideranças dos naipes tomam para si essas responsabilidades. Dentro do conceito humanista, qualquer artista possui a liberdade de interpretar da maneira que melhor lhe convier, desde que dentro de um conceito, de uma lógica bem fundamentada culturalmente.
Tanto as nomenclaturas quanto as notações musicais contribuem enormemente para um direcionamento aos intérpretes na hora do primeiro contato com a obra a ser executada durante seu estudo, visando sua execução. As nomenclaturas que indicam o nome da obra, o tipo de instrumento que executará a obra, assim como o andamento a ser seguido foram, de certa forma, englobadas nas notações musicais. Ao mesmo tempo, as notações não estão englobadas nas nomenclaturas, uma vez que essas definem numericamente os andamentos, a tonalidade, a dinâmica nas notas em si, porque estão baseadas mais nas questões formais da música. Mas quando se fala de notações musicais, normalmente se pensa em tudo o que vem contido na partitura, inclusive as nomenclaturas, que aos poucos foram englobadas no contexto das notações musicais. As nomenclaturas ficaram mais usuais para as determinações estilísticas, de andamento e para o título das obras, principalmente nos países em que se utilizam outros idiomas além do italiano. Depois dos anos 1940, com o avanço dos movimentos nacionalistas, assim como na América do Sul nos anos 1970, temos a utilização dessas nomenclaturas em língua vernacular, possibilitando uma identificação maior e melhor por parte dos executantes e intérpretes, uma vez que tais palavras os colocavam mais próximos à sua realidade.
Podemos citar por exemplo, algumas palavras utilizadas por Villa-Lobos como Melancolia, Choros, Harmonias soltas, remetendo o artista brasileiro para sua realidade cotidiana.