A cidade como expressão maior do domínio da natureza pelo homem e das condições artificiais de vida (NAXARA; BRESCIANI, 1985, p.39)90, as agrovilas, os novos núcleos urbanos que vão sendo construídas pelos colonos, pelo menos nos relatos de Jones Bidart, exemplificam a relação entre a Missão e os colonos.
Você sabe como conhecíamos que uma casa era de um colono maranhense ou de outra parte do Brasil e não de um paraense? Porque os paraenses viviam do extrativismo e da caça. Na frente da casa deles tinha mato e nenhuma plantação. À tarde eles saíam para a caça e à noite voltavam com algum animal para comer com a farinha. Já nas casas dos colonos havia sempre uma pequena plantação, uma roça. Os mineiros faziam um restaurante, os gaúchos tinham sempre uma oficina e os maranhenses uma plantação de mandioca. (BIDART, 2013).
Todos estes relatos acima, tanto dos jesuítas no rio Tocantins nos tempos coloniais, quanto do missionário da Rodovia Transamazônica dos tempos republicanos, foram úteis para identificar localidades, para desenhar cartografias, para consolidar domínios e estabelecer fronteiras. Em 1974, as casas dos colonos assentados pelo INCRA– Instituto de Colonização e Reforma Agrária no projeto da Transamazônica eram, quando autorizadas pelos donos, marcadas com um decalque que tinha o símbolo da campanha de evangelização da Operação Transtotal. Esta forma de demarcação identifica o território ou o campo já conquistado, delimitando no mapa os pontos que já estavam dentro e os que estavam fora do alcance da Missão.
Das Missões protestantes que chegaram ao Império nos idos do século XIX, a Missão Batista foi uma das que já conhecia o curso do rio Amazonas. Os missionários americanos se referiam ao vale amazônico como o desafio dos bravos. No cotidiano de alguns
90 Sobre a mesma temática, examinar da mesma autora Cidade e imaginário. In: SOUZA, Célia Ferraz de;
PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.). Imagens urbanas: os diversos olhares na formação do imaginário urbano. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1997, pp.13-20.
126 deles, a Amazônia era o paraíso verde. Samuel Mitt, secretário-executivo da Junta de Missões Batistas, chega a declarar que as cidades novas que estavam no curso da rodoviaeram como crianças, sem vícios, e os batistas deviam chegar lá antes que elas se contaminassem com o pecado.
Segundo Márcia Naxara,
A forma como se viu e interpretou tanto a natureza quanto a civilização esteve frequentemente carregada por significativos sentidos de dubiedades e ambivalência, pelos quais se pode reunir, simultaneamente, nos mesmos objetos ou situações, a expressão de significados opostos – a cidade pode ser o lugar da luz e da civilização e, também, o das trevas e do perigo, dependendo do sentido que se lhe atribui, ou o sentimento que a ele é associado [...]. (2004, p. 34)
Nesta perspectiva,
[...] vilas e aglomerados urbanos localizados no interior são vistos como extensão do campo, imagem do atraso e do provincianismo [...] estabelece-se uma hierarquia das pequenas para as grandes cidades, que se constituem efetivamente como centros de cultura, saber e progresso econômico. (NAXARA, 2004, p.33)
Criou-se de um lado uma mentalidade idílica da Amazônia, renovando o religioso- mítico. Aqui pensamos em MirceaEliade quando ele trata da questão da reinvenção do mitopelo fiel ou pelo sacerdote autorizado e afirma que recontar e recriar o mito é apropriar-se dele91. Vários mitos já foram criados sobre a Amazônia, a de paraíso desconhecido foi um deles. Na época do regime militar, Samuel Mitt descreveu algumas das novas cidades da Amazônia; ele as comparava à crianças. A criança no imaginário da Missão cristã é o símbolo da inocência, da ingenuidade, da pureza. ―E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus‖(Mateus 18:13). O Paraíso desconhecido e cidades em estágio ―infantil‖ se constituíam em ambientes idealizados pela missão para renovar o sentido e a natureza da missão: levar o evangelhos ―antes que os vícios‖ (OJB, 1971, p. 10) do progresso chegassem.
Nestas e em outras referências acerca da cidade e do imaginário que a cerca está presente a linguagem metafórica que através de alegorias classifica e hierarquiza os espaços, delimitando fronteiras entre eles. Esta forma de ver e de ler as paisagens, sejam urbanas ou
91Sobre as estruturas do mito na modernidade ler ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Nova Iorque: Harper
127 não, está impregnada de conceitos que deixam à margem aquelas e aqueles que não se encaixam nos parâmetros e nos indicadores de desenvolvimento, progresso e civilização criados e adotados pelos projetos de colonização e de Missão, e que são modelados a partir do contexto global do mundo ocidental e de seus parâmetros capitalistas.
No que se refere às imagens que foram produzidas acerca da Amazônia posso afirmar que a Missão Batista as reiterou em seus discursos e em alguns casos contribuiu para legitimá-lo, de dominação e de conquista. De modo diferente da Missão católica, pois o contexto histórico era outro, a Missão Batista, durante o regime militar, viu nas cidades novas e nas cidades velhas, nas Rurópolis e nas agrovilas situadas ao longo da Rodovia Transamazônica a rota da expansão para seus pontos de reunião e de congregação.
Esta expansão foi considerada um símbolo do pioneirismo batista. É interpretada como um ato de bravura semelhante a dos bandeirantes, afirmou Samuel Mitt. O contato dos missionários em lugares mais distantes dos grandes centros urbanos exigia uma parcela de sacrifício e não raramente a Missão na Amazônia era comparada com a Missão no continente africano. O encontro de culturas diferentes na Transamazônica, no entanto, desmontava as estratégias anteriormente pensadas para o local. Os colonos vindos de diferentes lugares do Brasil mais as gentes naturais da Amazônia compunham o campo de ação dos missionários que se viram diante do desconhecido e do inacabado. Ainda assim, a descrição não nega o adjetivo de paraíso verde.
Stela Bresciani e Jacy Seixas afirmam que ao tomar a natureza como objeto de construção do olhar social, inseri-la como elemento sensível na estruturação e gestão das relações de poder, aproximam estética e historicamente as categorias do belo, pitoresco e do sublime92.
Sobre o belo, Alice de Carvalho Lino (2008) afirma que:
A concepção kantiana na Crítica da Faculdade do Juízo determina que a expressão ―belo‖ surge a partir do juízo de gosto. Tal juízo é concebido como estético, na medida em que não implica conhecimento acerca do objeto e relaciona-se com o sentimento de prazer e desprazer do sujeito diante do objeto ou da representação dele. Em outros termos, para que se determine algo como belo, a faculdade utilizada é o gosto e a base deste encontra-se no sujeito que elabora tal juízo. Se o fundamento para o belo é subjetivo, isso indica que não há determinação conceitual e sendo assim, não se elabora um conhecimento sobre objeto.
92 Op.cit. p.13. As categorias kantianas belo, sublime e pitoresco não serão trabalhadas nesta tese. Indicamos
128 A discussão sobre o ―belo‖ remete à estética na filosofia, mas também ao conceito de Bem e Verdade em Platão, passando por Santo Agostinho e chegando até o Papa Emérito Bento XVI93. O belo, sendo um juízo de valor subjetivo, não estabelece critérios a não ser o da admiração e do encantamento do sujeito diante do objeto contemplado. Os valores cristãos influenciaram na apreciação da natureza. Em relação à região amazônica, a beleza paradisíaca era colocada em contraste aos vícios humanos. Os missionários se surpreendiam com o domínio da floresta, dos rios e dos animais não domesticados ao mesmo tempo em que se espantavam diante dos hábitos e costumes das pessoas que ali viviam.
No entanto, a visão idílica da Amazônia, tanto no caso dos missionários quanto do governo, justificava a intervenção local do Estado ou da Igreja através de suas agências. Sue Branford (2008) afirma que a construção da Rodovia Transamazônica foi anunciada estranhamente após a visita do presidente Emílio Garrastazu Médici ao nordeste. A situação de fome e miséria provocadas pela seca teria comovido o general do Exército. A Amazônia seria inserida no contexto nacional para atender a demanda social atingida pelos problemas da seca no nordeste. A integração da Amazônia ao país teve então, desta perspectiva, uma razão social e não somente econômica.
Stephen G. Perz (2007, p. 532) afirma que:
Na Amazônia brasileira, as estradas oficiais, também chamadas de estradas primárias ou rodovias de desenvolvimento, foram construídas pelo Estado, como parte da política de desenvolvimento de fronteira. Desde 1960, o Estado brasileiro tem procurado atender não só o objetivo geopolítico de assegurar suas amplas fronteiras internacionais contra incursões de outros países, mas também o objetivo econômico de explorar a Amazônia como um armazém de recursos em favor do desenvolvimento nacional. O Governo Federal, portanto, construiu ou adaptou estradas inter-regionais para facilitar o acesso para a Amazônia a partir de outras partes do Brasil: exemplos incluem a Rodovia Transamazônica (BR-230), que vai de leste a oeste através da extremidade norte do país, e da Rodovia Cuiabá-Santarém (BR- 163), que corre norte-sul, ligando Sul do Brasil à Amazônia central. As estradas oficiais tendem a ser longos corredores de centenas de quilômetros em caminhos mais ou menos lineares conectando cidades e regiões. Consequentemente, elas não formam densas redes em regiões pouco povoadas, como a Amazônia, onde eles correm em paralelo, muitas vezes centenas de quilômetros de distância.94
93 Seria interessante discutir um pouco mais a este respeito, mas vamos deixar para trabalhos futuros e para os
interessados nesta questão.
94Traduçãolivre do original:―In the Brazilian Amazon, officials‘ roads, also called primary roads or development
highways, were built by the state as part of frontier development policy. Since 1960s, the Brazilian State has sought to meet not only the geopolitical objective of securing its expansive international borders against incursions by others countries, but also the economic goal of exploiting the Amazon as a resource warehouse for the sake of national development. The Federal Government therefore built or upgraded interregional highways to facilitate access to the Amazon from other parts of Brazil: examples include the Transamazon highway (BR230),
129 Desta maneira, tem-se de um lado um projeto socioeconômico de desenvolvimento de fronteiras e de outro um discurso de acolhimento às vítimas da seca. No trânsito entre as duas faces do projeto está a rodovia. A construção da estrada de integração da Amazônia para outras regiões, a Transamazônica, materializava a possibilidade de um movimento migratório mais intenso e dirigido pelo Estado para a Amazônia.
O INCRA, a EMATER – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural, o DNER – Departamento Nacional de Estradas e Rodagem (atual DNIT), INTERPA– Instituto de Terras do Pará, a SUDAM e demais órgãos do governo, articulados ao projeto de desenvolvimento da Amazônia, sustentaram na escala local a política do desenvolvimento das fronteiras.
O documento do Ministério do Interior, formulado pelos técnicos da SUDAM, apresentou detalhadamente a caracterização do sistema econômico da Amazônia. A equipe apresentou o estudo com vistas ao planejamento de desenvolvimento da região, que é assim definido:
Uma Região Pioneira em Fase de Mudança – essa caracterização é decorrente dos recursos naturais disponíveis e as perspectivas de mercado em futuro próximo, para os mesmos; a população e posse da terra, evidenciando um forte contraste entre áreas de maior densidade relativa, ao lado de espaços vazios; a complementariedade econômica amazônica com a mais importante das quais são apresentadas na descrição sumária que se segue [...].95
No que se referia àquestão do contraste entre áreas de maior densidade relativa ao lado de espaços vazios, o II PDA – Plano de Desenvolvimento da Amazônia reiterava a ideia do vazio demográfico na região. A baixa densidade demográfica da Amazônia deu o sentido para o lema ―terras sem homens para homens sem terra‖ do programa de colonização dirigida do INCRA. O modelo de desenvolvimento proposto pelo governo desconsiderou a presença de populações na Amazônia cuja cultura era de mobilidade. Para estes povos, a colonização dirigida provocou novos deslocamentos e conflitos agrários.
Nesta conjuntura, enfatizamos a análise da prática pastoral dos missionários da Missão Batista. Um tipo de pastorado que se alimenta da relação mútua entre pastor e ovelha which runs east-west across the northern end of the country, and the Cuiaba Santarem highway (BR 163), which runs north-south, linking southern Brazil to the central Amazon. Official roads tend to be long corridors running hundreds of kilometers in more or less linear paths the connect cities and regions. Consequently, they do not form dense networks in sparsely populated regions such as Amazon, where they run in parallel, often hundreds of kilometers apart‖.
95Este documento foi elaborado pelos técnicos da SUDAM. Ministério do Interior. II Plano de
130 fortalece o poder religioso e cria um modelo de igreja mais susceptível àobediência das autoridades civis e militares, pois esta relação pastor e ovelha produz no indivíduo dependência de ambas as partes motivadas pela valorização individual, pela necessidade de alimentar a fé e o serviço cristão de um e de outro. Sobre o poder religioso e sua genealogia, Eduardo Mendieta(2009)e Ben Golder (2007, p. 157-176) afirmam que este poder emerge das circunstâncias criadas pelo próprio Estado, que provoca no indivíduo o desejo de se governar. O poder do pastorado cristão emerge desta relação individual e deste desejo. Este poder da religião é sustentado pelos fiéis. A Missão religiosa faz a manutenção deste poder.
Meredith Lake (2011) analisou o processo de estabelecimento da Igreja Anglicana na colônia inglesa na Austrália. Com ênfase no modelo pastoral aplicado pelo chefe da Igreja Anglicana na Inglaterra, William Grant Broughton, no contexto de colonização, Lake afirma que:
No momento em que a posição da Igreja foi mudando tanto em casa quanto no exterior, era sua responsabilidade estabelecer a presença física e espiritual do anglicanismo em toda a colônia. Ele (William Grant Broughton) enfrentou os desafios específicos de negociação na relação formal da Igreja com a terra e a contribuição cultural anglicana para noções de colonos do lugar e da comunidade local. Em resposta a estes desafios, Broughton ―provincializou Deus‖ por articular a fé anglicana, com consequências específicas para o seu contexto australiano e, particularmente, para a colonização britânica do território aborígene.96
Lake formulou o conceito ―Provincializing God‖ para explicar a tarefa realizada por Broughton, para analisar as relações entre religião e colonização e também para pensar nos processos de mediação e de adaptação dos modelos de Missão às conjunturas específicas, como o da colonização. Para a execução da Missão no século XIX, tanto o contexto doméstico quanto o do estrangeiro foram fatores importantes para o sucesso do projeto de expansão missionária, mas não são os únicos fatores. H. B. Cavalcanti (2005, pp.381-398) explora esta questão afirmando que, no caso da Missão Batista e Presbiteriana, o contexto brasileiro na segunda metade do século XIX e início do XX favoreceu a agência missionária destas duas denominações.
96Traduçãolivre do original: ―At the time when the position of the Church was changing both at home and
abroad, it was his responsibility to establish the physical and spiritual presence of Anglicanism throughout the colony. He faced the particular challenges of negotiating the Church's formal relationship to the land and Anglicanism's cultural contribution to settler notions of local place and community. In meeting these challenges, Broughton "provincialized God" by articulating the Anglican faith with consequences specific to his Australian context and particularly to the British colonization of Aboriginal territory‖.
131 Aos olhos dos missionários, o Brasil tinha um enorme potencial. A modernização prometeu novos níveis de ligação com o resto do mundo, enquanto a vida na cidade trouxe novas comodidades para uma onda crescente de classe média e operário qualificados. As coisas pareciam promissoras em termos religiosos também: o crescimento urbano criou oportunidades para o proselitismo e a implantação de igreja, as escolas missionárias estavam lotadas e a migração camponesa permitiu aos missionários explorar as redes comuns de novos convertidos, para estabelecer pontes (cabeças) em outras regiões brasileiras.97
Cavalcanti assegura que o contexto local não é o único fator a favorecer o sucesso do projeto missionário. Ele atribui ao missionário, mais do que à agência, a realização bem- sucedida da Missão. Ele sugere que é desta capacidade de adaptação que decorre o sucesso do grupo. Por exemplo, Cavalcanti cita que os batistas foram mais bem-sucedidos que os presbiterianos no período de instalação.
6. Em qualquer lugar: divisões, missões e fronteiras: