• No results found

Genetic Counselling

In document Psychology and Psychiatry - Panel 6 (sider 47-50)

As variações do tempo escolar são cronometradas por instrumentos demarcadores, tais como relógios, sinetas, feriados, quadro de horários, freqüência, férias, e podem ser sinalizadoras das práticas escolares do Atheneu Sergipense. Um primeiro instrumento identificado que objetivava cronometrar o tempo se refere ao sino da igreja. Em relatório de 18 de maio de 1848, a Congregação do Lyceu de São Cristóvão declarava não estar cumprindo o dispositivo regulamentar que mandava dar os “signais de entrada e sahidas das

156

O tempo estipulado para cada examinador argüir o candidato no concurso para provimento das cadeiras do Atheneu Sergipense, em 1926, era de trinta minutos, assegurando ao candidato quinze minutos para a sua defesa.

aulas por meio de um sino”. Por não possuir tal instrumento, a Congregação solicitou licença ao Prior do Convento do Carmo para que o sino do convento fosse utilizado para dar tais sinais, uma vez que eles não possuíam sinetas nem relógios. Como o pleito não fora atendido, defendia-se a Congregação de não estar cumprindo com exatidão o tempo das aulas.

Em 22 de março de 1849, o Diretor Interino Galdino Barbosa de Araújo encaminhou ofício ao Presidente da Província Zacharias de Góes e Vasconcellos, solicitando a compra de um relógio para que

o porteiro possa as horas justas dar o signal de entrada de cada Professor, impedindo assim que alguns d’elles sejam dependentes do arbitrio do seu precedente, que por ventura entrando tarde prolongue sua aula allem da hora que lhe cumpre (Livro das Correspondências do Liceu de São Cristóvão).

Serviria também o relógio para marcar “sem injustiça” as faltas dos estudantes. 157

Respeitar o tempo era assim parte da disciplina escolar. Em 30 de janeiro de 1850, em relatório encaminhado ao Presidente da Província Amancio João Pereira de Andrade, o Diretor do Liceu de São Cristóvão Antonio Nobre de Almeida e Castro ressaltava mais uma vez da falta que um relógio próprio faz para um estabelecimento literário, uma vez que esse instrumento teria o objetivo de indicar as “horas, quartos e ate minutos a fim de se desempenharem com regularidade os seus trabalhos”. O Diretor desejava agora que o Presidente da Província solicitasse ao Prior do Carmo consentimento para que o porteiro repetisse no sino grande do convento a hora de cada uma das aulas.

A importância de incorporar um instrumento regulador do tempo das aulas, naquele momento, em 1848, evidencia o relógio como uma figura chave da instituição escolar. Munakata (2001), analisando o fascínio de Comenius pelo relógio, lembra o que é defendido na Didática Magna.

A arte de ensinar nada mais exige, portanto, que uma habilidosa repartição do tempo, das matérias e do método [...] Procuremos, portanto, [...] dar às escolas uma organização tal que corresponda, em todos os pontos, à de um relógio (Apud Munakata, 2001, p.48).

O Presidente da Província de Sergipe Salvador Correia de Sá e Benevides também interessava-se pela compra de um relógio para instalar na torre da Igreja São Salvador, a primeira Matriz de Aracaju, em 1856. “Servia de guia ao povo em sua ação de força social”

157

Informa ainda o ofício que havia na cidade um relógio de mesa em poder do senhor José Manuel Machado, disposto a vendê-lo por cento e cinqüenta mil reis.

(Sebrão, 1954, p.392). Logo o relógio parou e ficou a aguardar conserto, só voltando a funcionar em 1865.

Os feriados civis e religiosos são considerados também instrumentos de demarcação temporal, além dos dias de festas e de luto oficial. Seria feriado o dia do enterro de um professor efetivo, em disponibilidade ou jubilado do Atheneu Sergipense. As grandes férias se iniciavam no dia em que terminavam os exames de primeira época, prolongando-se até o último dia de fevereiro, e as pequenas férias ocorriam no período de vinte a trinta de junho e na Semana Santa.158

Em 1899, o Atheneu Sergipense mantinha-se fechado após o encerramento dos

trabalhos relativos aos exames anuais até 1o de março, entrando “todo o pessoal docente e

administrativo em franca estação de ferias” (Art.20, Decreto 351, de 9 de junho de 1899). No entanto, no período da matrícula, a secretaria funcionava das 11horas da manhã às 2 da tarde para receber os pedidos de matrículas dos alunos.

As ocorrências da organização temporal se expressam como um conjunto de valores culturais que podem definir e instituir um determinado discurso pedagógico. Discurso pedagógico este que emerge das prescrições legais, isto é, as prescrições legais fixam os discursos, as normas, as regras pedagógicas, que, por serem uma forma discursiva, são também, como declara Souza (1999), uma forma de intervenção social.

Assim, do exame da organização e normatização temporal do Atheneu Sergipense identificou-se diferentes tempos em ação para os diferentes agentes. Podem ainda, pois, surgir outros tempos não percebidos. Destarte, os elementos demarcadores e instituidores da história do tempo escolar no Atheneu Sergipense são reveladores do movimento de construção temporal, com uma extraordinária rede de variáveis, como ano, mês, semana, dia, hora, de caráter normativo e de poder, produzindo o tempo pedagógico como uma ação cultural. Aquela casa de educação literária devia ser exemplo de organização temporal, tanto para os futuros professores, oriundos do Curso Normal, como para aqueles outros que iriam exercer suas funções na sociedade, uma sociedade que exigia regulações temporais. A vivência dessas regulações podem, certamente, ter subsidiado a formação de cidadãos tementes ao poder temporal, ou, em outras palavras, a internalização da ordem temporal da intelectualidade sergipana que por lá passou e participou do movimento de composição e configuração dos Planos de Estudos.

158

Souza (1999) detectou nas escolas públicas primárias paulistas (1892 a 1933) uma ampliação do período de férias decorrente das reivindicações dos professores para um maior tempo de descanso, e não propriamente da preocupação com repouso dos alunos.

Procurou-se, nesse capítulo, evidenciar como os saberes se configuraram nos Planos de Estudos do Atheneu Sergipense, por meio das cadeiras lidas, dos compêndios adotados, das orientações metodológicas e da distribuição temporal, examinando essa constituição tanto no âmbito legal das normas preconizadas, como na execução do fazer na instituição.

Perpassando por esses elementos, dois aspectos chamaram a atenção e julgou-se prudente destacá-los nos capítulos que se seguem: a cadeira das Matemáticas, sempre presente nos estudos secundários de Sergipe, e o sistema de avaliação, considerado como prática de julgamento, notadamente presente nas análises dos Planos de Estudos, e que, no conjunto, constituíram aspectos formadores do ethos do Atheneu Sergipense.

CAPÍTULO III

O ENSINO DAS MATEMÁTICAS

No curso de Mathematica Elementar o lente

considerará as disciplinas a seu cargo não só como um complexo de theorias uteis em si mesmas, de que os alumnos deverão ter conhecimento para applical-as ás necessidades da vida sinão tambem como poderoso meio de cultura mental, tendente a desenvolver a faculdade do raciocínio.

Da análise empreendida no capítulo precedente a respeito das cadeiras, compêndios, professores e carga horária que compuseram os Planos de Estudos do Atheneu Sergipense, destacou-se um elemento para ser examinado separadamente. Os documentos evidenciam a presença das Matemáticas desde os primeiros momentos de organização dos estudos secundários em Sergipe. Se não com tal terminologia, ao menos com rubricas específicas de seus ramos, como a cadeira de Geometria, ministrada no Liceu de São Cristóvão em 1833, a de Aritmética, Geometria e Trigonometria, lida no Liceu de São Cristóvão, no período de 1848 a 1855, a de Álgebra, Geometria e Trigonometria no Liceu Sergipense em 1862, a de Aritmética, Álgebra e Geometria no Atheneu Sergipense em 1870, a de Matemática Elementar também no Atheneu Sergipense em 1905, e finalmente a de Matemática no

Atheneu Pedro II, em 1931.159

O movimento de variação dos termos analisado nas modificações sofridas nas cadeiras de Português e História, e agora voltando a atenção para as Matemáticas, se processou no Atheneu Sergipense com debates de intelectuais favoráveis ou contrários à unificação da cadeira, provocando transformações fixadas nos textos legislativos, que propunham por vezes avanços, rupturas, recuos ou continuidades.

Assim, investigando a trajetória do ensino das Matemáticas no Atheneu Sergipense, sua gênese, finalidades e funcionamento, procurou-se evidenciar, neste capítulo, como a cadeira foi organizada, acompanhando o percurso por meio de traços característicos, como sua terminologia, carga horária, os compêndios adotados, as orientações metodológicas, os conteúdos abordados e os professores ministrantes da matéria.

In document Psychology and Psychiatry - Panel 6 (sider 47-50)