• No results found

Faculty of Health Sciences and Social Care

In document Psychology and Psychiatry - Panel 6 (sider 80-85)

A Amazônia brasileira é uma área de extensão territorial que compreende os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, parte do Maranhão e do Mato Grosso, ocupando uma extensão de aproximadamente 5.217.423 km2, o que corresponde a 61% do território nacional. Durante o regime militar, os Estados do Acre, Rondônia e Roraima eram Territórios Federais, e o Estado do Tocantins não existia como Unidade Federativa. Conhecida também como Amazônia Legal, esta região tem sido destaque, não somente no Brasil, como local de grandes conflitos fundiários, problemas ambientais severos e polêmicas que envolvem as relações de Estado e as nações indígenas.

A Amazônia Legal é um conceito político criado pela Lei Federal nº 1.806, de 6 de janeiro de 1953. Ela diz respeito à denominação político-administrativa que engloba todo o bioma Amazônia do Brasil, mais as áreas de cerrado do Mato Grosso e Tocantins. A abrangência desta região variou de acordo com as alterações ocorridas na divisão política do país. Nos anos de 1960 e de 1970, ela compreendia a totalidade dos Estados do Amapá, Amazonas, Acre, Pará, Rondônia e Roraima, mais uma parte do Maranhão, Mato Grosso e de Goiás.

Esta nomenclatura, segundo Selecina Henrique Locatelli,

[...] a partir dos anos 50, sob o impacto da administração de Juscelino Kubitschek e a inauguração de Brasília, a concepção de Amazônia Legal se consolidou e ajudou a inversão da prioridade na intervenção estatal da Amazônia dos rios para a Amazônia das estradas com o início da construção da Rodovia Belém-Brasília, que ligou as regiões norte a sul do país. (LOCATELLI, 2009, p.21).

Para fins de estudo do tema aqui proposto, respeitando as singularidades e as diversidades desta vasta região, será destacadaa área da Rodovia Transamazônica, no perímetro que fica entre as cidades de Altamira e Marabá. Esta região dentro dos estudos de Otávio Velho (1981) se relaciona a uma parte da área de colonização dirigida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - Incrae denomina esta ―Amazônia‖ de frente de expansão, nomenclatura que se refere à expansão agrícola. Naextensão da rodovia, os missionários batistas trabalharam em vários pontos em Agrópolis, Agrovilas e Rurópolis, estabelecendo pontos de contato com os colonos e demais habitantes da região.

A Sudam – Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, criada pela Lei nº5.173, de 27 de outubro de 1966, e o Instituto de Colonização e Reforma Agrária –

105 Incra,criado em 1970, foram os principais órgãos do governo que em relação aos planejamentos estratégicos da região estiveram sempre envolvidos. Amazônia, desta forma, é para fins estratégicos. Os missionários batistas estiveram atentos a estes projetos e buscaram inserir-se no contexto da execução dos mesmos, porque entenderem que a hora de chegar à rodovia era justamente aquela, que se apresentava como oportuna para sua própria expansão também.

Figura 1- Rodovia Transamazônica e a estrada Santarém-Cuiabá.75

As políticas desenvolvimentistas voltadas para a Amazônia ajustavam-se aos interesses nacionais e, neste contexto, a questão que interessava ao governo era deslocar das áreas de tensões sociais as populações que potencialmente poderiam servir de alvo para os discursos de esquerda. A Amazônia, por seu turno, parecia oferecer as condições para minimizar estas tensões, visto que um dos fatores destas tensões era a terra.

As representações culturais sobre a Amazônia, suas populações, os rios e as florestas, reforçavam do ponto de vista ideológico as justificativas destes projetos desenvolvimentistas. Em tese, as políticas para a Amazônia pressupunham que o desenvolvimento, acompanhado da modernização, garantiria a segurança da região e a inserção dela nos quadros nacionais. Esta perspectiva carregava uma série de implicações na conjuntura geopolítica nacional. O

106 Estado como promotor do desenvolvimento nacional apoiava as iniciativas públicas e privadas com vistas à exploração dos recursos naturais da região norte.

Por exemplo, o Plano Nacional de Desenvolvimento, no relatório detalhado sobre a Amazônia, definia muito bem as fronteiras do desenvolvimento na Amazônia. A abertura de rodovias na perspectiva do modelo de desenvolvimento para a região era fundamental. Assim que a Transamazônica começou a ser aberta, logo a Missãocomeçou a pensar em integrá-la ao Programa de Integração Missionária e Evangelização.

Nas décadas do regime militar, a Amazônia era o local da fronteira: ―árdua é a Missão de defender a Amazônia, porém mais árdua ainda foi a de nossos antepassados – a de conquistá-la‖ 76. Missão conquistadora, Missão protetora, Missão pacificadora, todas estas tarefas foram associadas ao Exército Brasileiro presente nas fronteiras da Amazônia em nome da Política de Segurança Nacional. Mas, podem ser associadas também à natureza das Missões religiosas.

Os grandes projetos na Amazônia tinham participação do capital estrangeiro. O caso do Projeto Jarí, no Pará, foi um exemplo. O projeto, voltado para a produção de celulose, foi concebido para a Amazônia nos moldes de uma cidade modelo, com moradia, escola e assistência médico-hospitalar de qualidade para todos os filhos dos funcionários da empresa. A cidade-projeto foi construída na floresta, sendo vista como símbolo de civilização e de desenvolvimento, como fronteira arquitetônica entre a natureza e a cultura, a civilização dos rios e floresta e a civilização da estrada, civilização e não civilização77.

A civilização cristã ocidental influenciou também na elaboração de conceitos que definem e que classificam o outro muitas vezes com uma linguagem depreciativa e desqualificadora de seus saberes e projetos locais.

A Amazônia, na perspectiva das fronteiras que interessavam ao capital, esconde fronteiras outras – a saber, o da religiosidade cabocla, dos saberes locais, da economia doméstica, de povos de cultura de mobilidade –,que são deixadas de lado em nome do desenvolvimento nacional e é inserida na história como os que ―careciam do apoio material e espiritual‖, nas palavras do presidente Médici, publicadas em O Jornal Batista78. É nessa

76 Frase do Exército inscrita na parede externa do quartel do 8º Pelotão de Armas Pesadas, situado na Av. Pedro

Álvares Cabral, s/nº, entre Av. Tavares Bastos e Rodolfo Chermont, no bairro da Marambaia, em Belém do Pará.

77 Sobre o assunto, ler a extensa bibliografia do professor de Geografia da UFPA,TRINDADE, Saintclair, que,

dentre tantas publicações escreveu sobre a questão das cidades-projetos e suas fronteiras sociais.

78Discurso de inauguração do primeiro trecho da Rodovia Transamazônica. Segundo a notícia, em janeiro de

1971, o presidente Médici teria conclamado os batistas àMissão de, em um espírito de patriotismo, converter os que não tinham Cristo. Ele mesmo, o presidente Médici, um batistaque a história não menciona.

107 fronteira ondeos projetos de Missão e de governo se encontram que a Missão Batista insere-se na história, dando sentido à sua própria existência.

A fronteira é o lugar onde se realiza a Missão, é o lugar marginal, esquecido, periférico, distante da civilização e de Deus. É onde está o outro que o missionário julga ser diferente dele, que estána condição de carente e de perdido. Sob o olhar exclusivista dos batistas, a fronteira da Amazônia era o lugar escolhido por Deus para realizar a salvação, e os batistas, os escolhidos para ser o instrumento da salvação.

A rodovia também é um lugar de fronteira. Ela demarca novos territórios, acelera as conquistas de novas terras, separa e acentua a distância, expõe o isolamento, aumenta o sofrimento das populações da região, fermenta os conflitos agrários e segrega as populações indígenas. A Amazônia é, portanto, um campo complexo onde se configuraram diferentes sujeitos, o Estado Militar, as empresas com seus grandes capitais, as empreiteiras com seus trabalhadores e agentes fiadores, os migrantes e as populações de cultura de mobilidade, Missões religiosas entre outros. São estes os Confins da Terra para onde a Missão Batista realizará sua Missão.

A bacia amazônica e toda a extensão hidrográfica do rio Amazonas banham uma centena de cidades, pequenas vilas e casas de ribeirinhos que vivem às margens das águas destes rios. Desde o início da colonização, os vales foram cenários de incursões de religiosos em busca dos ―perdidos‖. Com um ritmo de vida diferente, os caboclos da Amazônia reverberam uma cultura de mobilidade, onde a fala e o canto mostram as muitas histórias vividas e rememoradas nos rituais e nas festas do calendário local. As cidades, muitas delas nascidas do encontro de rios e estradas, resguardam em meio à floresta a arquitetura da fé deixada pelos antigos missionários católicos. Altamira, cidade localizada às margens do rio Xingu, é um exemplo disto.

As Missões religiosas católicas foram as primeiras a chegar às margens do rio Xingu. Uma empreitada missioneira, que remete àexistência da vila a Amazônia colonial. A Amazônia, lugar que representava o desafio da conquista do oeste brasileiro, lugar inóspito e desconhecido, figurava no imaginário de muitos como o paraíso desconhecido, e para outros como o inferno verde. Entre estas duas metáforas, encontrava-se uma população esquecida pelo poder público. A exuberância do verde e da sinuosidade dos rios ao mesmo tempo em que assustava os que visitavam a região fazia com que outros pensassem, por exemplo, na baixa densidade demográfica.

108 Esta questão acabou por alimentar discursos acerca da necessidade de povoar a Amazônia. Por outro lado, durante o regime militar, a região, no cenário nacional, representava ao mesmo tempo fonte e potencial para o desenvolvimento econômico e cenário para receber as populações excedentes de outros Estados do país. A correspondente e jornalista do Financial Times em São Paulo, Sue Bradford, após analisar o contexto da visita do presidente Emílio Garrastazu Médici ao Nordeste e em seguida a notícia da construção da Rodovia Transamazônica, concluiu:

Após a visita do presidente Médici para o Nordeste em 1970, o Plano de Integração Nacional (Plano Nacional de Integração) foi inesperadamente anunciado. Foi lançado como o plano-mestre que iria resolver simultaneamente os problemas, tanto do Nordeste e da Amazônia. Segundo o plano, cerca de $ 400 milhões seriam gastos na construção de estradas, irrigação e projetos de colonização. O dinheiro viria de um drástico corte de 30 por cento nos recursos da SUDENE, a Agência de Desenvolvimento Nordeste, que lutava efetivamente com enormes problemas da região por mais de uma década. [...] O mais espetacular e caro dos projetos foi à Rodovia Transamazônica e seu esquema de colonização. O ministro dos Transportes Mario Andreazza explicou por que o governo decidiu considerar a construção da estrada como uma de suas prioridades urgentes: por um lado, o Nordeste, devastado por secas periódicas, com um enorme setor de sua população sem mesmo as condições básicas de sobrevivência, vê muitos de seus habitantes emigrarem para o Centro-sul, onde as cidades grandes não estão em condições de absorver este trabalho não qualificado. Por outro lado, a população da Amazônia, que é uma vasta região com vales férteis e depósitos minerais importantes, e concentrados de pequenas aldeias à beira do rio. "A solução foi deixar as duas regiões resolverem cada uma o problema da outra‖. O slogan tornou-se: "terra sem pessoas para pessoas sem terra". Previa-se que dois milhões de pessoas seriam assentadas ao longo da estrada, dentro de dois anos. (BRANDFORD, ANO, p.2008)

O slogan ―homens sem terras para terra sem homens‖79 atribuído ao ministro Mário Andreazza exprimiu uma visão já cristalizada acerca da Amazônia que era a do grande vazio demográfico. A região, que fora considerada inóspita e distante dos grandes centros urbanos, poderia ajudar a resolver conflitos históricos de outras regiões do país. Por estar à margem do eixo Rio-São Paulo, o norte do Brasil interessava também às empreiteiras, madeireiras e mineradoras, sobretudo neste contexto. O discurso de integração e de segurança nacional ia se definindo como elemento necessário àordem e ao progresso dos Estados e territórios da Amazônia brasileira e, consequentemente, uma nova ordem ia se estabelecendo na região.

Esta nova ordem representava no plano nacional uma arrancada para o desenvolvimento do país. A integração das regiões Norte-Sul e Leste-Oeste, contudo,

109 pressupunha que o desenvolvimento fluiria desta integração, onde a Amazônia é inserida à ordem econômica do país. A Rodovia Transamazônica, neste projeto, é a representação desta integração. Esta estrada simbolizava na época em que começou a ser construída, pelo menos nos discurso do Governo Federal, o desenvolvimento e progresso do país e a integração nacional. Sobre a construção da estrada, a Folha de São Paulo (FSP), ao publicar a notícia, destacou que:

O presidente Garrastazu Médici aplaudiu entusiasticamente a derrubada, em plena selva amazônica, ontem, de uma árvore de mais de 50 metros de altura, simbolizando assim a transposição de mais um obstáculo à construção da Rodovia Transamazônica. A solenidade, realizada nesta pequena cidade do interior do Pará, marcou o início das atividades de construção de mais um trecho daquela importante via de integração nacional, ligando Altamira a Repartimento, numa extensão de 300 quilômetros.(FSP, 1970)

A relação entre o governo e a imprensa, estremecida pelo impacto da censura aos meios de comunicação durante o regime militar, neste caso, contribuiu para que o discurso de integração nacional e de desenvolvimento fosse propagado.

O obstáculo para o progresso não era mais a distância, pois as rodovias em construção diminuíam tecnicamente as distâncias. O obstáculo era a natureza que se interpunha entre a estrada e os homens. Derrubar as árvores que estavam no caminho do progresso era manchete de jornal!

Os conceitos de natureza foram se modificando ao longo da história. No contexto desta pesquisa, a natureza, considerada na acepção dos estudos de história ambiental, era no imaginário social o paraíso e ao mesmo tempo o inferno verde. Todo o potencial natural e humano da região foi brevemente detalhado nos planos de desenvolvimento da Amazônia. A floresta, os rios, os animais e os habitantes que compunham as áreas atravessadas pelas rodovias, dentre elas a Transamazônica, foram também descritas nos relatórios de viagens dos missionários batistas, como veremos mais tarde.

Dentre as cidades do interior do Pará, Altamira, citada no jornal FSP como marco do início das atividades de construção de mais um trecho da Rodovia Transamazônica, foi uma das importantes cidades para a execução do Plano de Integração de Missões e Evangelização – Proime, da Junta Batista de Missões Nacionais.

Altamira está às margens do rio Xingu. Ela é o maior município do mundo, comextensão territorial de 159.695.938 km2 e população estimada em 105.030 habitantes. Em 1970, pelo projeto de construção da Transamazônica, já se sabia que ela seria atravessada pela

110 rodovia no sentido Leste-Oeste, em uma extensão de 60 km, ligando a cidade a Belém (800 km), a Marabá (500 km), a Itaituba (500 km) e à cidade de Santarém (500 km).

Figura 2 - Mapa do Pará com destaque ao município de Altamira80

As primeiras Missões religiosas que chegaram a Altamira, ou pelo menos ao vilarejo que deu origem à cidade, relacionam-se à colonização portuguesa na Amazônia. As Missões Jesuíticas, desde 1750, marcavam presença na região do Xingu. O primeiro registro formal de existência desta cidade data de 14 de abril de 1874, quando foi criado o município de Souzel, onde se inseria a região altamirense. Depois, pela pressão política e interesses locais, Altamira conseguiu autonomia, sendo elevada à categoria de município. No modelo administrativo de tantas outras cidades às margens dos rios na Amazônia, distantes do poder público central e estadual, em 6 de novembro de 1911 ela passou a compor, com administração e governo próprio, o quadro de municípios do Estado do Pará.

Desde o período da borracha, nos meados do século XIX, a rede urbana da região do Xingu estrutura-se a partir de Altamira, denotando o valor estratégico do município.

80 Disponível em <http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://upload.wikimedia.org/wikipedia/

commons/thumb/d/d4/Para_Municip_Altamira.svg/620px-Para_Municip_Altamira.svg.png&imgrefurl>. Acesso 25 abr 2013.

111 Atividades econômicas como agricultura, principalmente do arroz, cacau, feijão, milho e pimenta-do-reino, atividades extrativistas da borracha e da castanha-do-pará e a pecuária são as principais atividades do município. Com a construção da estrada, a região passou a defrontar-se ainda mais com problemas econômicos e sociais sérios.

A falta de investimentos necessários em infraestrutura e o descaso dos poderes públicos nas áreas de saúde e de educação agravam ainda mais o fosso social após a construção da Rodovia Transamazônica. Alguns destes problemas de infraestrutura são também citados nos relatórios de viagens missionárias, sempre vinculadas ao trabalho dos missionários batistas nos trechos da rodovia.

É preciso pensar que para o modelo de Missão Batista a infraestrutura urbana era fundamental, sobretudo nos primeiros anos de evangelização nas áreas do entorno da rodovia. O Estado promoveria o desenvolvimento da região baseado no modelo capitalista e a Missão promoveria a universalização da fé cristã. Ambos, Estado e Missão, precisavam desta infraestrutura urbana, que se representava pela construção das estradas de acesso ao interior do país, no caso à Amazônia e às margens dos rios, ao seio das florestas.

A expansão da Missão, neste contexto específico, lidava com duas questões fundamentais: a primeira referia-se à Amazônia como região de fronteira que estava às margens do modelo nacional de desenvolvimento e de progresso; e a segunda era a questão da integração do norte do país às demais regiões. Do ângulo local, isto é, das margens ou periferia, as particularidades do lugar, a saber, toda a tradição histórica da relação homem e natureza, foram desclassificadas. A integração nacional pressupunha a construção de rodovias. Contudo, não se considerou que tais empreendimentos federais teriam impacto na economia doméstica e no cotidiano das populações que viviam em áreas de florestas e rios que seriam atravessadas pelas rodovias.

In document Psychology and Psychiatry - Panel 6 (sider 80-85)