Durante o regime militar (1964-1985), a região norte despontava mais uma vez como o destino de muitos brasileiros que acreditavam no sonho do Eldorado. O Estado por sua vez, tinha o norte do país como parte da nação a ser integrada e desenvolvida. Dentro deste contexto, se intensificaram os movimentos migratórios para a região(PETIT, 2003) fomentados pelo projeto desenvolvimentista do Estado Militar. Este projeto visava ocupar a Amazônia, partindo do pressuposto de que a região era a de menor densidade demográfica do país. Sobre este contexto específico, Bertha Becker (2001) afirma:
No contexto nacional, a ocupação da Amazônia assumiu prioridade, sendo percebida como solução para as tensões sociais do nordeste e do sudeste [...],
101 e também em face da possibilidade de nela se desenvolver focos revolucionários. No contexto continental duas preocupações se apresentavam: a migração nos países vizinhos para suas respectivas amazônias, e a construção da Carretera Bolivariana Marginal de la Selva [...], reduzindo a influência do Brasil no coração do Continente. Em nível internacional, a propaganda do Instituto Hudson, de transformar a Amazônia num grande lago para facilitar a circulação e exploração de recursos que, [...] não interessava ao projeto nacional. (BECKER, 2001, p. 732).
A ocupação da Amazônia, neste contexto, se justifica a partir de duas questões: uma interna e outra externa, embora entre ambas exista uma questão que é pertinente à análise que será feita aqui, a saber, a questão de fronteira, expressa em um problema antigo: a baixa densidade demográfica da região. Neste cenário, as famílias que vieram dentro destes movimentos migratórios tanto quanto as que vinham pelo fluxo contínuo de deslocamentos internos da região enfrentaram, logo cedo, os problemas decorrentes dos grandes projetos do governo. Bolsões de miséria se formaram, por exemplo, ao redor de cidades projetadas.
Cidades como Itaituba, Altamira, Tucurui, Marabá no Pará e Santana no Amapásofreram rapidamente os problemas decorrentes do crescimento da população no seu entorno. Mesmo nas áreas reservadas pelo INCRA – Instituto Nacional de Colonização e de Reforma Agrária, os problemas de infraestrutura apareceram. Nesta conjuntura o estado brasileiro assumiu o papel de promotor do desenvolvimento econômico da região, enquanto as autoridades locais lidavam com as demandas sociais advindas das políticas de colonização e de ocupação que ora se desenhava na região.
OJB, a respeito da Amazônia, neste contexto, publicou uma matéria na qual a ênfase erammilhares de nortistas e nordestinos que têm carência de assistência espiritual. O jornal informa aos leitores que:
[...] O governo brasileiro sentindo a grande responsabilidade que tem com todos os brasileiros e desejando-lhes a integração em todos os sentidos, liderados pelo excelentíssimo Sr. Presidente General do exército Emílio Garrastazu Médici concita a todos para um despertamento de espírito patriótico, levando através da Transamazônica a esperança para milhares de nortistas e nordestinos que, sendo humanos como nós, carecem de assistência espiritual. (OJB, 1971, p.8)
A situação merecia o ―despertamento do espírito patriótico‖. ―Os migrantes e nortistas eram humanos como os batistas‖. Se o exemplar deste jornal chegou às Igrejas Batistas já existentes nas capitais de Estados e territórios do norte, onde a Missão Batista já havia se estabelecido, de que maneira o apelo ao patriotismo era recebido?Como compreender
102 o teor desta matéria posto que a ênfase recaía sobre questões conjunturais sérias provocadas pelo próprio projeto de governo? Porque na prática, ele apenas deslocou a miséria dos nordestinos expropriados de suas terras e vítimas da seca para o norte do Brasil. Os deslocamentos internos e as migrações no entorno da Rodovia Transamazônica somente acentuavam o quadro de carências da região. OJB, no entanto, silenciou quanto às condições sociais impróprias em que se encontravam aqueles ―milhares de nortistas e de nordestinos‖, dando atenção apenas ao discurso de integração do presidente efetivo.
Para Eliane Moura da Silva (2011),
A religião é um dispositivo de representação cultural de grande força e eficácia, uma dimensão das representações culturais do mundo, estando sujeita, portanto, a mudanças. Religião e crenças religiosas só podem ser definidas em determinados contextos espaciais e temporais [...].
A força da religião se expressa na Missãopor meio da capacidade que ela tem de adaptar-se aos diferentes contextos nos quais ela se insere, encontrando nestes mesmos contextos os elementos que são necessários para ela ajustar sua posição de modo que permaneça sendo relevante e necessária à sociedade. No entanto, é preciso ir além dos contextos e das estruturas da agência missionária. Os missionários como agentes de produção de representações culturais devem ser também objetos de nossas pesquisas.
H. B. Cavalcanti faz a seguinte consideração:
É preciso ir além dos determinantes estruturais da obra missionária para entender como o organismo humano afeta a difusão da religião entre as culturas. Missionários personalizam sua fé para converter o outro que está no local para onde ele foi enviado, e assim eles reproduzem as condições religiosas semelhantes à de sua própria experiência. Estes esquemas pessoais de apropriação da fé exemplificam a forma como as interações entre o organismo humano e as organizações institucionais em contextos multiculturais criam estilos únicos de missionários. (2005, pp. 381-398)
A personalização da fé no caso da Missão Batista é silenciada, pois publicar isto significaria o aceite de casosem que o missionário fez adaptações e negociações para manter a Missão e a si próprio como se fosse necessária e relevante para o local.
Ao publicar a mensagem do presidente Médici, a qual fazia referência ao espírito patriótico do povo brasileiro, O Jornal Batista não somente reproduziu o discurso do governo, mas apresentou o significado do que viria a ser ―o espírito patriótico‖ a que o presidente fez referência. Este espírito patriótico, na compreensão batista da mensagem do presidente, seria
103 manifesto no ato de levar aos nortistas e nordestinos a esperança e a assistência espiritual. Ao informar que ―os milhares de nortistas e nordestinos que sendo humanos como nós carecem de assistência espiritual‖, a Missão coloca-se na esfera da humanidade para exprimir o valor que ela tem como sendo universal, a saber, a carência espiritual. A condição de carência espiritual estava ligada à condição humana e a de levar a assistência espiritual se ligou a de patriotas.
Humanos e patriotas é como eles se definem neste trecho do jornal. Há, portanto, algo que os aproxima, o fato de serem humanos e de carecerem de assistência espiritual, o que os coloca em posição diferente. Primeiro, eles escrevem que são batistas e escrevem para batistas; segundo, eles moram nos centros urbanos, nas grandes cidades, no Centro-sul do país. Pode-se inferir que, daquele contexto da Transamazônica, o elemento de tradução para a Missão Batista foi o fato de se apropriar do discurso sobre patriotismo, muito forte no governo Médici, lembrando do ufanismo do período, expresso no lema ―Brasil, ame-o ou deixe-o‖. Este patriotismo podia servir para a Missão negociar também projetos e estratégias na área de colonização ao longo da rodovia.
A Missão Batista se coloca na mesma linha de ação do Estado, no mesmo projeto, a saber, o ―projeto de integração de todo o país liderado pelo excelentíssimo Sr. presidente‖, só que de uma maneira sutil e abrandada pelo discurso de igual condição humana. A religião consegue desenvolver um discurso no qual a fronteira é simbólica e é também espacial, através de uma linguagem que legitima e confere um sentido de salvação, de inclusão (lembrando o discurso ―integrar para não entregar‖) e de ações controladas, coordenadas e eficientes que obedecem as redes e empreendimentos de colonização da Amazônia. O ―espírito patriótico‖ se expressa no ato de levar a esperança aos nortistas e nordestinos ―através da Rodovia Transamazônica‖. A Missão se coloca no projeto de integração nacional na condição de quem tem algo para levar, para dar, no caso retirado do texto, ―a esperança‖.
Deste modo, a religião consegue desenvolver as traduções que o enfrentamento de uma fronteira espacial e simbólica exige. Através de uma linguagem que legitima e confere um sentindo de salvação, de inclusão e de ações centralizadas, coordenadas e que estabelecem as redes e empreendimentos de colonização.
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