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Infectious Disease Epidemiology

In document Psychology and Psychiatry - Panel 6 (sider 98-102)

O século XIX foi o século de deslocamento de fronteiras. A Junta de Richmond, fundada em 1845 para administrar o envio de missionários para os países estrangeiros, começou a considerar países como o Japão e o Brasil como proeminentes campos missionários na metade do século XIX. Segundo Azevedo (2004, p. 191), o capital norte- americano começou a se interessar pelo Brasil em 1850, especialmente pela Amazônia. Mas

85 De 1871 a 1882, foram fundados alguns trabalhos missionários batistas em cidades brasileiras, dentre as quais

120 não foram somente o Brasil e o Japão os destinos desejados pelos países do Hemisfério Norte. No cenário mundial, as nações capitalistas dirigiram suas investidas imperialistas para o continente africano e asiático e disputavam entre si as fontes de riquezas naturais, de matérias- primas e de mercado consumidores, deslocando suas fronteiras para além de seus continentes. Os principais alvos destas nações foram à África e a Ásia.

Neste cenário de corrida imperialista, as políticas externas de países como a Inglaterra, consideravam o deslocamento da fronteira econômica para países do Hemisfério Sul um importante passo para garantir suas reservas e incrementar o desenvolvimento interno e assegurar o controle do mercado internacional, sujeito às oscilações internas e locais de cada país para onde o capital era destinado. Para manter o equilíbrio, portanto, foi necessário desenvolver políticas externas que viabilizassem no local a preferência e o monopólio de determinados setores e que se criasse uma cultura de consumo e de subserviência que garantisse a ação imperialista. Tudo isto foi traduzido pela ação colonizadora do século XIX, que tinha entre outras justificativas, a necessidade de levar às populações locais a civilização.

As Missões religiosas, neste contexto, exerceram importante papel civilizador. De matriz cristã, estas Missões concorreram com o próprio Estado àcondição de agentes do progresso e deslocaram suas fronteiras para além de seus domínios nacionais. Os missionários William Carey (1761-1834) e James Hudson Taylor (1832-1855), ambos batistas ingleses, foram respectivamente designados para as fronteiras orientais da Índia e da China. Carey foi um dos fundadores da Sociedade Batista Missionária dos Estados Unidos da América.

Os movimentos missionários do século XIX operaram fora de suas fronteiras culturais facilitadas pela conjuntura da corrida imperialista. As estruturas criadas pelos Estados promotores da expansão colonial corroboraram a implantação de um modelo de Missãoque conjugava a um só tempo a ideia de civilização e de cristianização. Este modelo, os estudiosos de Missões denominam de Missão Transcultural. O missionário transcultural é aquele que ultrapassa as fronteiras de sua própria cultura, e não somente a fronteira geográfica. Ronaldo de Almeida refere-se ao modelo como Missão transnacional, afirmando que o Brasil pode ser considerado uma etapa deste movimento, que consiste na universalização da fé cristã (2006, p. 277-304). As Missões religiosas que vieram para o Brasil vieram neste movimento transnacional. Primeiro as Missões católicas, e depois, no século XIX, as Missões protestantes.

Neste segundo caso, os missionários e as missionárias eram enviados por agências e associações missionárias para o Brasil que já tinham acumulado experiências transnacionais

121 em outros países. A ideia do deslocamento da fronteira para as Américas remonta ao século XVI para as Missões católicas e ao XIX para as protestantes. Ambas inseridas em conjunturas de políticas externas de Estados, onde a religião era majoritariamente cristã. Os missionários, neste sentido, compunham a esfera dos estrangeiros que haviam se deslocado para as fronteiras e nesta condição exerceram suas funções religiosas entre as populações, muitas vezes confrontando-se com o próprio poder local, outras vezes negociando espaços e ocupações para atender aos interesses da Missão.

No Brasil, as Missões católicas, por exemplo, confrontaram o poder colonial em diferentes episódios, em grande parte os religiosos se inseriam nos debates mais amplos que envolviam as coroas ibéricas quanto à delimitação das fronteiras territoriais e às questões a respeito dos índios. A autoridade do Estado sobre a população colonizada esbarrou muitas vezes no poder dos missionários. Por isso, neste particular, Missões católicas enfrentaram os revezes da coroa portuguesa em diferentes momentos do processo de catequese indígena. O modelo de Missão católica facilitava o acesso dos missionários a determinados lugares que o poder colonial não chegava. Este acesso colocava as ordens religiosas em certa vantagem em relação ao poder das autoridades locais. Os aldeamentos expunham o poder dos missionários na ―domesticação dos hábitos e costumes dos nativos‖, colocando alguns religiosos contra a escravização dos índios.

Da colônia ao Império, a capacidade de negociar dos missionários se fez sentir, sobretudo nas disputas para definir os limites do Brasil a oeste do Tratado de Tordesilhas. As coroas portuguesa e espanhola, por razões políticas, enfatizaram o caráter cristão de seus Estados e a ação dos missionários validou alguns dos avanços e dos deslocamentos das fronteiras de ambas as partes, colocando as populações nativas no meio destas disputas. Nos casos onde os tratados diplomáticos não foram atendidos, o avanço de entradas e bandeiras, as guerras (in) justas e as incursões no sertão colocaram à prova o serviço das Missões religiosas à Coroa e a eficácia dos modelos de Missão e de missionários que elas representavam.

Estudos sobre as Missões religiosas no Brasil86 indicam que os missionários exerceram importantes serviços na colônia. Do deslocamento da fronteira europeia à conquista espiritual do Novo Mundo, os relatos dos missionários, católicos e protestantes, foram fundamentais na construção da concepção das novas terras e também de seus habitantes. AdoneAgnolin, com base no conceito de invenção do cotidiano de Michel de

86 Ver MONTERO, Paula (org.). Op. cit. Todos os capítulos abordam as Missões religiosas na perspectiva da

122 Certeau, afirma que ―os relatos de viagens não só autorizavam a interação com o novo espaço geográfico, mas, mais exatamente, fundavam com ele o lugar da alteridade‖ (2005, p.55).

Estes relatos foram produzidos, todavia, a partir de um contexto europeu quatrocentista, herdeirode uma cristandade medieval, na qual a cultura religiosa opera na formulação de seres, fantásticos, céu, paraíso e monstros, etc. Sobre este universo imaginário, Agnolin afirma que:

Mesmo configurando-se como produto de uma herança cultural, a projeção de um imaginário maravilhoso realiza de fato uma mediação cultural do homem frente a uma realidade desconhecida e, mesmo que ―inesgotável enquanto sistema de representação se configura perecível enquanto formulação histórica específica. (AGNOLIN, 2006, p.61).

Neste sentido, as fronteiras como espaço desconhecido e a ser conquistado, puseram à prova a capacidade de criação e de projeção do imaginário europeu, cristão e ocidentalizado, em relação ao Novo Mundo. Deste modo, o deslocamento das fronteiras ocidentais para o Hemisfério Sul representou também um deslocamento dos espaços de produção do imaginário e das formas de representação do outro, e não de ruptura. O colonizador estrangeiro também é interpretado dentro do imaginário e cultura dos nativos e estes são, por sua vez, inventados, inseridos na história, na tradição escrita87 do ocidente. (SANTOS, 2009).

Em relação às representações sobre a Amazônia, Auxiliomar Silva Ugarte (2003, pp.3-31)88 questiona até que ponto as notícias referentes à região amazônica foram apreendidas e digeridas na Europa renascentista e expansionista dos quinhentos. A Amazônia foi inserida como margem do mundo no imaginário europeu e este processo de inserção foi feito dentro do projeto de conquista, no qual as fronteiras, mesmo no Velho Mundo, estavam se deslocando. Neste contexto, as Missões religiosas são as portadoras dos códigos morais que farão dos que estão nas margens e às margens do centro de poder e de produção de conhecimentos, que era a Europa, uma civilização cristã.

Assim sendo na conjuntura das descobertas, o sentindo das Missões religiosas se traduziu numa relação de alteridade que colocou o outro na condição de carente da salvação. Dentre os modelos de Missões neste contexto, estão as de ordens católicas. Os valores morais e éticos dos missionários eram pautados em rígidos padrões de disciplina e de trabalho, com conotação de controle do corpo e da mente, na luta contra o pecado, interpretados como o

87 Partindo da teoria da análise do discurso ―A Invenção do Índio‖. Ivânia Santos apresenta uma reflexão

analítica acerca dos processos discursivos que fundamentaram no Brasil a construção da imagem do índio.

88Ver também, no mesmo livro, o artigo escrito por Chambouleyron e Cardoso, ―Fronteiras da Cristandade:

123 domínio dos desejos da carne, tais como o ócio e a lascívia. Estes valores moraisfundaram a civilização cristã e serviram de parâmetro para ajuizar o outro e interpretar os modos e costumes dos outros não cristãos, não ocidentais também. Como afirma Agnolin (2005, p.62), ―uma realidade por mais nova que seja não pode nunca configurar-se como alteridade absoluta, mas sempre nos é oferecida como processo de interpretação do outro através de si mesmo‖.

As religiões vistas como experiência cultural têm, no Brasil, assumido papéis político-sociais distintos. Da Colônia ao Império, o catolicismo foi de longe a instituição religiosa mais poderosa nos trópicos. A voz autorizada. Alguns postos do governo foram ocupados pelos padres que no meio de uma população iletrada discernia os códigos escritos e a linguagem política da época. Nos jogos de escalas, do local ao global, eles interpretaram o mundo à luz dos interesses das ordens religiosas a que representavam, com leituras e visões:

[...] expressas em doutrinas maniqueístas, como formas alegóricas de percepção e representação do mundo que também acompanham o mundo ocidental. [...] Uma das alegorias exemplares desse maniqueísmo traduziu-se no século XIX, na representação bipolar civilização/barbárie, materializada por várias metáforas que, pela aproximação ou pelo distanciamento, procuraram demarcar tal oposição. (NAXARA, 2004, p.23-24)

Na Amazônia, as relações entre as ordens religiosas e o Estado, nos tempos coloniais, são exemplares para compreender as dinâmicas dos modos de agir dos representantes dos projetos globais da Igreja, os missionários e dos representantes do governo local. Alírio Cardoso e Rafael Chambouleyron afirmam que,

[...] os embates que marcavam a sociedade se projetavam nessas Missões que alargavam suas fronteiras. É que na verdade, jornadas como a do Tocantins eram realizadas entre religiosos e leigos. [...] De qualquer modo no Maranhão e Grão-Pará, os capitães-mores e governadores tinham de se articular com outros grupos e poderes, como as câmaras, os missionários, os moradores, outros membros da administração e os próprios índios, para organizar ou se imiscuir nos serviços dos índios.(CARDOSO; CHAMBOULEYRON, 2003, pp.48-49)

Das Missões católicas às Missões protestantes, os missionários puderam em diferentes momentos participar das articulações dos poderes na esfera local. O missionário batista Jones Bidart Lopes conta sua experiência nas reuniões e cursos promovidos pela Sudam – Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia em parceria com a Universidade Federal da Amazônia no curso sobre planejamento estratégico voltado para a

124 formação de líderes na Transamazônica. Em entrevista, o missionário batista afirmou que a ênfase do curso era a articulação dos esforços de representantes dos diferentes órgãos institucionais com vistas à organização de cidades ao longo da rodovia. (BIDART, 2013)89.

A declaração do missionário e o projeto do governo se articulam quanto ao aspecto formal de ação na rodovia. Isto porque tanto a Missão Batista quanto os agentes da Sudamencaravam os problemas da região norte como desafios a serem vencidos em nome do avanço e das conquistas territoriais. A declaração do missionário Jones Bidart em resposta à pergunta acerca dos resultados da Transamazônica é enfática: ―a Amazônia não era do Brasil, agora ela é. Não havia progresso e desenvolvimento, aquilo era só mata e floresta, agora há produção de grãos, pecuária e riquezas‖.

Declarações como esta representam a avaliação positiva da Transamazônica após quatro décadas desde o início da construção do primeiro trecho da rodovia. Nelas, o discurso da conquista da Amazônia traz na sutileza da linguagem cotidiana o que é óbvio, e isto é ideológico. Simon Schama (1996, pp.17-18) nos faz lembrar ―que a natureza não se nomeia, nem se demarca a si mesma, mas é nomeada, definida, imaginada e representada pelos homens‖Os homens que dão sentido às palavras e às coisas.

A Junta Batista de Missões, depois das viagens missionárias feitas pelo secretário- executivo, Samuel Mitt, e pelos relatórios que foram enviados à secretária da Junta, concluiu que precisava investir nos próprios colonos batistas, pois eram eles que estavam mais próximos dos colonos não batistas. O modelo de Missão no qual apenas o missionário de formação realiza a evangelização pareceu insuficiente para atender a demanda da rodovia.

Houve um descompasso entre os projetos de execução missionária e o plano inicial que era apenas o de levar casais de missionários para a Transamazônica. Devido à extensão da estrada e as dificuldades de acesso às casas de colonos, descobriu-se que o elemento feminino era a chave para a Missão na rodovia. Os missionários disseram que as portas se abriam com mais facilidade para as mulheres.

A conversa com missionárias que trabalharam na Missão Batista no Pará revela alguns ressentimentos e descontentamentos que a historiografia oculta. Foi produzido um discurso de harmonia nas relações de gênero dentro da Missão. Esta harmonia foi importante porque escondeu as tensões e colocou cada missionário e missionária em posição de colaboradores. O discurso de paz é importante para a ordem interna e em parte condizia com o

89 BIDART, Jones Lopes. Entrevista concedida em 22 e 25 de abril de 2013, via Google Talk e telefone. O

missionário está com 70 anos e mora no Rio Grande do Norte. Está casado e tem duas filhas e um filho. Ele e a esposa foram o primeiro casal de missionário enviado para a Missão Batista na Transamazônica, onde permaneceu até 1976.

125 ufanismo brasileiro que caracterizou principalmente o governo Médici (1969-1974), Brasil – este é o país que vai pra frente, isto é, é inteligível para todos na medida em que no cotidiano as dificuldades próprias do dia-a-dia na rodovia são niveladas como se fossem necessárias ao progresso do país.

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