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Desde a infância Paulo Freire vivenciou concretamente suas questões de luta contra a sociedade hegemônica e a favor dos desfavorecidos. Com uma infância rica de vivências e brincadeiras, foi educado e alfabetizado entre mangueiras do seu quintal, com palavras e frases ligadas ao seu cotidiano. A primeira grande mudança em sua vida

ocorreu durante o período de crise em 1929, fazendo com que sua família sentisse a mudança na escala social para o nível da pobreza, período em que também perdeu seu pai. A mudança de Recife para Jaboatão dos Guararapes (PE) se deu um espaço-tempo de aprendizagem, de dificuldades e de alegrias vividas intensamente, as quais lhe ensinaram “a harmonizar o equilíbrio entre o ter e o não-ter, o ser e não-ser, o poder e não-poder, o querer e não-querer” (GADOTTI, 1996, p. 30).

A primeira escola - local onde posteriormente foi professor -, foi encontrada com dificuldade por sua mãe devido à situação financeira que enfrentavam. A amorosidade com sua primeira professora instigou o fascínio pela língua portuguesa, característica que permeia toda sua obra, com uma escrita visceral, atenta à grafia e ao significado das palavras. Sem a possibilidade de cursar pedagogia, cursou direito, a carreira mais próxima da área das humanas, profissão que não exerceu.

Como professor de português já diferenciado pelas leituras e pela visão de mundo, citava Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade. Com uma metodologia particular imbuía em suas aulas discussões que superavam a “compreensão colonial” (FREIRE, 2007)

Era analisando com os alunos seus trabalhos concretos, sua experiência de redação, que eu ia com indiscutível facilidade, pondo sobre a mesa questões de sintaxe cujo estudo era previsto, na programação dos conteúdos, para um ano ou dois mais adiante. A sintaxe emergia esclarecedora da fala viva dos autores dos textos. Não era transplantada das páginas frias de uma gramática. Da mesma forma como a procura da boniteza do discurso se dava com o bom gosto sendo provado na experiência concreta que os alunos faziam com sua linguagem, na comparação que eu estabelecia muitas vezes entre a frase de um dos jovens autores e a de um Gilberto Freyre ou de um Lins do Rego ou de um Graciliano Ramos (FREIRE, 2007, p.84).

Como educador no Serviço Social da Indústria (SESI) esteve à frente de projetos, dentre eles de educação de adultos e trabalhadores, como diretor do setor de Educação e Cultura. Viajou e conheceu o sofrimento e o conhecimento do povo brasileiro. Nas escolas observava a prática educativa e as dificuldades encontradas pelas famílias das áreas populares. Sua busca era por um diálogo e pela participação democrática de pais e mães na política educacional (FREIRE, 1992).

Suas práticas vividas foram confirmadas ao longo de sua experiência profissional. “Você só trabalha realmente em favor das classes populares se você trabalha com elas, discutindo com respeito seus sonhos, seus desejos, suas frustrações, seus medos, suas alegrias” (FREIRE, 2007, p.86).

Contrário a uma ação assistencialista, sua perspectiva era progressista revelando uma posição ética, inclinada ao justo (FREIRE, 1994). A convivência com a classe popular instigou sua revolta com a desumanização e com preconceitos, gestando pensamentos de humanidade. “Menino, cedo desafiado pelas injustiças sociais como cedo se tomando de raiva contra preconceitos raciais e de classe a que juntaria mais tarde outra raiva, a raiva dos preconceitos em torno do sexo e da mulher” (FREIRE, 2007, p.82).

O educador Paulo Freire, de projeção nacional, destacou-se nos estudos sobre a educação de adultos no Seminário Regional de Educação de Adultos, em Pernambuco. Posteriormente, engajou-se no Movimento de Cultura Popular (MCP), da Prefeitura de Recife. A aplicação de seu método de alfabetização de adultos, com uma experiência inovadora em Angicos (PE), fez com que, em 1964, coordenasse o Programa Nacional de Alfabetização (PNA), alfabetizando cinco milhões de adultos. O Programa foi extinto três meses depois pelo governo militar. “No processo de alfabetização, esses novos leitores, provenientes das camadas populares, seriam desafiados a perceber as injustiças que os oprimiam e a necessidade de lutar por mudanças” (GADOTTI, 1996, p. 42).

Mais que um método de alfabetização, uma compreensão dialética da educação preocupada com o processo de conhecer em que educadores e educandos devem assumir o papel crítico de sujeitos aptos ao conhecimento, isto é, cognoscentes.

A sua carreira como professor universitário iniciou em 1959, momento em que defendeu sua tese em Filosofia e História da Educação e intitulada Educação e

atualidade brasileira (FREIRE, 1959), que busca compreender a contraditória sociedade brasileira, visando à transformação social pelo povo. Posteriormente tornou- se professor efetivo na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Recife, onde também foi nomeado livre-docente da Escola de Belas Artes.

O pensamento de Freire no período do populismo no Brasil possui reflexões que abordam as ambiguidades, ao fazer, intencionalmente, emergir o povo na política apenas como base social de sustentação eleitoral, desprovido de forças de reação (FREIRE, 1979a). Passagem essa que foi de extrema importância para maturação das ideias apresentadas no seu primeiro livro, Pedagogia do Oprimido (FREIRE, 1983b), também encontradas em sua tese defendida na Universidade de Recife.

Em 1964 o Brasil não havia feito revolução nenhuma, vivia-se a experiência populista do governo Goulart. Um momento de inquietação, de curiosidade, de presença popular nas ruas, nas praças.

Havia uma ambiguidade fundamental, de um lado, estimulando a presença das classes populares, mesmo manipuladas, sem as quais não existiria, de outro correndo o risco de desaparecer, ou porque à esquerda, através delas, se viabilizasse, ou porque à direita, por causa delas, acabasse a festa. (...) Naquele pequeno período, havia uma vontade popular, não importa que muito mais pra rebelde que pra revolucionária, e uma curiosidade também, que deram as bases para os planos que coordenamos a partir do Ministério da Educação em Brasília (FREIRE, 1991, p.31).

Para Scocuglia (1999), as correntes teóricas que influenciam o pensamento de Paulo Freire formam um pensamento político-pedagógico em construção, de uma sociedade em trânsito no início dos anos sessenta. A não participação política dos brasileiros nesse período é explicada pela tradição de dominação externa, vindas de estruturas históricas de dependência. A cultura do silêncio seria superada pelos movimentos alfabetizadores de educação popular, com a ascensão intelectual das camadas populares.

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