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3.5 The Other World of the Other House

3.5.1 The Other Mother

Quinta-feira (02/07/09) Harry para maiores

Nesta análise vou ser bem direta. Não gostei do texto “Harry para maiores”. O autor denegriu a imagem das estrelas do filme, arrasando assim com a própria obra em questão. Afirmo que a mídia fica só procurando algum fio de meada para levar à tona; e agora com a estreia de Harry Potter 6, não seria diferente. Eles publicam coisas sem pensar, e a emoção das pessoas quando assistem ao filme? Fica onde? É a mesma coisa de, na época do natal, falar a inocentes criancinhas que o papai noel não existe. Tudo bem que é pura ficção, mas não precisava ter criado um texto daqueles!

Mesmo defendendo meu ponto de vista, tenho que admitir que o texto foi super bem elaborado. Para o autor chegar às informações repassadas, ele tinha que ter muito conhecimento de mundo, porque detalhes precisos foram identificados no texto, como valores gastos com o filme atual, sendo atribuídos à estes comparações para uma melhor forma de “possivelmente” gastar o dinheiro. Isso me fez perceber a pesquisa que seu criador realizou para chegar ao resultado obtido, porém com este texto só pude chegar à uma conclusão: seu escritor não deve gostar nenhum pouco da série que já teve seis edições, tentando com a reportagem satirizar seus astros principais

Não gostei do texto, mas admito estar equivocada quanto à isso. Achei um trabalho muito bem feito, com informações detalhadas e imagens muito fiéis (menos o gay que está pegando no braço de Daniel Radcliffe, porque ainda não acredito que ele seja […]), mas como o objetivo dessa atividade é falar o porquê do gostar ou não gostar criticando-o, já-o fiz, portanto dessa forma, finalizo meu texto afirmando que eu mesmo me contradisse, quando misturei meu emocional com a atividade em questão.

O texto Harry para maiores foi publicado na revista Mundo Estranho, em julho de 2009 e narra acontecimentos constrangedores envolvendo os atores da saga Harry Potter22. Junto à parte verbal do texto, encontra-se a linguagem visual, que apresenta o material iconográfico dos autores com semblante provocante e assustador e que difere drasticamente das feições inocentes vistas nos personagens da saga.

Como acompanhante das narrativas de Harry, a autora deste enunciado mostra a indecisão gerada a partir desse contraste. Ela sente-se dividida entre sua opinião pessoal sobre o conteúdo do texto e sua opinião que emerge a partir de uma tentativa de distanciamento de seu “emocional” da análise que pretende fazer. Sua insatisfação diante do texto analisado deve-se à falta de cuidado dos jornalistas com a “emoção” dos que assistem à saga. Essa falta de cuidado é tão forte, assim como a decepção que ela desencadeia na autora que chega a ser comparada com a descoberta de uma criança de que Papai Noel não existe. Ao comparar essas duas realidades, a diarista aponta para uma quebra na fantasia criada a partir da confusão feita entre os atores e os personagens por eles interpretados. Para os jovens fãs que acompanharam a passagem dos personagens e, consequentemente, dos atores da fase infantil para a fase adulta, o texto Harry para maiores aparece como oposição ao universo infantil e fantástico vivido nas histórias da saga. Ou seja, ler esse texto é voltar os olhos para os fatos da realidade: os atores cresceram e cometem falhas qualquer pessoa.

Apesar disso, a autora do diário reconhece que o texto analisado revela um grande conhecimento sobre a saga por parte do autor. Esse fato a deixa confusa e, ao final da análise, percebemos que ela não se posiciona claramente: “Não gostei do texto, mas admito estar equivocada”.

Podemos dizer que seu texto considera as vozes que dizem que um bom texto é aquele que está bem escrito, bem estruturado, em que o autor revela possuir conhecimento de mundo sobre o assunto. Mas, por outro lado, existe também o choque entre uma realidade confortável por ela conhecida e outra realidade mais dura, que se opõem fortemente uma a outra. Assim, há um embate entre a voz da produtora do diário e essa voz que dita o que deve ser considerado um texto bem escrito. Por isso, a autora, mesmo afirmando que não gostou do texto em análise, admite estar equivocada. A questão é: equivocada segundo quem, uma vez que a sua própria voz já foi posta no texto como insatisfeita com o que encontrou em sua leitura?

Percebemos então, claramente, uma influência direta do discurso do outro e a constante alternância do olhar que ora contempla o discurso do eu, ora contempla o discurso do outro. Este, por estar sempre presente, também determina o tom e estilo da voz do eu, influenciando em sua “própria maneira de pensar e sentir, de ver e compreender a si e o mundo que o cerca” (BAKHTIN, 2010b, p. 237).

Essa alternância de olhares também pode ser influenciada pelo estranhamento diante do diário de leituras. A aluna vê-se diante de uma atividade que permite posicionamentos baseados em suas emoções, mas ainda existe a presença forte, em sua memória discursiva, das demais atividades escolares, nas quais o emocional do aluno deve ser descartado. Assim, a sua decepção diante do texto de Harry é apresentada, mas divide espaço com uma opinião que deixa de lado essa decepção para analisar os aspectos conteudísticos e estruturais do texto analisado.

Apesar da tensão entre essas vozes, compreendemos que a polêmica aberta se manifesta quando a diarista traz a voz da revista, que mostra o outro lado das personagens da saga, para que ela seja refutada a partir do discurso construído entre o contato da autora do enunciado e os filmes/livros da saga. Dentro dessa polêmica, como vimos, o choque dialógico é constante, pois é difícil para a diarista assumir que um texto que aborda fatos destoantes do que ela concebia possa estar bem elaborado, segundo sua apreciação.

No enunciado I, portanto, a tensão dá-se, abertamente, entre a voz do produtor do diário e a voz da revista.

3.1.2 Enunciado II – “Se você não gosta, azar o seu”

TNC= Tomar no cú PQP= Puta que pariu

S

usan Boyle *_*

DATA: 30/11/09 (segunda-feira)

Análise da página 211 da revista Veja, edição 2.141.

Ahh, era o que faltava ¬¬’, mais um escritor tentando ganhar espaço falando mal dos outros! O pior, foi que a anta do jornalista decidiu falar mal de Susan Boyle!!! Fala sério, a Susan é sem dúvida uma das maiores vozes da atualidade (depois de Lady Gaga, é claro \o/). Enfim, olha só a manchete: “A cantora revelação Susan Boyle lança disco chato e convencional.” Nooossa, tão chato que bateu o recorde de discos mais vendidos na semana do lançamento: superou os 610.000 unidades ¬¬’. Putz, e olha só o comentário infeliz do Sérgio Martins (escritor do artigo): “... O CD, porém, só faz evidenciar a característica principal da cantora de 48 anos: a cafonice.” TNC né?! Vc quer que uma senhora do estilo de Susan Boyle vá cantar “Just Dance”23, por

exemplo? Faça-me o favor amigo... Ela gravou o CD do jeito dela, calmo, com voz! Se vc não gosta, azar o seu, pq com mais de 610.000 CD’s vendidos na 1ª semana ela prova que consegue agradar. Então, senhor Sérgio Martins, vá à PQP -.-‘ (SORTE SUA QUE NÃO FALOU MAL DA GAGA ‘-‘).

kkkkkkkkkkkkkk, peguei ar! Mas nah, vá ser negativo lá.... Anyway. PARABÉNS pelo sucesso, Susan :DDD!

O texto escolhido pelo diarista para análise trata-se de uma nota sobre o lançamento do CD de Susan Boyle, intitulada “A surpresa passou: a cantora revelação Susan Boyle lança disco chato e convencional”, publicada na revista Veja, edição 2.141, de dezembro de 200924. Susan ficou famosa depois de sua participação no programa de calouros Britain’s Got Talent, equivalente ao

23 Música de Lady Gaga, encontrada no CD The Fame, 2008, Interscope Record.

24Texto encontrado na íntegra no anexo 4. Também disponível em:

programa brasileiro Ídolos. O vídeo da apresentação da cantora ganhou fama no mundo inteiro devido à desconfiança que tanto a plateia quanto os jurados depositaram em sua participação, devido ao seu comportamento desajeitado em cima do palco. Depois da apresentação de Susan, porém, grande parte dos presentes mostraram-se surpresos e emocionados, e foi, principalmente, essa mudança de reação de público e jurados o que fez o vídeo da cantora ser visto no mundo inteiro por milhares de pessoas.

A nota da revista, então, refere-se a um momento posterior, depois da fama repentina de Susan que culminou na gravação de seu CD. O posicionamento apresentado por Sérgio Martins, autor da nota, é negativo diante desse repentino sucesso. Para ele, o novo disco não acompanha toda a empolgação do momento da apresentação no programa. O autor da nota faz questão de mostrar parcialidade quanto a isso, o que pode ser facilmente percebido por meio de suas escolhas lexicais: sobre Susan, “senhora obesa e desengonçada”; sobre o disco, “a cafonice de sempre”, “chato”, “convencional”. Durante seu texto, o jornalista reconhece o sucesso de Susan e sua competência na arte de cantar, porém, segundo ele, a cantora não passará disso e toda repercussão de sua carreira será passageira.

Sabemos que as relações dialógicas bakhtinianas transcendem o diálogo face a face e que o diálogo não é representado em um enunciado apenas por meio da alternância entre as vozes. Na maioria das vezes, essas vozes aparecem entremeadas, sendo possível identifica-las, mas não separá- las. O que chama a atenção nesse enunciado que agora avaliamos é a demarcação que o aluno faz da sua voz e da voz do outro a qual refuta. Assim, sempre que vai trazer seu argumento, o aluno, primeiramente, apresenta a voz do outro, da qual ele pretende discordar.

O choque dialógico pode ser representado, então, pela tensão entre a voz que se posiciona de forma negativa sobre a carreira de Susan Boyle e sobre seu comportamento e a réplica desta, que tenta justificar as “cafonices” da escocesa.

O aluno inicia sua análise claramente revoltado com o posicionamento do texto que acaba de ler. Antes de apresentar seus argumentos, atribui ao jornalista responsável o termo “anta”, depreciando seu trabalho e seu ponto de vista. Em seguida, podemos ver o diálogo que mencionamos no parágrafo

anterior. Semelhante à divisão das vozes do diálogo interior de Makar Diévuchkin (personagem de Dostoiévski, no romance Gente pobre), convertido por Bakhtin (2010b, p. 241) em um “diálogo grosseiro”, segundo ele mesmo, dividimos as vozes, embora elas apareçam bem demarcadas dentro do enunciado, para evidenciar as réplicas do diálogo. Consideramos como eu o diarista e como o outro o jornalista Sérgio Martins.

O outro: “A cantora revelação Susan Boyle lança disco chato e convencional.”

Eu: “Nooossa, tão chato que bateu o recorde de discos vendidos na semana do lançamento: superou as 610.000 unidades.”

O outro: “... o CD, porém, só faz evidenciar a característica principal da cantora de 48 anos: a cafonice.”

O eu: “TNC né?! Vc quer que uma senhora do estilo de Susan Boyle vá cantar “Just Dance”, por exemplo? Faça-me o favor amigo... Ela gravou o CD do jeito dela, calmo, com voz! Se vc não gosta, azar o seu, pq com mais de 610.000 CD’s vendidos na 1ª semana ela prova que consegue agradar.”

A partir dessa divisão, percebemos que o enunciado se constitui, basicamente, das réplicas desse diálogo. O aluno traz seu posicionamento sobre o mesmo fato, mas com outra visão sobre Susan, sobre o CD, tentando argumentar em favor da cantora. As duas vozes conflitantes, dessa forma, representam dois pontos de vista discordantes entre si: um que vê a cantora como uma celebridade passageira e a impossibilidade de seu sucesso duradouro, sobretudo devido ao seu comportamento, considerado “cafona”; e a outra que pensa que Susan não precisa se adequar aos padrões de beleza e de comportamento de outras celebridades para fazer sucesso, compreendendo que seu estilo condiz com o estilo de uma senhora de 48 anos.

Essas visões contrastantes também apresentam duas vozes distintas que ditam como uma mulher dessa idade e famosa deve portar-se, vestir-se, maquiar-se, cortar o cabelo etc.; porém uma delas, a que julga Susan “cafona”, foi a voz que se fez mais presente quando a cantora apresentou-se no programa americano. Por isso, a surpresa da plateia e dos jurados ao ver que, mesmo com um visual contrário aos padrões das celebridades, Susan possuía talento. Apesar disso, a revista Veja acompanha essa voz, ao tentar prever um

futuro sem sucesso para a carreira da cantora, alegando sua “cafonice” como impedimento para tal sucesso.

São justamente essas vozes que orientam o enunciado II para outra categoria: Dizeres sobre o comportamento feminino, pois percebemos que o que permeia o embate de opiniões são esses posicionamentos contrários acerca do comportamento de Susan.

Diante disso, o diarista, representante da voz contrária, demonstra sua indignação também por meio de expressões como “Ahh, era o que faltava ¬¬’”, “Fala sério”, além de abreviações típicas da linguagem utilizada na internet “TNC” E “PQP”, explicadas pelo aluno no início de seu texto. Esse tipo de linguagem utilizada exemplifica o quanto os alunos sentem-se à vontade para escreverem no diário o que quiserem e como quiserem, reforçando o sentido de liberdade atribuído ao gênero e discutido por nós na seção destinada aos diários de leituras.