Em sintonia com esse posicionamento, o enunciado VIII (parte II) apresenta o material iconográfico que constitui, juntamente com o texto verbal, a entrevista analisada. Como pode ser visto, o autor utilizou a foto de Geisy, atribuindo uma fala que, segundo seu ponto de vista, poderia ser dela. Considerando que a foto recortada como um discurso que faz parte de um enunciado completo, podemos afirmar que houve um enquadramento de um discurso, advindo de um contexto específico, para outro contexto ligado a um novo enunciado. Temos aqui um exemplo do que o Círculo bakhtiniano nomeia
enquadramento, recurso que, segundo o Círculo, ocorre da seguinte forma: A palavra alheia introduzida no contexto do discurso estabelece com o discurso que a enquadra não um contexto mecânico, mas uma amálgama química (no plano do sentido e da expressão); o grau de influência mútua do diálogo pode ser imenso. Por isso, ao se estudar as diversas formas de transmissão do discurso de outrem, não se pode separar os procedimentos de elaboração deste discurso dos procedimentos de seu enquadramento contextual (dialógico): um se relaciona indissoluvelmente ao outro. Assim como a formação, também o enquadramento do discurso de outrem [...] exprimem um ato único da relação dialógica com este discurso, o qual determina todo o caráter de transmissão e todas as transformações de acento e de sentido que ocorrem nele no decorrer desta transmissão. (BAKHTIN, 2010c, p. 141).
Nesse sentido, a palavra ou discurso do outro é a foto utilizada, escolhida pelo autor do enunciado VIII (parte II) devido ao diálogo que se estabelece entre seu ponto de vista, o ponto de vista do autor da entrevista, a intenção deste último ao escolher justamente esta foto para compor o enunciado da entrevista, a expressão do rosto da estudante da UNIBAN, “o balão-fala” (RAMOS, 2010) inserido na foto. Todos esses elementos juntos justificam o procedimento adotado pelo diarista que confirma, por meio de seu enunciado visual, a voz que emerge do seu texto verbal.
É importante ressaltar, ainda com base na citação anterior, que a construção do enunciado visual, a partir do enquadramento do discurso do outro, revela que o aluno percebe o tom valorativo do discurso do outro e as possibilidades de enquadramento desse discurso em um novo enunciado. Este, portanto, é criado segundo a interpretação que o seu produtor faz da palavra alheia, além de adequar-se ao seu projeto de dizer.
Esse procedimento também exemplifica o que vimos sobre a forma arquitetônica. O balão-fala, acrescido à foto de Geisy, é um exemplo de como o enunciado é organizado segundo as intenções do seu autor. Nesse caso, vemos que o autor do diário escolheu estrategicamente uma imagem de Geisy que se adequasse à avaliação da estudante apresentada no texto verbal. A expressão contida no balão resume o posicionamento revelado desde a primeira parte do enunciado e, consequentemente, adéqua-se facilmente ao material visual retirado da revista para fazer parte desta parte do enunciado do diário. Além disso, respondemos a um dos questionamentos propostos por Bakhtin (2010c) acerca da relação entre forma e conteúdo, pois temos mais um exemplo claro de que a forma de um enunciado relaciona-se axiologicamente com ele.
Sendo assim, podemos afirmar que essa composição idealizada pelo diarista vai ao encontro do que propõe o autor russo quando fala sobre a forma arquitetônica dos enunciados artísticos: “a forma desmaterializa-se e sai dos limites da obra como material organizado só quando se transforma numa
expressão da atividade criativa” (BAKHTIN, 2010c, p. 57).
Sobre as estratégias da comunicação visual e sobre a relação entre conteúdo e forma, Dondis (2007) afirma que, na comunicação visual, o
conteúdo nunca aparece dissociado da forma. Mudam-se as estratégias, porém essa característica permanece. Para o autor:
Na busca de qualquer objetivo fazem-se escolhas através das quais se pretende reforçar e intensificar as intenções expressivas, para que se possa deter o controle máximo de respostas. Isso exige uma enorme habilidade. A composição é o meio interpretativo de controlar a reinterpretação de uma mensagem visual por parte de quem a recebe. O significado se encontra tanto no olho do observador quanto no talento do criador. (DONDIS, 2007, p. 131).
No enunciado do diarista, o recurso da colagem chama-nos atenção, pois nele podemos perceber o modo como o autor ressignifica a imagem da estudante da UNIBAN, ao mesmo tempo em que se posiciona. Ao fazer isso, demonstra como o entorno faz parte do enunciado. Isso significa dizer que um mesmo texto pode ter sentidos diferentes conforme a situação em que está inserido.
Assim, a imagem de Geisy na entrevista pode aparecer como uma mera ilustração ou também como uma confirmação da ironia que permeia a entrevista. Ressignificando, ou percebendo a intenção da revista, o aluno reorganiza a composição da imagem e reafirma sua visão sobre a jovem e suas atitudes.
O texto visual reafirma ainda a questão de todo o comportamento da estudante estar voltado para a sua intenção de querer ficar em evidência na
mídia. Além disso, orienta, mais uma vez, à reafirmação de um discurso que reprova o comportamento de mulheres que vestem trajes curtos, avaliando que, com esse tipo de atitude, a única intenção delas seria “aparecer”.
Com isso, a partir do enquadramento do discurso alheio, da relação entre verbal e visual, podemos confirmar o que apresentamos na seção anterior sobre a relação axiológica que as partes do enunciado estabelecem
entre si. Ou seja, o procedimento de enquadrar o discurso do outro aparece no texto com uma intenção que ultrapassa a mera ilustração: confirma o posicionamento que vem sendo defendido desde o texto verbal, que constitui a parte do enunciado, analisado anteriormente.