Olá meu amorzinho, tudo bom?! Eu estou ótima, obrigada. ;) Dhi agora eu vou analisar um texto que eu acho que é bom: “Acerte no visual”, por Federico Devito. É, ele mesmo, aquele colírio mais gato do VDG. Agora deixa eu ler que eu quero acertar no visual. ^^
Ai que tudo! O texto é ótimo, se bem que eu ainda não achei nenhum texto ruim né?! O esquema do texto é assim, as garotas fazem perguntas para saber o que os garotos pensam em relação ao nosso visual, adereços e comportamento. Isso é muito legal porque as vezes a gente fica insegura, sem saber se exagerou, e também é sempre bom saber do que eles gostam né. E o melhor é que, o gato disse que se a gente estiver sentindo-se bem é sinal que o look está certo. Uma garota fez uma pergunta em relação à quem usa óculos e Graças a Deus ele respondeu que isso pode ser até um charminho, e eu amei, porque eu uso óculos, mas nunca levo pro IF pois acho feio, sei lá. Pô,
esse texto me encorajou muito ;), principalmente em relação aos óculos, que próximo ano eu vou usar sim. Ah Dhi o texto estava ótimo, eu gostei de saber um pouco como eles pensam. Mas agora tenho que parar por aqui viu?! Beijim
;*
Os enunciados analisados que se referem aos “colírios Capricho” até então, posicionaram-se negativamente com relação aos participantes do concurso ou à própria revista Capricho. Neste enunciado, vemos uma aluna que se posiciona como leitora da revista e não só admira um dos participantes do concurso como também considera sua opinião sobre o visual feminino importante. Frederico Devito é um dos participantes do seriado VDG (Vida de garoto), organizado pela revista Capricho, transmitido em um dos blogs da revista. Os participantes do programa ficam responsáveis pelo blog da série, no qual podem ser encontrados detalhes da rotina dos garotos, mensagens e contatos com as fãs por todo o Brasil, entrevistas e vídeos com os rapazes, além de dicas dos colírios para as meninas.
A revista Capricho, assim como suas páginas na internet juntamente com as diversas seções, é um exemplo de como a opinião masculina influencia no comportamento e nas atitudes das adolescentes. A autora deste anunciado, no primeiro parágrafo, mostra-se ansiosa para saber o que Frederico tem a dizer sobre como uma garota pode acertar no visual. No parágrafo seguinte, mostra-se empolgada ao descobrir que as palavras do colírio eram exatamente o que ela gostaria de ver/ouvir. Essa reação é representada pela expressão “Ai que tudo!” e a aprovação do texto da revista por parte da autora é influenciada pela concordância entre o discurso do autor e o seu discurso.
A diarista segue afirmando sobre o texto: “Isso é muito legal porque as vezes a gente fica insegura, sem saber se exagerou, e também é sempre bom saber do que eles gostam né.”. O alívio ao descobrir que está no caminho certo com relação ao seu visual é claramente percebido na utilização da expressão “graças a Deus”.
A importância conferida todo tempo à opinião do garoto nos faz lembrar o que Bakhtin (2010a) aponta sobre a influência do discurso do outro sobre nós. O acabamento do outro, como outro me completa a partir de seu olhar distanciado de mim. O olhar de alguém representa um olhar de alguém que
não sou e que, por isso, é capaz de enxergar coisas em mim as quais eu não sou capaz de perceber.
Além disso, o autor discorre sobre a importância do olhar do outro para a construção do eu como sujeito no mundo:
Em sua íntegra, o valor de minha pessoa externa (e antes de tudo de meu corpo exterior, a única coisa que aqui nos interessa) é de natureza emprestada, que eu construo mas não vivencio de maneira imediata. Se por um lado posso aspirar diretamente à autopreservação e ao bem-estar, defender minha vida a qualquer preço, até mesmo almejar o poder e a submissão dos outros, nunca, porém, posso vivenciar imediatamente em mim aquilo que vem a ser a pessoa de direito, visto que a pessoa de direito não é senão a certeza garantida de meu reconhecimento pelos outros, reconhecimento esse que eu vivencio como uma obrigação deles para comigo, [...] tão profundamente diversos são o vivenciamento interior do próprio corpo, o reconhecimento do seu valor externo por outras pessoas e meu direito à aceitação amorosa da minha imagem externa: tal reconhecimento me chega de cima como um dom concedido pelos outros, uma felicidade que não pode ser interiormente fundamentada e compreendida; só é possível ter certeza desse valor, e é impossível um vivenciamento intuitivo- evidente do valor externo do meu próprio corpo, e eu posso apenas alimentar a pretensão a esse valor. Os diversos atos de atenção, amor, e reconhecimento do meu valor a mim dispensados por outras pessoas e disseminados em minha vida como que esculpiram para mim o valor plástico do meu corpo exterior.” (BAKHTIN, 2010a, p. 45- 46).
As palavras de Bakhtin nos mostram que não são apenas as adolescentes que se preocupam com o olhar do outro sobre si, mas todos os sujeitos são dependentes do reconhecimento do outro. Não podemos negar que esse aspecto é exemplificado explicitamente no enunciado que ora analisamos, pois a diarista sente receio sobre como seu exterior apresenta-se e a opinião do garoto sobre como uma garota deve apresentar-se soa como um alívio a todas às inquietações quanto à sua aparência.
Não é à toa, portanto, que a opinião do garoto é decisiva para que a autora do diário utilize um acessório que não utilizava por considerar “feio”. O fato de ela achar feio já é uma demonstração de como a opinião do outro influencia na sua opinião, pois o achar “feio” não vem de si mesmo, mas do discurso do outro, de como o outro a vê. Porém, depois da opinião do colírio a decisão é clara: “Pô, esse texto me encorajou muito, principalmente em relação aos óculos, que próximo ano eu vou usar sim.”.
No caso deste enunciado, lembremos também que o outro não se trata de um outro qualquer, mas de um sujeito que ocupa um lugar social valorizado pelas garotas leitoras da revista Capricho e que representa um grupo do qual as garotas pretendem chamar a atenção. Assim, a opinião de Frederico passa a ter maior relevância do que a opinião das demais pessoas, até mesmo de outros garotos que não estejam no horizonte de interesse da diarista. A partir dessa reflexão, vemos que não importa apenas avaliar a influência do discurso do outro sobre o eu, mas de que lugar social esse outro ocupa, ou seja, de que outro estamos falando.
Ao fim das análises, passamos, agora, para nossas considerações finais.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para tornar o pensamento não-indiferente, é preciso responder por ele levando em conta o contexto em que nos encontramos. E o contexto será sempre uma arena onde diferentes valores se afrontam, engendrados nas diferentes posições sociais que ocupamos. O pensamento tornado ato é um pensamento com entonação e que adquire, segundo a expressão de Bakhtin, “a luz do valor”. (AMORIM, 2007, p. 19).
Ao final deste trabalho, compreendemos que os papéis desenvolvidos pelos participantes a partir do lugar que ocupam, os objetivos que visavam com a atividade e o contexto social do qual faziam parte são elementos essenciais para a construção de seus enunciados. Mais do que isso. Como vimos, esses elementos também são o próprio enunciado.
Para fazer sua voz ecoar, cada um dos diaristas, a partir das concessões do gênero, adotou um estilo próprio, afirmando-se como sujeito no mundo e confirmando ou refutando os discursos que circulam na nossa sociedade atual.
Após constante diálogo com os dez enunciados escolhidos e, consequentemente, com as vozes que deles emergiam, podemos afirmar, juntamente com Bakhtin (2010a), que é por meio de enunciados concretos que “a vida entra na língua” (BAKHTIN, 2010a, p. 265). Então, compreendemos que, na sua escrita, os alunos deixaram marcas que representam os discursos que os constituem e que influenciam em suas atitudes cotidianas e na construção de outros enunciados produzidos por esses sujeitos em outras situações.
A escuta desses enunciados mostrou-nos que, se, por um lado, os jovens de hoje possuem, com maior facilidade, acesso à informação, contestando o que lhes é imposto pela sociedade; por outro, ainda é muito forte a rejeição ao que ainda lhes causa estranhamento, ao que foge de sua concepção sobre o que é tido como padrão, sobre o que é tido como natural. Mostrou também que, enquanto alguns alunos ainda possuem certo receio de pronunciarem-se abertamente sobre suas opiniões pessoais, outros são bem enfáticos em seus posicionamentos, chegando, inclusive, a desrespeitar, de
forma consciente, os grupos sociais que não se enquadram na sua maneira de enxergar o mundo.
Diante disso, percebemos que essas vozes apresentam um discurso que sinaliza um estranhamento diante do outro que é diferente de si, seja pela sexualidade, seja pelo modo de vestir-se, seja pelo comportamento ou pela aparência. Nos enunciados em que esse tipo de discurso apresenta-se, podemos perceber uma dificuldade de aceitar o outro como ele é, ou escolheu ser. Para Bauman (2001), a capacidade de conviver com a diferença requer exercício e estudo por parte do indivíduo. O sociólogo lembra-nos que é muito mais confortável para os seres humanos negar a pluralidade e tratar o outro de forma homogênea, eliminando a diferença de sua convivência.
Sobre essa relação, o autor compara o diferente com um “corpo estranho” para esse indivíduo que não o aceita:
Essa decisão certamente se adapta à nossa preocupação contemporânea obsessiva com poluição e purificação, à nossa tendência de identificar o perigo para a segurança corporal com a invasão de “corpos estranhos” e de identificar a segurança não- ameaçada com a pureza. A atenção agudamente apreensiva às substâncias que entram no corpo pela boca e pelas narinas, e aos estranhos que se esgueiram sub-repticiamente pelas vizinhanças do corpo, acomodam-se lado a lado no mesmo quadro cognitivo. Ambas ativam um desejo de “expeli-los do sistema”. (BAUMAN, 2001, p. 126).
Assim, vivemos sob essa constante vigilância e acreditamos que o outro, por ser desconhecido ou diferente de nós, pode sempre representar perigo. Além de desmistificar esse pensamento, devemos, como profissionais da educação, ter o cuidado de mostrar a esses jovens que aceitar o outro como ele é, sem preconceitos, e, ao mesmo tempo, tentar eliminá-lo ou convencê-lo de que está errado são atitudes completamente contraditórias.
Assim como também é nosso papel fazer o mesmo quando o nosso outro é esse aluno, constituído por discursos excludentes. Durante a pesquisa, questionamo-nos sobre como deveríamos ouvi-los, principalmente, quando essas vozes nos inquietavam. Como deveria ser o trato conferido a essas vozes dentro da pesquisa, então?
A partir das pesquisas de Amorim (2007), Ponzio (2010a, 2010b), Freitas (2010), concluímos que, independente da voz que é colocada, os sujeitos desta pesquisa necessitavam ser ouvidos, desejavam que suas vozes fossem replicadas, discutidas, e não ignoradas. Esse fato tanto põe os professores, como os pesquisadores em uma situação de desafio própria da arena de confronto que são as relações sociais. Ainda mais quando pensamos na relação entre pesquisado e pesquisador, se considerarmos que “entre o discurso do sujeito a ser analisado e conhecido e o discurso do próprio pesquisador que pretende analisar e conhecer, uma vasta gama de significados conflituais e mesmo paradoxais vai emergir”. (AMORIM, 2007, p. 12). Nessa arena conflituosa da pesquisa, ser não indiferente pode levar-nos a entrar em contato e análise cuidadosos ― sob o olhar exotópico ― as vozes que contrariam/desafiam a nossa visão de mundo.
Então, podemos afirmar que, nesse desafio, criticar sempre o pensamento do aluno não é ouvi-lo. É preciso analisar o que está sendo colocado, refletindo sobre o real motivo daquela voz fazer parte do seu discurso. Assim, do lugar que ocupamos como profissionais, nossa réplica não deve ter caráter irresponsável, simplista, ou seguir a voz da maioria, mesmo que essa maioria seja o discurso político-pedagógico que vigora na instituição de ensino em que trabalhamos. Ouvir o outro, no sentido bakhtiniano, não é concordar com ele. Ouvir o outro é saber que existe um sentido e uma historicidade em seu discurso. Ou seja, o seu discurso não é constituído apenas por um sujeito, mas por uma grande teia discursiva que o precedeu. Desse modo, estamos entrando no lugar que o outro ocupa, pois, do lugar que ocupo, o discurso do outro não pode fazer sentido. Nessa atitude, segundo Bakhtin (2010d), consiste uma participação responsável diante da vida.
Sobre isso, Ponzio (2010a), ao referir-se à mediação da palavra literária, afirma que
A mediação da palavra literária permite chegar a outra palavra, deixando-a outra, escutando-a na sua alteridade, não a reduzindo a objeto, nem a reportando tal e qual como palavra do eu, ou seja, do ponto de vista do sujeito que a considera “própria”, sua palavra “propriedade”, sua posse, seu instrumento, palavra para ele totalmente familiar e por ele domesticada, sem estranheza, sem alteridade, sem liberdade. (PONZIO, 2010a, p. 80).
Vemos que as palavras do autor podem ser transferidas para a mediação das vozes dentro da pesquisa, pela qual o pesquisador torna-se responsável. Essa responsabilidade deve estar acompanhada de um compromisso no qual o pesquisador despe-se de suas certezas e dos discursos que o acompanham para ouvir o que o sujeito pesquisado, também falante, tem a dizer sobre determinados assuntos.
Lembremos, principalmente, dos enunciados “O mundo está chegando ao fim” e “A melhor parte de mim” (respectivamente, presentes nas páginas 122 e 116 deste trabalho). Nesses diários, o discurso dos alunos está na contramão do discurso oficial do que dita a escola: “É preciso respeitar as diferenças”, “É preciso concluir as atividades escolares”. Mas, então, por que os alunos não respeitam essas diferenças? Por que não concluem as atividades? E, a mais importante das perguntas: Como respondermos a essas questões sem repensar mais a fundo nossas práticas e considerar o que esses alunos estão pensando, ao invés de repetir o nosso julgamento, de certa forma, também preconceituoso?
Se os nossos alunos dizem o que dizem é porque o espaço e o tempo (e aqui lembramos do que vimos sobre o conceito de cronotopo) permitem que esses discursos sejam veiculados. Isto é, a época em que os alunos vivem propicia a existência desses discursos.
Por isso, procuramos, com este trabalho, discutir as vozes apresentadas no diários, ouvindo-as com cautela, e refletir sobre sua existência, em vez de apenas mostrar que elas orientavam para um pensamento que foge à ética e ao politicamente correto. Essa atitude não demonstra que não reconhecemos os problemas sociais em que podem incorrer pensamentos como os que foram materializados nos enunciados dos diários, mas sim que precisamos repensar o nosso olhar para determinadas vozes que nos incomodam.
Cremos que, desse modo, fugimos do equívoco sobre o qual Bakhtin (2011) nos alerta:
Quanto mais a palavra é dogmática, quanto menos a percepção compreensiva e avaliadora permite saltos, desvios e gradações entre verdade e engano, entre bem e mal, mais despersonalizadas serão as formas conforme as quais são reportadas a palavra outra. (BAKHTIN, 2011, p. 77).
Esperamos que este trabalho constitua-se como um salto para que possamos desenvolver novas pesquisas que deixem de lado esse dogmatismo acadêmico, pois, a partir do momento em que nos dispomos a trabalhar com pesquisa acadêmica, precisamos estar abertos a confrontos de opiniões e de valores.
Dessa forma, a pesquisa que ora concluímos nos servirá de base para estudos futuros que objetivem criar um espaço em que os fenômenos sociais são discutidos e avaliados em sua totalidade.
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