Não acredito que li isso! Quero os 5 minutos de volta!
A “entrevista” realizada com essa doida “da vida” (porque usar aquele vestido é a mesma coisa que dizer: “Olhem para mim! Sou uma “da vida!”), essa ridícula, foi super cômico. Parece que as perguntas que a revista fez foi só para “tirar onda”, pior ainda são as respostas dessa louca, parecendo uma perua patricinha: “meu cabeleleiro é meu anjo da guarda” - ¬¬. E ela ainda está se achando porque seu “anjo” disse que ela parece com Carla Perez. Tomara que ela ganhe o mesmo apelido que Carla ganhou! E querendo se tornar uma dessas “frutas” (estragadas) ela botou parte de suas banhas no bumbum para dar uma “empinadinha” – triste. Isso tudo deve ter sido para sair nua em alguma revista! Embora ela diga que é pro carnaval. A ex-gorda não quer se sentir inferior em fevereiro. Se enxerga!!!
Mesmo assim gostei do tom usado da revista para entrevistar Geisy, é para tirar sarro mesmo!
O fato que envolveu Geisy Arruda, estudante da Uniban, gerou grande polêmica, atingindo, inclusive, repercussão internacional. A estudante teve de ser escoltada pela polícia militar para que não fosse agredida fisicamente por usar uma roupa considerada inadequada para assistir às aulas na universidade. O acontecimento foi assunto constante na mídia brasileira em outubro de 2009. A repercussão do ocorrido fez com que o lado pessoal da aluna também fosse evidenciado na mídia. Uma das consequências disso foi o convite para uma entrevista publicada na revista Veja, Edição 2143 de 16 de dezembro de 2009. No enunciado VIII (parte I), o autor mostra sua percepção da escolha estratégica das perguntas feitas durante a entrevista. Mas, para ele, esse fato é positivo, pois a sua imagem sobre Geisy não é das melhores. Podemos observar isso, primeiramente, quando considera a leitura da entrevista como perda de tempo e ainda põe a palavra entrevista entre aspas, questionando a relevância do texto. Nesse caso, assim como no enunciado anterior, a relevância atribuída à entrevista está diretamente ligada à importância dada à estudante universitária.
Durante todo o texto, o autor utiliza expressões depreciativas para substituir o nome da estudante: “ridícula”, “louca”, “perua patricinha”, “banha”, “ex-gorda”. Todas essas expressões unidas no enunciado direcionam para a personalidade da nova celebridade, conforme a interpretação do diarista sobre as atitudes dela. Essa imagem do outro de que nos fala Bakhtin (2010a) é construída a partir da avaliação que fazemos sobre seus atos e comportamentos, sempre tendo como parâmetro o que julgamos um comportamento bom ou ruim; louco ou são; entre outros adjetivos que podem ser atribuídos ao outro pelo eu. Na posição de avaliador dos comportamentos da universitária, o autor do diário interpreta o objeto que se encontra fora e, ao mesmo tempo, diante dele, a partir de um lugar axiológico que ocupa no mundo. Nesse contexto, compreendendo o diarista como o eu e Geisy como o outro,
todos os vivenciamentos interiores do outro indivíduo — sua alegria, seu sofrimento, seu desejo, suas aspirações e, finalmente, seu propósito semântico, ainda que nada disso se manifeste em nada exterior, se enuncie, se reflita em seu rosto, na expressão do seu
olhar, mas seja apenas adivinhado, captado por mim (do contexto da vida) — são por mim encontrados fora de meu próprio mundo interior (mesmo que de certo modo eu experimente esses vivenciamentos, axiologicamente eles não me dizem respeito, não me são impostos como meus), fora do meu eu-para-mim, eles são para mim na
existência, são momentos de existência axiológica do outro.” (BAKHTIN, 2010a, p. 93).
Toda avaliação sobre o outro é, portanto, uma avaliação vinda de fora, isto é, o olhar de alguém que não vivencia de dentro aquilo que o outro experimenta.
Com relação à avaliação do discurso direto da entrevistada, percebemos que é marcada pela ironia e por expressões avaliativas como “triste”, “super cômico” e um símbolo típico da linguagem da internet, “¬¬”, que representa um olhar de desconfiança diante daquilo que o aluno está lendo na entrevista. Também temos a presença constante de pontos de exclamação que só confirmam a reprovação ao comportamento de Geisy. Todas essas manifestações linguísticas, finalizadas por um “se enxerga!!!”, fazem coro às vozes que reprovaram a atitude dessa jovem nos corredores da Uniban, ou seja, os gritos que expulsaram a jovem no dia 22 de outubro de 2009 produziram ecos que perduraram até alguns meses depois do evento. Assim como aqueles universitários, o autor acredita que Geisy é mais uma oportunista querendo ganhar espaço na mídia, embora não possua nada de relevante que justifique o seu destaque na sociedade brasileira.
A partir dessas marcas linguísticas também podemos abstrair um discurso em que a mulher que usa roupa curta aparece como uma pessoa vulgar. De acordo com esse discurso, a mulher não deve aparecer em determinados ambientes vestindo esse tipo de roupa. Esse comportamento ainda é tão repulsivo ao ponto de gerar manifestações como a recuperada no enunciado e na entrevista analisada. O escritor do diário confirma em seu discurso que o erro não está naqueles que hostilizaram Geisy na universidade, mas na própria estudante que não possui o discernimento para saber que roupa utilizar em determinadas situações.
A voz que permeia o texto repudia, portanto, mulheres que agem e se vestem como Geisy se vestiu. Essa voz responde a uma outra, circulante no meio social, que afirma que a mulher tem direito de se vestir como quiser, pois
ela tem total direito sobre o seu corpo, assim como autonomia para decidir sobre que roupa vestir em determinados locais.
Vejamos, a seguir, a segunda parte do enunciado VIII.