Querido Diário,
Hoje escreverei sobre um texto que não está em nenhuma das revistas, só para quebrar a rotina. Eu estou numa semana muito estressante e não aguento mais ver aquelas revistas, minha vontade é jogá-las no lixo mais próximo! O texto de hoje – na verdade música – se chama Fora, Mônica!,da
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Becko, Maia e Pieniz (2012) descrevem o fenômeno “meme” como “qualquer idéia, frase ou até imagem que surge na web e que se propaga rapidamente. Com a grande utilização das redes sociais virtuais, os ‘memes’ tornaram-se ainda mais comuns. Fenômenos para ilustrar o que é um ‘meme’ não faltam. O ‘Cala a boca, Galvão!’, evento ocorrido durante a Copa Mundial de 2010 em relação a um narrador de futebol, é um exemplo. Esse “meme” ficou tão conhecido que ganhou espaço em outros meios de comunicação”. (BECKO; MAIA; PIENIZ, 2012, p. 5).
27Para visualizar um tipo de tirinha com esse meme, visitar link:
<http://melhorestirinhas.com.br/ate-eles-me-acham-lindo/vo-cega/>. Acesso em 28 fev. de 2013.
banda Vivendo do ócio. Esse texto traduz bem o sentimento de raiva que estou tendo com relação a este trabalho. A melhor parte de mim agora:
Escuta aqui, sua maluca
Não vou mais ficar dando uma de otário Tá pensando que eu sou o quê?
Pra me fazer de gato e sapato,
e de uma vez por todas essa história ago- ra terá um fim.
As suas roupas vão voar pela janela, pode esquecer de mim!
O texto está assim, meio deformado, porque não li o poema-canção. Coloquei os versos da forma que ouço mesmo. Minha irmã, P., que me mostrou essa música. O ritmo é bem legal, mas acho que só gostei por causa deste trabalho! “Tô” ouvindo uma parte ainda melhor agora:
Agora escute, Mônica
Não vou mais ser o seu escravo diário/ professor Quem você pensa que é?
Eu não mereço tanto esculacho Não adianta se jogar aos meus pés, No seu teatro eu não caio mais! As suas coisas voar pela janela, Ou você mesmo
caia fora e me deixa em paz Rapa daqui!
Quer saber? Eu não vou mais fazer isso! A música é ótima e nada mais tenho a dizer! Eu não aguento mais esse trabalho todo para quaze nada, não vale apena! Completo ou não, o diário é meu e eu faço o que eu quiser E que ! história é essa de ser obrigada a analisar a merda dessas revistas?! Todos sabem que detestei, detestei e ponto! Caramba, não vale a pena, não era nada agradável ler revistas por obrigação. Eu acho isso uma péssima forma de formar leitores. Eu amo ler, por prazer! Quando tenho vontade e o que eu tenho vontade, não por obrigação! Eu não vou ficar mais me estressando com a merda desse diário! Eu detesto! Aliás, um trab. que nem vai ser valorizado! O meu diário vale muito mais que 1,0 ponto! Só de estar lendo o meu diário você deveria se sentir privilegiado! Está vendo o meu ponto de vista, não só dos E não acredito que alguém que já tenha conhecido textos, mas do meu mundo!
mereça conhecer isso! Estou esperando sim, uma boa nota e não mereço menos! Sinto muito, mas não farei nada mais do que isso, e nem isso vocês merecem !
Beijos e adeus
Diferente de todos os enunciados analisados até então, o enunciado IV já inicia quebrando regras. Em vez de analisar um dos textos das revistas, a aluna escolhe analisar uma música que está ouvindo no momento da escrita, cuja letra representa sua revolta com o trabalho do diário. A música28, apontada pela própria diarista, chama-se Fora, Mônica!, interpretada pela banda brasileira Vivendo do ócio. A letra é um desabafo de um rapaz, direcionado para uma moça com quem se relacionou. Na canção, o jovem diz ter aderido a alguns hábitos de modo a se adaptar à moça ou para agradá-la, mesmo ela não lhe dando muita atenção ou satisfação de seus atos. Por isso, ele chegou ao seu limite e, achando que ela não merece mais uma chance, o rapaz põe pra fora toda a sua revolta na canção.
Acompanhando essa letra, temos a melodia, que se apresenta em forma de rock, estilo conhecido pelas guitarras e pelo ritmo acelerado, característica que se faz presente nessa música e que reforça a atmosfera de revolta e irritação construída pela letra. Aparentemente influenciada pela canção, a estudante resolve não mais escrever o diário por achar o valor em nota atribuído à atividade não equivalente ao trabalho para fazê-lo e à importância afetiva que o diário tem para si.
Rapidamente, a autora do diário parece comparar o contexto da canção com a sua situação de aluna que está se esforçando para cumprir com suas obrigações, mas que não é devidamente recompensada pelos seus esforços. Assim, o que deveria ser mais uma análise transforma-se em um desabafo, destinado, primeira e claramente, ao professor de Língua Portuguesa. Esse desabafo aparece como uma tentativa da aluna de assumir um discurso autoritário que não lhe é conferido socialmente.
Temos, então, um discurso autoritário, que é o discurso da escola, do professor, o qual se constrói historicamente como oficial. Ou seja, quando os
28 A letra na íntegra pode ser visualizada no link: <http://letras.mus.br/vivendo-do-
sujeitos são inseridos no meio social, a palavra de autoridade lhes é imposta, exigindo “o reconhecimento e assimilação”, pois já se encontra “unida à autoridade”, em uma espécie de “passado hierárquico” que garante sua validação por grande parte dos sujeitos (BAKHTIN, 2010c, p. 143). Nesse sentido, quando passa a conviver no ambiente escolar, os alunos já sabem que precisam obedecer ao professor, desenvolver as atividades por ele solicitadas, respeitar os colegas, funcionários, escola, enfim, obedecer às regras referentes a esse ambiente.
Aqui, o diário exerce esse papel de autoridade como uma atividade que deve ser desempenhada, concluída e entregue ao professor. Porém, no contato com essa obrigação, a aluna opta por recusá-la e toma uma atitude diversa daquilo que lhe é imposto.
Sobre esse conflito, Bakhtin (2010c) mostra que
Geralmente, o processo de formação ideológica caracteriza-se justamente por uma brusca divergência entre as categorias: a palavra autoritária (religiosa, política, moral, a palavra do pai, dos professores, etc.) carece de persuasão interior para a consciência, enquanto que a palavra interiormente persuasiva carece de autoridade, não se submete a qualquer autoridade, com frequência é desconhecida socialmente (pela opinião pública, a ciência oficial, a crítica) e até mesmo privada de legalidade. O conflito e as inter- relações dialógicas destas duas categorias da palavra determinam frequentemente a história da consciência ideológica individual”. (BAKHTIN, 2010c, p. 143).
Portanto, a voz de autoridade, a palavra autoritária é a voz do professor, estabelecida socialmente como voz a ser seguida. Consequentemente, no contexto em que esse enunciado foi produzido, o diário aparece como atividade a ser feita. Porém, o enunciado ora analisado não se submete totalmente a essa autoridade, tornando-se, assim, uma “palavra interiormente persuasiva”, que não possui força social, muito menos legalidade, mas que se opõe fortemente à voz autoritária à qual está submetida.
Essa oposição, de início, apresenta-se por meio de um sentimento de revolta e raiva, ocasionado pela semana “estressante” vivenciada pela diarista. Além disso, inicialmente, a autora demonstra um repúdio com relação à atividade, mas assume todo esse sentimento como sendo a sua melhor parte:
“a melhor parte de mim agora”. Talvez porque será toda a revolta, estresse e insatisfação que vão fazer com que a autora enfrente a voz de autoridade e imponha sua “palavra interiormente persuasiva”.
A diarista escolhe uma música que, segundo ela, representa o momento que vivencia e faz interferências na letra da música como uma forma de contextualização. Essas interferências estão sinalizadas com setas e indicam a sua revolta com a atividade do diário e com o professor da disciplina: “Escute aqui, Mônica (diário/professor)/ As suas coisas voar pela janela (ou você mesmo)”.
O desejo é livrar-se do diário que, no momento da escrita, é símbolo de obrigação, de atividade que contraria sua percepção sobre o que seja atividade e sobre o que seria o estímulo à leitura dentro da escola. A contradição do enunciado é que, ao opor-se à atividade, a aluna acaba fazendo-a, porém de um jeito peculiar. No momento da escrita, ela considera as análises como um passado: “Caramba, não vale a pena, não era nada agradável ler revistas por obrigação.”.
Outra inversão de valores é provocada pelo enunciado quando a aluna considera o professor privilegiado por ter acesso ao seu diário: “Só de estar lendo o meu diário você deveria se sentir privilegiado! Está vendo o meu ponto de vista, não só dos textos, mas do meu mundo! E não acredito que alguém que já tenha conhecido mereça conhecer isso!”. Nesse trecho, a autora mostra que, em sua concepção, não é ela quem precisa de que o professor leia seu diário e atribua um valor; mas o professor que precisa ler o seu diário, que, para ela, já possui um valor sentimental considerável. É por meio de suas palavras, escritas no diário, que se é possível ter acesso ao “seu mundo”, suas ideias. Segundo ela, não conhece ninguém que mereceu ter acesso a isso.
Nesse momento, vemos também o que vem sendo colocado desde o início neste enunciado: a autovaloração e autoafirmação do sujeito produtor do diário. Diante do cansaço frente à obrigação de concluir a atividade, a aluna sente a necessidade de revoltar-se contra todas as convenções que lhe foram apresentadas e impor-se como sujeito que possui importância, que possui direito à voz.
Essa imposição também pode ser vista na cor rosa que aparece constantemente ao longo de sua análise. Mais que um adereço, acreditamos
que a cor objetiva também dar destaque aos trechos que a autora julga mais importantes. Enfatizamos os trechos em que o uso da primeira pessoa do singular se faz presente: “meu”, “Eu detesto!”, “eu”, “Está vendo o meu ponto de vista, não só dos textos, mas do meu mundo!”. Essas ocorrências dialogam com a insistência em se autoafirmar como sujeito que quer ser ouvido.
Assim, podemos perceber claramente duas características do diário de leituras. A primeira mostra que, mesmo que o aluno não siga à risca o roteiro sugerido pelo professor para a produção do diário, essa atividade constitui-se como um instrumento que confere voz ao aluno para que ele possa verbalizar suas inquietações, suas discordâncias no que diz respeito ao que já está socialmente estabelecido. Outra questão, já apontada neste trabalho, é a liberdade, que, neste caso, materializa-se na possibilidade para o sujeito de assumir outra posição ― entre as diversas que ele desempenha em seu cotidiano. Como nos diz Machado (1998), em alguns momentos, um mesmo sujeito que exerce papel de pai, advogado, homem de meia-idade na sociedade, pode deixar sobressair-se um desses papéis, aquele que “falar mais alto”, influenciado pelo contexto de produção. No enunciado analisado, a diarista deixa de lado seu papel de aluna, que tem de cumprir suas obrigações, e assume um papel que se iguala ao do professor, sobretudo quando interfere em seu trabalho: “Caramba, não vale a pena, não era nada agradável ler revistas por obrigação. Eu acho isso uma péssima forma de formar leitores. Eu amo ler, por prazer! Quando tenho vontade e o que eu tenho vontade, não por obrigação! Eu não vou ficar mais me estressando com a merda desse diário! Eu detesto! Aliás, um trab. que nem vai ser valorizado!”
Além disso, o trecho “eu acho isso uma péssima forma de formar leitores” aparece como um posicionamento forte diante da metodologia utilizada em sala de aula. Posicionamento este que entra em choque com o pensamento de que é por meio da imposição que os alunos apreendem o gosto pela leitura.
Ao finalizar, confirmando tudo o que dissemos, a autora dialoga com uma voz que questiona: “Você acha que merece uma boa nota com isso aqui (com essa incompletude do diário, com essa revolta)”? Ao que responde: “Estou esperando sim, uma boa nota e não mereço menos! Sinto muito, mas não farei nada mais do que isso, e nem isso vocês merecem!”. Nessa resposta,
refere-se ao destinatário no plural ― “vocês merecem” ―, o que leva-nos a pensar que o “recado” está direcionado para todos os professores e não apenas para o professor de Língua Portuguesa.