4.2. Processing methods
4.2.2. Model-driven fitting methods
ESTUDOS DA CATEGORIA JUVENTUDE EM MEADOS DO SÉCULO XX
FONTE: CRIADO A PARTIR DE ESTUDO BIBLIOGRÁFICO POR ESTA AUTORA NO ANO DE 2014
Na primeira abordagem Corrente geracional, conforme observamos na imagem acima, a partir de uma matriz epistemológica referenciada nas teorias da
socialização de base funcionalista de Talcot Parsons e de James Coleman, estudam
os conflitos ou descontinuidades intergeracionais como desvios ou disfunções no processo de socialização; ou ainda, a partir do enfoque de Mannheim, estudam as relações entre as dimensões temporais, sociais e biológicas, no intuito de
compreender o fenômeno geracional, nas ocorrências de transições e transmissões vitais.
Caracterizada pela corrente geracional como uma fase da vida, a juventude é analisada e concebida em seu aspecto de universalidade, na qual os conflitos, rupturas ou crises intergeracionais se instauram por meio de tensões ou confrontos entre as gerações, em contextos e momentos em que os jovens vivem de maneira autônoma uma dada dinâmica social, que constitui uma consciência de geração. Isto significa, como analisa Pais (2003), que o cerne da corrente geracional está nas relações intergeracionais, cuja problemática da juventude é valorizada na perspectiva da continuidade e descontinuidades intergeracionais, em que a primeira implica na reprodução do padrão e cultura adulta na vida dos jovens e a segunda se configura a partir de rupturas de cultura entre as gerações.
Entretanto, cabe salientar que a corrente geracional, a partir de Mannheim (1968) implementa a ideia de ruptura da visão coesa e de unidade social do conceito de geração, na medida em que passou a analisar a dinamicidade existente no processo de constituição das gerações como mecanismo decisivo deste processo; e que concebeu no seu texto O problema da Juventude na Sociedade
Moderna - a juventude como “agente revitalizador”, supera, segundo Serra Freire
(2009), o reducionismo apenas biológico do debate geracional e reconhece a articulação social para a configuração da geração.
A segunda abordagem, corrente classista, modificou o foco de análise da reprodução intergeracional da dinamicidade existente no processo de constituições das gerações para a reprodução de classes. Para os representantes desta corrente, tratar a juventude como um fenômeno universal, independente de clivagens sociais é uma tentativa de manipulação da realidade (BOURDIEU, 1983). Desta forma, em contraposição a corrente geracional, a abordagem classista concebe a juventude como um grupo social, e como tal
,
as diferenças na transição dos jovens para a vida adulta são marcadas pelas desigualdades sociais e pelas relações de classe.Em que pese as diferenças internas entre os representantes da corrente classista, a visão antagônica de Bourdieu e Gramsci em relação à representação social da juventude, cunhada como fase de transição para a vida adulta, sustentada pela lógica funcionalista, significou uma ruptura com a visão da juventude como disfunções nos ajustes dos papeis sociais e trouxe para os estudos da categoria Juventude a compreensão das “culturas juvenis” como culturas de classe, sempre entendidas como produto de relações antagônicas e como uma “cultura de resistência” (PAIS 2003).
Desta forma podemos inferir que, se na escola funcionalista, com seu apogeu na expansão e no desenvolvimento da industrialização, a juventude ganhou visibilidade enquanto fase de transição importante para o desenvolvimento da vida dos sujeitos, foi a partir dos estudos classistas, que a categoria juventude passou a ser analisada pelas desigualdades sociais, em função da classe social e da divisão do trabalho.
Estudos mais recentes sobre a juventude mostram que as sociedades são marcadas pelas incertezas, mobilidades, transitoriedades e abertura de mudanças, o que tem forçado os estudiosos da temática a construírem estratégias para além das configurações das culturas de classes. Como exemplo podemos citar Pais, em seu livro A construção sociológica da Juventude (1990), ao argumentar que a categoria juventude deveria ser considerada “como uma aparente unidade (quando referida a uma fase da vida) e como diversidade (quando estão em jogo diferentes atributos sociais que fazem distinguir uns dos outros). Ou ainda, na (re)leitura de Abad (2003) e posteriormente Abramo (2005), que ao analisarem a complexidade em que se categoriza a juventude na contemporaneidade, apresentam uma dupla dimensão na análise para a categoria “juventude”. A primeira é “condição juvenil”, ou seja, o modo pelo qual uma determinada sociedade constitui e atribui significado a este momento do ciclo de vida, constituindo uma dimensão histórico-geracional. Outra dimensão é a “situação juvenil”, que reflete a forma como tal condição é vivida a partir das diferenças culturais e sociais. Em síntese, fazendo uso das próprias palavras de Abramo (2005) podemos dizer que:
A nova condição juvenil se constrói sobre o pano de fundo da crise das instituições tradicionalmente consagradas à transmissão de uma cultura adulta hegemônica [...]. Essa nova condição juvenil se caracteriza por uma forte autonomia individual (especialmente no uso do tempo livre e do ócio), pela avidez em multiplicar experiências vitais; pela ausência de grandes responsabilidades de terceiros; por uma rápida maturidade mental e física e por uma emancipação mais precoce, nos aspectos emocionais e afetivos, ainda que atrasada no econômico, com o exercício mais precoce da sexualidade. (ABRAMO, 2005, p.25)
Nesta perspectiva os estudos da juventude passam a enfocar as diversidades e as diferenças. Assim, os jovens são entendidos como sujeitos de direitos, que vivem e se constituem na contemporaneidade, em complexos contextos sociais e educativos, construídos histórica e culturalmente, mediados por significações sociais de seu mundo.
Dessa forma, percebe-se que o estudo da juventude na contemporaneidade se diferencia das gerações anteriores. Entretanto, ressaltamos que de modo geral, a gênese do debate sobre juventude é demonstrada por diversos autores, a partir do modo de organização das relações, da produção material e simbólica da sociedade capitalista e das mudanças de sua compreensão tecidas no contexto histórico das mudanças ocorridas no bojo das sociedades, imprimindo à categoria juventude características bem peculiares.
A ênfase da sociologia funcionalista e quase que de toda sociologia preocupada com o tema da juventude, recai sobre o processo de socialização vivido pelos jovens e sobre as possíveis disfunções nele encontradas. A juventude é pensada como um processo de desenvolvimento social e pessoal de capacidades e ajuste aos papéis adultos, onde as falhas nesse desenvolvimento e os ajustes se constituem em temas de preocupação social.
Neste sentido a juventude só está presente para o pensamento e para a ação social como “problema”, objeto de falha, disfunção no processo de integração social e, numa perspectiva mais abrangente, como tema de risco para a própria continuidade social, como ocorreu na análise dos jovens da década de 50 inscritos
sob a pecha de transgressores e delinquentes, como forma inerente à condição juvenil, rebeldes sem causa de acordo com a descrição de Abramo e Branco (1997), o que demarca que naquela época entendia-se a juventude como uma fase da vida patologicamente difícil e turbulenta;
Nas décadas de 60 e 70, no contexto da efervescência cultural e política de diferentes movimentos na América Latina o jovem passou a ser visto como uma ameaça à ordem social, reforçando desta maneira as formulações da ideia de juventude como problema. Ou ainda, no caso do movimento estudantil brasileiro, no enfrentamento ao Estado autoritário instalado pelo golpe militar de 1964, os jovens foram analisados a partir das leituras de pesquisadores como Ianni (1968) como
potencializador de transformações sociais radicais, nos seus dizeres:
“[...] a história do regime capitalista tem sido a história do advento político da juventude. Em cada país em que se desenvolve o sistema capitalista de produção, os jovens assumem importância crescente no campo da ação política [...]” (IANNI, 1968, p.225)
Essa lógica de pensar a Juventude a partir do potencial transformador radical é sustentada pelo debate teórico de autores como Hobsbawm (1995), que defende a Tese de que a juventude dos anos 60 representa o aumento de uma cultura especifica, indicadora de mudanças profundas nas formas de relação entre as gerações. Em sua análise o autor defende a ideia de que a radicalização do jovem na década de 60 significou a autonomia da juventude, a partir de uma nova cultura juvenil pautada em três argumentos: a) a juventude não se configurava em estágio preparatório para vida adulta, mas um estágio final pleno de desenvolvimento; b) a cultura juvenil tornou-se dominante economicamente para representar uma massa concentrada de poder de compra; e c) o internacionalismo presente na cultura de massa das juventudes urbanas representou a visibilidade social desta categoria.
Assim, se nos anos 60 a juventude era um “problema”, na medida em que podia ser definida como protagonista de uma crise de valores e de um conflito de gerações, essencialmente situado sobre o terreno dos comportamentos éticos e culturais, a partir da década de 70 os “problemas” de emprego e de entrada na vida
ativa tomaram progressivamente a dianteira nos estudos sobre a juventude, quase transformando-a em categoria econômica (PAIS, 1990), (ABRAMO, 2005).
Nesse movimento de reconfiguração da categoria Juventude, a partir dos olhares e análises dos pesquisadores, destacamos que autores como Abramo e Branco (2005) apresentam essa categoria a partir do movimento de visibilidade social, construído pela própria juventude a partir dos anos 90.
Neste contexto, segundo os autores, os jovens tomam as ruas envolvidos em diversos tipos de ações individuais e coletivas, revindicando seus direitos, constituindo-se como pauta em organismos internacionais como UNESCO17, CEPAL18 que levaram, ao longo das ultimas duas décadas, os governos a assinarem acordos, criarem programas e políticas publicas especificas para a juventude, trazendo à tona a compreensão da juventude como atores sociais, como descreve o documento da UNESCO (2004):
[...] os jovens participam na dinâmica da sociedade através de estratégias diferentes, seja como atores sociais e políticos ou manifestando diversas formas de expressão e identidade. Porém, a maior parte das formas que esse desejo de participação juvenil tem assumido ao longo da história, tem como característica a oscilação, alternando períodos de visibilidade publica com outros de forte retração e invisibilidade. Tudo parece estar intimamente relacionado com a transitoriedade da condição juvenil que leva, diferentemente dos trabalhadores ou das mulheres que se guiam, sobretudo, pelas dimensões materiais da existência, os jovens a se orientarem especialmente por interesses não necessariamente voltados a seu ciclo de vida. (UNESCO, 2004, p.25)
17 A assembleia das Nações Unidas proclamou 1985 como o Ano Internacional da Juventude, dando
ao mundo a visibilidade da temática; em 1995 lançou o programa de Ação Mundial para a Juventude PAMJ no qual criou medidas para fortalecer a capacidade dos Países para aumentarem a qualidade e a quantidade de oportunidades de participação dos jovens rurais e urbanos em situação de risco, apontando para as especificidades das juventudes em seus contextos e condições, definindo como temáticas prioritárias: 1) Educação; 2) Emprego; 3) Pobreza e má nutrição; 4) Saúde; 5) Meio Ambiente; 6) Uso indevido das drogas; 7) Delinquência Juvenil; 8) Atividades Recreativas; 9) As crianças e os Jovens; 10) Participação plena na vida em sociedade e adoção de decisões.
18 A Comissão Econômica para America Latina e Caribe – CEPAL tem usado os Objetivos de
Desenvolvimento do Milênio como parâmetro de monitoramento do desenvolvimento social da America Latina. Em virtude dos dados de pobreza apresentados pelas pesquisas do CEPAL, a Juventude passou a configurar como a nova meta do ODM consolidada na Meta 1B, que se propõe a obter emprego pleno e produtivo e o trabalho decente para todos, incluindo Jovens e Mulheres, por serem considerados grupos vulneráveis. (CEPAL, 2008)
Desta forma, reafirmamos o discurso de que os estudos sobre a juventude precisam ir além do recorte de população específica, a partir da idade, e abordar os processos de interação e configurações sociais em que os jovens estão imersos. Isto implica dizer que ela pode ser analisada de forma muito diversa, na história e no cotidiano da vida social (GROPPO, 2000).
Ressaltamos que na medida em que as histórias e o cotidiano da vida social da juventude são incorporados aos estudos acadêmicos, identificamos nas leituras que as construções imagéticas sobre a juventude, são desenhadas em múltiplos sentidos e significados: Transição, Problema, Solução e, mais recentemente Ator Social/Sujeitos de Direitos conforme apresentamos na figura abaixo (figura 8) que entrelaça um complexo campo de análise.
FIGURA 8- CONSTRUÇÃO IMAGÉTICA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS