Uma categoria sociológica se constrói socialmente e como tal é passível de múltiplas formulações. Assim ocorre com a categoria juventude, discutida por estudiosos das Ciências Sociais, autores clássicos desde Karl Mannheim (1893-1947), Philippe Ariès (1914-1984), Pierre Bourdieu (1930-2002), e contemporâneos como Wivian Weller (2007), José Machado Pais (1990), Elisa Guaraná de Castro (2009), Martín-Barbero (2008), Janine Ribeiro (2004) Regina Novaes (2004) Vannuchi (2004) dentre tantos outros igualmente importantes.
Uma nota inicial é pertinente no que concerne à formulação teórica da categoria e o sujeito ao qual ela se refere, neste caso, o jovem. Nesse sentido, considera-se oportuno tal distinção para não se cair em um viés de confundir o que comporta a categoria e o que comporta ao sujeito. Daí, pensar teoricamente juventude exige levar em conta as feições como se apresenta em diferentes contextos sociais, políticos, culturais, isto é, como os sujeitos jovens se inscrevem no mundo social. Contudo, sem ancoragem em uma perspectiva epistemológica dessa categoria perder-se-ia em uma plasticidade conceitual genérica que tenderia, por fim, a descaracterizar o objeto de estudo. Por isso é importante recorrer a suas múltiplas construções teóricas.
Wivian Weller (2007) aborda o pioneirismo de Karl Mannheim na Sociologia da Juventude na medida em que esse autor discute em sua obra “O problema das gerações”, de 1927, três conceitos que colaboram na formulação da categoria juventude: posição geracional, conexão geracional e unidade geracional.
O autor de “História social da criança e da família”, o francês Philippe Ariès, obra de 1960, discute a construção da categoria enfatizando as diversas representações que a sociedade elabora para sujeitos sociais que extrapolam fronteiras etárias. Como precursor da categoria infância, esse autor mostra com clareza a construção da categoria e o sujeito ao qual ela se refere mostrando que na Idade Média existiam crianças, mas não necessariamente a noção de infância. Do mesmo modo a noção de juventude, ainda muito esparsa.
Para José Machado Pais (1990), a categoria juventude é socialmente manipulada na medida em que, “[...] nas representações correntes da juventude, os jovens são tomados como fazendo parte de uma cultura juvenil „unitária‟” (p. 140). Para ele, essa unificação da cultura juvenil, reduz-se às similaridades desse grupo geracional em prejuízo das diferenças que, se fossem consideradas tenderiam a descaracterizar essa unidade, como a diferença de classe
social, por exemplo. Ainda, segundo Pais, a Sociologia da Juventude oscila entre duas tendências, tanto a que considera o conjunto social de coetâneos, em uma determinada fase da vida, dando relevância às similaridades, quanto a que considera esse conjunto social em sua diversidade - cultura, classe, situação econômica, poder, interesses e oportunidades ocupacionais, o que para ele “[...] seria, de facto, um abuso de linguagem subsumir sob o mesmo conceito de juventude universos sociais que não têm entre si praticamente nada em comum” (PAIS, 1990, p. 140). Trata-se, então, de elaborar um constructo social que dê conta da categoria em si.
Para Elisa Guaraná de Castro (2009), compreender juventude como fase transitória para a vida adulta “[...] reforça relações de poder e hierarquia social” (p. 41). Segundo ela, a definição de juventude pelo recorte etário tornou-se mais comum em pesquisa da década de 1960. Alerta também para a utilização do recorte etário pelos organismos internacionais (OMS, UNESCO) como reguladores de entradas no mundo do trabalho e término da escolarização formal. Critica essa forma de homogeneização usada como padrão internacional, cujo marco foi a Conferência Internacional sobre Juventude, a Conferência de Grenoble, em 1964.
Essa autora destaca também a categoria juventude substantiva e adjetivada: “[...] vanguarda, transformadora, questionadora [...] subentende papéis sociais privilegiados para os indivíduos identificados como jovens e juventude, principalmente como agentes de transformação social” (CASTRO, 2009, p. 42). Essa adjetivação também recai sobre perspectivas negativas, segundo ela, como: “[...] em formação, inexperiente, sensível [...] ou, ainda, associado à delinquência, violência, comportamento desviante” (CASTRO, 2009, p. 42).
Nessa perspectiva de transitoriedade, Castro afirma que:
Juventude é percebida, assim, como uma categoria social que, via de regra, relega aqueles assim identificados a um espaço de subalternidade nas relações sociais. Paradoxalmente, jovem é associado a futuro e a transformação social. Privilegiar a característica de transitoriedade nas percepções sobre juventude transfere, para aqueles assim identificados, a imagem de pessoas em formação, incompletas, sem vivência, sem experiência, indivíduos, ou grupos de indivíduos que precisam ser regulados, encaminhados. Juventude seria pouco levada a sério, tratando-se jovens como adultos em potencial. Isso tem implicações desde a dificuldade de se conseguir o primeiro emprego, até a deslegitimação da sua participação em espaços de decisão (CASTRO, 2009, p. 43).
A autora busca também a reflexão de Bourdieu sobre a categoria. Para, ela esse autor não se atém a atributos específicos para definir a categoria e sim “[...] as relações de
dominação e de hierarquia que estruturam as posições sociais. Assim, a juventude como „apenas uma palavra‟ estaria desprovida de conteúdo se abordada separadamente das relações sociais nas quais é significativa” (CASTRO, 2009, p. 43).
Com efeito, Bourdieu (1983) argumenta na perspectiva da arbitrariedade de quem pode manipular o que compete a essa categoria. Baseado em material consultado e em autores que estudam o assunto, mostra que, na Florença do século XVI, os velhos propunham que aos jovens coubessem a virilidade, a violência e aos velhos a sabedoria e o poder. Outro exemplo dado vem da Idade Média quando os detentores do patrimônio manipulavam os limites da juventude “[...] cujo objetivo era manter em estado de juventude, isto é, de irresponsabilidade, os jovens nobres que poderiam pretender à sucessão” (BOURDIEU, 1983, p. 112-121).
Ainda para Bourdieu:
Esta estrutura, que é reencontrada em outros lugares (por exemplo, na relação entre os sexos) lembra que na divisão lógica entre os jovens e os velhos, trata-se do poder, da divisão (no sentido de repartição) dos poderes. As classificações por idade (mas também por sexo, ou, é claro, por classe...) acabam sempre por impor limites e produzir uma ordem onde cada um deve se manter em relação à qual cada um deve se manter em seu lugar (BOURDIEU, 1983, p. 112).
Como, de fato lembra Bourdieu, “Cada campo [...] possui suas leis específicas de envelhecimento: para saber como se recortam as gerações é preciso conhecer as leis específicas do funcionamento do campo, os objetos de luta e as divisões operadas por esta luta” (BOURDIEU, 1983, p. 121).
O recorte etário é para esse autor:
[...] um dado biológico socialmente manipulado e manipulável; e que o fato de falar dos jovens como se fossem uma unidade social, um grupo constituído, dotado de interesses comuns, e relacionar estes interesses a uma idade definida biologicamente já constitui uma manipulação evidente. Seria preciso pelo menos analisar as diferenças entre as juventudes, ou, para encurtar, entre as duas juventudes (BOURDIEU, 1983, p. 122).
Essa posição de Bourdieu não é isolada, os autores referenciados acima compartilham dessa visão, o que parece pertinente diante das diferentes formas que a juventude se apresenta nos diversos contextos sociais. E, concordando com Bourdieu “[...] o que quero lembrar é simplesmente que a juventude e a velhice não são dados, mas construídos socialmente na luta entre os jovens e os velhos. As relações entre a idade social e a idade biológica são muito complexas” (BOURDIEU, 1983, p. 122).
As teorizações avançam sem esgotar o assunto. Neste estudo, considera-se importante destacar o que concerne à categoria Juventude, comumente usada na vida prática para
caracterizar outros sujeitos sociais. O intento de demarcar, em certa medida, o que compete à juventude serve para que, na vida prática, os sujeitos sociais que a ela correspondem possam ter um olhar especial das Políticas Sociais em seu favor. Por isso, corroboramos o que não pertence à categoria juventude e sim a um “espírito de juventude” que uma pessoa possa ter até a velhice, por exemplo. Ou, a jovialidade, que é diversa da juventude, isto é, uma pessoa pode não estar mais na juventude e ter jovialidade.
O artigo da jornalista Maria Carmem de Oliveira (2015) mostra de forma simples essa distinção:
Juventude e jovialidade são coisas totalmente distintas! Numa determinada fase de nossas vidas, todos nós somos jovens! Essa fase passa. A jovialidade fica! [...] A juventude que mostramos é unicamente física (aparência). A jovialidade é uma coisa mais profunda e por isso dura toda a nossa vida, se assim quisermos! Ela nasce no espírito, na cabeça, na maneira de viver, de transpor dificuldades, de sorrir com os lábios e também com os olhos; de rir às gargalhadas, de por pra fora seus grilos, de ter prazer no que se faz, de ser feliz com o que se têm! Está no jeito de se vestir, de falar, de sorrir, de se comunicar e também de confortar! Ser jovial é rir de coisas banais, se emocionar com coisas simples, valorizar a si mesmo e aos outros, sem menosprezar ninguém! É ter sempre um sorriso, uma palavra de carinho ou de esperança a quem precisar! É acordar feliz pela manhã, independentemente de ser segunda-feira ou domingo. Ser jovial é cuidar do espírito, do corpo e da aparência como um todo, mas sem exageros! Ser jovial é ter o poder de parecer sempre bem mais jovem do que se é! Em resumo: somos jovens só uma vez na vida! Joviais podemos ser para sempre! (JCNET.com.br/ Opinião- 2015).
Quer dizer, reafirma-se a delimitação da categoria juventude pelo indicativo do recorte etário, reconhecendo, todavia, as múltiplas expressões do viver essa etapa da vida. Ou seja, as formas como os sujeitos sociais se apresentam em determinadas condições materiais de reprodução vão expressar as feições que a juventude vivencia nesse contexto. Daí porque se tem as “entradas secundárias” para a categoria nas bases bibliográficas: juventude urbana, juventude rural, juventude ribeirinha, juventude de diferentes classes sociais e assim por diante. Nesse sentido, pode-se falar de juventudes.