8. Grünerløkka
8.1.6. Mindre variasjoner mellom delbydeler
Pensar sobre estas características atribuídas ao sujeito pede uma compreensão de quais os preceitos da “condição pós-moderna” (expressão de Lyotard) que podem justificar a constituição desse grupo de sujeitos recentes. Independente do lugar do qual se reflete (se da filosofia, da sociologia, da psicanálise, etc.), parece indispensável considerar que a pós- modernidade se caracteriza pela queda dos grandes textos.
Os grandes textos são os “textos” que organizam a cultura, os que estabelecem limites em torno da vida humana, formalizam as crenças e as relações. A poética desses grandes textos instauram os “impossíveis” importantes para organizar a moral e a conduta dos homens, ao passo que estes impossíveis se tornem interditos. (MELMAN, 2008, p.115). É por meio desta organização simbólica que deveria ocorrer a transmissão intergeracional. Transmissão não apenas histórica, mas a transmissão da dívida também. De modo que a queda dos grandes textos produz sujeitos para os quais a dívida parece saldada. Trata-se de sujeitos livres.
A liberdade, neste caso, adquire um significado semelhante ao de uma desorientação. O “ser-livre” conectado ao “não-sustentar-se” passa a ser fonte de outra espécie de aprisionamento e consequentemente de outros tipos de sofrimentos.
No O homem sem gravidade (2008) circula a ideia de que os grandes textos ainda não deixam de exercer alguma influência, ainda que sob o jugo de uma defasagem. Como Melman elabora seu pensamento levando em conta a noção de progresso, então o destino dos grandes textos também é parte da modificação progressiva inevitável.
Outros autores como Jean-François Lyotard33 e Terry Eagleton34, ambos pensadores pós-modernos, também se detiveram em fazer uma leitura das características dessa fase que se convencionou chamar de pos-modernidade. Portanto, os pilares dessa “Era” é o que explica a cultura, as relações pessoais, a subjetividade, contemporâneos, enfim. O que Melman (2008) cita como Grande Texto, Lyotard (2002) chamou de Grande Relato e Eagleton (2010) chama de Teoria. A expressão de Melman se situa no meio entre o que entendemos sobre os grandes relatos e a teoria, respectivamente.
33 Lyotard (1924-1998) foi um filósofo francês, importante pensador nas discussões sobre a pós-modernidade. 34
Compreendemos os grandes relatos como os recipientes que contêm o saber composto por enunciados tanto denotativos, quanto os prescritivos e os avaliativos. É um saber composto, não exclusivista, que permita a execução de boas performances. Para Lyotard (2002), a transmissão desse saber tradicional se dá através da narrativa. Por isso fala em relato. As narrativas são preeminentes na transmissão do saber tradicional porque além de tudo admitem uma pluralidade de jogos de linguagem.
Os grandes relatos perdem seu valor com o advento da ciência, e a consequência desta decomposição é a dissolução dos vínculos – a transformação dos grupos sociais em um estado de massa composta por átomos individuais desordenados. (LYOTARD, 2002, p.28). Para Melman (2008), quando a ciência ocupa o lugar dos grandes textos, o sujeito do enunciado se transforma no sujeito da enunciação. O sujeito perde seu lugar instituído pela fala, porque na ciência não há lugar para o sujeito. Lebrun, na interlocução com Melman, lança um questionamento: de onde o sujeito vai, doravante, poder se sustentar se ele não pode mais se apoiar no texto dito sagrado, se na escrita da ciência não tem mais lugar... (LYOTARD, 2002, p.33)
A questão é que, de todo modo, independente da área do saber de onde partem as análises e críticas à pós-modernidade, é nuclear e consensual a percepção de que, em se tratando de uma análise macroestrutural do aspecto humano, estamos diante de notáveis precariedades. Percebe-se que essa percepção é discutida do lado em que a ferida foi aberta, a saber, o lado das ciências humanas. Porque foram as mais prejudicadas, coube a elas a tarefa de denunciar esses furos que surgem do momento em que as ciências duras elevaram seu status. É esta a pragmática científica que Lyotard (2002) questiona e que leva Melman (2008) a concluir que não há lugar para sujeito no discurso da ciência.
Eagleton (2010) vai ainda mais longe, em sua análise acerca das precariedades quando denota que as exigências da pós-modernidade empobreceram as produções intelectuais, mesmo aqueles que versavam sobre a humanidade. Este autor parte da perspectiva de que vivemos num período “depois da Teoria”. Em termos cronológicos, ele explica que a teoria começou com Platão, mas o período considerado mais fecundo é mais recente, o período que contém pensadores com ideias pioneiras, como: Lacan, Levi-Strauss, Althusser, Barthes, Foucault, Derrida, Krsteva, Harbemas, entre outros. (EAGLETON, 2010, p.13).
As observações de Eagleton (2010) sobre a pós-modernidade possui pontos semelhantes à discussão de Melman no “O homem sem gravidade”, principalmente pela sensação que nos causa no que tange o limiar entre uma certa nostalgia e a noção de que se trata de um progresso. Ambos abordam o esfacelamento das propriedades subjetivas mais caras ao homem enquanto seres pensantes e produtores de cultura, também expressam certa inquietação em relação a esta realidade. No entanto, analisam também o contemporâneo levando em conta o fato de que o passado não volta e de que se alguma transformação é possível, esta acontecerá adiante. Tal qual Melman, Eagleton (2010, p.14) se propõe a refletir sobre que novo modo de pensar é demandado por essa nova Estação.
A comparação que fazemos entre Melman e Eagleton vai além da perspectiva progressista que ambos apresentam, mesmo com algum resquício de um sentimento que sugere nostalgia. Eles apresentam visões similares quanto ao modo como a sexualidade vem sendo encarada, atualmente, os perigos da igualdade a referência às migrações. Encontramos em Eagleton (2011) conjecturas que dialogam com as ideias de Melman (2008).
No que concerne à questão da sexualidade, algumas ramificações decorrem: a transparência como um desejo, o excesso como uma obrigatoriedade, a leveza como algo insuportável. Segundo Melman (2008) a maneira como Freud pensou a sexualidade, situando- a no centro da organização subjetiva, evocava um gravitação em torno do objeto e dava o peso necessário para o sujeito se sustentar. Além do peso, a sexualidade funcionava como uma proteção. Na contemporaneidade, quando se fala em sexualidade promove-se uma inversão de sentidos no que tange os excessos, a transparência e a leveza; explica como estas expressões se tornaram inversamente proporcionais à sustentação. A inversão de sentidos também se dá na medida em que a prisão passa a representar proteção e a liberdade um passo para desorientação. É a metáfora do pássaro que, liberto, não encontra mais morada, nem dentro nem fora de si. É importante salientar que esta noção é adquirida para quem se supõe fora da ordem. Quem se encontra imerso no esquema, nem percebe o que está acontecendo, a menos que algum sofrimento emerja em decorrência da decomposição do esconderijo e da singularidade.