sentidos são cotidianamente produzidos, estabelecendo um diálogo
constitutivo da linguagem.
Os conhecimentos escolares deviam ser estudados não somente numa dimensão histórica e como componentes de uma cultura escolar ou para examinar sua historicidade, mas sim para determinar as forças sociais que presidiam a sua elaboração enquanto conhecimento escolarizado, visto como representação do poder e da dominação.
Mariani (1998, p. 19) assim explicita sobre os cadernos escolares:
Entender o aparato discursivo e formal dos discursos no caderno é entendê-lo como representação social que permite tanto conhecer sua apresentação naquilo que ele representa para os sujeitos que o elaboram e/ou lêem, quanto buscar a presença mais ou menos homogênea de determinadas informações. Mas
significa, também compreender o “jogo de forças” que tornam ausentes outras informações.
Lopes ( 2005, p. 14) alerta sobre a análise dos cadernos escolares:
Analisar o conteúdo de cadernos escolares a partir de uma perspectiva de testemunho de memória é fazer presente uma ausência porque a memória é um campo de disputas onde personagens e acontecimentos não só se confundem, mas também podem ser omitidos. Historicizar suas informações é afirmar a sua neutralidade buscando um quadro de referências no passado que permita entender, na perspectiva do presente, a presença de determinadas práticas e tentar desconstruir paradigmas, pois nossa presença neste mundo real não é determinada, mas influenciada pelos condicionamentos institucionais que nos inserem num contexto histórico, social e cultural.
Hérbrard (1998, p. 137) conclui:
Foi graças ao caderno que da escola primária originou uma forma de trabalho da escrita homogênea à sua concepção do saber: um saber elementar sem lacunas, que se situa essencialmente sob as espécies da completude e do acabamento.
2.2. A Revista de Ensino e suas Propostas Pedagógicas
A REVISTA DE ENSINO, órgão oficial da Inspetoria Geral da Instrução Pública de Belo Horizonte, Minas Gerais, criada pelo Governo de Melo Vianna, através do Decreto n. 6.758, de 01.01.de 1925, serviu para divulgar os novos ideais educativos propostos em Minas de 1925 a 1970, tendo como objetivo principal combater o analfabetismo, a miséria, divulgar novas propostas pedagógicas e modelar o professor para que os objetivos da política educacional fossem atingidos, através da rede escolar de ensino mineira. No primeiro número deste periódico, há um esclarecimento sobre a Reforma do Ensino de 1925 e o objetivo da criação da Revista:
(...) como elemento orientador do professorado, como também de edificação do espírito popular que não pode divorciar-se das questões inerentes à instrução primária e da cruzada de desanalfabetização das grandes populações disseminadas pelo nosso vastíssimo território, nesta obra feliz e de longo tempo
esperada em que vai por em prática a lei da obrigatoriedade do ensino. REVISTA DO ENSINO N. 1, ANO I, p. 29. –1925.
Figura 42- Mello Vianna-Criador da Revista de Ensino-1925.
Figura 43-Capas ilustrativas da Revista de Ensino e do Regulamento do Ensino Normal - Acervo Leyde Moraes Guimarães.
Figura 44- Revistas de Ensino com seus sumários- Acervo da Escola Normal de Ouro Fino 1º Sumário de 1929 – 2º Sumário de 1935.
Figura 45- Acervo da Escola Normal de Ouro Fino- Referências para assinatura da Revista do Ensino.
Através da Revista destacavam-se os avisos da Secretaria do Interior, leis, decretos, reformas, orientações sobre o ensino-aprendizagem, modelos de práticas inovadoras advindas do estrangeiro
sobre as tendências da Escola Nova. Esse periódico era distribuído gratuitamente ao professorado das escolas oficiais, como também às autoridades escolares e inspetoras de ensino.
Enfatizava também aos professores sobre a importância da colaboração destes com artigos para serem divulgados através da Revista.
Havia também uma preocupação em divulgar as atividades da escola, tais como os auditórios, Clubes de Leitura, favorecendo a socialização, o sentimento patriótico. Incentivava as criações dos Clubes de Saúde e conceitos de Higiene e Puericultura. Os problemas de saúde foram questões políticas relevantes no Estado, após a proclamação da República, elevando o prestígio dos médicos participantes de congressos, de projetos governamentais que visavam a erradicação de doenças, campanhas educativas, vacinas e todas as formas que preservassem a saúde pública.
Discutia-se sobre disciplina, prêmios, castigos, estimulando os hábitos de cooperação, de bom relacionamento, a ser cortês e ordeiro.
Para Assunção (2004, p. 7) o objetivo era de provocar mudanças substantivas em seus professores e fabricar um modelo idealizado para o Estado.
Ao discorrer sobre os Cadernos de Lições dos professores, a REVISTA DE ENSINO (1933, n. 93) direcionou aos mesmos algumas propostas sobre o preparo das lições, pretendendo levá-los a acatar os preceitos e prescrições impostas para adequá-los pelo discurso admoestador a um certo modo de ser, modelando comportamentos, orientados pela nova política na fabricação de um profissional do qual se exigiam rapidez, eficiência, economia e trabalho.
1º – O preparo do caderno de lições constitui defesa contra as elipses de memória e de demonstração de cultura do professor _cultura que é atributo exponencial de sua personalidade; 2º – Evita desperdício de energia e de tempo, afastando o inconveniente de digressões inúteis e estranhas do assunto da aula;
3º _ Age como anteparo às emoções perturbadoras que sofremos, vindas de fora ou ocorridas dos trabalhos escolares;
4º _ Dão-nos segurança às observações próprias, colhidas no desenvolvimento da ação e da firmeza da nossa conduta e definição da nossa personalidade;
5º_Contribui para educar a pessoa pelo hábito do trabalho, da observação do estudo e da meditação.
Nota-se uma observação interessante na Revista de Ensino (1946) sobre a importância da assinatura do “Livro de Ponto”:
(...) As funções de direção __ninguém o ignora __desdobram-se em técnicas e administrativas. Estas últimas, longe de constituírem mera formalidade burocrática, encarecem seriedade dos encargos da direção. Assim, estabelecendo o Regulamento do Ensino Primário que o diretor deve abrir e encerrar o livro de ponto, à entrada e saída dos professores, uma conclusão se impõe: o diretor será o primeiro a chegar no Grupo e o último a deixá-lo, como a principal figura da casa, atento e vigilante em seu posto, tal como o capitão do navio. Livro de ponto não é formalidade.É necessidade. (MÁRIO CASASANTA, REVISTA DO ENSINO, n. 179, maio de 1946, p. 287).