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São José dos Campos foi o local escolhido por muitos migrantes provenientes da zona rural, inclusive para os meus entrevistados Sr. João e Dona Jandira. A busca por São José tem um perfil histórico que vale a pena ser mencionado, mesmo que sucintamente, no sentido de dar coesão ao fluxo de migração interna apresentado nesse estudo.

A cidade de São José dos Campos configura-se economicamente como um dos mais importantes municípios que compõem a Bacia do Paraíba do Sul. Compreender a migração nessa cidade é buscar os aspectos que originaram tais fascínios que a região exerceu e exerce no contexto nacional.

Desde o início da colonização, os portugueses adentraram a região do Vale do Paraíba em busca de metais preciosos, combatendo invasores, convertendo os

pagãos à fé católica, procurando integrar o litoral e se apossar do território alheio (TOLEDO e FERREIRA, 2000, apud SOUZA, 2003).

O caminho do Rio de Janeiro e São Paulo, no século XX, surgem como uma área de grande produção industrial, alavancando a diversificação da atividade fabril. A partir de 1940, a região se transformou em prolongamento do bairro industrial da Grande São Paulo. Com a construção da Rodovia Presidente Dutra (BR-116), em 1952, começou a modernização das indústrias localizadas na região, principalmente as multinacionais. Durante a década de 60 e 70, várias cidades polarizadas por São José dos Campos viram-se transformadas em núcleos industriais. Situados junto à rodovia e à ferrovia, no eixo que liga os principais mercados consumidores do País, e contando com farto abastecimento de água e energia elétrica, os municípios da região tornaram-se localizações privilegiadas para a produção de bens intermediários, bens de consumo duráveis e material bélico.

Conforme Souza (2003) um grande momento na história da cidade de São José dos Campos está relacionado à sua fase sanatorial, em que pessoas de várias partes do país vinham em busca da cura para a tuberculose, cujo clima da cidade favorecia o restabelecimento do doente tuberculoso. A cidade foi elevada à condição de Estância Climática em 1935, recebendo investimentos que possibilitaram melhorias nas redes de água, luz e esgoto. O processo de modernização era o alvo na época, então, a cidade passou por grandes reformas que modificaram, “principalmente o seu traçado viário” (p.10). A partir da década de 50, com a construção da infra-estrutura viária, as mais importantes indústrias transnacionais do Vale do Paraíba estavam instaladas na cidade, tornando-a assim num pólo estratégico militar, definido pela instalação de indústrias bélicas e centros de pesquisa.

Segundo Lessa (2001 apud SOUZA, 2003), basicamente três pontos do Planejamento Estatal causaram essa mudança na paisagem da cidade, definindo sua forma e estrutura urbana:

A fase sanatorial, com a regulamentação do uso do solo e investimentos em infra-estrutura; a descentralização industrial e as instalações militares. A cidade, de pouca ou nenhuma expressividade no período cafeeiro do Vale do Paraíba, passou a exercer atratividade populacional, primeiro pela cura e, depois, por postos de trabalho e serviços (p.10).

É exatamente nessa época em que a cidade era tão cobiçada por migrantes, na década de 50 a 70, que Dona Jandira, cujo filho mais velho nasceu em 1957, e Sr. João mudaram-se para São José dos Campos com o objetivo de buscarem melhores condições de vida:

Quando meu filho caçula estava com três anos de idade, nós

mudamos pra São José pra ter uma vida melhor, a vida aqui na roça tava muito difícil. (Dona Jandira)

[...] Fiquei até 1975 na zona rural e a pecuária ficou muito ruim aí eu vendi o gado e comprei um terreno na Vila Paiva, em São José, fiz uma casinha. Queria dar estudo pras crianças que já estavam grandinhas. Passei muita dificuldade. (Sr. João)

Sr. João conta que muitos bairros da zona norte da cidade não existiam e, estavam sendo formados nessa época:

Então, o Sr. Antônio me chamou pra trabalhar com ele com material de construção aqui no bairro de Santana, ele pagava um pouco mais, aí eu fui melhorando, fui gerente da firma dele [...] Nessa época estava formando os bairros aqui da redondeza, não existia nada, era tudo pasto, não tinha nenhuma casa, ali onde é o Jardim Telespark tinha uma lagoa, que tinha até paturi, hoje é tudo seco. Não tem nada ali. Trabalhei muito com esse meu amigo, descarregava caminhão

de telhas, comprava madeira de vendedor do Paraguai, da Bolívia, tinha muita dificuldade pra entender a língua, mas fomos indo. Trabalhei com ele até 1986 [...] Esses bairros novos aqui perto de Santana eu ajudei a construir [...].

Essa narrativa de Sr. João se insere no histórico de São José apresentado por Souza (2003).

De um modo geral, as indústrias de grande porte da cidade estão instaladas ao longo da Rodovia Presidente Dutra. A zona norte da cidade é cortada pela Rodovia Estadual SP-50 que liga a zona urbana do município ao Sul de Minas Gerais. Os bairros que compõem a Região Norte, Santana, Altos de Santana, Jardim Telespark, Vila Paiva, etc. Concentram-se, nessa região, alguns bairros com características rurais, sendo que nos últimos anos concentram-se loteamentos de chácaras e sítios.

O bairro Santana de São José dos Campos é conhecido como bairro dos mineiros, haja vista a quantidade de mineiros, vindos principalmente do sul de Minas Gerais para povoar São José. Existe, inclusive, atualmente nesse bairro a “Festa dos Mineiros”, com todas as tradições advindas de Minas Gerais.

Na área rural, segundo Ribeiro et. ali. (2003), antes de 1970, o trabalho duro, a falta de escolas perto de sua casa, a aparente falta de utilidade a que a escola se destinava, fez com que poucos desses migrantes freqüentassem a escola. É raro os casos de quem conseguiu fazer pelo menos três anos do ensino fundamental, pois a leitura de nada adiantaria numa sociedade composta por minorias, que usavam os registros e comunicação oral. Nessa época era grande o número de bairros denominados rurais em São José dos Campos e a escrita não exercia uma função tão essencial na vida dos migrantes, haja vista que muitos ingressavam na construção civil, como é o caso do marido de Dona Jandira:

[...]Foi um tempo muito difícil. Depois meu marido conseguiu

trabalho na Fiel e alugamos uma casinha num bairro pobre da cidade.

É uma firma de construção de prédios. Não tem mais não!

Assim como Dona Jandira, podemos observar que Sr. João também faz parte desses raros sujeitos que cursaram três anos de escola e que trabalhou muito, passou por inúmeras dificuldades para garantir o pão de cada dia:

Quando foi em 1955, veio uma escola para o bairro Cruz branca e veio uma professora então meu pai chamou minha irmã Judith, nós trabalhávamos na roça com o pai. Ele falou: Meu filho veio uma professora para o bairro e era para nós irmos para escola para estudar. Pode ser que amanhã você seja um comerciante, alguma coisa. Então falei: Olha, pai, eu acho que não vou ter essa oportunidade de estudar, de ser um comerciante. O pai respondeu: não, eu quero que você estude! Como tinha muita dificuldade, a escola ficava 4 a 5 quilômetros de casa, então nós levantávamos cedo, então meu pai falou: Você pode ajudar a tratar dos porcos, arrancar mandioca e inhame; nós carregávamos dois cargueiros de mandioca num dia e dois cargueiros de inhames no outro, lavava bem e tinha que tirar as “rebarbas” e cozinhar, nós tratávamos dos porcos e acontecia que nós ficávamos com a mão cheia de nódoa do inhame e aquilo não saía e a professora ficava brava com a gente, falava que nós íamos sujos pra escola, parecia porco; por que só nós dois tínhamos as mãos sujas daquele jeito! É que acontece isso, expliquei pra ela! Então tinha uma alternativa. Pegamos o mamãozinho verde e pegávamos o leite do mamão e passava nas mãos, aí limpava, mas no outro dia sujava tudo de novo. Naquele tempo não tinha luva, não tinha nada! Em 1960, nós saímos da escola, eu tirei até o terceiro ano.

De acordo com esses autores Ribeiro et. alli (2003), foi quase sem nenhuma instrução e pouca experiência no trabalho que esses lavradores começaram a migrar, como é o caso de Dona Jandira:

Eu aprendi muito pouco na escola, ia só de vez em quando

escondido do pai, pulava a janela, ficava um pouco lá para depois ir com minha irmã Jurema, sem que o pai soubesse, tinha que voltar logo porque tinha que levar o almoço pro pai meio dia certinho e à tarde nós tínhamos que ajudar o pai na lavoura. Eu tinha de 9 para 10 anos de idade.

No meio rural, as vidas das mulheres eram divididas entre a casa e a roça, segundo THAYER (2001). Em casa, elas tinham a missão de se ocupar de tarefas como: cuidar das crianças e da casa, lavar roupa e cozinhar, puxar água e criar galinhas e porcos para contribuir com a alimentação e a renda da família. Elas também trabalhavam nos cultivos de subsistência da família junto com homens e com crianças com mais de sete anos. Tradicionalmente, as mulheres rurais brasileiras eram subordinadas, dentro de suas famílias, por toda a vida, passando direto da autoridade dos pais e dos irmãos para a dos maridos e dos filhos mais velhos. Essa realidade está presente na narrativa de Dona Jandira:

Filha mulher é só pra casar, cuidar da casa e ter filhos [...] Olha só o homem que eu fui arrumar! Igual ao pai! Eu queria trabalhar, mas meu marido também não deixou. Fiquei só cuidando da casa e das crianças.

Mesmo nos dias atuais, vemos muito ainda dessa filosofia, principalmente no setor rural, em que as mulheres exercem exatamente essa função, ajudar o marido e cuidar da casa e dos filhos. Isso é um traço forte em nossa cultura. A migração rural de mulheres para a cidade, quando o intuito é acompanhar os maridos, não foge muito dessa filosofia, ao contrário das mulheres solteiras que hoje migram, para a cidade dita grande, ou trabalham em casas de família ou conseguem algum serviço em alguma fábrica. Vale lembrar que essas mulheres atualmente já têm uma

formação escolar mais além do que nos tempos de Dona Jandira. Elas já sabem que precisam estudar se quiserem conseguir algum trabalho diferente do que de doméstica. Seus anseios são outros, agora, elas não vivem mais à sombra da figura masculina.