Existem muitas áreas na fotografia e o fotojornalismo é uma área específica. Embora façamos um percurso, alguns começam um pouco como eu, vão parar ao fotojornalismo um pouco por acaso, outros têm vontade chegar, começa-se por estagiar, havia uma vaga e acabamos por aprender o que é o fotojornalismo. Eu tive a sorte de começar com Luís Vasconcelos como editor, que é uma pessoa com um sentido crítico brutal, o que é muito interessante. Começamos a apercebemo-nos que não estamos ali apenas para fotografar. Há uma componente técnica e estética, de composição, que tem a ver com a imagem particular do fotojornalismo, com a informação. Nesse sentido, temos de ir criando, a pouco e pouco, uma consciência como jornalista. Não sei até que ponto isso é generalizado. Na fotografia em geral e no fotojornalismo em particular, que é aquilo que pensamos do mundo, a nossa busca como pessoa, como é que nos posicionamos perante a sociedade, as nossas ideias. A certa altura da fotografia documental, há um compromisso que tem sentido e em que o trabalho do fotógrafo começa a ganhar alguma consistência que é quando, através
dessas fotografias, transparece qual é a consciência do fotojornalista. Portanto, está tudo ligado.
2 – Indique que fotografias da sua autoria considera serem as mais importantes desde o início da sua carreira? 3 - Aponte algumas situações em que essas fotografias tiveram um impacto muito significativo junto da opinião pública?
Houve dois trabalhos que realizei, para além deste que é um trabalho extenso e que está a ser feito para funcionar por fases fraccionadas, por temas ou abordagens e que poderá ser um trabalho coletivo, mas que ainda não é conhecido, foi quando estive na Guerra da Guiné, em 1998, que fez com que o meu nome soasse e se consolidasse dentro do meio. Foi a partir daí que as pessoas passaram a ter mais em consideração o meu trabalho. Aprendi muita coisa do ponto de vista humano e tive a sorte de estar com jornalistas muito experimentados. O outro foi um trabalho que fiz quando sai do Público. Fui para a Mauritânia um mês e andei a fotografar. Era um sítio difícil, mas nunca estive em hotéis, mas sempre na casa das pessoas. Foi graças a isso que comecei a fotografar e marcou-me pelo difícil. Nunca disse que era jornalista, nem fotógrafo profissional. Pelo resultado, acho que saiu bem. Hoje poderia ter saído de forma mais consistente, mas são os dois trabalhos mais importantes. Também estive no Tsunami, mas foi um trabalho em cima do joelho, muito condicionado e mal organizado pela redação. Não acho significativo. Depois, outros trabalhos mais individuais. O que me encontro agora a desenvolver é algo diferente, mas queria continuar neste registo. A grande dúvida é como se pode financiar e como é que podemos viver disto.
4 - De que forma tenta ser (ou não) objetivo na captação ou edição de imagens sobre um determinado acontecimento, lugar ou personalidade retratada?
Dizer que o jornalismo é isento é uma falácia. Outra coisa é o jornalismo honesto. Do meu ponto de vista, é válido tanto para o jornalismo escrito como para o jornalismo fotografado. É um pouco difícil definir o que é a objetividade. Todos sabemos que somos pessoas com sentimentos. Hoje em dia não trabalho assim, mas trabalhei durante muitos anos em sítios onde estou eu e mais dezenas de fotógrafos e cada um de nós consegue captar uma coisa diferente no meio daquela confusão. Tem a ver para onde se dirige o olhar, o que se sente com aquilo e o que se quer transmitir. Se atingirmos isso tudo numa imagem, essa fotografia está conseguida. O que não pode
haver é mentira, manipulação. Mesmo que não se manipule a imagem posteriormente em computador, pode-se alterar o que está a acontecer porque ao poder reenquadrar e selecionar uma parte, fazemos uma reeleição.
5 – Habitualmente, a que critérios recorre para selecionar as fotografias?
O trabalho diário do fotojornalista é fazer uma determinada fotografia para um trabalho específico, durante um tempo reduzido. A edição é um dos problemas complicados do fotojornalismo. Em Portugal, não existem editores que não sejam fotógrafos, mas nos principais jornais internacionais, os editores não são fotógrafos. E normalmente, dizem que editamos muito mal o nosso trabalho. Quando não sabemos nada de fotografia fazemos uma foto e achamos-lhe muita graça porque conseguimos uma coisa que vimos e quem tem muita graça. A um nível mais profissional, acontece a mesma coisa. É muito complicado afastarmo-nos do nosso trabalho o suficiente para fazer uma seleção de forma objetiva. No trabalho documental, existe um tempo que não existe no fotojornalismo. Temos de conseguir escolher as imagens, em primeiro lugar que estejam tecnicamente bem conseguidas e, depois, que emanem a intenção do fotógrafo, aquilo que está mentalmente por trás do que se pretende fotografar. Gosto de mostrar à minha mãe, que não percebe nada de fotografia, e depois ao Luís Vasconcelos, que é muito crítico. Gosto de ver as reações. Muitas vezes, isso até me pode alterar a mudar alguma seleção da imagem que fiz.
6 - Considera que sua maneira de estar e de ser enquanto fotógrafo intervém no exercício da profissão?
Sempre.
7 - No momento de recolher material fotográfico, quais são os elementos técnicos e estéticos que privilegia?
Comecei um novo ciclo quando sai da Visão e que me custou, inclusivamente, porque ganha-se muitos vícios e tive de passar algum tempo para me desprender daquilo que foi a minha formação. Passei a ser um fotógrafo que gosta de ter os elementos certinhos e direitinhos. Tecnicamente, a foto tem de bater certo: a exposição tem de estar bem conseguida para pensar depois no tratamento final que vai levar; fotografo cada vez menos com grande angular; as minhas objetivas preferidas são 35 mm e a 50; se tiver que levar só uma, se calhar, levo a 35mm, mas passei a fotografar cada vez mais com a 50mm. À medida que se vai maturando, a luz tem cada vez mais
importância. Em qualquer situação, vai-se tentar encontrar a luz certa. Antes de fotografar, temos de olhar e identificar aquilo que se quer fotografar. Depois, é a intenção, o sentimento, aquilo que se consegue – algo que nunca consegui explicar teoricamente –, a relação com o que estamos a fotografar, se é uma pessoa conseguimos captar um pouco a alma daquela pessoa, quando conseguimos fazer com que isso transpareça na imagem, ela é bem conseguida. Esta ideia aplica-se, inclusive, com as ditas naturezas mortas, espaços sem pessoas, acontece o mesmo. Temos de ter cuidado em não querer delimitar demasiado as coisas. É importante como é que se vai abordar o tema, mas é desejável que se mantenha os horizontes abertos porque, às vezes, as coisas não saem como pensamos e é preciso dar a volta a isso.
8 - Que atributos uma imagem documental deve conter para ser considerada uma fotografia com qualidade?
Tecnicamente, deve ser uma imagem bem conseguida. Depois, a forma plástica como a imagem está construída. Pode ser uma imagem espontânea, mas consegue pôr dentro retângulo o essencial e deixar de fora tudo aquilo que estraga a leitura da imagem. Por último, depende do que o fotógrafo consegue pôr de si dentro da fotografia.
9- Como vê o paradoxo de a imagem ser um registo de uma realidade, que tem de