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Não. Já foi mais. Agora, é menos. No entanto, é uma profissão muito bem paga a nível humano e de realização pessoal.

27 - Como encara as mudanças que se têm vivido na fotografia de imprensa nos últimos vinte anos?

Quando comecei, isto era como os jogadores da bola: quem dava mais. Havia jornais a abrir e convites. «Já ganhas tanto, mas eu dou-te mais. Vem trabalhar para mim.» Houve uma altura, em Portugal, em que se deu o boom da fotografia e da qualidade. Era O Independente com uma fotografia giríssima. Era o Público com outra. Não tinha nada a ver com O Independente, mas também muito boa e muito forte. De repente, perdeu-se tudo. Acho que a fotografia está uma porcaria. Mesmo no Público perdeu-se muito.

28 - Fala-se que, além da crise económica, a crise no jornalismo é também de poder, ou seja, os jornalistas deixaram de ter poder de decisão sobre as notícias dos jornais para serem os grandes grupos económicos que detêm esses órgãos de comunicação a decidir sobre o conteúdo dos jornais, em especial na editoria de fotografia. Hoje, os editores de fotografia, no verdadeiro termo, não conseguem decidir sobre a foto que vai para página.

Não sei se são os grupos económicos, mas hoje, cada vez mais, pela própria organização da redação e também dos meios informáticos, em que os jornais já têm

um layout pré-estabelecido, o fotógrafo envia a foto para o gráfico. No Expresso, assisti a situações em que se cortava texto para pôr a foto maior. Hoje em dia, é impensável. Há o texto, há determinado espaço para a foto e nada mais. O que acontece, muitas vezes, é que quem vai buscar a foto é o redator. O redator faz o texto, sabe o que o fotógrafo esteve lá, entra no sistema e escolhe a foto. Nem sequer fala com o fotógrafo. O fotógrafo deixa lá as dez fotos que ele acha melhor e o redator escolhe a que quer. Acho isso péssimo. Devia de haver a figura de editor para ter o mínimo e preocupação que o redator não tem. A fotografia também tem de mudar e perceber que não estamos protegidos por um editor. Portanto, em vez das dez, ponho as duas e são estas. Faço o papel de editor e acho que, por outro lado, podemos arriscar mais na fotografia. Muitas vezes, o redator até é um tipo novo que não se importa de arriscar. Vê a foto do reflexo do Cavaco, se calhar, o editor ia embirrar com a foto e dizer que «isto não é nada», queria era o Cavaco a entregar o prémio. Antes, havia um editor que estava lá há anos e agora temos um redator que diz que gostei muito daquela sombra do Cavaco, um redator que também faz uns instagrams e também gosta da sua sombra. Se calhar, isso dá para arriscar mais. Até haja mais possibilidade de irreverência com um redator novo. Antes, havia a figura do editor de fotografia que nos protegia, mas havia conflitos entre o fotógrafo e ele.

Entrevista a António Cotrim, repórter de imagem da Lusa Realizada em Lisboa, a 3 de agosto de 2014

Biografia

António Cotrim nasceu em Lisboa, em janeiro de 1958. Começou a trabalhar na Lusitânia até passar para a ANOP como repórter fotográfico, em 1974. Ainda trabalhou no jornal Tal & Qual, com Fernando Ricardo, José Carlos Pratas, Luís Vasconcelos, Alfredo Cunha, Acácio Franco e Alberto Frias. Entre 1984 e 1985, esteve no jornal Record. Trabalha na Lusa desde o seu início, em 1987, onde ainda hoje se mantém. 1 - Qual considera ser a função social de uma fotografia documental publicada em imprensa?

A função da fotografia é informar os leitores e registar o que acontece; documentar para o futuro, para que as próximas gerações tenham um banco de imagens onde possam recordar o que aconteceu no país onde vão crescer, possibilitando que conheçam os momentos importantes, os bons e os maus, que ocorreram em Portugal até eles terem nascido e lembrarem-se desses acontecimentos, mesmo que não os tenham vivido.

2 - Nos últimos trinta anos, que alterações notou na presença da fotografia na imprensa?

Faço parte de um núcleo antigo da fotografia. Trabalhei com Luís Vasconcelos, com Alfredo Cunha, com Eduardo Gageiro, com Eduardo Baião e outros mais. Com eles todos, aprendi muita coisa. Com as novas tecnologias, estou beneficiado na questão de tempo. Mas, em beleza do trabalho, tenho saudades do analógico. No filme, era preciso saber o que iríamos fotografar. Tínhamos um rolo, no máximo dois, e se fotografássemos um jogo de futebol, dispúnhamos de quinze minutos para revelar e não convinha ter muitos rolos no bolso. Se, por acaso, não revelássemos o rolo exato, passávamos mais uma hora entre o processo de revelação, de secagem, etc. Por vezes, acontecia: “Não é este o filme, deixa-me revelar mais outro”. Naquele tempo, cada foto a preto e branco demorava sete minutos a transmitir, e vinte e cinco minutos, se fosse a cor, enquanto hoje demora segundos.

Quando a Lusa recebe estagiários e vêm com cartões de 4 GB, entrego-lhe sempre um de 1 GB porque assim têm de saber o que fotografam. Se tiverem muita capacidade de armazenamento da imagem, disparam a tudo o que mexe, perdem o sentido de compor a foto e ter cuidado com o que se fotografa. Depois, o conceito de edição é complicado porque se produzem centenas de fotos, enquanto que, quando se leva um cartão de 1 GB, tem de se ter a sensibilidade de saber o que é necessário ir fotografando. Também lhes ensino, como me transmitiram a mim, que, quando fazemos um serviço fotográfico, estamos a ser o transporte de alguém que não pode estar presente e que, no dia seguinte, irá ver aquela foto no meio de comunicação social e na televisão. O que nós gostaríamos de ver sobre este acontecimento se fossemos leitores.

4 – Indique que fotografias da sua autoria considera serem as mais importantes nos quarenta de exercício fotográfico? 5 – Aponte algumas situações em que, eventualmente, essas fotografias tiveram um impacto muito significativo junto da opinião pública?

Entrei para o jornalismo, em 1974. Comecei a trabalhar na Lusitânia que, juntamente com a ANI, era as duas agências a operar em Portugal. A ANI era vocacionada para a parte nacional e a Lusitânia, que era conhecida pela Sociedade de Propaganda de Portugal, tinha de enviar as notícias para o estrangeiro. Chamávamos o correio aéreo. Entrei como boletineiro. Tinha de ir, todos os dias, levar as notícias à PIDE, à Censura. Ao final do dia, tinha de ir ao aeroporto enviar este correio aéreo para as ex-colónias para que as pessoas que lá viviam tivessem conhecimento do que se passava, em Portugal. Ao longo destes anos, já fotografei muita coisa. Já ri e já chorei. Cada reportagem que faço vai enriquecer-me como ser humano. Há pessoas que não conhecia, hábitos que desconhecia e tradições que se não visse não acreditava. Tenho tantas fotos que me marcaram… Tenho uma quando foi a invasão do Iraque. Houve uma reunião nos Açores, com o Tony Blair, Bush-pai e o nosso primeiro-ministro Manuel Durão Barroso. Tempos depois, vi a cidade invadida com outdoors do Bloco de Esquerda com a minha foto e uma frase a dizer: “Eles mentem”. A teoria que foi usada para a invasão do Iraque foi a de que este país tinha armas maciças de destruição. Após a invasão do Iraque, os técnicos nomeados pelas Nações Unidas chegaram ao local e não encontraram armas. O Bloco de Esquerda decidiu espalhar cartazes pela

cidade para dizer que tinha sido uma manobra política. Tenho realizado reportagens em bairros com poucas condições, que também me marcam. Tive uma reportagem que me marcou imenso e assumi o meu lado de ser humano. Fui fazer uma reportagem ao Montijo, às campinas de apoio, onde as pessoas vão, ao final do dia, buscar comida. Conheci uma senhora romena que tinha uma filha que, por coincidência, faz anos no mesmo dia da minha filha, a 15 de junho. Vi que eles não tinham nada. A sopa dava para o jantar e o almoço. Tive o cuidado de, no mês seguinte, comprar uma mochila e umas roupas para levar àquela pessoa. Foi algo que me sensibilizou.

6 - Considera que sua maneira de estar e de ser enquanto fotógrafo intervém no exercício da profissão.

Não sei se é correto o que vou dizer, mas defendo a teoria que “conhaque é conhaque e trabalho é trabalho”. Às vezes, quando olho para a agência da Lusa e me marcam serviços, digo “eu não gosto de ir fazer isto”, como antigamente tínhamos de fazer a cobertura dos velórios, quando morreu a Amália e outras figuras públicas. Tenho uma opinião contrária sobre isto. Até onde é que nós devemos ir como meios de informação? Para mim, uma cerimónia fúnebre de um velório é um ato privado e há outras maneiras de o documentar sem ser necessário ir para diante das pessoas que estão ali. Se fosse no meu caso e visse entrar os representantes da comunicação social, com o devido respeito, iria sentir-me chateado. Se me disserem, vais sair a saída do corpo da igreja, a entrar no carro fúnebre, já não me parece mal. Estas decisões partem dos critérios éticos de cada jornalista. A comunicação social é, cada vez mais, uma selva. Se os diretores de jornais virem a concorrência com uma foto na primeira página, eles também querem ter. Caso contrário, é o outro jornal que vende e não o seu. Às vezes, entra-se numa guerra em que se perde o sentido do que é ser jornalista e pisa-se campos tenebrosos. Nos últimos dez anos, começou-se a olhar para o jornalismo como um negócio, além de que não se olha a meios para atingir o fim. Quando um órgão de comunicação não tem problemas em pôr uma equipa de reportagem, um dia inteiro, à porta de alguém, perde-se o respeito. No entanto, às vezes, as próprias pessoas do outro lado também contribuem para isto. Antigamente, havia uma revista de um jornal em que as pessoas pagavam para sair naquela publicação. Iam a casa, fotografavam as personalidades com meia dúzia de roupas e

em poses diferentes. Mais tarde, acontecia algo relacionado com essas figuras e, como comunicação social, ainda queriam comunicar. Depois, assistia-se a um lavar de roupa suja em público. Respeito os paparazzi, pois não sei como é o dia de amanhã. Antigamente, dizia, na Lusa, se me chatearem vou embora e arranjo lugar noutro jornal na hora ou no dia seguinte e agora deixo-me estar sossegadinho.

7 - De que forma tenta ser (ou não) objetivo na captação ou edição de imagens sobre um determinado acontecimento, lugar ou personalidade retratada?

Tento não adulterar a foto e mostrar aquilo que é. Se estão lá poucas pessoas, tendo mostrar essa realidade. Se estão muitas pessoas, utilizo a teleobjetiva para destacar pormenores. Como em qualquer profissão, uma pessoa tem de ser honesta. Tento ser e fazer o meu trabalho o melhor que sei.

8 - No momento de recolher material fotográfico, quais são os elementos técnicos e estéticos que privilegia? É diferente fotografar para a Lusa de fotografar para um jornal, por exemplo?

Seja para a Lusa ou para o jornal, o trabalho tem de ter qualidade e estar bem feito. Se o leitor pegar no jornal do dia seguinte e vir uma foto mal focada e sem informação, provavelmente, pensará que fazia melhor. Na Lusa, temos a preocupação de, além de servirmos a imprensa nacional, temos de trabalhar para a imprensa internacional. A Lusa faz parte da EPA, uma organização de agências estrangeiras que foi criada um pouco para combater o monopólio da Reuters, da AP e da Agence France Press. Ao princípio, esta fazia parte da estrutura da EPA, mas saiu. Enquanto no jornal, fazemos um serviço e, se o editor gosta do trabalho, pode pôr seis, sete ou oito fotografias, podemos fazer um filme pequeno e quase se publica a reportagem inteira, na agência, não vamos fazer um “livro” do serviço que foi concebido. Ou é um assunto nacional que justifique um destaque maior ou resume-se a cinco ou seis fotos. A nossa primeira preocupação como repórteres é identificar o lugar onde estamos a fotografar e o assunto que está a acontecer. Como tal, temos de utilizar uma grande angular para identificar e depois faria uma fotografia mais centrada no contexto da notícia.

9 - Que critérios privilegia na seleção das fotografias?

A qualidade, a composição da foto e depois tento-me valer dos pormenores. Ainda há alguns meses, foi nomeado pelo Presidente da República um secretário de Estado que tinha estado envolvido no BPN. A cerimónia foi no Palácio de Belém e eu,

naturalmente, fui lá pela Lusa. A Global Imagens tinha lá dois repórteres fotográficas. No dia seguinte, a fotografia que saiu foi a minha, Lusa. Deu-me um gozo enorme porque a Global Imagens foi criada para combater a Lusa, eles cortaram o serviço e dá gozo ver que eles tiveram de pagar uma foto à qual não tiveram livre acesso, mas foram obrigados a pagar, na primeira página. Porquê? Fui ao pormenor de fotografar o Cavaco sorridente a cumprimentar o empossado. Como toda a gente falava do envolvimento de Cavaco Silva, no caso BPN, foi a esse pormenor jornalístico.

10 - Considera que esta nova geração tem menos sentido jornalístico do que os fotógrafos que surgiram após o 25 de Abril?

Não lhes falta sentido jornalístico. A nova geração de fotógrafos está muito bem servida. Na Lusa, temos dois excelentes repórteres fotográficos e o futuro do jornalismo passa pelo seu trabalho e de outros como eles.

11 - Sente que, na Lusa, estão de alguma forma condicionados por ser um órgão de comunicação ligado ao Estado?

Sim. Antigamente, havia, em Portugal, a secretaria de Estado da Comunicação Social, que funcionava no Palácio Foz. Tudo o que era oficial eram eles que faziam. Neste momento, a Lusa é parte do serviço público e, como tal, tem de o fazer. Às vezes, na minha opinião, em excesso, mas os editores é que são pagos para tomar essas opções. Às vezes, peca-se pela quantidade.

12 - Que atributos uma imagem documental deve conter para ser considerada uma boa fotografia?

Uma fotografia, por mais simples que seja, pode ser uma boa. Depende do que nos transmita.

13 - Uma imagem documental precisa de uma narrativa ou uma só imagem pode entrar nessa categoria?

A Lusa, por norma, não publica fotos tremidas, desfocadas, sem nitidez. Mas, imaginando que estamos num serviço, quando ninguém esperava, alguém aparece de arma na mão e comete um atentado contra um chefe de Estado. Aquela foto não está focada, foi feita à pressa, mas com estes defeitos todos teria de ser publicada. É o momento. A nível de arquivo, esta foto terá um valor importante. É aquela foto, como aconteceu na história com o atentado ao Papa João Paulo II, em Fátima, em maio de 1982.

14 - Como vê o paradoxo de a imagem ser um registo de uma realidade, que tem de ser verdadeira e objetiva, e ao mesmo tempo, estar presente a perspetiva do fotógrafo enquanto criador para dar ênfase a uma determinada mensagem?

Não podemos fugir ao que fotografamos. O assunto está lá para o bem e para o mal. 15 - Em que situações é que a fotografia pode ameaçar o compromisso com a verdade do jornalismo?

Por exemplo, um fotógrafo vai cobrir uma manifestação e há um manifestante que atira uma pedra ao polícia e acerta-lhe em cheio. O polícia pega no bastão e vira-se para o manifestante. Se o jornalista quiser, conta só uma parte da história e mostra apenas o polícia a bater com o bastão no manifestante. Depois a foto corre mundo. Os sites vão logo dizer “polícia carrega sobre manifestantes”. Por isso é que, em tribunal, as fotografias apenas são reconhecidas como provas mediante a recolha das imagens na presença de agentes da autoridade e supervisão de um juiz de Instrução Criminal. 16 - Enquanto fotógrafo, como é que se relaciona com a constante “concorrência”, imediaticidade e fugacidade das imagens televisivas? E como encara o desafio de prender a atenção do público num fotograma estático, em contraponto à imagem em movimento da televisão?

É outro lugar da comunicação; é outra praia. Uma tendência que me está a deixar “preocupado” é o jornalismo multimédia. Dá origem a que um editor envia o jornalista para o sítio e ele faz vídeo, texto e ainda televisão. É três em um. Em certas situações, isto poderá ser útil, noutros casos, não. Estou a fotografar um serviço no meio de uma grande confusão. Acabo de fotografar e vou fazer o vídeo. Nesse momento, começam confrontos atrás de mim, enquanto me viro, aquilo acabou. Chego ao meu local de trabalho e perguntam-me: “Então a foto dos confrontos?”. “Não há problema, tenho o vídeo”. É necessário decidir. Na Lusa, o que fazemos, no dia-a-dia, é fotografar nas situações do momento. Quando vamos acompanhar chefes de Estado e o primeiro- ministro, faço vídeo, durante a conferência de imprensa, porque sei que não vou utilizar as fotos dele a dar a entrevista. Estou ali calmo e sei que não vai acontecer nada. Em situações do momento, não tento fazer as duas coisas em simultâneo, pois nenhuma iria ficar bem. Num trabalho em que é dado, por exemplo, três dias para realizar o trabalho, aí o jornalista terá tempo para fazer vídeo, fotografia e texto.

17 - O repórter fotográfico está ou não mais bem qualificado do que o repórter de escrita para assumir esse papel de jornalista multimédia?

Há algum tempo, a Lusa começou com o multimédia. É um projeto interessante, muito útil, mas foi mal feito. Pegaram em todas as pessoas e levaram toda a gente para ter formação multimédia. Pessoas com mais ou menos idade. Cometeram uma lacuna. Durante esta formação, revelaram-se pessoas muito boas, e foram as primeiras a ir para o terreno, mas também se revelaram outras muito más. Excelentes jornalistas, mas zero em multimédia. A Lusa quis fazer uma editoria de multimédia e fomos todos para a Universidade do Porto, em grupo. Aqueles professores que tiveram uma paciência enorme e a quem lhes tiro o chapéu sentiram grandes dificuldades, enquanto se fosse um grupo menor e que, realmente, lhes interessava, eles estavam a debitar e a informação estava a render. No nosso caso, não. Estávamos num grupo de quinze pessoas, duas poderiam gostar daquilo, mas os outros não. Quando chegou a altura de ir para a rua, para os exercícios práticos, quem obteve melhores resultados foi os repórteres fotográficos porque tiveram uma noção de estética, de montagem e do que haveriam de mostrar. Em contexto, o pessoal de fotografia estava mais bem qualificado e tinha melhor noção do ambiente, dos enquadramentos. Depois, todos os colegas jornalistas que foram para assessores de imprensa esquecem-se completamente de onde vieram e o que fizeram.

18 - Até onde está disposto a ir quando se trata de obter uma fotografia exclusiva? Limites físicos, por um lado, e éticos e deontológicos, por outro.

Sou um bocado como todos os fotógrafos, que somos malucos, uns mais do que outros. Tenho o curso de comandos e adapto-me bem às situações de risco. Farei o que for possível para ter a melhor foto porque ainda não a fiz. Até ao dia em que morrermos, estaremos sempre à procura de realizar a melhor foto. Irei até onde for preciso não pondo em causa os meus valores de ser humano e de respeito pelo próximo. Nuno Ferrari, um grande senhor do fotojornalismo português, morreu a meu lado. Estávamos no Estádio da Luz, o Benfica estava a perder por cinco golos do Porto e este senhor, mais benfiquista do que eu, diz-me: “António, vou embora que isto está mal”. Quando chego cá fora, no final do jogo, está ele a ser assistido pelo INEM, todo entubado e morreu ali. Fotografei, pois era uma figura pública. Na consciência se publico ou não publico, ainda hoje tenho estes negativos arrumados.

19 - A fotografia tem sido valorizada pela Lusa?

Houve uma altura em que a fotografia era uma arte. Havia pessoas a imprimir a preto e branco com os métodos da altura e fazia-se obras de arte. Hoje, a fotografia serve