Trinn 4. Syntese ‒ fra kondensering til beskrivelser, begreper og resultater
6. DISKUSJON
O figural é um termo que se reporta a toda uma tradição de reflexão sobre a figura e sobre a figuração quer no campo da linguagem, do discurso – as figuras da retórica -, quer no campo das artes figurativas e plásticas, mas que contém, ao mesmo tempo, o sentido de exorcizar o projecto figurativo e o conceito de figura que este implica. Para falar de figural convém, pois, aflorar primeiro a grande proliferação de sentidos da noção de figura.
Philippe Dubois, no texto “La question des Figures à travers les champs du savoir: le savoir de la lexicologie: note sur Figura d’Erich Auerbach” 49, apoia-se em Erich Auerbach, e na sua obra Figura, para sistematizar a evolução etimológica da palavra e identificar simultaneamente uma recorrência em todas as suas acepções.
O primeiro registo relevante do termo Figura aparece em Varrão (De linguae
latinae), onde serve para significar a forma plástica exterior: “o modelador, quando
diz “eu modelo”, impõe uma figura à coisa.” 50 Tal aproximação entre os dois termos, figura e forma, inaugura a relação de analogia que a noção de figura irá tenden- cialmente estabelecer com a noção de forma ao longo da sua história. Contudo, os dois termos não são sinónimos, nem intermutáveis. Segundo Auerbach, forma “em sentido estrito significa “molde”, e reenvia a figura do mesmo modo que a cavidade de um molde corresponde ao corpo modelado que daí resulta.” 51 Mesmo se as duas noções posteriormente se foram misturando (por exemplo, com Cícero), a figura
49 Philippe Dubois, “La question des Figures à travers les champs du savoir: le savoir de la lexicologie:
note sur Figura d’Erich Auerbach”, in Figure, figural, 11-24, ed. François Aubral et Dominique Cha- teau (Paris: L’Harmattan, 1999).
50 Erich Auerbach, Figura, trad. Diane Meur (1967; rééd. Paris: Macula, 2003), 13. 51
mantém-se uma noção ambígua, com duas valências diferentes. Não só a forma ou aspecto exterior e visível das coisas, como o seu modelo conceptual (o modelo do molde para o escultor). No entanto, o sentido de figura cumpre-se precisamente na oscilação entre estes dois significados, sem que pertença a nenhum deles em par- ticular: ou seja, entre o visível e o modelo inteligível. Não por acaso Dubois refere a respeito da noção de figura “o movimento dialéctico sistemático entre concreto e abs- tracto, material e conceptual, e por fim, entre realidade e representação, verdade e ilusão, entre ser e parecer.” 52 Contudo, este entre-dois supõe uma hierarquia: a figura-forma torna visível um dado modelo invisível, que funciona como matriz ou referência à qual ela tem de se adequar. Ao fazê-lo, a figura integra-se num regime de inteligibilidade que é mimético, ao passo que o figural é o que provoca a sua desa- gregação.
A figuratividade decorre desta lógica mimética e o seu projecto traduz-se, do ponto de vista da criação ou composição pictórica, num trabalho de articulação entre visível e legível, em que as figuras visíveis incarnam, e dão assim ver, um texto (a bíblia ou certas alegorias mitológicas), ou uma história (na acepção de Alberti: “A composição é a maneira de pintar pela qual as partes são compostas numa obra de pintura. A obra maior do pintor, é a história, as partes da história são os corpos, a parte do corpo é o membro, a parte do membro é a superfície” 53); e do ponto de vista da interpretação pictórica, num trabalho de remissão das figuras visíveis a figuras legíveis ou ideais. A abordagem das figuras é, por conseguinte, não só no campo pic- tórico, mas também no campo literário, indissociável de um esforço de exegese, tal como patente na segunda parte da obra Figura, de Auerbach, dedicada ao estudo da interpretação figural do Antigo Testamento, levada a cabo pelos Pais da Igreja, e caracterizada pela leitura de figuras e eventos actuais como prefiguradores do Novo Testamento (assim, por exemplo, Moisés seria uma figura profética antecipando o aparecimento de Cristo, e, por sua vez, o próprio Cristo profetizaria a “Cidade de Deus”, o “fim dos tempos”, etc.).
52 Dubois, “La question des Figures à travers les champs du savoir: le savoir de la lexicologie: note sur
Figura d’Erich Auerbach”, 10.
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O que a figuratividade omite, uma vez que se trata de uma dimensão sem pro- veito para o seu projecto, é o que do visível resiste ao legível. Ora é justamente este resto, e a opacidade do visível que lhe corresponde, que vai ser o objecto da via do figural: a figura visível, sensível, por si, emancipada do discurso.54
Por sua vez, segundo o texto Variations figurales, de François Aubral, se o figural enquanto conceito é forjado pelo filósofo Jean-François Lyotard, no entanto o seu significante reenvia historicamente a uma série de significados diversos que ante- cipam o seu sentido actual, o que lhe foi incutido por Lyotard, embora sem o recobrirem totalmente. Como refere Aubral, se há uma continuidade relativa ao signi- ficante de um dado conceito, o seu significado, as suas significações, alteram-se em função dos contextos e problemáticas que vão legitimando a sua necessidade, não remetendo para o mesmo objecto teórico: “o significante figural reenvia a significados que, sob certas relações, existem muito antes da constituição do conceito.” 55 A eti- mologia de figural prende-se obviamente com a noção de figura, naquilo para que tendeu o entendimento deste termo,ao longo do tempo, nas suas múltiplas acepções, em diversos campos de saber e com as nuances próprias de cada autor. Para dar a ver retrospectivamente momentos em que a dimensão figural, sem ser propriamente nomeada, era contudo já perceptível, o autor remonta às primeiras ocorrências da pro- blemática da figura, para reconhecer o figural desde logo esboçado, ou contido enquanto germe, numa das grandes direcções que estruturam esta problemática: a da tradição que remonta aos pré-socráticos, em que o sentido de figura se aproxima do de imagem onírica, de fantasma, e logo do trabalho do desejo, do afecto, por oposição ou em complemento à ideia de figura como forma, enquanto contorno definido. De facto, na noção de figural, tal como é desenvolvida por Lyotard, ressoa este duplo sentido da
54 “Fazer emergir a figura fora do texto, libertá-la da supremacia da historia, da narração e do
comentário não significa, contudo, que o visível perca todo o seu sentido. Este protesto contra a discur- sividade das imagens é acompanhado do desejo de exprimir um espaço que escapa à apreensão textual, à ordem do discurso (um exterior da linguagem que no entanto a trabalha, a partir de dentro). I.e., o figural ou a pura figura, faz sentido, sem fazer história: há alguma coisa a ver e a compreender que não se pode dizer, apenas mostrar. Contudo, o figural não designa unicamente, e pela negativa, uma qualquer figura não-narrativa, liberta do seu modelo inteligível, entendido enquanto referente textual, e por conseguinte não-mimética (no sentido em que a mimésis se articula à historia); o figural quer-se igualmente ou sobretudo a expressão de uma realidade em excesso, um transbordar da ordem dis- cursiva e inteligível. Nestas condições, não é propriamente a questão do sentido que é evacuada, mas o que é alterado é sobretudo o modo de significação próprio ao regime discursivo, ao logos.” Olivier Schefer, “Qu’est-ce que le figural?”, Critique, n° 630 (novembre 1999): 914-16.
55 François Aubral, “Variations figurales”, in Figure, figural, ed. François Aubral et Dominique Cha-
palavra figura, que é de algum modo reconfigurado pela oposição entre figural e figu- rativo:
O figurativo é apenas um caso particular do figural. (...) O termo figurativo indica a possibilidade de derivar o objecto pictórico a partir do seu modelo ‘real’ através de uma translação contínua. O traço sobre o quadro figurativo é um traço não-arbitrário. A figuratividade é então uma propriedade relativa à relação do objecto plástico com o que ele representa. Ela desaparece se o quadro deixa de ter por função representar, se ele é ele próprio o objecto.56
Por oposição ao figurativo, o figural significa para Lyotard, nos termos de Nicole Brenez, “a disposição da imagem para se reflectir a si própria, para trabalhar sobre as suas próprias componentes.” Lyotard propõe, então, um paralelismo entre a desconstrução artística moderna, através da abordagem figural, e a atitude freudiana. Tal como para o inconsciente e para o sonho, o trabalho artístico, de crítica e de criação, alimenta-se da violência feita à organização manifesta da linguagem, da sua sintaxe, da sua linguagem articulada. O figural permite articular “a desconstrução formalista” e a “figurabilidade freudiana” e é o equivalente do trabalho do desejo, enquanto força destabilizadora das estruturas e regimes instalados de representação. 57 Deleuze, ao abordar a obra de Francis Bacon, refere, na senda de Lyotard, que há duas vias possíveis para escapar ao figurativo 58 na pintura – na direcção da forma pura, pela abstracção, ou então na direcção do puro figural (palavra que vai buscar jus- tamente a Lyotard), por extracção ou isolamento. “Se o pintor preza a Figura, se escolhe a segunda via, será para opor ‘o figural’ ao figurativo.” 59 O termo é, então, entendido pelos dois autores como uma contestação em relação ao entendimento comum, exclusivamente figurativo, do conceito de figura. No entanto, os dois autores
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Jean-François Lyotard, Discours, Figure (Paris: Klincksieck, 1971), 71, citado por Nicole Brenez, “L’Objection Visuelle”, in Le cinéma critique. De l’argentique au numérique, voies et formes de
l’objection visuelle, sous la direction de Nicole Brenez et Bidhan Jacobs (Paris: Publications de la Sor-
bonne), 2010, 6.
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C.f. Brenez, “L’Objection visuelle”, 6-7.
58 “O figurativo (a representação) implica com efeito a relação de uma imagem a um objecto que é
suposto ela ilustrar; mas implica também a relação de uma imagem com outras imagens num conjunto composto que dá precisamente a cada uma o seu objecto. A narração é o correlato da ilustração. Entre duas figuras, insinua-se sempre uma história ou tende a insinuar-se, para animar o conjunto ilustrado. Isolar é o meio mais simples, necessário embora insuficiente, para romper com a representação, quebrar a narração, impedir a ilustração, libertar a figura: cingir-se ao facto”. Gilles Deleuze, Francis
Bacon, Logique de la sensation (1981; rééd. Paris: Éditions du Seuil, 2002), 12.
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divergem quanto ao entendimento do figural a um nível mais detalhado: ligado ao desejo e ao inconsciente, em Lyotard, trazido à superfície do corpo e da sensação, em Deleuze.
I. 2. Georges Didi-Huberman - o figural contra a leitura iconográfica das