As concepções que o professor de educação infantil atribui à infância e à criança são questões que são destacadas pelas pesquisas da área, posto que os significados que esses profissionais conferem a esses conceitos tendem a incidir na prática pedagógica. Na perspectiva de Santos (2005), a compreensão do que é ser criança, estar na infância determina o tipo de funcionamento que é dado à instituição. Corroborando essa questão, Rocha diz que conhecer a concepção de infância e de educação que orienta o trabalho desenvolvido na educação infantil é um aspecto fundamental.
Nas palavras da autora:
Pensar, analisar e perspectivar a educação de criança em contextos institucionais educativos específicos exige que se retomem os diferentes níveis de análise sobre a criança, percebendo-se as diferentes dimensões de sua constituição e percebendo-a como um outro ser a ser ouvido e recebido (ROCHA, 1999, p.49).
A história da infância mostra que por muito tempo características próprias da criança foram desprezadas. Isto porque, nem sempre a criança foi reconhecida como tendo necessidades diferentes das do adulto. Em um estudo que buscou identificar e resgatar as concepções históricas de infância, Ariès (1986) fez emergir uma nova compreensão da infância situando-a como um acontecimento da história moderna. Segundo esse autor, durante parte da Idade Média, as representações acerca do estado da criança eram ausentes, somente
depois é que se iniciou o processo de identificação da criança como aquela com papéis sociais diferenciados daqueles dos adultos.
Ao se reportar à raiz etimológica da palavra, verifica-se que infância vem do latim in-
fans, que significa o que não fala, aquele que não tem linguagem. No entanto, com as
transformações em torno das definições de infância que ocorreram a partir da Modernidade, emergiram novas concepções que culminaram no que Rocha (1999) define como um movimento de ruptura e reconstrução de conceitos sobre o lugar da criança na sociedade e na ciência. O novo conceito de infância como categoria social que se delineia com a Modernidade remete à importância de direcionar múltiplos olhares sobre a infância, a partir das diferentes áreas do conhecimento que tem a criança como objeto de estudo.
Moraes (2005) lembra que a infância, enquanto categoria social, não é única e universal, ela sofre determinações históricas, culturais e econômicas das sociedades de um determinado tempo e lugar. Para Rocha, numa mesma sociedade, dependendo do contexto sócio-econômico e cultural, poderão existir diferentes infâncias. Por sua vez, Sarmento (2005a) assinala que o conceito de infância é historicamente construído. Completando esta questão, Müller (2006) destaca que as concepções sobre a infância variam historicamente, assim como as crianças também estão em contínua transformação.
Nas pesquisas educacionais, a infância aparece sob diferentes olhares. No ponto de vista de Moss (2005b), a infância está relacionada com a vida adulta, no entanto, não é hierarquicamente inferior. Segundo o autor, essa é uma fase da vida que deixa traços importantes para as etapas seguintes. Entretanto, a preocupação, ao trabalhar com a criança, deve ser a infância que ela está vivendo e não o adulto que ela será, pois, conforme defende o autor, a infância é uma etapa da vida a ser vivida e não uma mera preparação para o futuro. Em vista disso, Rocha ressalta a importância de uma ação pedagógica que contemple sujeitos múltiplos e diversos, reconhecendo a infância como tempo de direitos.
A concepção contemporânea de infância implica considerá-la em toda sua pluralidade de sentidos e vivências. A idéia de pensar a criança apenas do ponto de vista biológico, como um vir a ser, é criticada por estudiosos do assunto (FARIA, 1999; ROCHA, 1999), que defendem o argumento de que é preciso reconhecer as especificidades da criança. Conforme Sarmento (2001), as crianças foram consideradas como seres biológicos, sem estatuto social nem autonomia existencial. Assim, apesar das crianças sempre terem existido, como seres biológicos, nem sempre a infância existiu como categoria social. Como afirma o autor, se houve sempre crianças, não houve sempre infância.
A história de estudos sobre a infância produziu conceitos que enfatizavam a incompletude, imaturidade e incapacidade da criança em relação ao adulto. No entanto, essa concepção de incompletude é amplamente contestada por Sarmento (2005a), pois, para ele, a origem da infância está associada à presença de características próprias e não à ausência de características do adulto. Faria (1999) acrescenta que a ausência dessas características representa a própria infância.
As crianças sempre existiram, independentemente das idéias que as sociedades tinham sobre elas. Contudo, a produção de saberes sobre a infância surgiu a partir do momento em que a criança se tornou uma preocupação para o adulto. De acordo com Moraes (2005), o século XX é considerado o século das crianças, em virtude da disseminação de estudos e pesquisas direcionadas a elas. A concepção de criança como produtora e consumidora de cultura (FARIA, 1999; 2005; MORAES, 2005; ROCHA, 1999; SARMENTO, 2001; 2005) muda as formas de pensar e de fazer a educação da criança pequena, além de indicar uma proposta educativa que valoriza a cultura infantil e considera a criança como um outro diferente do adulto.
Para Santos (2005), a maneira como se conceitua a infância está muito relacionada com a maneira como se compreende a criança. Micarello e Drago (2005) alertam para o fato de que a imagem da criança como um ser mitificado e angelical implica negar sua condição de sujeito histórico e social. Nesse sentido, não é demais lembrar a importância de compreender qual o conceito de criança/infância que norteia a prática pedagógica na educação infantil, já que, conforme mostra Corsino (2005), as crianças, em função do contexto, são tratadas como adultos em miniatura (adultização) ou como imaturas e despreparadas (infantilização).
Desse modo, é importante acentuar que a reflexão sobre as concepções de criança, infância e educação infantil parece emergir como uma questão fundamental se o que se almeja é construir o que Araújo (2005, p.73) diz ser: "uma educação inclusiva para a infância, a partir da infância, a partir da criança e com a criança".