Chapter 3. Study design
3.2 Method
Neste estudo feito nas orlas reordenadas e naquelas cujos projetos de intervenção urbanística estão prestes a serem implantados, pudemos verificar que quase sempre as questões relativas ao mobiliário urbano são tratadas de modo imediatista, entendidas como aspectos complementares secundários do ambiente físico urbano, onde seu fator de interatividade e legibilidade com um dado lugar, muitas vezes é ignorado.
Muitos elementos de mobiliário urbano implantados não suprem as necessidades de seus usuários, fazendo com que adaptações e intervenções espontâneas aconteçam, acarretando alterações prejudiciais a configuração do produto e, conseqüentemente, o comprometimento de todo um sistema projetado para um determinado fim.
É natural que novas demandas surjam e que os produtos sofrem modificações ao longo do uso e do tempo; entretanto, quando se observa que durante o processo de planejamento de um determinado sistema de produto não houve uma ação de previsão das possíveis necessidades e intervenções a serem feitas, soluções inadequadas que comprometem vários fatores, acontecem.
Faz-se necessário considerar os aspectos culturais, históricos, climáticos e bio-fisiológicos quando se busca uma melhor qualidade de vida para a cidade e seus habitantes, sem ter que para isso romper com referenciais culturais e simbólicos de uma determinada comunidade. Deve-se levar em conta também, nos processos de intervenção no espaço público urbano a coerência e equilíbrio na implantação do mobiliário urbano, de modo que esses elementos não prejudiquem a circulação dos pedestres, não interfiram na paisagem local, e sejam adaptáveis às características antropométricas de seus usuários.
Nos processos de reordenamento e urbanização de orlas aqui estudados, o projeto e planejamento dos elementos do mobiliário urbano levantam questões pertinentes, relativas a sua adequação às necessidades funcionais e de uso, como também aspectos relacionados à referenciais simbólicos, históricos e culturais dentro de uma determinada inter-relação de circunstâncias urbanas tendo suas
implicações na construção de uma imagem ambiental e/ou imagens públicas, como também na construção de um sentido de lugar.
Nos projetos de reordenamento das orlas de Ponta Negra e Redinha, o mobiliário implantado não se integra às paisagens, naturais, culturais e construídas já que se baseiam em uma padronização e homogeneização de estruturas que desconsideram os referenciais existentes no contexto do local onde foram implantados. Apresentam-se como a repetição de elementos urbanos existentes em outras orlas que possuem paisagens e percepções ambientais distintas.
A utilização de materiais metálicos em uma zona com alta concentração de oxidação, como por exemplo, o uso de tubos metálicos como suportes para placas de sinalização em plena orla; bio-climáticas, como a insolação constante, alta temperatura, uso de materiais dissipadores de calor, como a utilização de pranchas de madeira e concreto armado nos assentos dos bancos que ficam expostos ao sol; antropométricas e ergonômicas, como a falta de espaço interno para a realização de tarefas domésticas nos quiosques, são soluções de caráter tecnológico que não se adequam aos usos e atividades realizadas pelos usuários do local.
Do mesmo modo, características paisagístico-ambientais, como a utilização de formas, signos e imagens, estruturas e elementos referenciais alheios ao contexto do lugar, como o formato dos quiosques ou a escala desproporcional dos postes em relação as edificações; assim como a não utilização de texturas e acabamentos de elementos locais, podem ser observados no mobiliário urbano implantado naquelas orlas específicas.
As demandas por elementos do mobiliário urbano foram constatadas nas duas orlas urbanizadas, já que a ausência de alguns desses elementos nos locais analisados que poderiam suprir as necessidades dos usuários, conduz a improvisações e adaptações que têm como conseqüência mudanças da paisagem natural e construída, “favelização” das praias, desorganização espacial, comprometimento dos referenciais simbólicos e alteração da percepção ambiental.
As soluções propostas para os elementos urbanos nos projetos de intervenção urbanística para as orlas de Cotovelo, Pirangi do Norte e Barra de Cunhaú, apresentam uma maior preocupação com o contexto, sua paisagem e seus
elementos referenciais, procurando uma melhor adequação do mobiliário às condições ambientais dos locais estudados, atribuindo-lhes maior diferenciação.
Mesmo quando se trata da especificação de estruturas-padrão de mobiliário urbano como postes ou luminárias, deve-se levar em conta os aspectos tangíveis - como a paisagem, os elementos referenciais naturais e construídos -, e intangíveis – como as imagens, percepções e a cultura -, do lugar onde será implantado. As soluções padronizadas existentes em catálogos devem funcionar mais como um guia para a seleção do produto mais adequado ao contexto, ou como uma referência para o desenvolvimento de novas soluções para um projeto específico.
Sob a ótica e os princípios norteadores do Desenho Industrial, os elementos levantados e analisados nos projetos de reordenamento das orlas de Ponta Negra e Redinha, apesar de serem classificados como mobiliário urbano, não se apresentam como conceitos de produtos elaborados dentro uma concepção de Desenho adequado às necessidades e funções específicas de seus usuários.
Fatores técnicos como produção, montagem, manutenção e reposição racionalizadas de estruturas e componentes; aspectos conceituais como a geração da forma, da aplicação cromática e dos acabamentos polisensoriais; princípios antropométricos, ergonômicos, sociais, culturais e ambientais, não são compreensíveis ou notórios nos produtos avaliados, fato este que não caracteriza tais elementos como soluções resultantes de projetos elaborados sob os preceitos do Desenho Industrial.
Os projetos para as orlas de Cotovelo e Pirangi do Norte apresentam propostas de mobiliário urbano que se aproximam mais das considerações levantadas pelo Desenho Industrial naquilo que diz respeito ao desenvolvimento de produtos destinados a um uso, contexto e público específico. Entretanto, algumas soluções estão mais relacionadas ao sentimentalismo regional descrito por Frampton (1997), do que propriamente à criação de algo criativo e que atue de maneira sistêmica ao ambiente implantado, conferindo-lhe uma personalidade própria, contribuindo para um uso adequado do local e das funções dos produtos para a satisfação das necessidades de seus usuários, além de definir imagens que favoreçam a percepção ambiental, e a compreensão dos referenciais simbólicos.
Apresentam-se como resultado de projetos arquitetônicos e paisagísticos e não de Desenho Industrial.
As propostas de mobiliário urbano elaboradas para Barra de Cunhaú tentam resgatar aspectos materiais, construtivos e simbólicos do lugar através de elementos referenciais existentes naquele local. Porém, o aspecto estético é a manifestação mais notória nos produtos propostos, apresentando soluções técnicas inadequadas àquele tipo de produto, seja do ponto de vista da fabricação, conservação, manutenção e substituição dos elementos de mobiliário.
Outro ponto a ser destacado faz referência à seleção e aplicação de cores e ícones pictográficos: se a proposta visava desenvolver um sistema de produtos específicos para a orla de Cunhaú, a comunicação e linguagem pictográfica também deveria ser alvo de elaboração diferenciada, de modo a criar uma identidade gráfica própria para o local, assim como um planejamento gráfico que preveja futuras ampliações e adequações do sistema projetado. O mesmo raciocínio pode ser aplicado também à adequação de sistemas gráficos existentes em catálogos, programas de computador, entre outros.
Os elementos analisados nos contextos das orlas pesquisadas apresentam-se como soluções pontuais, propostas para atender as necessidades gerais dos projetos de intervenção, caracterizando-se como mobiliário urbano, mas que se ressentem de estudos relacionados ao desenvolvimento de produtos segundo os preceitos do Desenho Industrial.
Esses aspectos requerem atenção tanto por parte dos Desenhadores tanto quanto dos responsáveis pelo desenvolvimento de projetos de reordenamento e revitalização de orlas, ou de quaisquer espaços abertos de uso público, sejam eles autoridades técnicas ou políticas, uma vez que implicações não apenas de ordem técnica e econômico-financeira, mas também sócio-culturais, ambientais, perceptivas e humanas estão envolvidas.
O enfoque principal desse tipo de projeto deveria ser sempre a busca por uma melhor qualidade de vida para os usuários através do planejamento e da concepção de espaços e produtos que atendam prioritariamente suas necessidades e agreguem valor as funções e usos aos quais se destinam.
Constatou-se neste trabalho que, apesar da importância desses elementos no cotidiano urbano de uma cidade, sua configuração e usos adequados ainda são tratados como itens secundários por vezes dificultando a circulação, a comunicação, a criação e a percepção de imagens ambientais de um lugar específico pela inadequação da implantação do mobiliário urbano.
A falta de atenção ao vocábulo dos objetos, dos materiais e de uma hierarquia de uso e de estética entre as várias partes dos sistemas de produtos analisados – neste caso específico o mobiliário urbano instalado nas orlas estudadas e seus projetos -, concorre para sua degradação e usos inadequados, além de contribuir para a criação dos chamados “não-lugares” por não apresentarem uma originalidade na sua configuração que mantenha um vínculo entre o produto, o usuário e o ambiente.
Essa falta de coerência formal e de uso pode ser observada em alguns elementos urbanos instalados em Ponta Negra como as lixeiras, os quiosques e os suportes de sinalização; na Redinha como os quiosques, os postes e os guarda- corpo; ou nas propostas elaboradas para Barra de Cunhaú como os bancos, as lixeiras e os suportes para iluminação pública.
Revitalizar ou reurbanizar um determinado espaço de uso público é um fator importante para as cidades no sentido de manter vivo o seu “espírito cidadão”. Porém, é preciso que também haja um processo de manutenção para que, com o passar do tempo, aquele patrimônio não se desgaste afastando seus freqüentadores e, conseqüentemente, levando ao uso inapropriado e, seguidamente, a sua “morte”.
A deficiência de normas públicas mais específicas para a regulamentação dos projetos, implantação e manutenção de mobiliário urbano nas cidades, e especificamente nas suas orlas, dificultam o entendimento da importância desses equipamentos urbanos públicos, provocando situações equivocadas e projetos inadequados à própria vida urbana cotidiana dos seus cidadãos.
Levantou-se nesta pesquisa que, muitas vezes pela omissão do Estado, as áreas de uso comum sofrem um processo de degradação que acaba por configurar a própria degradação da cidade como um todo, sua história e sua cultura, fazendo com que aquelas áreas caiam em desuso, ou, em uma hipótese mais otimista,
tenham um uso inadequado. Comumente esse uso inadequado favorece a depreciação daqueles espaços e, conseqüentemente, o comprometimento do patrimônio público, sendo o mobiliário implantado aquele que apresenta os sinais de desgaste mais rápido em sua estrutura.
De acordo com a proposição apresentada por Lynch (1997), no nosso ambiente urbano é preciso se ter um ambiente ordenado que produza um sistema de referências, criando um imaginário baseado em signos, símbolos e reminiscências coletivas da comunicação e da vivencia em grupo, a partir dos quais poderão se estabelecer parâmetros projetuais na criação de sistemas de produtos mais integrados – neste caso específico, o Desenho de mobiliário urbano-, ao contexto e as demandas, necessidades e desejos de seus cidadãos.
A padronização excessiva dos meios, métodos, técnicas, tecnologias, materiais e conceitos para ao desenvolvimento e implantação do mobiliário urbano nas orlas é um aspecto presente nos projetos de intervenção estudados, provocando uma repetitividade e homogenização nas áreas, muito embora elas possuam peculiaridades e marcos referenciais próprios. De acordo com o Manual para implantação de mobiliário urbano na cidade do Rio de Janeiro (1996), a padronização facilita a produção dos produtos, porém ela não deve ser o fator primordial que defina a criação de objetos para contextos que são diferentes.