8.2 Numerical study in IMPETUS Afea Solver
8.2.2 Material parameter study
O modelo de política científica e tecnológica que emergiu do relatório de Vannevar Bush de 1945 (Science, the Endless Frontier) foi o modelo linear, segundo o qual a inovação somente poderia ser obtida por meio de investimentos em ciência básica pura, ou seja, aquela que é feita e orientada exclusivamente pela curiosidade do cientista. Tal modelo baseava-se na máxima de Bush de que “os progressos na ciência fundamental alimentariam os futuros avanços tecnológicos do país”. Uma vez descoberto um novo fenômeno, ou alcançado a compreensão de algum fenômeno conhecido, o passo seguinte seria verificar as possibilidades de aplicação para o novo conhecimento científico. Assim, esforços seriam feitos para viabilizar uma nova tecnologia baseada no conhecimento científico. Após dominada a nova tecnologia, o passo seguinte seria desenvolver algum produto útil para a sociedade, com base na aludida tecnologia. Finalmente, o produto assim desenvolvido seria lançado no mercado, tornando-se uma inovação. Portanto, tal modelo de política acreditava que o investimento em ciência pura era a única esperança de se obter as inovações tecnológicas que deveriam satisfazer as necessidades da sociedade. Além disso, os formuladores de política de C&T acreditavam que a pesquisa científica pura deveria ser custeada pelo Estado, por ser um “bem público”, enquanto que a pesquisa aplicada deveria estar a cargo do setor privado, por estarem mais próximas do mercado (STOKES, 2005). A Figura 9 ilustra o modelo linear de política de C&T.
Figura 9: modelo linear de política de C&T
Fonte: Viotti (2003)
Tal modelo vigorou com uma certa força até meados da década de 1980. A partir da década de 1990, contudo, verificou-se que o modelo linear de política de
77 C&T já não mais representava a realidade do processo de inovação. De fato, constatou-se que o Japão alcançou um impressionante sucesso em seu desenvolvimento graças a sua capacidade de adquirir e aperfeiçoar a tecnologia obtida do resto do mundo, a partir do fim da 2ª Guerra Mundial, mesmo sem possuir a capacidade de gerar conhecimento científico autóctone (STOKES, 2005).
De forma similar, os Estados Unidos da América, nas primeiras décadas do século XX, ainda estavam atrasados em seu desenvolvimento científico, mas conseguiu absorver tecnologia européia, o que o levou a tornar-se líder mundial em tecnologia industrial (Stokes, 2005). Além disso, foram realizadas pesquisas que apontaram que a sociedade esperava que a ciência solucionasse os seus problemas. Assim, tais pesquisas deixaram claro que a sociedade entendia a ciência muito mais como uma atividade instrumental do que como um ideal platônico de investigação. Desse modo, emergiu um novo modelo de política de C&T que prioriza o investimento do Estado em pesquisa básica inspirada pelo uso. No entanto, mesmo nesse novo modelo, não está descartado o investimento estatal em pesquisa científica pura. O argumento para manter esse tipo de investimento é a necessidade de o país se manter preparado para absorver novas descobertas científicas e tecnológicas que aconteçam em outros lugares do mundo (STOKES, 2005). Contudo, mesmo ao investir em pesquisa científica pura, é necessário definir as prioridades de investimento em face da grande variedade de áreas da ciência. Nesse caso, o novo modelo de política de C&T procura priorizar o investimento em pesquisa científica pura naquelas áreas em que o curso da pesquisa passa pelo atendimento das necessidades da sociedade.
Surge, portanto, um novo questionamento: como definir as prioridades de investimento em pesquisa científica? Essa questão começou a ser considerada com mais seriedade quando alguns países da OCDE3 passaram a ter um interesse mais profundo no que eles denominaram “pesquisa estratégica”. Tal pesquisa estratégica seria aquela que canalizaria de maneira mais efetiva a capacidade de pesquisa do país em direção às necessidades insatisfeitas da sociedade. Ou seja, a pesquisa estratégica é sinônimo de pesquisa orientada pelo uso. Dessa forma, os países da
78 OCDE passaram a buscar formas de “previsão da pesquisa”, ou dito de outra forma, análise prospectiva em C&T (STOKES, 2005).
Por exemplo, o Japão desenvolveu um processo de análise prospectiva que orienta seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento (MARTIN, 1989). Os japoneses periodicamente realizam revisões dos cenários e previsões científicas e tecnológicas. Eles trabalham com o conceito de “sementes” de pesquisa e “necessidades sociais”. As sementes de pesquisa seriam os indícios, ou “fatos portadores de futuro”, que trariam em seu bojo um forte potencial de aplicação para suprir as “necessidades sociais”. Para tanto, utilizam uma gama de ferramentas e metodologias, como redes de informantes, levantamentos de campo, Método Delphi, seminários com especialistas e estudos especializados feitos por institutos de pesquisa (STOKES, 2005). O resultado desse trabalho é consubstanciado em cenários tecnológicos que apresentam as promessas de pesquisa em várias áreas da ciência, as exigências da economia e as necessidades gerais da sociedade. Em face desses cenários, o Estado japonês define as prioridades de investimento em C&T. Dessa forma, fica claro que o Japão utiliza a análise prospectiva como ferramenta para a definição de políticas de C&T.
Dentre os países emergentes, a Coréia do Sul destacou-se por ter desenvolvido uma política científica e tecnológica bem sucedida, que possibilitou transformar aquele país, de uma economia agrária, em uma potência industrial tecnologicamente avançada, em apenas 30 anos. O modelo de política de C&T adotado pela Coréia possuiu duas fases distintas: as fases da “imitação” e da “inovação” (KIM, 2005).
Na fase da imitação, de 1960 a 1979, o Estado coreano focou o esforço científico-tecnológico na imitação de produtos estrangeiros com pouco conteúdo tecnológico, com ênfase na Engenharia Reversa. Para tanto, restringiu os Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) e os Licenciamentos de Tecnologia Estrangeira (LTE). Isso obrigou as empresas coreanas nascentes a importar bens de capital e aprender a fabricar produtos similares aos importados. Além disso, foi
79 iniciado o desenvolvimento de uma infra-estrutura científico-tecnológica, baseada na criação de institutos de pesquisa governamentais, como o Instituto de Ciência e Tecnologia da Coréia (ICTC), e Parques Tecnológicos, como o Parque Científico de Seul e o Pólo Científico de Taedok (KIM, 2005).
Na fase da inovação, de 1980 até os dias de hoje, a Coréia buscou dominar a fabricação de produtos intensivos em tecnologia. Para tanto, o Estado coreano fez uso de dois mecanismos principais: investimentos diretos em P&D e pacotes de incentivos diretos. Os investimentos diretos em P&D caracterizaram-se pela promoção da pesquisa em universidades, com a criação de catorze Centros de Pesquisas Científicas e dezesseis Centros de Pesquisa em Engenharia nas universidades do país. Além disso, estabeleceu três projetos importantes: o Projeto de Desenvolvimento de Tecnologia Industrial Genérica (PDTIG); o Projeto Nacional de P&D; e o Projeto de Atividades Nacionais de P&D Altamente Avançadas.
Para orientar os aludidos projetos, o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) realiza exercícios de análise prospectiva, nos quais identifica as áreas prioritárias para a P&D, por exemplo: nacionalização da fabricação de peças e componentes; desenvolvimento de novos materiais; tecnologias de conservação de energia; biotecnologia; combustíveis nucleares; supercomputação; e semicondutores, dentre outras áreas (KIM, 2005).
Dessa forma, resta evidente que o modelo linear de inovação, consagrado por Vannevar Bush, não representa mais a realidade do processo de inovação. Em contraste, o modelo que prioriza o investimento em ciência nas áreas de maior probabilidade de aplicação parece atender melhor as necessidades atuais da sociedade. Os países da OCDE, com destaque para o Japão e a Coréia do Sul, já realizam a análise prospectiva como forma de definir as áreas que deverão ser priorizadas para a P&D.
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