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Se a proposta da análise prospectiva no âmbito da presente tese é que possa ser utilizada pelo Estado como ferramenta para orientar a ciência, a tecnologia e a inovação, então deve-se investigar o seguinte: em termos filosóficos, é possível orientar a C&T? Isso leva a uma outra questão, ainda mais fundamental: fazer ciência significa, necessariamente, buscar a ampliação do conhecimento sem a preocupação de sua aplicação prática? Essa subseção discutirá brevemente as bases filosóficas dessa questão, à luz da literatura existente sobre o assunto.

Atribui-se aos gregos a criação do que se considera a investigação científica. Segundo LAW (2008, p.57), é a partir de Tales de Mileto (585 a.C.?), além de outros pensadores milésios, que se buscou explicações naturalistas para os fenômenos, em vez de apelar para mitos e ações de deuses antropomórficos. Os filósofos gregos daquela época rejeitaram a consecução de aplicações práticas como um fim legítimo da filosofia natural.

58 Para Platão (427-347a.C.), dois aspectos levavam a separar a busca do conhecimento de sua aplicação prática. Primeiro, os cidadãos empenhados na investigação filosófica deviam possuir uma posição social mais elevada do que aqueles que faziam trabalhos manuais. Além disso, o verdadeiro conhecimento estava nas formas gerais ou ideais, e não nos objetos do mundo cotidiano. Conseqüentemente, o conhecimento não poderia ser alcançado por meio dos sentidos, e, portanto, não deveria estar ligado a uma necessidade de aplicação prática (PLATÃO, 2010).

Aristóteles (384-322 a.C.) discordou de Platão quanto ao meio de alcançar o conhecimento. Aristóteles afirmava que o conhecimento devia se fundar na experiência, ou seja, o ponto de partida do conhecimento deveria ser os sentidos. Ele admitia a indução como forma de generalização, mas apenas para estabelecer premissas. A partir daí, Aristóteles afirmava que o conhecimento deveria ser alcançado por meio de dedução, a exemplo do silogismo a seguir: “todos os homens são mortais”; “Sócrates é homem”; logo, “Sócrates é mortal”. No entanto, Aristóteles continuou rejeitando a utilização prática como propósito da investigação científica, afirmando que os homens “filosofavam para escapar à ignorância, [pois] eles estavam evidentemente buscando a ciência com o objetivo de conhecer, e não por qualquer fim utilitário” (ARISTÓTELES, 2010).

Durante a Idade Média (476-1453), a filosofia foi caracterizada pela busca de justificativa para as crenças religiosas por meio de argumentações racionais, o que ficou conhecido genericamente por Escolástica. De forma geral, os filósofos medievais discutiram e criticaram o ponto de vista aristotélico sobre o processo científico, e sua afirmativa de que o conhecimento científico é uma verdade necessária. Roger Bacon (1214-1292) sugeriu que a base factual do conhecimento poderia ser aumentada por meio da experimentação ativa. Duns Scotus (1265-1308) elaborou um método científico conhecido como Método da Concordância, que consistia em relacionar as circunstâncias presentes nos vários casos de um determinado fenômeno, a fim de verificar se alguma delas se repete em todos os casos (LOSEE, 2000).

59 Posteriormente, no século XVI, Francis Bacon (1561-1626) propôs uma nova abordagem ao esforço científico, baseada na observação do mundo, usando essas observações como base para a formulação de teorias (apelo utilitarista e indutivista). Bacon criticou a Escolástica, que considerava estéril por não apresentar nenhum resultado prático para a vida humana. Criticou também a visão de ciência aristotélica, baseada no raciocínio silogístico (dedutivo). Em contraponto, Bacon preconizava o raciocínio indutivo como forma de se fazer ciência. Em sua análise, o conhecimento seria um meio de conquistar poder sobre a natureza, atribuindo-se a ele o aforismo “saber é poder”. Ele afirmava que os homens deveriam controlar e dirigir as forças da natureza a fim de melhorar a qualidade de vida de seus semelhantes. Ou seja, para Bacon, o fim último da investigação científica é o poder sobre a natureza. Dessa forma, a ênfase de Bacon sobre a aplicação prática do conhecimento científico aparece em marcado contraste com a posição de Aristóteles de que o conhecimento constitui um fim em si. Dessa forma, Bacon considerava que a ciência deveria ser feita tendo em vista sua aplicação prática (BACON, 2010; LOSEE, 2000).

Mais tarde, no século XVIII, David Hume (1711-1776) aprofundou a discussão sobre o inducionismo, no que ficou conhecido como “o problema da indução”. Para Hume, a razão humana não é suficiente para fazer avançar a ciência por meio da indução. É dele o famoso aforismo “a razão é escrava da paixão”. Com isso, Hume queria dizer que, a partir de um determinado ponto na busca do conhecimento, o pesquisador deverá confiar em sua intuição, mais do que na razão (HUME, 2001).

Já no século XX, Karl Popper (1902-1994) rejeitou a concepção de Hume e propôs que a ciência avança por meio da tentativa de falsificação das teorias existentes. Para Popper, uma teoria só pode ser considerada científica se for falsificável, isto é, se for possível apresentar evidências que invalidem a teoria. Uma vez que a teoria é provada falsa, então uma nova teoria é formulada para substituí- la, avançando as fronteiras do conhecimento humano. Popper contornou, assim, o problema da indução de Hume. Portanto, para Popper, não havia necessidade de que a ciência tivesse aplicação prática (POPPER, 1959).

60 Buscando explicar como a ciência é feita, Thomas Kuhn (1922-1996) desenvolveu uma teoria das revoluções científicas. Ele afirmou que há períodos em que a ciência se desenvolve de forma “normal”, por meio do acúmulo sucessivo de conhecimento em torno de determinados paradigmas. Contudo, existiriam determinados momentos em que o paradigma é quebrado e acontece uma “revolução científica”, substituindo o paradigma antigo por um novo. Por “ciência normal”, Kuhn se referia à pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas. Por paradigma, entendem-se os fundamentos do campo de estudos, ou seja, aquilo que é tomado, pela comunidade científica, como certo e não discutível. Assim, segundo o enfoque historicista de Kuhn, a ciência se desenvolve segundo determinadas fases, a saber: 1) estabelecimento de um paradigma; 2) ciência normal; 3) crise; 4) revolução científica; e 5) estabelecimento de um novo paradigma. Em suma, o que Kuhn nos propõe é uma alternativa ao progresso cumulativo, característico da explicação indutivista da ciência baconiana (KUHN, 2009).

Finalmente, Donald Stokes (1928-1997) defendeu a idéia de que a pesquisa científica estratégica deveria ser, prioritariamente, orientada pela possibilidade de gerar aplicações práticas, o que denominou “ciência inspirada pelo uso” (STOKES, 2005). Ele identificou três modalidades de pesquisa: a pesquisa básica pura; a pesquisa básica inspirada pelo uso; e a pesquisa aplicada pura. Segundo Stokes, a pesquisa básica pura é aquela motivada exclusivamente pela curiosidade do pesquisador, e seria exemplificada pelo trabalho do físico Niels Bohr, que formulou um modelo atômico sem preocupação do impacto que sua pesquisa poderia ter no mundo. A pesquisa aplicada pura seria representada pelo trabalho de Thomas Edison, que conduziu pesquisas direcionadas exclusivamente por objetivos práticos, sem procurar por um entendimento mais geral dos fenômenos científicos subjacentes.

O terceiro tipo de pesquisa – a pesquisa básica inspirada pelo uso – seria um meio termo entre aqueles dois, sendo exemplificada pelo trabalho de Louis Pasteur, que procurou compreender fenômenos científicos esperando, contudo, que essa compreensão possibilitasse solucionar um problema prático, o que Stokes denominou “Quadrante de Pasteur” (STOKES, 2005).

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