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3.4.3.1 Características gerais

Grupos focais são entrevistas coletivas conduzidas por um moderador, que tem o papel de estimular a comunicação e a interação entre os entrevistados (VERGARA, 2009, p. 7), mas não deve emitir opiniões pessoas nem tentar influenciar os entrevistados (MARTINS, 2007).

Trata-se, como qualquer entrevista, de um diálogo orientado para buscar dados e informações para e/ou sobre algo que se está pesquisando (MARTINS, 2007, p. 52), além de compreender perspectivas e experiências dos entrevistados relacionados ao objeto de estudo (MARCONI e LAKATOS, 2010, p. 278).

Muito utilizados em pesquisas nas áreas de saúde, ciências sociais, comunicação e administração, grupos focais diferem de entrevistas grupais por, necessariamente, envolverem um roteiro semi-estruturado, com questões que nortearão a discussão a respeito de algum tema específico (DE ANTONI et al, 2001, p. 41).

Alguns requisitos comuns a grupos focais são encontrados na literatura a respeito: a. Compostos por cinco a doze membros entrevistados (IERVOLINO e

PELICIONI, 2001);

75 Vergara (2009, p. 7) utiliza outros termos como sinônimos, como grupo de foco, entrevistas focalizadas de grupo e reuniões de grupos. Por questões de estilo e padronização, o autor adotou, neste estudo, o termo grupo focal.

b. Sessões de uma a duas horas (VERGARA, 2009);

c. Possibilidade de haver uma ou mais sessões de grupo focal (DE ANTONI et al, 2001);

d. Formado por membros com algumas características homogêneas (como dados demográficos e relação com o tema), mas que permitam uma adequada heterogeneidade de visões sobre o tópico discutido (IERVOLINO e PELICIONI, 2001);

e. Discussão inicia por tópicos mais simples e generalistas (LUDWIG, 2009), culminando em itens mais específicos e profundos;

f. Normalmente, discutem-se até cinco questões/tópicos por sessão (MARCZAK e SEWELL, 2012).

Neste estudo, o objetivo principal buscado com a adoção do grupo focal foi coletar opiniões sobre as diretrizes propostas e identificar tópicos que merecessem estudos futuros de aprofundamento.

A utilização de grupos focais com este propósito, inclusive com relação a modelos de maturidade e códigos de melhores práticas, pode ser vista em Weyns, Höst e Helgesson (2012), Dubai (2012), Maia, Moraes e Freitas (2011), OECD (2006), Smit (2005).

3.4.3.2 Planejamento

Na etapa de planejamento, definiram-se, basicamente, os tópicos de discussão, os critérios de seleção para o grupo focal e sua dinâmica de funcionamento.

Decidiu-se por um grupo focal de sete pessoas, que atendesse aos seguintes critérios: a. Formação acadêmica mínima: pós-graduação lato sensu;

b. Experiência profissional relacionada ao tema governança corporativa de, no mínimo, três anos;

c. Coletivamente, o grupo deveria reunir as seguintes experiências individuais: pelo menos um diretor (atual ou ex), pelo menos um conselheiro de administração (atual ou ex), conselheiro fiscal (atual ou ex), estruturação de órgãos de governança, elaboração de acordos de acionistas e projetos de aquisições societárias;

d. Ter ao menos uma pessoa que tivesse participado ativamente da elaboração do Código IBGC;

e. Ter ao menos um representante da área acadêmica, preferencialmente que desenvolvesse pesquisas na área de governança corporativa;

f. Membro algum do grupo focal poderia ter qualquer relação de parentesco ou subordinação hierárquica com o autor do estudo, que foi o mediador do encontro.

Os critérios visaram formar um grupo de perfil homogêneo, mas com experiências diversificadas, de forma a potencializar a sinergia que Vergara (2009) menciona ser possível capturar em grupos focais.

Oito possíveis candidatos, à luz dos requisitos mencionados, foram contatados pelo autor. Dois declinaram do convite e os seis restantes, que aceitaram o convite, têm suas qualificações sintetizadas no Quadro 9.

Foi agendado apenas um encontro, para o dia 26 de janeiro de 2012, entre 19 e 20 horas, na sede do IBGC, localizada na Av. Nações Unidas, nº 12551, São Paulo-SP.

Conforme previamente acordado com os entrevistados, o autor do estudo lhes enviou, por e-mail, com seis dias de antecedência, um material introdutório com informações básicas sobre a dinâmica e as expectativas do encontro (Apêndice B). Além disso, antecipou os tópicos que seriam essencialmente discutidos (Apêndice C).

Uma pessoa foi alocada exclusivamente para registrar os comentários, o que evitou que o mediador tivesse que distribuir sua atenção entre a discussão e as anotações.

Quadro 9: Composição do grupo focal.

Cargo Companhia em que atua Nível de formação acadêmica

Experiência em governança corporativa

Gerente executivo de direito societário.

Banco do Brasil S.A. (instituição financeira estatal de grande porte,com ações listadas na BM&F Bovespa, Novo Mercado).

Mestrado. Assessoramento a órgãos de governança (CA, CF, Diretoria, AG, comitês), elaboração de acordos de acionistas, projetos de fusões e aquisições. Diretor de governança corporativa e controles internos. Companhia Brasileira de Soluções e Serviços S.A. (companhia privada de médio porte, sem ações listadas na BM&F Bovespa).

Especialização. Ex-Conselheiro Fiscal, ex-Conselheiro de Administração, atual diretor responsável pelo desenvolvimento e manutenção do sistema de governança corporativa da companhia.

Consultor jurídico.

Bradesco S.A. (instituição financeira privada de grande porte, com ações listadas na BM&F Bovespa, Nível 1).

Especialização. Auditoria, elaboração de acordos de acionistas, projetos de fusões e aquisições, operações de mercado de capitais.

Cargo Companhia em que atua Nível de formação acadêmica

Experiência em governança corporativa

Gerente de governança corporativa.

Cielo S.A. (companhia privada de grande porte, com ações listadas na BM&F Bovespa, Novo Mercado).

Especialização. Relações com investidores, assessoramento a órgãos de governança corporativa (CA, CF, Diretoria, AG, Comitês).

Superintendente de

conhecimento.

IBGC (instituição sem fins lucrativos, dedicada a governança corporativa).

Especialização. Ex-analista de investimentos, ex-

conselheira fiscal, participou da elaboração do Código IBGC, coordena publicações, treinamentos e assessorias em governança corporativa.

Pesquisador-

chefe. IBGC (instituição sem fins lucrativos, dedicada a governança corporativa).

Mestrado. Participou ativamente da elaboração do Código IBGC e realiza pesquisas sobre o tema governança corporativa.

3.4.3.3 Realização do encontro e utilização dos registros

Todos os que haviam confirmado participação estiveram presentes e foram instados, na abertura da reunião, a se apresentar e tecer algumas considerações iniciais sobre o estudo. O objetivo era deixar o grupo mais à vontade e desinibido.

O mediador foi autorizado a gravar os comentários, o que lhe permitiu manter total atenção nos entrevistados e em suas participações. Durante o encontro, os tópicos previstos foram abordados e discutidos. À medida que cada um era encerrado, o mediador sintetizava rapidamente os principais comentários e opiniões divergentes.

Ao final do encontro, o mediador agradeceu a participação de todos e comprometeu-se a enviar a versão final da dissertação.

No mesmo dia, ambos os registros foram analisados e suas principais conclusões encontram-se incorporadas ao trabalho. Para fins de verificação da lisura do processo, foi submetido à secretária da reunião, para validação, os trechos da dissertação que abordam as opiniões emitidas durante o grupo focal.

3.4.3.4 Limitações e desvantagens do método

Embora plenamente possível de ser utilizada, a técnica de grupo focal possui algumas limitações que merecem destaque (VERGARA, 2009). O Quadro 10 os traz acompanhados das medidas adotadas para mitigá-los.

Quadro 10: Limitações de grupos focais e medidas mitigadoras.

Limitação/desvantagem Ação mitigadora / justificativa Possível dificuldade de expressar ou articular

opiniões e idéias (entrevistador e/ou entrevistado).

Elevou-se o nível de qualificação exigido para participação do grupo focal.

Grupo focal pode ter experiências ou níveis de qualificação muito desnivelados.

Grupo focal pode não se preparar adequadamente

para contribuir com o tema. Um material introdutório foi enviado ao grupo focal com seis dias de antecedência. Além disso, minutos iniciais do encontro foram utilizados para que o autor do estudo tirasse eventuais dúvidas.

Entrevistador influenciar deliberadamente a

entrevista e direcionar as opiniões emitidas. Além de haver uma proibição sobre parentes e ligados hierarquicamente, o mediador deixou claro, desde que fez o primeiro contato com todos do grupo focal, de que sua participação seria meramente instigadora e não persuasiva. Entrevistado pode se sentir inibido. Discussão inicial envolveu temas mais simples e

generalistas, de forma a formar um ambiente propício para discussão.

Dificuldade em registrar os comentários e manter

a atenção nos entrevistados. Alocação de uma profissional exclusiva para registrar e gravar a reunião. Fonte: Adaptado de Vergara (2009), Ludwig (2009), De Antoni et al (2001).

3.5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste capítulo, foram descritas e justificadas a abordagem e as técnicas adotadas nesta pesquisa, assim como suas fraquezas e limitações.

No próximo capítulo, o autor apresenta as diretrizes desenvolvidas, o modelo MaCGov e o resultado obtido com a realização do grupo focal.

4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Quem não aumenta seu conhecimento o diminui (HILLEL apud KAHANER, 2003).

4.1 INTRODUÇÃO

Neste capítulo, apresentam-se as diretrizes propostas para um modelo preliminar de maturidade em governança corporativa. Inicialmente, contextualiza-se o modelo desejado, com a identificação de seu potencial público-alvo, a delimitação de seu escopo e de sua aplicabilidade.

Passa-se às razões que culminaram na eleição do Código IBGC como principal referência de boas práticas de governança corporativa, assim como às dimensões nas quais estas se enquadram.

O capítulo segue com os níveis de maturidade, que formam a estrutura lógico- sequencial subjacente ao processo evolutivo que se pretende modelar. Surge, então, o MaCGov, com seus níveis, dimensões e práticas integradas de forma esquemática.

Por fim, explicitam-se as críticas e sugestões feitas pelo grupo focal presencialmente reunido e entrevistado pelo autor deste estudo.