CHAPTER 5 – DISCUSSION
5.2 Main findings - Cross-Cultural Challenges Caused by Cultural Differences
Falar da intimidade das residências é trazer à tona questões como espaço íntimo/privacidade e que não estão necessariamente condicionados aos espaços convencionais, ou compartimentalizados, como o quarto de dormir, por exemplo, ou a entrada principal de uma residência. Porque o dormir não tem um cantinho definido, pois pode ser tanto na cozinha, quanto na alcova, ou belles chambres (quarto de dormir). O acesso a uma residência não tem que ser forçosamente pela porta principal, mesmo que isto signifique quebra de convenções, de privacidade ou infringir as regras do bem receber.
O que seria privacidade, então? Sabe -se que todos os espaços interiores de uma casa fazem parte da esfera privada; mas em que momentos esta esfera privada é acessível, independente do isolamento individual ou de atividades sociais, pelo grande número de convidados com os quais o dono da casa não tem qualquer rel ação íntima?
A entrada de uma casa, por exemplo, é um espaço ambíguo e carregado de múltiplos significados na compreensão de Thébert (2009); na minha percepção depende não só do estilo de moradia, mas da forma como o morador se vê ou percebe sua casa em re lação ao mundo lá fora. Tradicionalmente, uma grande casa, ou apartamento, tem vários acessos. Mas, sabemos que existe uma entrada principal e que é exatamente nesta que se efetua “[...] de modo simbólico e concreto a comunicação entre o interior e exterior.” (THÉBERT, 2009, p. 331).
Contrariando a convencional compartimentalização da entrada de uma casa, incluo minhas observações acerca de três residências intergeracionais da contemporaneidade, selecionadas para a
pesquisa. Duas foram planejadas com a par ticipação dos moradores; uma não foi planejada com a participação dos donos, mas foi reformada por estes. As três residências fogem às regras do receber; mas, uma foge do modelo que tradicionalmente vem sendo utilizado no que se refere à arquitetura.
Necessário acrescentar que todas têm a entrada de serviços, assim como entrada social. Mas a forma com estas residências fazem a ligação entre o público e o privado é o que as diferenciam das demais residências selecionadas para estudo.
Para o primeiro exemplo, a Casa Shangri-lá, multifamiliar, apartamento duplex com cobertura, os visitantes não têm acesso de imediato à sala de estar, embora dela façam uso. Através do hall que tem uma entrada de serviço e outra social, as visitas, donos da casa e demais moradore s, comumente acessam a entrada do apartamento pela sala de jantar com visão para a cozinha sem que esta seja integrada às demais salas. Aqui se trata de arquitetura planejada nos mínimos detalhes pelos donos.
O segundo exemplo é da Casa Cor, residência unifamiliar que apesar de ter três opções de entrada: hall da sala de estar, porta da garagem e área de serviço/cozinha (FOTOGRAFIAS 1 e 2) comumente, os moradores entram pela área de serviço cuja visão, em princípio, é a lavanderia, a dependência de empregad a e para ter acesso livre a casa, os visitantes, assim como os donos, passam pela cozinha e copa.
FOTOGRAFIAS 4 e 5 - CASA COR COM TRÊS OPÇÕES DE ENTRADA CRÉDITO: Lucia Helena Costa de Góis, Natal-RN (2014)
Nesta residência, os visitantes têm mais acesso à sala de jantar, ao “quarto do papo” como eles denominam um dos quartos da casa, do que a própria sala de estar que fica no terceiro piso, e próxima a entrada principal.
Na terceira residência, Casa Vale (FOTOGRAFIAS 6 e 7) a entrada social há muitos anos está fechada para visitantes; estes, assim como os donos da casa, parentes e amigos entram pela porta que dá acesso pelo espaço da sala de jantar, mas que com um simples movimento do corpo para a esquerda você já se encontra na cozinha, local onde os convidados são recepcionados pela dona da casa, viúva com 81 anos.
FOTOGRAFIAS 6 e 7 - CASA VALE COM DUAS OPÇÕES DE ENTRADA CRÉDITO: Lucia Helena Costa de Góis, Natal-RN (2012)
A explicação para o primeiro caso é dimensão de arquite tura mesmo.
No segundo caso a casa foi construída sobre três planos. A sala de estar, cujo espaço é o mais próximo ao hall de entrada, nunca é utilizada para receber visitas. O salão que fica no subsolo e o “quarto do papo” (para os mais íntimos), como chamam os moradores, são os espaços mais utilizados para receber os que vêm de fora.
A terceira residência não foi planejada com a participação dos moradores, mas foi reformada com a participação destes. Assim, a sala de estar que é integrada à sala de jantar, há muito virou “a sala das almas” conforme depoimento de Dona Zelita, 81 anos.
Trata-se, portanto, da compartimentalização das entradas que revelam praticas diferentes, que demonstram acessibilidade aos espaços mais íntimos, sem necessariamente se desl ocar até o quarto de dormir.
Da mesma forma é o espaço de dormir, ou simplesmente dormir, e com ele os acessórios mais utilizados durante séculos que são objetos de análise neste capítulo.
Collomp na sua obra Famílias. Habitações e coabitações (2008) dá bastante ênfase a cama. Esta, segundo o autor, era mais valorizada do que o próprio cômodo de dormir sendo objeto sempre citado em inventários. O que reforça a minha observação sobre a compartimentalização dos espaços da casa, de que as atividades íntimas e privadas no cotidiano das famílias intergeracionais do século XIX ao século XXI não estão condicionadas a um determinado espaço setorizado como o espaço de dormir, o espaço de rezar, mas se desenvolviam e se desenvolvem em toda extensão da casa. Com o
dormir não pode ser diferente. Não importa em que espaço, mas como e em que se dorme.
Para dormir, em conformidade com as atividades do cotidiano, comumente se utiliza a cama. Esta evoluiu entre o século XVI e o século XVIII, ao assumir, progressivamente, asp ectos mais elaborados e caros, em especial no final do século XVIII. Tanto na área urbana como rural, havia camas nas belles chambres e na cozinha. Em algumas regiões, onde a única lareira se situava na sala, as pessoas dormiam nesse único aposento aquecido em época de inverno.
Nas casas de um só cômodo, a cama, ou as camas ficavam nesse cômodo único, onde todos os membros da família dormiam, comiam e viviam. Entre os pobres, o único leito disponível servia para abrigar o sono da família inteira. Mesmo na s casas que tinham vários cômodos, tanto de agricultores quanto de burgueses, no meio rural ou urbano, a cama ou as camas sempre se localizavam no aposento onde as pessoas viviam e acendiam fogo, preparavam e consumiam os alimentos a exemplo das regiões fr ancesas da alta Provença ou Borgonha, ou nos vales pirenaicos no século XIX. Em uma hierarquia da ocupação dos diferentes cômodos da casa, dormir na sala junto ao fogão era privilégio do chefe de família e sua mulher. Fato comum tanto nas residências dos mais abastados quanto de camponeses na Alsácia. (COLLOMP, 2008). A quantidade de camas no cômodo, ou cômodos das habitações, dependia do número de pessoas que moravam na casa. Até o final do século XVIII ainda não se tinha registros do individualismo ou iso lamento noturno, a não ser em residências burguesas.
Qualquer espaço destinado ao repouso, o que não significava que fosse destinado ao sono, pois foi preciso muito tempo para que ele fosse destinado realmente a esta finalidade, sobretudo na sua individualidade, segundo Perrot (2011). O desejo de ter um quarto para
relativamente recente cuja prática, tão imprescindível como marca da individualização, é menos universal do que parece. (PER ROT, 2011, p.47).
As necessidades e as razões para que este (o quarto) tenha se tornado o centro da intimidade, foram em princípio, o pudor, o desejo de esconder o exercício da sexualidade, ou como finalidade de procriar, segundo as prescrições do código m atrimonial. Embora lícita e honesta essa prática necessitava de um quarto fechado a qualquer espectador, porque “o pecado perverteu a natureza e a vergonha manda dissimular o ato sexual aos espectadores e sobretudo às crianças” conforme as prescrições da Igreja primitiva. (AGACINSKI, citada por PERROT, 2011, p.55). De acordo com Perrot (2011) essa percepção cristã do sexo, concorria para que os casais dormissem separados.
Entretanto, o desejo de intimidade surgia do próprio casal. À medida que o casamento moderno integrava amor, livre escolha dos indivíduos e desejo de uma sexualidade mais bem compartilhada, surgia à necessidade de um quarto para dois. (REBREYEND, citada por PERROT, 2011, p. 55).
O quarto conjugal foi consagrado, de certo modo, por Vitória e Alberto (casal real britânico do século XIX) que davam ao mesmo grande importância. Só se tornou comum depois de 1840 junto à classe média, com proporções modestas, perto dos quartos das crianças, já que fazia parte da mesma unidade orgânica familiar.
Não só o sono, sexo, amor, doença, necessidades do corpo impeliam ao isolamento; mas também os desejos da alma, como rezar, meditar, ler e escrever. O isolamento e a privacidade adquiriram formas diversas, tanto quanto engenhosas como uma cabana, compartimen to de trem, cabine de navio, sendo o quarto apenas uma das formas do direito ao segredo.
Ao longo dos três séculos, aqui analisados, o quarto sofreu várias transformações. Em princípio, mais precisamente no início do Brasil colônia, o espaço da moradia p or não ser setorizado, portanto, de apenas um vão, atendia diferentes necessidades de seus moradores. O espaço que seria destinado só para dormir era usado não só para dormir, mas também para fazer refeições privadas e entreter os visitantes mais considera dos. O quarto de dormir acabou se tornando um lugar para onde todos se retiravam, de modo que foi necessário criar outros espaços mais privados. (BRYSON, 2011, p. 77).
As alcovas de estilo árabe, ou camarinhas, no Brasil, por exemplo, ficavam no interior das casas das famílias mais abastadas e eram destinadas as moças, meninotas e donzelas. A ausência de janelas era substituída por muxarabis103, que foram bastante utilizados em
países tropicais para preservar a ventilação dentro dos ambientes. Mas tinham outra função: preservar as mulheres da casa de olhares masculinos da rua. Assim, elas podiam olhar a rua sem serem vistas do lado de fora. “Uma arquitetura conventual a recomendar requintes de reclusão [...] o que se almejava era exatamente o caráter de encarceramento no sentido metafórico da palavra.” (QUINTAS, 2008, p.51).
Manter a família isolada e defendida, preservada de olhares de estranhos, era prerrogativa do chefe da família. O viajante não passava do quarto de hóspedes que tinha a porta voltada para o exterior, sem acesso ao interior da casa. (DONATO, 2005; VERÍSSIMO e BITTAR, 1999).
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O muxarabi é um recurso criado pelos árabes (muito parecido com o combogó, para fechar parcialmente os ambientes de maneira que quem está dentro possa ter visão total do lado externo, porém de forma a preservar sua intimidade (a principal função do muxarabi no mundo árabe era proteger as mulheres de olhares masculinos).
Há outro tipo de arranjo residencial, talvez realmente novo, em se tratando do tipo de relações que não seja caso de amantes em busca de espaço para encontros casuais ; ou casais separados por divórcios. É o caso de cônjuges, casados oficialmente, que moram em apartamentos/casas diferentes e só se reencontram em finais de semana independente de terem filhos ou não. 104
Este tipo de arranjo domiciliar vem acontecendo no Br asil, especialmente em Minas Gerais e Rio de Janeiro; em Natal, conforme observado em uma das residências selecionadas para a presente tese. Nos Estados Unidos já tem um nome para este tipo de arranjo: living
apart together (vivendo em casas separadas); co ntam com 1,7 milhões de adeptos105 que alegam, entre outras justificativas, privacidade e
independência; e acreditam que este novo arranjo reacende a chama da relação.
Exemplifico o caso, de um casal de Minas Gerais, que após seis meses de namoro, decidiu m orar junto, mas em camas separadas dentro do mesmo quarto. Por volta dos seis anos de relacionamento quando se mudaram para Brasília havia o quarto do marido e o quarto da mulher. O casal radicalizou quando a esposa retornou de uma temporada no Canadá, decidindo “viver juntos, mas em casas separadas”. (KIEFER, 2013).
Os modos de morar desta família não convencional, mesmo para os padrões de início do século XXI, têm suas estratégias: o casal tem uma filha de dez anos que tem um quarto em cada casa, embora passe a maior parte do tempo com a mãe; compartilham a mesma
secretária do lar106 que consideram peça -chave no relacionamento e elo
entre os dois apartamentos. Pois, trabalha pela manhã na casa da esposa
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Matéria veiculada pelo Programa Fantástico: Show da Vida da Rede Globo. 105
Casais mantêm casamentos em casas separadas. Sandra Kiefer. Matéria publicada em 07.07 de 2013 pelo site www.em.com.br/app/noticia/gerais
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