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CHAPTER 4 – ANALYSIS AND FINDINGS

4.3 Cross-Cultural Hierarchy Challenges

Durante as entrevistas, encontramos uma família que se encaixa no modelo fast food , pelo simples fato de que a sua cozinha (super aparelhada) nunca é utilizada conforme destaca uma das entrevistadas cujo marido é dono de uma loja no maior Shopping Center de Natal.

Não tem a mínima condição de comer e muito menos preparar a nossa alimentação em casa. Todos nós trabalhamos: eu, meu marido e meus dois filhos; passamos o dia fora e como temos à nossa disposição um número considerável de restaurantes e lanchonetes lá no Midway [fez uma pausa, pensou e respondeu], não tem sentido. A única refeição é o café da manhã. Mas utilizamos a cozinha auxiliar para preparar o desjejum. Cada um faz o seu desjejum, a seu gosto. Assim como eles trabalham, eu também trabalho e dou um duro danado. E quanto aos filhos, estes não são mais crianças e eu há muito que deixei de ser àquela dona de casa [fez trejeitos com as mãos no ar e aspeando os dedos]. A cozinha está lá, intacta. Um dia talvez a utilize, quem sabe? [riu alto]. (Dona F, casada, 65 anos, entrevistada secundária). [grifos meus].

Este quadro nos faz lembrar que a vida cotidiana, ainda segundo Lefebvre (1991), é planejada em nossos tempos para ser o espaço da realização do consumo de bens materiais e culturais, em que os indivíduos tendem a homogeneiza r as relações, os costumes e os valores. É a produção capitalista, na vida cotidiana, que manipula e controla a sociedade de consumo, por ser, esta, fonte de rentabilidade econômica, ou superconsumo irresponsável (gastos com suntuosidade e prestígio) compulsivo, possibilitando a falsa sensação de poder.

Isto supõe que as atividades cotidianas, que compõem nosso dia-a-dia, como trabalhar, estudar, conversar, consumir, são muito mais automatizadas do que conscientes. Daí produzir insatisfações porque o indivíduo ao se sentir excluído da sociedade passa a adquirir equipamentos de última geração, mas não cotidianamente utilizados.

Além da atividade do cozinhar, bem como os instrumentos utilizados e o tipo de alimentação que era consumido, existe outro hábito que sofreu transformação ao longo dos séculos: modos à mesa ou

maneiras à mesa.

Os modos à mesa, a etiqueta, o nosso hábito de dar primazia aos convidados, perguntar se querem repetir, começou na Idade Média. Conforme Rybczynski (2002) estes hábitos eram bast ante complexos neste período. Assim como lavar as mãos antes, durante e depois das refeições, era outra regra de polidez medieval necessária em virtude de que as pessoas comiam bastante com as mãos, apesar de usarem colheres para sopa, mas não usavam garfo s. Os modos à mesa medievais perduram até hoje, apesar dos talheres serem utilizados com mais requintes, acrescenta o autor.

Ser colocado em canto privilegiado à mesa era muito mais honroso para o visitante do que se sentar em um banco duro sem conforto, porque até então não se tinha a mesma dimensão de conforto do que hoje. O visitante sabia que esta honra era destinada a poucas

pessoas seletas e sentar no lugar errado, bem como se sentar ao lado da pessoa errada era considerado gafe séria. Assim como ta mbém o que se podia comer.

Os rituais de etiqueta e civilidade, como a ordem, regras, regulavam a vida medieval. Difundidos (rituais) posteriormente em manuais que regulamentavam o modo de vestir, de falar e de portar -se tinham a mesma função e “[...] cada pormenor era uma arma na luta pelo prestígio. A regulamentação não visava apenas a representação exterior [...], marcava mentalmente as distâncias que separavam uns dos outros.” (ELIAS, 1987, p. 86).

Durante séculos estes ritos perduraram e hoje, com men os rigor, são utilizados no cotidiano. As regras de etiquetas se tornaram, diria, mais flexíveis. Seu uso, com mais sofisticação, somente em banquetes e jantares organizados. Mas, segundo Claudia Matarazzo96 a Etiqueta Moderna adaptada ao século XXI, não te m nada de parecido com a antiga etiqueta, de regras rígidas entre as pessoas. A produtora editorial atribui este novo comportamento à tecnologia que está ao alcance de todos, o que facilita, de forma eficiente, a comunicação com povos de diferentes cultura s, profissões, idades e interesses. Por outro lado, ela estabelece que esta facilidade de comunicação, sem sair da sala, causou um efeito contrário na comunicação pessoal. As pessoas, conforme a mesma, perderam a arte do convívio, de como interagir; arte, outrora dominada pela geração dos nossos ancestrais que, pela falta destes instrumentos tecnológicos, tinha o hábito de visitar as pessoas com mais freqüência. Hoje, esse tipo de comportamento não é tão fácil para os mais jovens, pelo simples fato de que a s relações intergeracionais familiares, ou não, mudaram.

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Para facilitar a dificuldade que as gerações mais novas encontram existe, conforme Claudia Matarazzo, a Etiqueta Moderna:

ela funciona como uma linguagem comum a todos os povos. É um conjunto de gestos e atitudes, identificável mesmo entre pessoas de países e interesses diferentes que facilitam e permitem uma comunicação mais fácil, segura e eficiente. Seja pessoalmente ou via Internet. “Netiqueta” já é uma realidade [...] ao contrário do que imagina, não é um conjunto de normas rígidas e sem sentido. Ela facilita a Cida, na medida em que é sempre baseada em princípios como bom senso, naturalidade e afetividade. (http://www2.uol.com.br/claudiamatarazzo/sfrescura19.shtml)

Em relação aos utensílios que as famílias utilizavam para as refeições, constata -se que no Brasil, por volta de século XVIII, entre os mais abastados, surgem louças refinadas da Índia, da Holanda, de Portugal, saleiros e galheteiros de pr ata. Enquanto na mesa da população menos abastada e pobre predominava a louça de barro: potes, cuias, tigelas, moringas, peruleiras. Necessário acrescentar que nas casas-grandes dos primeiros engenhos, estas eram modestamente mobiliadas. Usavam-se tamboret es e bancos para sentar. Na cozinha, os utensílios eram cerâmicas indígenas, objetos de estanho, prata e vidro.

Em meados do século XIX, em uma casa -grande de fazenda e em casas da cidade, receber os convidados, para jantar ou almoçar, especialmente aos do mingos, era um hábito bastante difundido. As refeições passaram a ser uma espécie de diversão, em que convidados e anfitriões se distraiam, conversavam, comiam. O cenário de penúria e escassez, próprios das antigas casas -grandes, já não se fazia presente. O requinte predominava, mesmo em dias comuns dos anfitriões:

Ali, estava posta para o almoço a larga mesa de jacarandá, coberta com alva toalha de linho adamascado; e rodeada naquele momento, como de ordinário, por cinco pessoas. (ALENCAR, TIL, p.39 -41).

Conforme Thébert: “A arte da refeição, graças ao jogo das proibições e autorizações excepcionais, marca distâncias sociais, mas também contribui para coesão de grupos heterogêneos”. (THÉBERT, 2009, p. 353). I sso significa que os empregados faziam refeições após os donos, mas, dependendo da boa vontade dos patrões, podiam até comer o mesmo que eles, ou sentar -se à mesa junto.

Para as famílias abastadas, as refeições eram um ritual doméstico que ajudavam a dema rcar o tempo da intimidade, vez que era o “lugar onde se exprimem mais abertamente as relações que tecem a esfera do privado” (THÉBERT, 2009, p.353) englobando o casal, a família no sentido estrito, o pessoal que trabalhava para os patrões, ou até mesmo os convidados. Thébert (2009) ainda enfatiza que a leitura de tais relações é imediata no nível das práticas e a dona da casa ainda utilizava de forma consciente essa cena para expor suas convicções, conforme depoimento de uma entrevistada:

Lembro que era uma exigência dos meus pais, que já foi transmitida pelos pais destes, a presença de todos à mesa, especialmente na hora do almoço. O café da manhã era mais difícil porque as atividades eram diferenciadas e não tinha como agregar todos à mesa naquele horário. No jantar também era mais difícil porque as atividades de todos - à exceção da minha mãe - eram notívagas. Então o almoço era “aquele”[ fez aspas com os dedos polegares e indicadores quando mencionou a palavra] momento. À noite, a família, os agregados e empregados se reuniam para rezar o terço, novenas e comentários sobre a mensagem do dia, antes do meu pai sair para o restaurante. E este ritual prolongou-se até a nossa idade adulta que tentamos levar para os nossos descendentes. Quando crianças se não estávamos com vontade de almoçar, porque queríamos brincar mais um pouco, ou com fastio, isso não tinha a menor importância para eles. Venham para a mesa

mesmo sem vontade. Só temos este momento para nos reunirmos [reproduzindo a fala dos pais] costumava dizer o meu pai. E na hora do almoço surgia todo o tipo de conversa como o nosso dia na escola, as nossas tardes do dia anterior. Até piadas quando já estávamos na fase adulta. Meu pai gostava muito. A forma como deveríamos nos portar à mesa era um dos assuntos na hora da refeição, quando ele via um dos meus irmãos levando a cabeça ao prato. (Dona Jaci, 59 anos, Casa Moema). (grifo da entrevistada).

A propósito, o lugar à mesa era e ainda é codificado indicando tanto o nível social, quando se tem convidados, como a hierarquia familiar. Geralmente o chefe de família se sentava à cabeceira e a esposa - conforme a moda inglesa, também bastante utilizada pelos ocidentais – nas pontas, em vis-à-vis.97 Nas famílias

entrevistadas constatou-se que tal costume permaneceu, por exemplo,na família de Dona Jaci:

Eu e meus irmãos desde pequeninos sentávamos à mesa com nossos pais, tenha visita ou não; Com um tempo, eu e meus irmãos já adultos, o nosso pai não se sentava mais à cabeceira. Sentava-se do lado esquerdo da sua antiga cabeceira e a nossa mãe ao lado dele. As pontas da mesa, ou a própria cabeceira, ficaram como que ociosas, e só eram ocupadas quando tínhamos visitas, ou se todos estavam em casa, como feriados, por exemplo. Em casa só ficamos, eu, minha irmã caçula, meus pais, um sobrinho rapaz, filho do meu irmão mais velho, e os empregados que eram três, um jardineiro, uma copeira e uma cozinheira, esta dormia na nossa casa e que há mais de vinte anos trabalhava para nós. E a cabeceira ficava comumente com a nossa cozinheira que sempre almoçava conosco. Antes, no dia–a-dia o meu pai se sentava à cabeceira, a minha mãe à sua esquerda, e na outra ponta da mesa a nossa irmã mais velha, enquanto ainda morava conosco. Quando o meu pai mudou de posição, isto é, não ficou mais à cabeceira, a nossa irmã mais velha passou para o lado direito de quem senta à cabeceira, sentando-se em frente aos nossos pais. E quando tínhamos convidado este, de acordo com a intimidade ou importância social, tinha um lugar específico. Mais íntimo, sentava um pouco afastado, e caso não fosse íntimo, este se sentava à sua direita; assim como a minha mãe que se sentava à outra cabeceira e algum convidado importante se sentava à sua direita na outra cabeceira. (Jaci, 59 anos, Casa Moema).

Selecionei um manual datado de 1966, intitulado Guia de

Boas Maneiras para ilustrar a década em que se passou a cena acima. Crianças até dez, ou doze anos, não devem comer à mesa, se há convidados.

A melhor hora para conversar é a das refeições e uma criança – por mais bem educada que seja – desfaz a calma necessária dessa hora do dia. A presença da criança também poderia tirar a espontaneidade dos assuntos [...] quando filhos menores tomam refeições com os pais, convém ter muita atenção nas expressões usadas, que poderão ser repetidas, mesmo inocentemente, e as quais, mal interpretadas, poderão causar sérios aborrecimentos. (CARVALHO, 1966, p.162).

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Ainda em relação ao uso da cabeceira da mesa, que por tradição era sempre ocupada pelo dono da casa, no romance Til (s.d, p.39-41)98de José de Alencar, o narrador referindo -se ao almoço de casa -

grande de fazenda demonstra seu espanto s obre o uso da cabeceira:

[...] a cabeceira, contra os costumes da terra, ocupava a dona da casa, senhora de 38 anos [...]. À direita de D. Ermelinda estava o dono da casa, Luís Galvão, cujo aspecto franco e jovial granjeava a simpatia ao primeiro acesso. [...] à esquerda da mãe ficava o filho, como à direita do pai a filha, ambos na flor da juventude [...]. Finalmente, no segundo lugar da esquerda defronte da moça, via-se um menino de 15 anos de idade [...] curvado como um arco sobre a mesa, com as vestes em desalinho e os cabelos revoltos, abraçava uma xícara de almoço, que lhe ficava abaixo do queixo; e escancarando a boca enorme para sorver de um bocado a grande broa de milho, ensopada no café, mastigava a tenra massa a fortes dentadas e sofregamente como se estivesse rilhando um couro. Percebia-se logo que a influência de D. Ermelinda não penetrara nesse membro enfezado da família, refratária a todo preceito de ordem e arranjo. Por isso a dona da casa, quando pr es id ia a mesa de seu lugar de honra, observando o serviço e ocupando-se de todos, não transpunha aquele ângulo, onde se sentava o pequeno. (grifos

meus).

O sentar à cabeceira, tipo de comportamento de sociedades patriarcais, conforme relatos e imagens de séculos pas sados, fez com que questionasse as pessoas de referência das famílias intergeracionais na contemporaneidade: Quem se senta à cabeceira? “A nossa mesa é redonda” respondem alguns. “Não tem cabeceira” respondem outros. Na figura 67a mesa é redonda. Mas não f oi difícil identificar que o casal de idosos está face a face. Ao lado de ambos uma jovem e outra mulher madura. Estas são personagens de um filme americano, intitulado

Alguém tem que ceder protagonizado por Diana Keaton e Jack Nicholson. Interpretando um casal de namorados idosos. Ao final, não importa se

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A ação do romance Til acontece na Fazenda das Palmas, localizada na região de Campinas, interior do Estado de São Paulo, por volta de 1826. Romance regionalista de José de Alencar, retrata o Brasil rural do século XIX. Apesar de a tese se centrar no Brasil urbano, não se deve esquecer que os senhores mais abastados intercalavam suas residências entre fazendas, ou chácaras (muito comum entre a aristocracia carioca e paulista do século em epígrafe).

redonda ou retangular, a questão de gênero em determinados comportamentos, através dos séculos, é muito forte, garantindo ao homem o lugar privilegiado.

F I G U R A 7 5 - JANTAR DE UMA RESIDÊNCIA AMERICANA. MESA REDONDA