Fazenda (2013, p. 17) afirma que “a pesquisa interdisciplinar inclui desafios de diferentes ordens: teórica, pessoal, metodológica”. O tratamento às Histórias de Vida, a presença de metáforas que referenciam análises e interpretações de dados, a configuração de uma hermenêutica60 que prioriza os sujeitos e o cuidado com a formação de professores são preocupações que ganharam destaque na medida em que as pesquisas interdisciplinares foram tomando corpo desde a década de 60.
Os avanços que se vêm anunciando colocam o pesquisador frente à vários impasses, todos eles ainda não solucionados, porém em ritmo de pesquisa. Assim [...] anunciam quatro direções de pesquisa contempladas nessa linha: a Interdisciplinaridade Profissional, a Interdisciplinaridade Científica, a Interdisciplinaridade Prática e a Interdisciplinaridade Metodológica (FAZENDA, 2013, p. 17).
As direções da pesquisa interdisciplinar tiveram substância na medida em que os pesquisadores iniciaram um movimento investigativo a partir de suas histórias de vida – pessoal e profissional. O universo mais próximo de cada pesquisador deu origem a dados advindos das mais diferentes naturezas e, por isso, a sistematização em quatro direções distintas de ordenação das pesquisas. No entanto, os fundamentos que as orientam, sobretudo quanto à sua epistemologia (fundamentada na hermenêutica, na descrição
60 Hermenêutica: Espósito (2001) afirma que o termo hermenêutica tem origem no “grego hermeios e no latim
hermeneia, e parece referir-se ao deus mensageiro alado Hermes. Entretanto, é significando ‘dizer’,
‘compreender’, ‘explicar’, ‘traduzir’ ou ‘arte de interpretar’ que este termo tem se propagado, aplicando-se à interpretação do que é simbólico [...]” (ESPÓSITO, 2001, p. 238).
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detalhada das práticas, na descoberta da metáfora) e à sua ontologia (rememoração das histórias de vida e da descoberta do próprio sentido da pesquisa) permanecem inalterados em todas elas.
Fazenda (2013) acredita que se se pensa sob a perspectiva da interdisciplinaridade profissional é possível concluir que:
[...] não podemos exercitar qualquer tipo de pesquisa, sem pararmos para analisar o tipo de profissional que somos, e a forma como nos tornamos, as dificuldades transpostas e a luta empreendedora na busca de maior e melhor competência (FAZENDA, 2013, p. 17).
A abordagem profissional, orientada pela interdisciplinaridade, é compreendida nesta pesquisa a partir da retomada da história de vida da pesquisadora e dos sujeitos de pesquisa – os mestrandos 2010 do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Humano: Formação, Políticas e Práticas Sociais. O percurso profissional compreende a dimensão de sentido que se atribui ao trabalho que dele decorre e que dele se origina.
O aspecto positivo do trabalho é evidente porque, ao formar coisas, forma e forja o próprio homem. Não há homem – como o demonstra negativamente o senhor e positivamente o escravo – à margem do trabalho, no ócio [...]. Atividade prática material adquire assim, uma dimensão que até então ninguém percebera. Graças à ela o homem cria, produz a si mesmo (VÁSQUEZ, 1968, p. 76).
Pesquisar a partir da dimensão profissional tem sido uma tônica em pesquisas interdisciplinares nas áreas empresarial e educativa. A partir do resgate da memória do pesquisador para escrever sobre a própria história de vida, o trabalho ganha evidência nos discursos por fazer parte de uma parcela significativa de vida, de tempo empreendido.
No caso desta tese, a dimensão profissional da interdisciplinaridade aparece como elemento constituinte que se legitima na medida em que auxilia a escolha do local de pesquisa, bem como a coleta e análise dos dados obtidos. É a consciência de que saberes e vivências não são – e nem podem estar – dissociados. Nós somos o que vivemos e aprendemos e se consideramos que as aprendizagens são significativas, só aprendemos porque vivemos.
Por outro lado, também subsiste com igual relevância uma tendência científica (ou epistemológica) nas pesquisas interdisciplinares:
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A Interdisciplinaridade Científica nos conduz a uma revisão conceitual, a uma revisita a velhos livros, velhos e clássicos autores, velhas anotações, analisando-os sob uma perspectiva de senti-los e percebê-los provisórios e inacabados, porém nunca superados ou descartáveis (FAZENDA, 2013, p. 17).
O movimento de rever a história dos conceitos, das hipóteses, dos estudos anteriores já realizados pela própria pesquisadora ao longo de seu percurso acadêmico e dos seus autores primeiros de referência torna-se uma atitude obrigatória para a contextualização epistemológica da pesquisa. O “conhecimento novo” é, na verdade, resultado de todo um percurso de construção e reconstrução teórica, acumulado ao longo do tempo.
Pinto (1969), sem se denominar interdisciplinar, nos chama a atenção para uma questão abraçada pela construção do conhecimento novo.
Não basta saber que se sabe, mas é preciso saber porque se sabe. Esta última modalidade de conhecimento representa aquela que decorre da posse consciente dos instrumentos metodológicos, ou seja, do conhecimento dos processos de raciocínio que o pensamento emprega para chegar à verdade e comprova-la. Por outro lado, a metodologia não sendo um receituário não existe a parte do processo de descoberta da verdade, mas só adquire significação concreta no ato real pelo qual se defronta a razão humana [...] (PINTO, 1969, p. 359).
Pesquisar a partir da epistemologia requer disciplina e rigor metodológico, a fim de que os fundamentos estejam coerentes com os objetivos primeiros da investigação. A partir de uma constante análise conceitual, percebe-se o conhecimento cada vez mais provisório.
Por outro lado, há uma crescente tendência nas pesquisas que põem em evidência a prática, como lugar onde estão os fenômenos investigativos, os objetos de pesquisa e as relações estabelecidas com e entre os sujeitos. A interdisciplinaridade tem encontrado neste campo extenso universo de perguntas e de hipóteses, que se pretende compreender.
“A Interdisciplinaridade Prática nos anima a uma pesquisa do cotidiano, com todos os seus entraves e em toda a sua polissemia. Tornar o familiar estranho, tarefa das mais complexas a que a Pesquisa Interdisciplinar nos convida” (FAZENDA, 2013, p. 17). O cotidiano passa a ser compreendido como um lugar privilegiado em que a interdisciplinaridade e suas inter-relações ocorrem. É ele quem oferece situações interessantíssimas sobre as quais se levantam questionamentos e hipóteses e onde o pesquisador se questiona e ao se questionar, questiona o universo a sua volta, do mais próximo ao mais distante.
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Este movimento tem sido observado em pesquisas que transcorrem na área da educação. Muitos professores descobrem-se interdisciplinares na medida em que encontram em suas salas de aula oportunidades para a pesquisa. Há aqueles que investigam a competência docente a partir de boas práticas. Outros, como eu, a investigaram a partir das práticas que não tiveram sucesso61. Chegou-se a conclusão nesse estudo (YAMAMOTO, 2003) de que a competência reconhecida não era a competência desejável, o que leva à evidência da complexidade do tema e da relevância dos incidentes críticos em sala de aula como processos rotineiros e que muitas vezes não merecem a atenção de professores e colegiados.
O docente interdisciplinar aprende a ser pesquisador da própria prática. Para tanto, busca fundamentar a práxis, quer seja estimulado pelos diálogos da academia, quer seja pelo diálogo estabelecido nos projetos que empreende com seus pares no cotidiano do trabalho. Duvidar da própria prática para interrogá-la, analisá-la e transformá-la faz parte do quadro de referências do docente interdisciplinar (FAZENDA, 2013, p. 21).
Há ainda, uma última direção própria das pesquisas interdisciplinares: a que Fazenda (2013) denominou interdisciplinaridade metodológica.
A Interdisciplinaridade Metodológica nos incita a sair dos muros da Academia e invadir a vida da Cidade, a convidar para a mesma confraria acadêmica os menos iniciados, à humildade da escrita, à paciência na espera, à construção sólida não de uma pesquisa que em si se encerra, mas que promulga e acessa outros saberes, que aguça novos olhares, que desperta infinitas perguntas (FAZENDA, 2013, p. 17). A ousadia na escolha das metodologias de pesquisa parece conferir à interdisciplinaridade um caráter de “novo”, de uma pesquisa mais próxima do fenômeno estudado, do objeto e dos sujeitos, além do próprio pesquisador - o sujeito que pesquisa. A metáfora do olhar revela esta preocupação ao tentar desvendar todas as camadas e véus possíveis que encobrem o problema de investigação.
A metodologia da pesquisa interdisciplinar se preocupa, em primeira instância, em fazer com que o pesquisador descubra, em sua própria história de vida, as motivações que o conduziram até aquela reflexão e a sua relação com ela. Este é um movimento, de circularidade e complexidade, que não exige que o pesquisador utilize todas as descrições no
61 Considerações sobre a dissertação de mestrado de minha autoria: “Revendo o conceito de competência
docente: uma análise da questão em face de um incidente crítico no ensino superior”, Educação: Currículo. São Paulo: PUC-SP, 2003.
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texto final da dissertação ou tese, mas que descreva exaustivamente sua trajetória, como em uma abordagem biográfica.
A autobiografia é uma história de vida escrita pela própria pessoa sobre si mesma, ou registrada por outrem, concomitante com a vida descrita, na qual o narrador esforça-se para exprimir o conteúdo de sua experiência pessoal. O autor seleciona e analisa fatos, experiências, pessoas e estágios relevantes de sua vida, interpretando sua história pessoal, o contexto e as contingências do curso da própria vida [...](CHIZZOTTI, 2008, p. 103).
A partir deste movimento de descoberta de si mesmo, o pesquisador parte para a observação do objeto ou fenômeno de pesquisa e, nesse momento, se depara com a obrigatoriedade de uma postura interdisciplinar diante daquilo que investiga. Esta postura – ou atitude – se revela no estudo cuidadoso e disciplinado da epistemologia que subsidia o trabalho; na escolha dos autores de referência; na descrição cuidadosa dos fenômenos, das falas, das observações e análises; na espera do tempo de maturação da melhor escrita e da melhor configuração dos textos; e na coerência entre o problema que se pesquisa e a escolha do caminho metodológico.
Pesquisa interdisciplinar e atitude interdisciplinar encontram convergência na dimensão do saber-ser interdisciplinar. Elas subsistem, também, na figura da matrioska, na qual uma boneca se sobrepõe à outra ao mesmo tempo em que a “guarda”. É uma justaposição cuidadosa, em que, ao mesmo tempo em que a mais exterior esconde a mais interior, ela também desponta a curiosidade de quem a observa para descobrir até onde vai o ponto mais profundo - a boneca maciça. Assim também se dá com a interdisciplinaridade: a atitude interdisciplinar impregna de tal forma o pesquisador que ele se vê impulsionado a descobrir o que de mais profundo existe em sua pesquisa, ainda que seja necessário retraçar rotas ou reencaminhar processos.