Chapter 2 Material and Discursive Landscapes
2.4.4 With a Licence to Drill
"Cada vez que num conjunto de elementos começam a se conservar certas relações, abre-se espaço para que tudo mude em torno das relações que se conservam." Humberto Maturana e Ximena Dávila Yáñes A psicologia reconhece de diferentes formas a realidade, mas sabe que ela é construída socialmente e localizada histórica, cultural e materialmente (Mol, 2007). Isso acaba por produzir um discurso que influencia e é influenciado por todos os atores do campo psi. Portanto, é necessário pensar as questões sobre o (anti) essencialismo, o relativismo, o questionamento das verdades geralmente aceitas, as determinações culturais, a historicidade do conhecimento, a linguagem e o conhecimento como produção social (Iñiguez, 2004).
Nesse sentido, uma proposta de apropriação crítica da tradição apresenta seus riscos e enfrentamentos propícios ao debate. Como construir uma tradição crítica no universo ―psi‖? Ou ainda, como pensar a apropriação crítica de qualquer tradição? Podemos considerar que a temática da memória tem a contribuir nesse debate. Também há problemas que trazem para a discussão as narrativas de vida, de natureza identitária, cujo compromisso da psicologia e de seus posicionamentos envolve uma performatividade das muitas práticas desse saber. Afinal, o que queremos preservar e o que queremos mudar?
O argumento do distanciamento ou da imparcialidade científica, apesar deste debate ser caducado na maioria das disciplinas de metodologia científica que se propõem a ensinar a fazer pesquisas acadêmicas, pode produzir reflexões compreensíveis apenas para os iniciados e familiarizados com seus temas. Entendemos a importância de conhecimentos e conceitos específicos que foram construídos em contextos históricos anteriores, com o intuito de se aproximar de uma compreensão sobre fenômenos circunscritos. Longe de negar tal avanço científico, deve-se ir adiante. Interessa-nos reconhecer e perguntar de onde viemos e onde estamos nessa trajetória. A questão ontológica é crucial, se queremos entender onde está localizada essa realidade e, particularmente, as formas de produzi-la. Temos que lidar com o questionamento das posições ocupadas e conhecimentos ―herdados‖ de certas escolas e pensamentos. Assim como o conhecimento científico exige modos de construção, inteligibilidade, coerência e aprendizagem, nos esforçamos para abranger a necessidade e a vontade do esforço narrativo, além do compromisso com uma apropriação crítica da tradição.
credibilidade e visibilidade, precisa ir além de sua retórica e embasamento e passar a exercer posicionamentos. Precisa enfrentar a questão sobre como pensar uma narrativa, antendendo esse sentido. Por exemplo, explorar quais posicionamentos estariam interessados na crítica e transformação da realidade em busca de justiça social e quais estariam voltados à manutenção de uma ordem mais conservadora e privilegiada. Neste meandro, busco apontar narrativas comprometidas, discursos que reconhecem riscos e o compromisso de posicionamentos éticos. Se há uma diversidade de modos de ação para a transformação social em um amplo campo de saberes, como carregar a tradição?
Penso em duas situações que exemplificam a necessidade de discutir a tradição e seus riscos, numa perspectiva científica. O primeiro evento, ocorrido em 2007, ressalta a demissão do professor de antropologia David Graeber, da Universidade de Yale nos Estados Unidos, afastado de suas funções por seu engajamento político e, como ele mesmo definiu, pelo ―posicionamento anarquista‖. O segundo evento de repercussão mundial ocorreu em 2008, quando Norman Finkenstein foi preso e deportado por Israel por ser um dos mais enfáticos críticos da ocupação israelense da Palestina e demitido da Universidade DePaul, em Chicago, depois de intensa campanha do lobby pró-ocupação. Uma análise crítica não nos obriga a realizar escolhas ideológicas restritivas, em terrenos profundamente delimitados e complexos como a anarquia para Graeber e a questão sobre a Palestina, na ótica de Finkenstein. Entretanto, inaugura uma compreensão que passa a considerar o lugar de onde se fala e suas razões.
A memória destes episódios instiga a imaginar seus registros e anúncios. Bosi (2004) assinala que a memória oral é um instrumento precioso se desejamos constituir a crônica do cotidiano. Porém, sempre corremos o risco de cair numa ―ideologização‖ da história do cotidiano, como se esta fosse o avesso oculto da história política hegemônica. E não há correlações de causa e efeito nestes constructos.
De toda forma, entre a atividade de narrar uma história e o caráter temporal da experiência humana, como diz Ricoeur (1994), há uma correlação que não é puramente acidental (p. 85). Em seu livro Tempo e Narrativa ele propõe, inicialmente, uma aproximação entre dois estudos independentes: a análise agostiniana do tempo nas Confissões e a análise aristotélica da intriga na Poética. O autor compreende que é obrigado a construir, por seu próprio risco, os elos que intermediam essa suposta correlação. Proposição que pondera nosso interesse pelo pensamento de Ricoeur pois, nosso foco não é a análise desta correlação e, sim, sua relevância em termos do seu potencial transcultural. Especificamente, o tempo torna-se tempo humano na medida em que é articulado de um modo narrativo e que tal narrativa atinge
seu pleno significado ao tornar-se uma condição da existência temporal.
Os exemplos de Graeber e Finkenstein podem ajudar num modo de pensar a narrativa, mas, também podem ajudar numa tipologia de pensamentos e de combinações possíveis. Como categorias ético-políticas confeccionadas na realidade, aportariam em conceitos simples ou compostos, tais como, acadêmico-político, acadêmico-ativista, acadêmico-conservador, político-partidário, acadêmico-político-libertário etc. Não obstante, nossa intenção dispensa uma tipologização para identificar posicionamentos e quantificá-los por meio de suas narrativas e discursos subjacentes, mas, buscamos oferecer um entendimento das possibilidades e adiversidades da crítica à tradição, considerando os riscos que envolvem tais posicionamentos em narrativa e, como veremos mais adiante, a tradição não escapa ao atravessamento dessa narrativa.
Como afirma Annemarie Mol (2007), a palavra tem agora que vir no plural. Trata- se de um passo fundamental: se a realidade é feita, se é localizada histórica, cultural e materialmente, ela também é múltipla. As realidades tornaram-se múltiplas. E, em certo sentido, melhor localizadas quando compreendidas como transculturais, reconhecendo a diversidade de valores e interesses de suas comunidades linguísticas. Caminho em direção à apropriação crítica da tradição.
Ao me referir à ideia de apropriação crítica9, busco uma forma de construir uma
psicologia crítica que ofereça recursos para um posicionamento reflexivo e que, quando preciso for, esta possa assumir a confrontação necessária para pensar outras direções. Como Iñiguez (2004) diz, tomando como exemplo o debate sobre a epistemologia feminista, que também nos é válida como referência crítica:
(...) ha enfatizado que toda mirada, es una parte productora del objeto que se ve, y la ciencia no escapa a ello. De este modo, las epistemólogas feministas han documentado ―fallos‖ en diseños de investigación y han probado la operatividad de determinados prejuicios en la selección y definición de los problemas de estudio científico, así como en la interpretación de los datos que arroja, esta perspectiva ha evidenciado que el sujeto, la comprensión que pone en marcha y el objeto, tanto en su percepción inicial como en su resultante tras el utillaje compresivo, no son ni pueden ser neutros. (Iñiguez, 2004, p. 37)
Deste modo, buscaremos explorar o papel da narrativa e seus modos de atuação, bem como, os motivos que distanciam a tradição de uma designação neutra.
9
Narrativa
Para conhecer uma pessoa ou seu discurso, muitas vezes se pergunta de qual lugar se fala. Não se trata de um questionamento geográfico, muito menos, de sua localização física. Interessa-nos a construção do pensamento, a delimitação do discurso proferido, afinal, os narradores partem sempre de pressupostos que fundamentam seus pensamentos. Como partimos do princípio que o saber é construído socialmente, não podemos negligenciar nenhuma forma de relação, logo não podemos desprezar nenhum discurso ou forma de linguagem.
Tomemos o exemplo de Keller (2004), sobre esse modo de estruturação do conhecimento cientifico, em que:
(…) la presunta neutralidad y objetividad de la ciencia, en sus aspectos psicológico y cognitivo, es una construcción masculina. Un sujeto de conocimiento es un sujeto con una pre-concepción del mundo, no un individuo abstracto, ahistórico e incorpóreo. Por tanto, la subjetividad está situada y se encuentra tanto en el sujeto como en el objeto, así como en la relación que se establece entre ellas. (Keller apud Iñiguez, 2004, p. 38)
Não podemos considerar o discurso científico livre das influências sociais, assim como, não podemos considerar um determinado saber, venha de onde vier, como expressão única de um olhar sobre o mundo. Quando escutamos uma proposta, ou mesmo uma simples opinião sobre um tema, que, por vezes, pode parecer banal, devemos atentar para outros elementos que estão presentes nesse discurso. Preconceitos, por exemplo, são perpetuados exatamente nesse espaço, no tempo da negligência, no disfarce daquilo que não tem relevância, no possível cinismo da palavra anunciada. Esta questão exige cuidado porque revela como as relações estão sendo construídas, e consequentemente, como são elaboradas as narrativas que nos contam essa história.
A problematização dos discursos vem ocupando espaço nos debates da psicologia desde sua história como campo específico da ciência. O grupo conhecido como a ―Escola de Chicago‖, desenvolveu significativo trabalho com o modo de trabalhar as narrativas. Thomas e Znanieck (1918-1929), com o famoso estudo dos imigrantes poloneses, podem ser considerados pioneiros nessa construção. A perspectiva humanística (Giorgi, 1970), que buscava a compreensão da experiência humana, também veio marcando o que se conhece por ―Virada Interpretativa‖, em 1980. Em seguida, Paul Ricoeur (1994) contribuiu com essa perspectiva por intermédio da construção de narrativas organizadas via interpretação baseada
no processo de ―enredamento‖, que é o modo pelo qual um número de eventos estão integrados. Isso nos conduziu até duas das principais abordagens psicológicas: cognitiva e social.
A narrativa como pensamento, em uma abordagem cognitiva, remete à experiência interpretada como uma sequência interconectada a uma ordem temporal, na qual certos objetivos são alcançados. E há, ainda, a psicologia social de Bruner (1990), que entende narrativa como o sistema de significados pela qual organizamos experiências, conhecimentos e transações dentro do mundo social, fazendo uma distinção entre o pensamento narrativo e abstrato. O que se tem criticado, independente dessas leituras, é a dimensão individualista que se atribui ao processo de compreensão psicológica.
O objetivo não é, e nem seria possível a esta tese, debater sobre cada proposição apresentada. Porém, uma possibilidade para pensar a narrativa na psicologia social crítica é olhar pelo sintagma identidade-metamorfose-emancipação. O significado desse sintagma aparece, para nós pesquisadores da área, como possibilidade para atualizar o conceito de Identidade como um paradigma psicossocial.
Os posicionamentos de Graeber e Finkenstein, oferecidos como exemplos no início do capítulo, revelam-se como alternativas para escapar da incoerente determinação sócio-política construída em contexto histórico. O que torna fundamental ir além da convenção moderna de identidade, que determina as narrativas como revelações de um sujeito preso às condições de seu tempo.
Os dados aqui apresentados não provem, apenas, de uma pesquisa teórica. Esta proposta contempla um caráter reflexivo-ativo, ou seja, o discurso que representa considera o ser, seu pensar e agir, que formam um único movimento. Com o intento de construir uma investigação qualitativa, a narrativa possibilita uma análise da construção da identidade. O método escolhido compreende uma intervenção que pretende saber sobre a possibilidade da apropriação crítica da história de vida pelo próprio sujeito. É por ser a escuta da história de vida uma narrativa interessada que a qualidade da investigação não é comprometida. O que fazemos enquanto psicólogos pesquisadores é estarmos juntos e atentos para o modo como a pessoa busca ser reconhecida. Logo, se entende que não é o olhar ou a presença do psicólogo que legitima a narrativa, mas a própria ação do sujeito. O objetivo desse encontro é atingir a capacidade do sujeito/entrevistado de dizer quem ele é, competência possibilitada pela narrativa e, cabe ao investigador, o comprometimento com a realidade transcrita/descrita.
Os métodos de história oral e história de vida, biografia e autobiografia, costumam ser os mais utilizados e discutidos no campo das pesquisas qualitativas. Esses
métodos ganham destaque nos modos de investigação das narrativas, principalmente, porque revelam uma preocupação com o vínculo entre pesquisador e pesquisado. Há uma produção de sentido, tanto para o pesquisador quanto para o sujeito, um ―saber em participação‖. Segundo Portelli (2001):
(...) a história oral é um recurso dialógico, criado não somente pelo que os entrevistados dizem, mas também pelo que nós fazemos como historiadores – por nossa presença no campo e por sua apresentação do material‖(p. 10). E ainda que ―entre os fluidos experimentos textuais e o material rigidamente formulado, o discurso ―alcançado‖ abre caminho e flutua como ilha em movimento, como a ponta de um iceberg. A fim de entender como a narrativa é formada, não devemos nos limitar a estes momentos de plenitude: necessitamos considerar também os materiais formulados, as matérias aparentemente sem forma de conexão e suporte, e o papel dialógico e corretivo do historiador. (p. 13)
A história é contada da maneira própria do sujeito e, assim, encontramos uma aproximação entre o individuo e seus contextos. Dito isto, precisamos entender onde se localiza essa realidade que é construída na narrativa de parte da história de vida do sujeito. No início desse texto, me valeu a ideia de Mol (2007) sobre a pluralidade e a realidade como múltipla. Além das inserções de perspectiva e construção, preciso considerar a intervenção e a performance, porque, segundo a autora, estas sugerem uma realidade que é feita e performada e, não tanto, observada. Em lugar de ser vista por uma diversidade de olhos, mantendo-se intocada no centro, a realidade é manipulada por meio de vários instrumentos, no curso de uma série de diferentes práticas (Mol, 2007). Então, não é mais possível dizer qual a única realidade. A tradição, nesse caso, passa a ser confrontada de outro modo e com nova qualidade, pois passa a ter um lugar escolhido, uma maneira pensada e dirigida de atuação.
Lidamos com os micros lugares como produtos e produtores de vários processos sociais e identitários, como a ideia de ―nós‖, de ―eles‖, dos temas a serem debatidos, com quem conversamos, como e onde vivemos e, entre outros aspectos, o fluxo de fragmentos corriqueiros desses acontecimentos. Precisamos entender, sobretudo, que esse lugar escolhido para atuação da narrativa é o cotidiano.
No cotidiano é que conhecemos o outro, onde trocamos impressões para termos uma visão mais objetiva dele, para conhecer seus pontos de vista e de onde fala, ou seja, uma objetividade construída subjetivamente (Habermas apud Spink, 2008). A interlocução na fala e escuta das histórias nos fornece detalhes do processo subjacente de mudanças no cotidiano. Ela descreverá aqueles episódios interativos cruciais nos quais novas fronteiras de atividade individual e coletiva são forjadas, nos quais novos aspectos do eu são trazidos à existência.
Por conferir uma base realista à nossa imagem do processo subjacente é que a história de vida serve aos propósitos de verificar pressuposições, de lançar luz sobre organizações e reorientar campos estagnados.
O cotidiano torna-se possível porque conversamos. E segundo Spink (2008), esse é o instrumento do psicólogo: a conversa. Portanto, podemos compartilhar sentidos, elaborar temas, compreender afetos, e, no processo de entender quem somos, revelar a memória, nosso passado e presente. Isso porque as abordagens biográficas caracterizam-se por um compromisso com a história como processo de rememorar, por intermédio da qual a vida vai sendo revisitada pelo sujeito. Assim, vão se delimitando os assuntos que se referem à história oral dessa narrativa. “Quem diz o quê, em qual canal, para quem, com que efeito?” são modos de classificação de atos de fala e de gêneros de discurso, em particular, dependentes dessas questões (Jean-Marie apud Portelli, 2001, p. 13).
Devemos considerar que há um duplo trabalho interpretativo: do momento onde se vive o acontecimento e do momento em que ele é lembrado. É a situação presente que influencia a maneira por meio da qual o passado é percebido. Da mesma maneira que um ponto de vista, ou prisma, cria o objeto de pesquisa, o presente reelabora o passado através da mediação da memória (Bertaux, 1985). Podemos afirmar, então, que a lembrança é uma prática. É uma dupla interrogação, pois, tanto a pessoa interrogada como o pesquisador se interroga e, assim, se revela ao outro e a si mesma; além de restaurar o ato de comunicação que abre o caminho à narração, à hipótese e à aventura – da ciência e da criação.
Entendo o psicólogo como um pesquisador no cotidiano, caracterizado, frequentemente, por conversas espontâneas em encontros situados. Deve ele procurar se assumir como também actante (Latour apud Spink, 2008), ou seja, um entre muitos membros competentes de uma comunidade moral, que busca arguir e agir para melhorias. Ele faz parte de um processo contínuo, de negociação, resistência e imposição de sentidos coletivos. O psicólogo precisa tomar a história de vida como proposta de uma escuta comprometida, engajada e participativa, enfim, de uma inserção num campo-tema: matriz de questionamento e argumento, de ação e narração.
Um lugar para os posicionamentos da tradição
O que se construíu até agora revela a intencionalidade e os posicionamentos necessários não apenas para confrontar determinados conceitos, tentando lidar com
sobreposições e disputas de paradigmas, mas também indicando um caminho para que possam ser apropriados criticamente. Nessa direção, tomarei emprestado como exemplo dessa prática de apropriação crítica da tradição e da performatividade da narrativa, um discurso sobre a memória em um dos comunicados zapatistas de Chiapas no México10. Disse o
Subcomandante Marcos aos argentinos no dia 24 de março de 2001, quando completou 34 anos dos tempos de terror da ditadura argentina:
Porque hay y ha habido quien creyó y cree que, asesinando personas, asesina también los pensamientos y los sueños que en veces son palabras y en veces son silencios. Quien así cree en realidad teme. Y su temor adquiere el rostro del autoritarismo y la arbitrariedad. (...) Nuestros más antiguos nos enseñaron que la celebración de la memoria es también una celebración del mañana. Ellos nos dijeron que la memoria no es un voltear la cara y el corazón al pasado, no es un recuerdo estéril que habla risas o lágrimas. La memoria, nos dijeron, es una de las siete guías que el corazón humano tiene para andar sus pasos. Las otras seis son la verdad, la vergüenza, la consecuencia, la honestidad, el respeto a uno mismo y al otro, y el amor. Por eso, dicen, la memoria apunta siempre al mañana y esa paradoja es la que permite que en ese mañana no se repitan las pesadillas, y que las alegrías, que también las hay en el inventario de la memoria colectiva, sean nuevas. La memoria es sobre todo, dicen nuestros más primeros, una poderosa vacuna contra la muerte y alimento indispensable para la vida. Por eso, quien cuida y guarda la memoria, guarda y cuida la vida; y quien no tiene memoria está muerto.
Ele fala sobre o passado que se percebe no presente. Desponta a necessidade de crítica da memória para construir alternativas no presente e futuro. Consideremos outra urgência, que é interpretar tanto a lembrança (Bosi, 2004) como o esquecimento11 (Ricoeur,
2007).
Devemos ter cuidado com os desvios e possíveis negligências ao pensar a memória nessa forma de contar a história. Para evitar esses equívocos, os zapatistas trazem o tempo e a tradição de maneira pareada. Movimento oportuno que lança a palavra até os ―hermanos‖ argentinos, ressaltando a importância de uma data como essa e cuidando das lembranças de luta. Um esforço de manutenção da vida que acontece no cotidiano. São palavras ditas considerando o que os antigos faziam, evitando, assim, a presença da negligência como falta ou abandono, tanto da memória na tradição como na temporalidade dos seus efeitos. Segundo Benjamin (apud Bosi, 2004), os adivinhos achavam que dentro do tempo existia algo a ser extraído. Proferiam que o tempo é não homogêneo e vazio, mas repleto de índices. Os profetas apelavam para as lições da memória porque ―o passado arrasta
10
Os zapatistas aparecerão inúmeras vezes nesse trabalho por serem considerados, por diversos autores, um