2 Exit Louise Labé ? Les enjeux de la réception des Euvres
2.4 Les conséquences de la thèse de la supercherie
Do ponto de vista social, um campo é um espaço ou contexto relacional dedicado ao exercício de um tipo específico e complexo de atividade humana, relativamente autônomo ou fechado, envolvendo redes mais ou menos complexas de relações entre os agentes que nele exercem papéis e prerrogativas específicos, aos quais correspondem níveis e tipos de poderes diversos, o qual funciona de acordo com regras e instituições que lhe são especificas e que definem as relações entre os agentes que nele atuam (Hilgers & Mangez, 2015, pp. 5-6). São exemplos de campos sociais as religiões organizadas em igrejas, as comunidades científicas, o meio jurídico e judiciário, a medicina oficial, o sistema de ensino superior, o meio artístico, o negócio da moda, a burocracia do estado, os meios político-partidários, o desporto de alta competição, etc., etc. Por exemplo, o campo científico ou “meio científico” é marcado pela seletividade na admissão, pela competição entre participantes tão especializados que o valor do trabalho de cada um só pode ser avaliado pelos seus pares (Bourdieu, 1976, pp. 88-104). Nesses
133 campos relacionais de atividade, confrontam-se e interagem agentes com diversos habitus e detenções de capitais. Os habitus envolvem simultaneamente estrutura e agência e, neste sentido, podem definir e conformar os comportamentos e procedimentos dos indivíduos dentro e fora de cada campo de relações sociais, mas é sempre dentro de um campo que cada indivíduo estabelece relações sociais e participa de mudanças sociais (relações de força). Dependendo do campo social o individuo pode se aculturar (se integrar) ou ser rejeitado pelos membros ativos do espaço social ou ele mesmo, face ao confronto percebido, buscar isolar-se relativamente a eles (tornando-se “invisível”, o que nem sempre lhe é permitido pelos agentes que dominam o campo). A desigualdade social de origem pode objetivamente resultar na segregação das relações sociais em um outro campo, face aos habitus em confronto, porque um habitus não é somente uma forma ou maneira de comportar-se, mover-se, vestir-se, comer ou utilizar o garfo, mas também uma consciência de origem social e dos modos distintivos referenciados a essa origem. O habitus, segundo Bourdieu, é uma estrutura de estruturas incorporadas e inculcadas de geração em geração na qual, na prática e no campo das relações sociais, se fortalecem capitais e legitima o domínio das classes dominantes e de seu sistema de forças que o Estado reproduz através de suas instituições:
... sendo capital uma relação social, ou seja, uma energia social que existe e produz seus efeitos apenas no campo em que ela se produz e se reproduz, cada uma das propriedades associadas à classe recebe seu valor e sua eficácia das leis específicas de cada campo: na prática, ou seja, em um campo particular, nem sempre todas as propriedades incorporadas (disposições) ou objetivadas (bens econômicos ou culturais), associadas aos agentes, são eficientes simultaneamente; a lógica específica de cada campo determina aquelas que têm cotação neste mercado, sendo pertinentes e eficientes no jogo considerado, além de funcionarem, na relação com este campo, como capital específico e, por conseguinte, como fator explicativo das práticas. Bourdieu, (2007, p. 106-107).
As ações e as práticas das ações dos indivíduos e seus capitais dentro dos campos sociais, são ações reproduzidas pelos habitus no espaço desses campos sociais. Os estudantes das IES públicas e privadas convivem diariamente em campos e ambientes diversos em capitais. Para alguns, estes convívios fortalecem interesses, criam posições/posicionamentos e troca de capitais, para outros, o campo torna-se um espaço de expressão, aceitação e identificação de seus déficits de capitais. Dentro do campo acadêmico há os que apresentam suas heranças de capitais e há os que apresentam déficits de capitais, há os que se tornam dominantes dentro do campo universitário (curso versus disciplina versus professores versus sucesso escolar) que são muito predominantemente os “reproduzidos” pelas heranças de capitais (econômico, cultural, linguístico, social e simbólico), ou seja os que apresentam heranças de capitais. Logo, a relação cursos-professores não se modifica constantemente dentro do campo, este par se manifesta de acordo com a reprodução institucional dos habitus e os habitus aqui observados são os mesmos dentro do campo intelectual, formação, curso, regras de condutas, normas profissionais,
134 hierarquia professoral, mantendo diferenças também provindas do campo dos negócios, que simbolizam poder, dinheiro, interesses, relações e stakeholders. Podem estrategicamente renovar-se as infraestruturas, professores especialistas, métodos pedagógicos multivariados, cursos renomados, informática educacional, mas dentro das IES públicas e privadas o que prevalece no final são as avaliações referenciadas ao habitus dominante. Através dos professores, dos cursos e dos estudantes os resultados têm que aparecer “adequados ao mercado de trabalho” e, quando aparecem, o que domina são os habitus, capitais e campos de cada individuo, ainda que, no caso dos “intrusos”, maquiado por uma ligeira camada de verniz acadêmico e eventualmente uma titulação, cujo valor objetivo dependerá muito do confronto de
habitus do novo titulado com o habitus dominante no mercado de trabalho em que buscará ser
acolhido. Neste raciocínio, mas sem aprofundar, Souza (2009, p. 292) afirma que;
Assim, as avaliações corriqueiras postas em prática pelos agentes das escolas públicas medem as capacidades de cada aluno, permitindo ao sistema escolar levantar um campo de conhecimento sobre eles que serve para classificá-los, separando aqueles que se ajustam às exigências e têm bom desempenho, e aqueles que não se ajustam e fracassam, ou seja, os que podem ser úteis futuramente à sociedade e aqueles que estão fadados ao fracasso e às posições desqualificadas e pouco úteis.
Foucault (2006) determina chamar de 'campos' as capacidades de estratégias que podem determinar as ações entre seus participantes, os dominados e os dominantes. Bourdieu, (1996, p. 63), advoga que "o motor da mudança nas obras culturais, na língua, na arte, na literatura, na ciência etc., reside nas lutas cujo lugar são os campos de produção [dos habitus] correspondentes: essas lutas que visam a conservar ou a transformar a relação de forças instituída no campo de produção têm, evidentemente, o efeito de conservar, ou de transformar, a estrutura do campo das formas que são instrumentos e alvos nessas lutas”.
4.5. Conclusão
Quando o Estado atua como agente reprodutor dos meios sociais, a estrutura da pirâmide dos habitus torna-se sistemática, ou melhor, o Estado se utiliza de meios para legitimar as estruturas de classes e subclasses atuais e suas formas de inclusão e exclusão, mesmo dentro das instituições. Suas leis são aplicadas e utilizadas como meios de troca (escambo). Com o apoio das leis e medidas provisórias os agentes do Estado benevolentes promovem trocas de favores, enriquecendo licita e, por vezes, ilicitamente os que participam como reprodutores do sucesso escolar e profissional universitário e vai abrindo acesso aos menos desfavorecidos do sistema escolar, como gestor do rompimento dos campos de classes.
135 No Brasil de hoje, há um conflito acadêmico que por vezes chega a violência (pelo menos) verbal contrapondo estudantes de classes favorecidas e desfavorecidas. Os estudantes beneficiários de políticas públicas de acesso ao ensino superior são frequentemente desmerecidos perante os outros estudantes como “aquele que recebe esmola do governo para ingressar no ensino superior”, havendo também situações em que são apelidados como “cotistas”, “deficientes”, quando não são insultados pela referência à sua cor e ou local de moradia (“favelado”). A luta de classe não foi e tão pouco é novidade perante um mundo tão classista e muito menos por um país tão desigual como o Brasil. As únicas chances vistas pelos indivíduos, na busca do sucesso do trabalho e emprego, e ascensão social é através do caminho do acesso ao ensino superior, mas, para eles, a única solução de ingresso vem por meio das políticas públicas com governo Estadual e Federal, muito mais ainda pela segunda instância.
O certificado (diploma), ou melhor, a especialização do profissional pelo grau universitário é vista por parte dos estudantes como um capital cultural incorporado, que perante a sociedade e seus empresários ofertará uma posição de trabalho e emprego, neste caso até mesmo pelas Instituições Governamentais, onde os salários apresentam uma melhor atratividade por parte dos estudantes que terão que concorrer via concurso uma vaga de emprego. Entretanto, o diploma em alguns momentos pode apresentar deflação, principalmente quando a própria IES vê colocado em dúvida seu ensino por parte das agências reguladoras do ensino superior. Desta forma resta somente a “reinvenção” do diploma por parte do aluno, que nessas circunstâncias opta por ser “empreendedor” (trabalhador autônomo) usando os conhecimentos adquiridos. Com o avanço das TICs (Tecnologias da Informação e comunicação), o que hoje é visto como novidade de conhecimento torna-se ultrapassado para os estudantes recém-graduados. O diploma torna-se a moeda de troca entre o trabalho e a especialização da mão de obra, a universidade de origem e o mercado produtivo e mal pago. As raríssimas, mas honrosas, exceções ajudam a legitimar a exclusão da maioria “normal” (Gonçalves, 2011).
É necessário entender como os capitais nascem e se fortalecem diante da reprodução levada a cabo pelas famílias “legítimas” defensoras e herdeiras do habitus dominante e pelo Estado, transformado tacitamente num campo social que dominam, através dos capitais que detêm e das redes de relacionamentos em que predominam. Para os herdeiros, o seu estilo de vida e a educação recebida são direitos legítimos e decorrentes estritamente de seu “mérito” escolar, e “de classe” (econômica), enquanto para as famílias carenciadas são direitos relutantemente concedidos em busca produtividade global e da eficiência da integração do sistema econômico nacional no internacional ou global. Sendo assim, o Estado legitima, também por razões econômicas (escassez relativa de meios) a relativa exclusão das classes menos favorecidas e o seu desinteresse pelas classes subordinadas e trabalhadoras, governando e trabalhando em função dos interesses dos “criadores de empregos” que são também os donos e
136 herdeiros do habitus. Os capitais são fontes de poderes nos ‘campos’ (sociais), onde justificam sua existência, nas formas de capital simbólico, social, cultural, econômico, linguístico e outros. Os vários campos, por sua vez, são estruturas formatadas, moldadas, regularizadas, com regras e normas desenhadas pelos agentes da burocracia e do campo sociopolítico do Estado. As atividades produzidas e reproduzidas dentro dos vários campos são desenhadas e praticadas pelos agentes enquanto aprendizagem acreditada e reconhecida pelo Estado. Resumidamente, podemos dizer que o capital social tem força e envolve práticas dentro do capital simbólico e cultural, entretanto o capital cultural contribui para a aquisição de novos e fortalecimento de velhos capitais sociais. O individuo com capital econômico pode adquirir capitais culturais, mesmo com déficits de aprendizagem e práticas resumidas. O capital linguístico proporciona meios necessários para viver e conviver no meio dos indivíduos que dominam o capital econômico e social. Como se descreve nos capítulos seguintes, o sistema de disposições que estabelece e distingue os gostos e preferências culturais e que reproduz os domínios dos capitais herdados, foram inquiridos em nossa pesquisa de campo através dos questionários. O objetivo foi traçar o perfil sociodemográfico econômico, cultural e simbólico destes alunos e entender o processo de admissão dos estudantes advindos do ensino médio público e privado ao ensino superior e quais as IES de acesso (pública e privada), quais os meios que contribuíram para sua entrada ao ensino superior (programas políticos sociais, capitais e outros) conformaram as suas disposições nos “campos” acadêmicos, dados seus habitus de origem.
As estruturas de poder dos capitais são legitimadas pelas leis emanadas do Estado para serem cumpridas como regras e normas como meios de sobrevivência e subsistência. O capital social pode garantir poderes causais aos que dele beneficiam através das estruturas de relacionamentos que dominam e governam. A arquitetura que pode chegar a existir dentro de uma rede de relações de capital social pode ser vasta, principalmente quando o agente, individual ou coletivo, atua através das interligações de relacionamentos, as chamadas networks. Através do capital econômico e social os herdeiros garantem as melhores posições, tanto nos melhores cursos e universidades, como nos postos de trabalho, sendo claro que entre eles há alguns que não herdaram capitais sociais e culturais prestigiosos mas, com o seu capital econômico, conquistam posição, através da aculturação e formação do curso superior adquirido em escola privada internacional de fees elevados e através do reconhecimento dessa formação torna-se um profissional superior, bem posicionado e bem pago. O capital econômico para os novos ricos, os que não obtiveram o capital econômico por herança, fortalece seu capital simbólico quando misturado com a formação superior, mas não lhe cria mais valia em termos de capital social. Para as famílias herdeiras do capital social, os novos ricos não pertencem de origem aos seus estilos nem detêm os gostos que diferenciam a sua “nova” classe social. Por outro lado, há no Brasil inclusivamente por parte das agências reguladoras e por parte das
137 academias atos de reservas de mercado baseados no capital linguístico e os agentes destas instituições não estão especialmente interessados em que a língua oficial bem escrita e falada fique acessível a todos os cidadãos. Antes preferem que ela se constitua em barreira e legitime a exclusão, por (falta de) “mérito”, daqueles originados de classes desfavorecidas, aos quais são excluídos os meios ou acessos para adquirirem esse mesmo mérito. Não é por acaso que as provas de “Língua Portuguesa” estão presentes na maioria dos cobiçados lugares a que se acede por concursos de “mérito”.
O uso das togas no Brasil, como símbolos, tem muito mais valia, pois seus usuários demonstram, por seu uso, que detêm o poder (legítimo) de validar, legitimar e ordenar o que é certo ou errado diante da carta máxima que rege o País, a Constituição Brasileira. Inclusivamente, hoje em dia, debate-se muito a reprodução familiar dos togados no Brasil, com pais juízes, filhos e netos juízes, se sucedendo ao longo de três ou quatro gerações da mesma família, lançando suspeição sobre as afirmações e jurisprudência relativas a reprodução de classes, visarem a defesa dos seus, aquilo que popularmente se chama “julgar em causa própria”. Mais uma vez afirmamos que a reprodução do Habitus parte de dentro das agências reguladoras do Estado para a sociedade civil, através de leis criadas a partir “de dentro” das famílias beneficiárias e herdeiras do Estado. Algo similar ocorre com os grupos que, em alguns campos, se atribuem direitos de foro privilegiado para eventuais acusações de crimes públicos comuns (e.g. corrupção ou peculato) ou seja, o direito a ser julgado apenas por seus pares, de escalão hierárquico análogo ou superior, o que acontece, por exemplo, com políticos, juízes e militares. A resistência dos estudantes que apresentam déficits de aprendizagem e de capitais (habitus) torna-os sucessores do provável, causalidade do seu provável, pois sua aculturação na vida acadêmica e no ambiente universitário e das profissões torna-os indivíduos semelhantes aos herdeiros do habitus, mas que não deixarão (em probabilidade) de carregarem consigo os
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