Pelos motivos antecedentes, o filósofo Agostinho afirma que a filosofia (ciência) platônica90 é a que mais se aproxima da verdade da fé cristã. Platão, discípulo de Sócrates, divide a filosofia em três partes: a natural, a racional e a moral. Com a filosofia natural ou física os platônicos compreendem que Deus é o princípio de todos os seres e que nenhum corpo é Deus. Em busca de Deus levam o conhecimento acima dos corpos e concluem pela imutabilidade de Deus de onde provém todo ser mutável. “O que para Ele é viver, entender e ser feliz é para Ele ser”91.
A semelhança entre a filosofia cristã e a filosofia de Platão é visível na medida em que o existir, o pensar e o entender estão unidos em direção à Verdade. Para os platônicos tudo o que existe é corpo ou é vida, o primeiro sensível pelos sentidos e a segunda inteligível pela inteligência. Como o corpo e a inteligência são mutáveis, continuaram a buscar algo que pudesse ser incomparável e concluíram ser Deus a causa eficiente (imutável e incomparável). Desde a criação do mundo, os homens podem sentir e ver com a inteligência as realidades visíveis a perfeição invisível de Deus. Por isso, diz-se natural, pois é o que se pode conceber naturalmente de Deus92.
A segunda parte da filosofia, chamada racional ou lógica, distingue entre o que o “espírito descobre e o que o sentido aprende, sem que aos sentidos nada tirassem do que podem, nem lhes atribuíssem poder que não têm”93, e não coloca o conhecimento somente no
que pode ser apreendido pelos sentidos como regra única e exclusiva da percepção da verdade. O sentido da palavra “descobrir” (inventio) significa “chegar até onde se deseja” (in- venire) para afirmar que a alma procura as realidades que conhece antes dos sentidos as encontrar94.
90Interessante é a investigação de Agostinho a respeito de que meios se serviu Platão para adquirir uma visão
próxima à cristã. Chega à conclusão de que Platão – aprendiz da língua egípcia por meio de intérprete - pode ter adquirido esses conhecimento da tradução das Escrituras proféticas quando esteve no Egito em razão do rei egípcio Ptolomeu ter as pedido à Judéia, as quais foram traduzidas por setenta hebreus à custa de pagamento. Cf. AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus.Tradução de Oscar Paes Leme. v. I. 10. ed. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007, p. 313-314.
91AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus.Tradução de Oscar Paes Leme. v. I. 10. ed. Bragança Paulista: Editora
Universitária São Francisco, 2007, p. 308.
92Cf. AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus.Tradução de Oscar Paes Leme. v. I. 10. ed. Bragança Paulista:
Editora Universitária São Francisco, 2007, p. 308-309.
93AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus.Tradução de Oscar Paes Leme. v. I. 10. ed. Bragança Paulista: Editora
Universitária São Francisco, 2007, p. 310.
94AGOSTINHO, Santo. A Trindade.Tradução do original latino e introdução Agustinho Belmonte; revisão e
Agostinho remonta a Platão para refutar as ideias epicuristas de que a inteligência (espírito) concebe noções (ennóias) das coisas que explicam por definições, a unir por conexão o aprender e o ensinar. Essa filosofia platônica assevera que existe certa inteligência capaz de nos ensinar todas as coisas, sendo o próprio Deus, criador de todas as coisas. Ou seja, a filosofia lógica ou racional reconhece a importância do conhecimento que nos vem pelos sentidos e aquela que nos chega pela inteligência na descoberta de todas as coisas em Deus, afirmado como medida de todas as coisas, na obra “As Leis”: “Aos nossos olhos a divindade será ‘a medida de todas as coisas’ no mais alto grau – um grau muito mais alto do que aquele em que está qualquer ‘ser humano’ do qual eles falam”95.
É interessante observar que Hume no século XVIII – compartilhando do pensamento epicurista – afirme que
os únicos objetos da ciência abstrata ou da demonstração, são a quantidade e o número, e que todo esforço para estender este gênero mais perfeito do conhecimento além daquelas fronteiras é mero sofisma ou ilusão.
(...) Todas as outras investigações humanas dizem respeito unicamente às questões de fato e de existência; e estas não são, evidentemente, suscetíveis de demonstração. Tudo o que é pode não ser.
(...) Portanto, a existência de qualquer ser somente pode ser provada mediante argumentos derivados de sua causa ou de seu efeito, e estes argumentos se fundam inteiramente na experiência.
(...) As ciências religiosas (...) fundam-se sobre a razão, na medida em que se apóiam na experiência. Mas seu melhor e mais sólido fundamento é a fé e a revelação divina.96
O que Hume proporciona é a divisão da filosofia e da ciência, pois não têm base comum, ou, ao menos, tenta reduzir o significado do termo “filosofia” para o que chamou de “filosofia moral ou da natureza humana” e ter como ponto central a experiência, a excluir qualquer entendimento abstrato não verificável na prática. Não há, assim, possibilidade de um juízo moral97 (dever-ser) advir dos fatos (ser); assim como só entendemos o mundo por uma associação de ideias vindas da experiência sensível.
Não obstante, os argumentos das filosofias platônica e cristã continuam a repousar em bases racionais para além do conhecimento intuitivo kantiano ou o experimental de Hume, a aceitar um fundamento racional para o juízo moral. Tanto Kant quanto Hume não retiram a religiosidade da experiência humana e isso, a nosso ver, pode reforçar a ideia de que o existir, o pensar e o viver são categorias presentes no universo criado (natureza), notadamente, no homem capaz de transcender todos os corpos (realidade sensível) para chegar a algo
95PLATÃO. As Leis. Tradução Edson Bini. 2. ed. Livro IV. 716 c. São Paulo: Edipro, 2010, p. 189.
96HUME, David. Investigação acerca do entendimento humano. Tradução de Anoar Aiex. 1. ed. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996, p. 153-154.
incomparável (Deus, transcendente) na medida em que sua inteligência pode ser guiada ao Ser Supremo por Este como experiência humana.
A separação entre as naturezas divina e humana não põe obstáculo ao homem em conhecer uma realidade, por assim dizer, transempírica, pois nem mesmo Kant e Hume ousam afirmar que a religião não tenha um aspecto racional de acordo com a experiência. Em termos cristãos, ao abordarmos uma experiência humana racional, queremos nos reportar ao pensamento segundo o qual a própria religião se funda sob bases racionais e, se se estabelece nisso, é apta, pois, a se fazer ouvir no mundo, particularmente, no Estado. Essa mesma experiência é reconhecida como resgate divino da humanidade realizado na história; por isso, o pensador cristão afirma que “o fundamento para seguir esta religião é a história e a profecia”98. Nesse sentido, a busca pelo conhecimento verdadeiro é mais do que o puramente
subjetivo ou empírico, embora se reconheça o seu devido valor. O modelo de Estado pode ser fabricado com base em elementos exclusivamente humanos em razão de ser autônomo, mas, para ser justo verdadeiramente, deve buscar o conhecimento verdadeiro.
A prosseguir, a terceira parte da filosofia, denominada moral, é chamada pelos gregos de ethiké e trata do bem supremo99 para alcançarmos a felicidade e só a alcança quem vive de acordo com a virtude por meio do conhecimento e imitação de Deus, fonte única da felicidade100. A felicidade vai para além do mundo e do ser (corpo e alma) para se situar no fruir de Deus. Veremos que Santo Agostinho embasa a justiça justamente na ideia do fruir de Deus.
Apesar dessas considerações a respeito da filosofia platônica, Agostinho aponta que os platônicos não foram capazes de reconhecer Cristo como o Verbo encarnado por não acreditarem que o homem pudesse alcançar a perfeição da sabedoria enquanto não evitasse e se liberasse do corpo para ser feliz101. Isso porque o corpo é um bem na visão cristã e a encarnação de Cristo não lhe afetou a divindade.
Outro ponto que o pensador cristão refuta é a reminiscência de Platão segundo a qual o homem não adquire novos conhecimentos na medida em que as almas que viviam neste mundo antes dos corpos apenas se lembram do que já conhecem. Na verdade, Agostinho refuta essa idéia ao aceitar que a intelecção humana é capaz de conhecer as realidades eternas
98 AGOSTINHO, Santo. A verdadeira religião. O cuidado devido aos mortos. Tradução de Nair de Assis Oliveira. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2002, p. 39.
99Cf. AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus.Tradução de Oscar Paes Leme. v. I. 10. ed. Bragança Paulista:
Editora Universitária São Francisco, 2007, p. 310.
100Cf. AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus.Tradução de Oscar Paes Leme. v. I. 10. ed. Bragança Paulista:
Editora Universitária São Francisco, 2007, p. 311.
101Cf. AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus.Tradução de Oscar Paes Leme. v. I. 10. ed. Bragança Paulista:
enquanto a razão humana é capaz de conhecer e aprender as coisas temporais de forma originária. Por isso, divide o conhecimento em intelectivo (sabedoria) e racional (ciência). “A sabedoria é o conhecimento intelectivo das realidades eternas e a ciência o conhecimento racional das coisas temporais”102.