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Existe um conjunto de modalidades desportivas que são denominadas Jogos Desportivos Colectivos e que, segundo (Bayer, 1994), possuem em comum as seguintes características: existência de um objecto (bola, disco), que pode ser jogado pelo jogador quer com a mão, quer com o pé ou por intermédio de um instrumento; um terreno de jogo estandardizado, que limita a acção dos jogadores; um alvo a atacar ou a defender (baliza, cesto); os companheiros que, cooperando, ajudam a progressão da bola; os adversários cuja oposição é preciso vencer e a existência de um regulamento que é preciso respeitar.

Por sua vez, Konzag (1986) considera os colegas de equipa, os adversários, a bola, os alvos a atingir e o campo de jogo, um conjunto de componentes que constituem um sistema de referência dos desportos colectivos, sendo os comportamentos e acções de ambas as equipas determinadas pela relação de contraste ataque / defesa, em interacção permanente.

Teodorescu (1984:24), um dos responsáveis pela criação e desenvolvimento de uma “teoria” dos jogos desportivos colectivos, afirma que o jogo desportivo colectivo constitui “…um processo organizado de cooperação, realizado através

da coordenação das acções dos jogadores duma equipa – desenrolado em condições de luta com os adversários – os quais, por sua vez, coordenam as suas acções para desorganizar a cooperação dos jogadores da primeira equipa… e onde ”… a presença das acções tácticas colectivas, em conjunto com as

individuais, e a existência da relação de adversidade entre duas equipas, dão origem a um grande número de interacções, tanto no ataque como na defesa.”

Mas constituirão os JDC uma unidade coesa e homogénea? O que os pode assemelhar? O que os pode diferenciar?

Uma análise à literatura existente, permite constatar a diversidade de classificações e de indicadores utilizados para agrupar ou diferenciar os JDC. No respeitante a uma classificação dos jogos desportivos, Teodorescu (1984) refere a possibilidade de sistematizá-los de acordo com os seguintes indicadores: o carácter das acções, a zona corporal predominantemente utilizada, a deslocação e a forma de luta pela bola (ver Figura 1).

Figura 1 – Classificações dos Jogos Desportivos segundo Teodorescu (1984)

Para além desta tentativa, diversas classificações têm sido utilizadas para diferenciar os jogos desportivos. Todas visam facilitar a verificação das diferenças e semelhanças existentes e possibilitar a análise dos indicadores de performance mais úteis (Hughes & Bartlett, 2002), e têm como objectivo potenciar os processos de ensino – aprendizagem e a eficácia do treino.

A análise da estrutura dos jogos tem servido de base para a maioria dessas Jogos Desportivos Segundo Carácter das Acções Segundo Zona Corporal Predominante a ser utilizada Segundo Formas de deslocação Segundo Formas de luta pela bola -Individuais

(ténis, badminton,etc.)

-Por equipas

(futebol,

voleibol, etc.)

-Com a Mão

directamente

(Voleibol, Andebol, etc.)

-Com a Mão equipada com

instrumento

(ténis, hóquei em campo, etc.)

- Normal -Com meios de

locomoção

(aparelhos e veículos)

-Luta directa (futebol, basquetebol, etc.)

-Luta indirecta (ténis, voleibol,etc.)

necessidade e interesse de uma classificação das actividades físicas e do desporto, referencia diferentes classificações de diversos autores que, têm como ponto de partida indicadores externos ou internos das diferentes actividades e desportos: Bouet (1968), Durand (1969), Fitts (1965), Harrow (1972), Knapp (1979), Metoudi (1979), Matveiev (1975), Parlebas (1981), Tessie (1971) e Vanek & Cratty (1970).

Knapp (1975) propõe uma classificação assente na diferenciação entre habilidades fechadas, onde a técnica joga um papel principal em referência a um “padrão de movimento” (Atletismo, Ginástica, Natação) e habilidades abertas onde as reacções ao envolvimento em referência a um “padrão de estímulos” são essenciais. Nestas, o sujeito deve ser capaz de fazer face a uma grande variedade de situações, donde a importância do desenvolvimento da percepção do envolvimento e a capacidade de escolher respostas adaptadas (desportos colectivos, desportos de combate, desportos na natureza). Referindo-se aos jogos desportivos colectivos, Knapp (1975) afirma que nestes a tomada de decisão é uma parte essencial da habilidade, i.e., não basta executar bem gestualmente, pois o jogador deve ser capaz de executar uma acção adequada no momento oportuno.

Hernandez Moreno (1994) ao analisar estas classificações, concorda que estas possibilitam uma análise e estudo pormenorizado e diferenciador de cada uma das actividades. No entanto, considera que as classificações que utilizam critérios internos partindo da estrutura funcional do desporto são as mais adequadas e com mais interesse para a análise desse mesmo desporto, permitindo uma definição e delimitação profunda do mesmo.

Assim, através de uma análise crítica a estas diferentes classificações, considerou que nenhuma delas permitia, de forma satisfatória, situar algumas modalidades que apresentavam características claramente diferenciadoras: os jogos de equipa disputados em espaços estandardizados.

Partindo da classificação de Parlebas (1981, cit. Hernandez Moreno, 1994), baseada no critério das diferentes relações possíveis do praticante com o envolvimento, os companheiros e os adversários, este autor conjuntamente com Blasquez Sanchez, acrescentou a este critério a forma de utilização do espaço de jogo (comum ou separada) e de participação dos jogadores (simultânea ou alternada). Obteve assim, relativamente aos desportos classificados por Parlebas (1981, cit. Hernandez Moreno, 1994) como sociomotores e que se jogam em

espaços estandardizados, uma classificação com três categorias: desportos de oposição, desportos de cooperação e desportos de cooperação/oposição.

Como se pode ver na Figura 2, o grupo de desportos de oposição foi dividido em três grupos, consoante o espaço é utilizado em comum ou em separado e a participação é simultânea ou alternada.

Figura 2 – Classificação dos Desportos de oposição, in Hernandez Moreno (1994)

Acrescentando os mesmos dois critérios, relativos ao espaço e à forma de participação, obteve para os jogos de cooperação, dois grupos diferenciados pelo modo de utilização do espaço, como se observa na Figura 3.

Figura 3 – Classificação dos desportos de cooperação, in Hernandez Moreno (1994)

Para os jogos de cooperação/oposição definiu três grupos, onde se inserem todos os jogos desportivos colectivos como se pode observar na Figura 4. Assim, distinguiu: jogos de espaço comum e participação simultânea, jogos de espaço comum e participação alternada e jogos de espaço separado e participação alternada.

DESPORTOS DE COOPERAÇÃO ESPAÇO COMUM E

PARTICIPAÇÃO SIMULTÂNEA PARTICIPAÇÃO SIMULTÂNEA ESPAÇO SEPARADO E

Patinagem artística

Ginástica rítmica por equipas Atletismo- estafetas Natação- estafetas DESPORTOS DE OPOSIÇÃO ESPAÇO COMUM E PARTICIPAÇÃO SIMULTÂNEA ESPAÇO COMUM E PARTICIPAÇÃO ALTERNADA ESPAÇO SEPARADO E PARTICIPAÇÃO ALTERNADA

Luta livre, Karate, Luta

Figura 4 – Classificação dos desportos de cooperação/oposição, in Hernandez Moreno (1994)

Uma outra sistematização dos Jogos Desportivos é a de Dobler, Schnabel, & Theis (1989, cit. Bota & Colibaba-Evulet, 2001), construída com base em quatro critérios, conforme se pode observar na Figura 5.

Figura 5 – Sistematização dos Jogos Desportivos segundo Dobler et al. (1989)

Já Hughes & Bartlett (2002), tendo como ponto de partida a classificação dos Jogos formais em três categorias de Read & Edwards (1992) – jogos com rede e parede, jogos de invasão e jogos de batimento / apanhar da bola – criou uma sub- categorização das três categorias iniciais, definindo para cada grupo de categorias e subcategorias um grupo de indicadores que, segundo ele, contribuem para / ou melhoram a performance, como se observa na Figura 6.

JOGOS DE CCOPERAÇÃO/OPOSIÇÃO JOGOS DE ESPAÇO COMUM E PARTICIPAÇÃO SIMULTÂNEA JOGOS DE ESPAÇO COMUM E PARTICIPAÇÃO ALTERNADA JOGOS DE ESPAÇO SEPARADO E PARTICIPAÇÃO ALTERNADA ANDEBOL Basquetebol, Futebol, Rugby, Hóquei Squash pares

Pelota pares Voleibol, ténis pares, Badminton pares

JOGOS DESPORTIVOS Jogos Desportivos com alvo Jogos com batimento/ percussão da bola (baseball, softball) Jogos de envio da bola ao alvo por percussão, impulso e batimento (bilhar, golfe, boccia, etc) Jogos com retorno - que impõem o lançamento da bola Com contacto corporal admitido (futebol americano, hóquei no gelo, Andebol, rugby, pólo aquático, Sem contacto corporal (basquetebol, pólo a cavalo, hóquei em patins, cicloball, etc) Individual e pares (badminton, ténis de mesa, squash, pelota basca, etc)

Por equipas (voleibol, vólei de

Figura 6 – Classificação dos Jogos formais segundo Read and Edwards (1992, cit. Hughes & Bartlett, 2002)

Hughes & Bartlett (2002) subdividiram a primeira categoria em Jogos com rede e Jogos com parede, como se pode ver na Figura 7, subdividindo igualmente estas subcategorias em outras mais, apesar de considerarem idênticos os factores que contribuem para o sucesso em todas as modalidades abrangidas nesta classificação, como se observa na Figura 8.

Figura 7 – Sub categorização dos jogos com rede (Hughes & Bartlett, 2002)

Esta diferenciação, relacionada com a existência ou não de batimento, com ressalto ou sem ressalto, enquadra o Voleibol nesta terceira subcategoria.

Também dependentes do resultado e apesar de ambos serem de ressalto e batimento da bola após esta tocar no solo, os autores distinguiram duas modalidades desportivas (ver Figura 8).

Dependentes do tempo

Jogos com rede e parede

Jogos de invasão Jogos de batimento/ de apanhar a bola Dependentes do resultado Jogos Formais Dependentes do batimento da bola

Jogos com rede

Jogos sem batimento da bola antes de esta tocar o

solo

Jogos de ressalto e batimento da bola após

esta tocar o solo

Jogos sem ressalto

Figura 8 – Sub categorização dos jogos com parede (Hughes & Bartlett, 2002)

A categoria Jogos de invasão foi subdividida em três subcategorias, conforme se pode observar na Figura 9: jogos de lançamento com alvo ou baliza, jogos de tentativa de marcar e jogos de golo com batimento.

Figura 9 – Sub categorização dos jogos de invasão (Hughes & Bartlett, 2002)

Subdividiu ainda a terceira categoria inicial, jogos de batimento /apanhar da bola, em duas subcategorias (ver Figura 10).

Figura 10 – Sub categorização dos jogos de batimento / apanhar a bola (Hughes & Bartlett, 2002) Jogos com parede

Jogos de ressalto e batimento da bola após esta tocar o solo

Squash Fives Jogos de invasão Jogos de lançamento com alvo ou baliza Jogos de golo com batimento Jogos de tentativa de marcar

Netball Basquete Andebol

bol Rugby de sete Rugby de onze Hóquei Futebol

Lacrosse Jogos de batimento/ apanhar a bola Jogos com “portas” (Wicket Games) Jogos de corrida com bases

Com base na classificação de Almond (1986) e analisando a comunicação entre os jogadores e o uso que fazem do espaço em cada um dos jogos, Halling (s/d) classifica em quatro grupos ou famílias os, por ele designados, jogos com bola: jogos de invasão ou jogos de caos, jogos com rede/parede, jogos de pontuação com corrida / batimento e jogos com alvo, conforme Figura 11.

Figura 11 Classificação dos desportos, segundo Halling (s/d)

Pode-se concluir, após uma revisão da literatura sobre a classificação dos diferentes desportos, que existem JDC que, de modo consensual, são classificados num mesmo grupo (Andebol, Basquetebol, Futebol, Hóquei, Râguebi), designado de jogos desportivos com alvo, jogos de cooperação/oposição ou jogos de invasão, caracterizados por serem jogos de participação simultânea e espaço comum, e um segundo grupo onde a participação é alternada e o espaço separado, com a existência de uma rede (Voleibol).

Esta integração de diferentes modalidades num mesmo grupo, i.e., jogos de invasão, traduz de modo claro a concordância de diferentes autores, na existência de pontos de identidade que os aproxima e, simultaneamente, os afasta entre si. No

D e s p o r t o & E d u c a ç ã o F í s i c a Atletismo Jogos com bola Educação de ar livre Ginástica Natação Dança Jogos de caos/ invasão Jogos com rede/ parede Jogos de pontuação com corrida/jogos de batimento Jogos com alvo Basquetebol Futebol Hóquei Andebol Voleibol, Tenis, Badminton Baseball, Softball Bowling, Golfe O

sua própria especificidade: têm regulamentos diferentes, tamanhos e características da bola diferentes, terrenos de jogo de dimensões diversas e com restrições de utilização dos espaços também diferentes. A interacção destes elementos com os praticantes, produz assim constrangimentos diferentes, em cada modalidade desportiva, que condicionam a actividade dos jogadores. Cada modalidade desportiva vai assim exigir comportamentos e acções específicas, em função da sua própria estrutura e natureza diferenciada (Silva, 2003).

Lago Peñas y Martin Acero (2005) com base na análise da estrutura de duelo, das acções de lançamento e dos passes, dividiram os JDC de espaço comum e participação simultânea em dois grupos: o primeiro, em que se inclui o Futebol e o Hóquei em Campo, modalidades caracterizadas por uma clara diferenciação dos espaços de jogo; e o segundo, onde se inserem as que, como o Basquetebol e o Andebol, são caracterizadas pelo facto de a participação dos jogadores ter lugar num mesmo sector do terreno de jogo que, é o espaço defensivo da equipa que não possui a bola.

No entanto, para estes autores e relativamente às modalidades que integram este último grupo, é necessário distinguir aquelas onde as interacções dos jogadores se produzem de forma ocasional, como no Basquetebol e no Hóquei em Patins, das modalidades, como o Andebol e o Pólo Aquático, onde as interacções dos desportistas respondem a um modelo misto, em que existem jogadores cuja interacção está baseada num vínculo predeterminado, como no caso dos pontas com os laterais, ou dos laterais com o central, no Andebol, e outros jogadores, como o pivot no Andebol e no Pólo Aquático, em que as interacções com outros jogadores se produzem de forma ocasional.

Uma nova abordagem da natureza dos JDC, à luz da respectiva complexidade, pode levar-nos a considerá-los como um sistema adaptativo complexo, de acordo com o entendimento que de tal sistema faz (Garcia, 2001) e que, baseado em Waldrop (1992), Freedman (1992), afirma apresentar as seguintes características:

1) Consiste numa rede de muitos agentes (neste caso jogadores de duas

equipas) agindo em paralelo de uma forma autogerida, sem controlo centralizado das suas acções6.

6 Nesta perspectiva, o sistema adaptativo complexo tanto pode ser uma equipa como o conjunto das duas equipas que se defrontam

2) Os agentes (jogadores) descobrem-se a si próprios num ambiente produzido pelas suas interacções com outros agentes (jogadores

adversários e colegas de equipa), agindo e reagindo constantemente ao que os outros agentes fazem, provocando uma constante mudança e evolução da envolvente (o contexto do jogo), e gerando uma novidade perpétua (as situações de jogo não se repetem).

3) Padrões organizados de comportamento emergem da competição e cooperação entre os próprios agentes, do “…choque da acomodação e da rivalidade recíprocas…”, como afirma Waldrop (1992, cit por Garcia 2001:38), produzindo “…todos, cujas estruturas específicas decorrem das interacções e interdependências entre as partes…” Capra, (1993, cit por Garcia, 2001:38).

4) Os agentes organizam-se e reorganizam-se constantemente em estruturas mais vastas (formas de organização colectiva, os designados sistemas de

jogo, mas também estruturas compostas por dois e três jogadores, que realizam formas organizadas de cooperação), recombinados e rearranjados, à medida que as condições externas mudam e que os agentes aprendem, se adaptam e evoluem, incrustando essa informação ou experiência na estrutura do sistema (ao longo de um jogo e também ao longo de uma

temporada).

5) Existem nichos comportamentais especializados (os postos específicos), ocupados por agentes adaptados à respectiva exploração (da tarefa e do

espaço); no entanto, quando muda o contexto, os velhos nichos desaparecem, sendo criados novos nichos, que trazem consigo novas oportunidades, por via da abertura de nichos adicionais.

6) Os agentes, até certo ponto, antecipam o futuro, fazendo “previsões” com base nos modelos internos (a lógica interna), que executam sob certas condições (as regras de jogo), produzindo comportamentos particulares. À medida que os agentes ganham experiência, respondendo ao feedback da envolvente, vão testando, refinando e rearranjando os modelos internos e ajustando o seu comportamento de acordo com ele.

7) Os agentes não têm formas práticas de optimizar o seu comportamento, visto que o espaço de possibilidades é simplesmente demasiado vasto na

que lhes resta é a de terem capacidade para mudar e fazerem-no melhor que os outros agentes (adversários).

2.4 Importância dos factores táctico-técnicos no rendimento nos Jogos