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Como refere Garganta (2001), o estudo do jogo a partir da observação do comportamento dos jogadores e das equipas emergiu a par com os imperativos da especialização no âmbito da prestação desportiva a partir dos anos 30 do século XX, reconhecendo-se como pioneiros os trabalhos de Messersmith & Corey (1931) e de Messersmith & Fay (1932) no âmbito do Basquetebol e do Futebol Americano.

No entanto, porque são utilizadas diferentes denominações na literatura referente a estudos realizados neste âmbito (observação do jogo – game observation; análise do jogo – match analysis e análise notacional – notational analysis), conforme destaca o autor acima referido, interessa delimitar o que se entende por “Observação” e por “Análise do Jogo”.

A ciência começa com a observação, sendo simultaneamente o mais antigo e o mais moderno método de recolha de dados (Anguera, 1978; Goode & Hatt, 1979), “...registando a sua história, o desenvolvimento de procedimentos e de meios instrumentais que eliminem ou corrijam gradualmente os desvios ou as distorções ao efectuar observações.” (Hyman, 1972, cit. Anguera, 1978:19).

A observação, muito utilizada na área da Sociologia e da Psicologia, sendo considerada tradicionalmente como um processo que tem como objectivo a análise do comportamento de um ou mais indivíduos (Anguera, 1988), com naturalidade passa igualmente a ser utilizada na área das Ciências do Desporto, nomeadamente quando se pretende estudar o comportamento dos atletas e das equipas em contextos de treino e na competição.

Observar, sendo um processo que requer atenção voluntária e deliberada, é igualmente um acto inteligente, em que o observador selecciona parte da informação que considera pertinente, do total de informação possível. Trata-se de um processo cuja função primeira e mais imediata é recolher (registar) informação do objecto (ou sujeito) em questão e em função de um objectivo planeado e organizado (Blanco y Anguera, 2001).

Heinemann (2003:135) define a observação científica como “...a captação previamente planeada e o registo controlado de dados com uma determinada

finalidade para a investigação, mediante a percepção visual ou acústica de um acontecimento”.

A observação como método é um processo em que intervêm as componentes da percepção, interpretação e conhecimento prévio, em que, como refere Anguera (2001:5) “...se contempla a denominada equação funcional O=P+I+Cp-S (P=Percepção, I=Interpretação, Cp=Conhecimento prévio, S=Desvios3), e onde a falta de equilíbrio entre P, I e Cp gera desvios de carácter estrutural. O uso da observação na avaliação implica a manutenção de um equilíbrio entre a percepção (habitualmente substituída por um meio técnico com o objectivo de obter uma maior precisão), a interpretação (que implica completar de conteúdo as imagens ou sons percebidos), e o conhecimento prévio ou contextualização (que possibilita interpretar adequadamente o percebido em função do marco teórico que se sustenta, e de critérios contextuais, como físico, de conduta, social e organizativo ou institucional”. Como refere Anguera (2001b) são diversos os riscos de enviesamento da observação, podendo no entanto referir-se três grandes grupos: os relativos à reactividade: que consiste na alteração da natureza espontânea das condutas dos sujeitos observados, ocasionada quando se apercebem que estão sendo alvo de observação; os relativos à expectativa: que surge no observador em forma de previsões e/ ou antecipações de condutas não contextualizadas e em algumas ocasiões nem percebidas; os de carácter técnico: ângulo de observação incorrecto, falha de funcionamento dos meios técnicos utilizados, insuficiente cobertura na gravação, falta de sincronização entre os observadores de uma equipa.

Pode assim afirmar-se, em síntese, que o observador capta a realidade através da percepção, ao mesmo tempo que a interpreta, ou seja, atribui um significado aos factos observados, baseado no conhecimento prévio que tem dessa realidade.

Assim, a observação científica implica não só a percepção, como a definição prévia do que se pretende observar, bem como dos factos que dão significado ao que se pretende observar, e ainda o registo sistemático e controlado desses factos.

A noção de observação, como sublinha Kohn & Negre (1991, cit. Ciccone, 2000), indica simultaneamente uma acção, o seu resultado e o método utilizado. A observação designa tanto um tempo num processo de conhecimento (geralmente o

primeiro, a fase de exploração) como uma instrumentação, ou seja, o tipo de acção desenvolvido pelo observador, como ainda os dados recolhidos, o produto final (Ciccone, 2000).

Deste modo, quando se refere a observação do jogo, está a referir-se a um método e não a uma técnica, a uma fase de um processo metodológico que inclui a definição do que se quer observar, a observação e a notação ou registo dos dados para posterior estudo e análise. A este propósito Anguera (2001) distingue a observação como método e observação como técnica, referindo a autora que na observação como método, precisamente porque se trata de uma das modalidades do método científico, são seguidas todas as fases do processo, tal como em todas as metodologias empíricas das Ciências do Comportamento: delimitação do problema, recolha de dados e a sua optimização, análise de dados e a interpretação dos resultados.

Por outro lado, a observação como técnica consiste tão só no uso pontual de algum recurso técnico próprio da metodologia observacional (registo, codificação, etc.) inserido num processo de uma outra metodologia.

A observação do jogo, actividade em que o(s) observador(es), de forma planeada e organizada, dirige(m) a sua atenção para os comportamentos dos jogadores e das equipas, de acordo com os objectivos que persegue(m), justifica a utilização de uma metodologia científica, de forma a garantir a fiabilidade e validade da observação.

A análise do jogo constitui nesta óptica, o culminar de um processo, seguindo- se à observação e ao registo dos dados. Como refere Garganta (1997b:143) observação do jogo e análise do jogo “...aludem a diferentes fases dum mesmo processo, ou seja, quando se pretende analisar o conteúdo de um jogo é necessário observá-lo, para notar ou registar as informações consideradas pertinentes”.

A tarefa de analisar o jogo, que pressupõe a observação prévia com a inerente recolha de dados através do registo, corresponde deste modo, a um tempo em que o analista interpreta os resultados.

No Andebol, a observação sistemática dos jogos e a posterior análise dos resultados é referenciada desde o início dos anos 70 do século XX.

Segundo Kunst-Ghermanescu (1976), a Federação Francesa de Andebol e um grupo de alunos da Escola de Desporto de Colónia fizeram observações dos jogos do Campeonato do Mundo de Andebol de 1970, realizado em Paris, tendo analisado os

resultados, constituindo-se, assim, como pioneiros na observação e análise do jogo de Andebol.

Mais tarde, a Federação Alemã, em conjunto com o Instituto de Ciências do Desporto, enviou um grupo de observadores aos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, que realizou uma observação sistemática do torneio olímpico, tendo o trabalho sido publicado pelo “Bundesausschuss zur Förderung des Leistungssports”.